17 novembro, 2008

MelToon - 12


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15 novembro, 2008

Os filhos da mãe e os filhos da namorada do pai


ou os macromicróbios do país de Cervantes

Esta história passou-se no Verão de há dois anos, durante uma incursão que fiz a Espanha. O objectivo era, e foi, adquirir frascos para o mel em Almendralejo.
Os últimos dias de Julho, nestas latitudes, costumam ser demasiado quentes e este não fugiu à regra. Saí bem cedo da cama, e juntamente com outros dois apicultores da associação fizemo-nos à estrada, nem tive tempo de tomar o pequeno almoço.
Só depois do carregamento dos “envases”, das negociações e da trapalhada do costume em que fingimos saber falar castelhano, e eles fingem que nos entendem, resolvi ir comer qualquer coisa. Entrei no primeiro café e deparei-me logo com uma surpresa: um móvel de alumínio em bruto, sem ser lacado, cheio de presuntos. Nesse momento lembrei-me que semanas antes um amigo tinha sido advertido pela ASAE por ter os garrafões da lixívia no chão da mercearia.
Apesar da Europa ser uma, “una”, unida, os espanhóis têm regras diferentes das nossas.
Esqueci o incidente e concentrei-me num pequeno cartaz que anunciava tostas com patê. Cheio de fome, resolvi experimentar o pitéu... primeiro chegou a tosta, um pão enorme e quentinho com bom aspecto, de seguida atiraram para cima do balcão, literalmente, uma lata de patê. Não aquela pequena cuvette, clássica, com dose individual, mas uma lata de 800g ou talvez mais.
Das duas três, ou deram-me uma dose proporcional ao meu tamanho ou adivinharam a fome que eu tinha. Retirei a tampa da lata e vi que no fundo havia um resto de patê com dois ou três centímetros de altura. Curiosamente a pasta não estava oxidada, essa fase terá ocorrido meses antes, nesta altura estava em pleno processo de fossilização, mas como o que não mata engorda...
Já vinha no caminho quando me ocorreu que regressava a um país onde substituíram os tradicionais galheteiros, machos, por umas garrafinhas de azeite efeminadas e com tampa inviolável, por razões higiénicas.
Que grandes e gordos deviam ser os micróbios espanhóis, que não cabiam numa lata de patê com 12 cm de diâmetro, ao contrário dos nanóbios portugueses que insistiam em infectar o azeite dos galheteiros tradicionais, cujas aberturas tinham menos de um centímetro.
Nessa altura, devo ter “passado pelas brasas”, percebi que o motorista em vez de conduzir para Poente acelerava em direcção a Madrid. Chamei-lhe a atenção mas ele nem me ouviu, parecia que uma força maior o atraía para a capital de Espanha. Voltei a adormecer, quando me levanto cedo o Sol tem este efeito em mim.
Só recuperei os sentidos à entrada de Madrid, acabávamos de estacionar à porta de um casino e era quase meia noite, nem queria acreditar: os espanhóis festejavam a passagem do ano numa noite quente de Julho.
Arrastado pelos outros dois ainda consegui ajeitar o nó da gravata... porra, mas eu nem saí de casa com gravata!? Não interessa, fui por ali adentro quando me apercebi da grande nuvem de fumo em torno de uma mesa. Aproximei-me e reconheci logo o responsável da ASAE espanhola, com um grande charro “nos queixos” e uma lata de patê igual à minha a servir de cinzeiro.
A proibição de fumar nos recintos fechados em Espanha era coisa recente, com pouca tradição.
Foi então que percebi tudo, aliás, quase tudo, uma travagem mais violenta à entrada de Estremoz trouxe-me de novo à realidade.
Desde essa data, tostas só com manteiga... e mel, claro!!!

14 novembro, 2008

Pensamento...


Cada colmeia é um livro de 20 páginas,
que deve ser bem lido e interpretado para
uma intervenção correcta.


... já estou a ouvir uns engraçadinhos
a dizerem que se a colmeia é um livro,
o cortiço podia ser um rolo de pergaminho.

Infelizmente não dá para desenrolar...

13 novembro, 2008

Avis mellifera faltam 22 dias

Colmeias Diferentes - 1

"Colmeias Diferentes", vai ser a nova rubrica do montedomel.blogspot, onde vou publicar fotografias com colmeias/apiários e outras situações menos vistas ou pouco comuns, resultantes da habilidade e imaginação fértil dos nossos apicultores.

Colmeias de Pedra, foram de facto talhadas na rocha, granito, e com acabamentos em cimento e pedra.
Não sei se as abelhas apreciarão muito o "ninho", mas neste caso a traça parece estar a gostar.

Entretenho-me a pensar no trabalho de "paciência" do apicultor sempre que decide fazer transumância...
Mais uma vez fico a aguardar que me enviem imagens "dentro do género" para montedomel@gmail.com, para que todos possamos apreciar as obras de arte...

11 novembro, 2008

MelToon - 11

Dois MelToon's hoje... já que o Benfica voltou às antigas goleadas, fica aqui a minha homenagem. Os "Lampiões" que me perdoem, mas não fui eu que "Criei" as abelhas listadas, nem as Varroas cor de ... Varroa!

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MelToon - 10

"Dia de S. Martinho vai à Adega e Prova o Vinho"

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10 novembro, 2008

O meu primo apicultor no Séc. XIX

O Primo Martinho dos Lobos

Sempre lamentei não ter um antepassado apicultor. Muitas pessoas que eu conheço herdaram a arte dos pais ou avós e hoje dão-lhe continuidade. O meu pai ainda teve dois cortiços, gostava de ver as abelhas a chegar e a partir, mas era um amigo dele que crestava e fazia todas as tarefas.
Há pouco tempo, enquanto mexia nas velharias lá de casa, encontrei um livro escrito em 1942 pelo meu tio-bisavô, Jacinto José Moreira, que foi capitão do exército na I Guerra Mundial. No referido escrito “Memórias da Minha Terra”, relata inúmeras histórias e tradições sobre a Casa Branca no século XIX, onde encontrei o texto que aqui reproduzo e... já tenho um antepassado apicultor!!!

"O Primo Martinho dos Picões, mais conhecido pelo “Martinho dos Lobos”, por se dedicar à caça destas feras, era primo-co-irmão de minha mãe e tio do meu primo Marcolino Luiz, ainda vivo, felizmente, e que è proprietário do “Monte do Poço”. O primo Martinho, que era proprietário do “Monte” do Pego, onde resida, era um exímio caçador de lobos tendo conseguido, com esse seu género de desporto de ha mais de sessenta anos, um importante peculio. Abateu grande numero destas feras e por vezes lhes tirou as suas ninhadas, chegando defrontar as lobas nos seus covas – diziam – e a tirar-lhes as crias para o que, antecipadamente lhes introduzia o cano da espingarda na boca. Apresentava então aos lavradores, criadores de gado, os pequeninos lobos, andando para isso de “Monte” em “Monte”, dos quais recebia grandes remunerações. Diziam então que ele evitava, com o seu sistema de não querer matar as lobas-mães, com a mira de nos anos seguintes lhes poder tirar novas crias e viver assim daquele rude género de desporto.
Este homem, que à primeira vista alguém diria ser uma criatura desumana em virtude de se dedicar a tão rude profissão, que muitas vezes exercia com grave risco, tinha a sua afeição, muito dedicada, a outros animais.
Tinha grande criação de abelhas em numerosas silhas e então era curioso presenciar a maneira carinhosa como ele tratava estes insectos.
Quando notava que alguém lhe destruía algum destes utilissimos produtores do saboroso mel, todo ele se indignava.
Chegava às vezes em que, dizia ele, estes animais andavam cheios de frio, a apanha-los com a mão e a acariciá-los, chegando até a leva-los junto da lareira para os reanimar, dando-lhes a seguir a liberdade. Dizia ele que estes animais o conheciam e na verdade assim parecia, pois que nunca o picavam.
Faleceu jà de avançada idade na sua propriedade do “Monte” do Pego, já referido, no sítio do Almadafe, onde ha grande quantidade de “Montes” dispersos pertencentes à freguesia de Casa Branca."
In “Memórias da Minha Terra” de Jacinto Moreira


Conservação das Ceras e Alças

Trabalhos de fim de Verão
Findas as estações de produção, Primavera e Verão, importa realizar uma série de tarefas na apicultura

Desvantagens da manutenção das Alças sobre o Ninho durante o Inverno:
A existência de um maior volume na colmeia trará problemas de aquecimento acrescidos, o que se irá reflectir na duração das reservas de mel, que além de alimento é também usado para aquecimento da colónia. A presença de alças sobre o ninho durante a estação fria leva mais facilmente ao esgotamento das reservas e à morte por fome ou frio.

Durante a aplicação de medicamentos a existência de um volume maior levará à diluição do mesmo medicamento e consequentemente a uma baixa na dosagem e na eficácia.
Por este facto as colmeias tratadas na presença das alças são mais susceptíveis à resistência da Varroose e de outras moléstias.

As ceras das alças que passaram o Inverno em contacto com o medicamento ficarão com resíduos tóxicos que contaminarão o mel durante a próxima fase de produção.


Face ao exposto, há toda a vantagem em nunca juntar alças e medicamentos no ninho, antes de colocar o acaricida (ou outro medicamento), retiram-se as alças. Quando è tempo de colocar as alças na colmeia, antes, devem ser retirados todos os medicamentos.
O problema è assim bem fácil de resolver, cria-se no entanto outro mais complicado de solucionar
A CONSERVAÇÃO DAS ALÇAS.
Quase sempre o empilhamento de alças no armazém leva a ataques de traça e consequente destruição da cera puxada. Esta situação à deveras desagradável, pois há que repor toda a cera danificada, o que trás custos para a exploração, como também pelo trabalho moroso de retirar as ceras destruídas dos quadros, esticar arames e colocar a nova cera.

Muitos apicultores tentam resolver esta etapa:

- Mantendo as alças sobre os ninhos, com as já verificadas desvantagens.
- Retirar os quadros, colocá-los num recipiente estanque conservando a cera com bolas de naftalina, com a combustão de enxofre ou outros produtos químicos.
- Arejar os quadros, retirando-o-os das alças e pendurando-os num fio.
- Armazenando os quadros com cera puxada numa arca frigorifica.
- Mantendo as alças sobre os ninhos durante o período quente e retirando-os apenas no Inverno quando a traça deixa de constituir perigo para a cera.

Todos estes métodos apresentam uma ou mais falhas, pelo que o mais indicado será a construção/adaptação de um pequeno armazém ou câmara para as alças e cera puxada.
Cada alça (meia alça) ocupa um espaço de 0,20 metros quadrados ou um volume de 0,030 metros cúbicos.
Ou seja, num metro cúbico è possível armazenar cerca de 30 a 33 alças.
Desta feita è possível construir ou adaptar a baixos custos uma pequena instalação que possa albergar as alças durante o período em que estão fora das colmeias. Uma pequena casa ou dependência semelhante aos usados para os motores de rega com cerca de 2 x 2 x 2 metros, 8 metros cúbicos, permite armazenar aproximadamente 250 alças, o que excede as existências da maioria dos apicultores.


Se aumentarmos uma das dimensões da casa de 2 para 3 metros, aumentamos a capacidade de armazenamento em mais 150 alças, ou seja um total de 400.
O armazém de alças deverá ter o chão e o tecto em cimento para evitar a humidade. Uma porta e uma janela, fáceis de vedar/isolar para que uma vez cheias de alças e com o insecticida, este não escape para o exterior.
O insecticida habitualmente usado para o efeito, o PHOSTOXIN, è extremamente tóxico, pelo que todo o cuidado com o manuseio, crianças e animais não è de descurar. Já se verificaram acidentes graves com a sua utilização, por isso o interesse na construção/adaptação de instalações exclusivas para o efeito.
No chão deve ser colocado um estrado em madeira (paletes) para evitar problemas de humidade e os inconvenientes fungos. Uma vez colocadas as alças no armazém, a porta e janela(s) serão fechadas e preferencialmente isoladas com fita ou silicone.

A quantidade de PHOSTOXIN a utilizar poderá ser de uma pastilha para 20 ou 30 colmeias. Este insecticida não è habitualmente usado na apicultura, sendo vocacionado para a conservação de cereais, no entanto DEVERÁ SEMPRE LER O RÓTULO E SEGUIR AS INDICAÇÕES DE SEGURANÇA.As pastilhas de PHOSTOXIN não podem ficar em contacto directo com o chão ou com humidade pois poderá resultar numa reacção de combustão, deverá utilizar um recipiente seco e aberto para as colocar.
O ideal será colocar a pastilha dentro de um frasco, destapado, que se coloca na alça de cima após abrir-se um espaço central entre os quadros.

Na Primavera, e uma ou duas semanas antes de retirar as primeiras alças para colocar nas colmeias deverá abrir a porta e a janela para que o armazém possa arejar convenientemente. Se as temperaturas forem altas deverá controlar as eventuais reinfestações de traça nas ceras que permanecem armazenadas.
Há quem opte pelo segundo esquema, comprando manga de plástico onde coloca as alças em pilhas individuais. Neste caso, o mais acertado, poderá colocar uma pastilha em cada saco para 20 alças.
ATENÇÃO: A pastilha deverá ser colocada no frasco imediatamente antes de fechar o saco, para que o apicultor não fique sujeito aos gases tóxicos. Esta operação deve ser feita com bastante ventilação e com o cuidado necessário.
Esta parece ser a melhor solução, na medida em que o apicultor só vai arejando e retirando do ARMAZÉM DE ALÇAS, a quantidade suficiente sem que as restantes sejam afectadas pela traça.

08 novembro, 2008

O meu desenho premonitório


Fiz este desenho a 16 de Outubro de 1978, quando estudava na Escola Primária de Casa Branca, tinha quase nove anos, e resolvi publicá-lo hoje no dia em que completei os 39. Foi um desenho premonitório, pois acabei por fazer da apicultura a minha ocupação principal.
Acredito que nesse dia eu ainda tenha vacilado entre desenhar o Tio Patinhas ou um banqueiro, e hoje tinha um fundo de garantia disponibilizado pelo governo e que me permitia uma vida desafogada. Mas nada disso, rabisquei precisamente um apicultor, e hoje chego a aguardar dois ou três anos à espera que o mesmo governo me disponibilize o vencimento.
Voltando ao meu desenho, reparem como um único cortiço já encheu uma carreta de frascos de mel e deve haver muito mais. Quanto à carreta e á forma como o mel foi embalado no apiário, perdoem-me mas é segredo pessoal...
Este post é dedicado à minha Professora da Escola Primária, D.ª Maria Amélia, a melhor professora do mundo e que infelizmente há muito que não está entre nós.

05 novembro, 2008

As Oliveiras da discórdia


Desde a antiguidade que são consideradas um símbolo da paz, desta vez as oliveiras parecem estar no centro de mais uma polémica.
Nos últimos anos, empresas espanholas compraram ou arrendaram dezenas de milhares de hectares de terra no Alentejo. Terrenos cerealíferos, olivais centenários, olivais muito recentes, ou em plena produção, terras de regadio, tudo foi abatido para a instalação de oliveiras anãs para produção super intensiva de azeite.
Que diriam os poetas que exaltaram a beleza das oliveiras e dos olivais soalheiros, agora substituídas por arbustos raquíticos, porém pródigos em azeitona?
Para que esta máquina de produção forçada funcione, serão necessários milhões de hectolitros de água, recurso escasso nesta província. Mais químicos, herbicidas, fertilizantes e pesticidas, toneladas de venenos que a curto prazo afectarão a qualidade de vida das populações rurais.
No fim desta campanha as terras não terão qualquer utilidade, vão ficar aí a definhar e a acelerar um processo de desertificação que já quebrou todos os limites de velocidade.
Para a apicultura, mais umas pérolas, muito em breve todo este cocktail de produtos químicos acabará por entrar no circuito, mais mortalidades inexplicadas e respectivas quebras de produção. Seguem-se os impactos ambientais indirectos, alem dos já citados. Por mais localizadas que sejam as pulverizações, que nunca o são, acabam por infectar a flora circundante e os cursos de água.
Curiosamente cada vez se fala mais no mel em Modo de Produção Biológico, sempre que um apicultor me fala da possibilidade de vir a produzir mel com tais características eu pergunto-lhe se tem facilidade em colocar as colmeias em Marte.
Finalmente incriminam-se os telemóveis e coloca-se tudo no saco de culpas a que agora resolveram chamar Síndroma do Despovoamento de Colmeias...

Se houver outro dilúvio, muitos animais de Noé ficarão satisfeitos ao verem as pombas com ramos de oliveira, mas as abelhas decerto hão-de desconfiar desta aparição.

04 novembro, 2008

MelToon - 9


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Maracujá com Abelhas

Fotografias tiradas no Monte do Mel, em finais de Outubro

Desta vez não foi o fogo

Há cerca de 15 dias o apicultor Artur Martins dos Santos de Tramaga – Ponte de Sor, foi informado para ir ao apiário onde se passava algo de anormal.
Chegado lá deparou com 18 colmeias tombadas, tampos, alças e quadros espalhados pelo chão. Haviam muitas abelhas mortas, as temperaturas da época são implacáveis para estes bichinhos.
De imediato chamou a GNR que acorreu ao local, mas como é óbvio, poucos ou nenhuns indícios haviam no terreno que pudessem identificar o autor de tal façanha.
Quando são roubadas, é desagradável, mas pelo menos sabemos que serão úteis noutro local, agora a destruição gratuita é de facto lamentável.

31 outubro, 2008

História da Apicultura


... à frente de uma sociedade tão grande, tão organizada e tão poderosa como a das Abelhas, tinha de estar um REI, muito macho, nunca uma Rainha.

Para espanto e pesar de todos, contra as expectativas e o poder instituído, um dia perceberam que o Rei, muito menos macho: punha ovos!!!

Face às evidências, todos aceitaram que era mesmo uma Rainha que chefiava tão grande e poderoso exército.

Mas já que é uma fêmea, que seja uma mulher exemplar, fiel ao esposo e nada leviana.

Com o passar dos tempos e após acuradas observações, perceberam que a fogosa princesa acasalando um único dia na vida, o fazia com cerca de uma dezena de machos.
Mais um pontapé na moral de tão doutos cientistas e de tão puritana sociedade...


Pior ainda, cada vez que acasala com um macho, este morre depois do amoroso acto e perde os órgãos sexuais que ficam no corpo da Rainha. Chegada à colmeia as obreiras retiram a “prova” de que está fértil e lá vai ela de novo, em busca de outro amante e pré defunto...

No corpo da Rainha repousa separado o sémen de cada um dos vários “Reis”, cujos filhos herdarão o temperamento e outras características de cada progenitor.

Por essa razão, é comum numa colmeia que até achávamos dócil na última visita, sermos corridos a “toque de ferrão” por uma multidão de abelhas ferozes e enraivecidas...

30 outubro, 2008

Insólito


Ontem, 29 de Outubro pelas 14 horas um incêndio deflagrou no mato perto da freguesia do Maranhão – Concelho de Avis. Nada o fazia prever, a temperatura era consideravelmente baixa e para todos os efeitos o tempo dos fogos já foi.
No seu caminho, destruiu cerca de 18 colmeias móveis e outros tantos cortiços no apiário do apicultor Manuel Rosa. Muitas outras colmeias ficaram visivelmente danificadas e com as populações bastante reduzidas. Estima-se um prejuízo bem superior a mil euros, que muito certamente será suportado apenas pelo apicultor.
Valeu a pronta intervenção dos Bombeiros Voluntários de Avis, evitando que o incêndio atingisse maiores proporções destruindo as restantes colmeias e a mata circundante.
Segundo as palavras do responsável local da Protecção Civil, tratou-se de uma situação comum, na medida em que ainda há muitos combustíveis finos, como os pastos, dependentes da humidade atmosférica. Ou seja, se chover, esses pastos deixam de constituir perigo, mas se o tempo aquecer, associado aos ventos que se fizeram sentir ontem, muito facilmente secam e se reúnem as condições favoráveis ao deflagrar de incêndios.
Já diz o velho ditado acerca das “barbas de molho”, nunca é demais investir umas horas com a roçadora no mato para evitar surpresas desagradáveis.
Ao apicultor, claro está, sobra a indignação pela falta de indemnizações que confortem a quem o azar bate à porta.







29 outubro, 2008

O medicamento não presta !

Uma das frases que mais ouvia entre os apicultores referia-se à ineficácia de determinados medicamentos: todos. Sempre que morria ou enfraquecia uma colónia a culpa era do acaricida utilizado, mesmo quando o responsável não era a Varroose.
O segundo lugar deste ranking era o mito de um alegado velhinho que tinha uns cortiços abandonados atrás daquela colina, que nunca tratava as abelhas, cujo apiário era um autentico foco de infecção. Após infrutíferas tentativas, nunca consegui encontrar os ditos cortiços, menos ainda o tal velhinho...
Não quero dizer que não há maus medicamentos, que os há de facto, mas a culpa muitas vezes tem a ver com a forma como são aplicados/utilizados. Muitos apicultores tal como os agricultores em geral têm o péssimo hábito de não ler o rótulo ou de não seguir as instruções do fabricante.
Diga-se em abono da verdade que muitas vezes as instruções de utilização se referem a condições ideais, nem sempre iguais à realidade. Uma das mais frequentes é o aconselhamento a colocar uma tira acaricida entre o 2º e o 3º quadro, e a outra entre o 7º e o 8º, quando pode acontecer que as abelhas e demais criação não se encontrem no centro da colmeia.


Numa situação destas, devemos confirmar a posição correcta da zona de criação e demais abelhas e tentar colocar cada uma das tiras acaricidas nos limites dessa zona.

Voltando aos erros mais frequentes na aplicação de medicamentos, encontrava muitas vezes no campo, além da segunda figura, situações como as seguintes:

- Pela dificuldade em introduzir tiras demasiado flexíveis no espaço exíguo entre dois quadros, o apicultor optava por deixá-las deitadas sobre os quadros, diminuindo consideravelmente o seu contacto com as abelhas.


- Por razões semelhantes à anterior e de uma forma muito mais fácil, o apicultor limitava-se a introduzir as tiras acaricidas pela entrada da colmeia, assentando-as no estrado e sob os quadros.


- Também era frequente encontrar colmeias onde não retiravam os medicamentos após o seu período de actuação. Tal prática leva ao surgimento de resistências no ácaro Varroa destructor tornando os tratamentos subsequentes obsoletos.


Uma vez até me deparei com uma situação muito curiosa, durante a visita a um apicultor muito temperamental e conhecido pelos seus acessos de mau génio. Ele queixava-se de uma mortalidade anormal nas colónias e sem qualquer razão que o justificasse, pelo menos aparentemente.
Após abrirmos umas quantas colmeias que já definhavam, verifiquei que o dito apicultor se dedicava a coleccionar no ninho as tiras acaricidas de muitos tratamentos anteriores. A julgar pelo número e fazendo as contas a quatro tiras por ano, talvez desde a entrada da Varroa em Portugal...
Olhe, nem com um alicate você as consegue arrancar”, foi a resposta evasiva à minha proposta de retirarmos todo aquele “lixo” da colmeia. Refeito da surpresa, disse-lhe que tirando os quadros do ninho seria muito fácil destacar as ditas tiras.
Nem no dia que fui inspeccionar apiários com um equipamento todo esburacado senti a minha vida tão ameaçada. Quando lhe falei em tirar os quadros do ninho, o homem olhou para mim como um pelotão de fuzilamento olha para o condenado, “nem pense numa coisa dessas, isso era o fim das abelhas...”.
Não foi o fim das abelhas, mas o apicultor, enquanto tal, durou pouco mais, com esta prática em poucos meses acabou por abandonar a actividade.

Outras vezes há em que seguimos todas as regras e instruções de aplicação e ainda assim as coisas correm mal. O próximo exemplo ocorreu comigo, na primeira vez que tratei as minhas colmeias contra a Varroose.
Apliquei as tiras acaricidas e no dia seguinte fui ao apiário para ver se estava tudo em ordem. Foi quando me deparei com um quadro que me deixou bastante apreensivo: à frente de cada colmeia tinha um grande monte de abelhas mortas, quando um dia antes o mesmo espaço estava limpo.

Numa situação destas é fácil atribuir culpas, a única variável antes da elevada mortalidade de abelhas foi mesmo a aplicação do medicamento.
Foi então que me apercebi de um facto curioso, apenas metade das colmeias tinham perdido abelhas, a outra metade não tinha sofrido qualquer dano. Este apiário tinha uma forma peculiar, por restrições de espaço coloquei as colmeias em “L”, e apenas num dos braços do “L” haviam abelhas mortas.
Nesta fase pensei que a culpa talvez não fosse do medicamento, pois a todas as colmeias tinha sido ministrada a mesma substância.

Numa observação mais acurada notei que as colmeias afectadas estavam viradas para Norte, sem protecção contra os ventos dominantes, enquanto as outras estavam viradas para Nascente.

Entretanto detectei mais uma série de erros, como o facto de ter aplicado o acaricida numa data em que as temperaturas estavam muito baixas, Dezembro, e ainda por cima ao fim do dia. Acontece muitas vezes que as abelhas incomodadas com o cheiro do medicamento venham para o exterior, e as temperaturas demasiado baixas fazem o resto.
Quando não temos alternativa a aplicar medicamentos nos meses frios, devemos optar por fazê-lo na parte da manhã e de preferência com muito sol, para que a colónia se reequilibre desta intrusão antes das temperaturas baixas da tarde e da noite.
Diga-se em jeito de graça que as “Estórias Apícolas” não acontecem só aos outros, fruto da minha inexperiência resolvi pura e simplesmente rodar as colmeias 180º para ficarem orientadas para Sul. E que rica ideia, horas depois tinha uma enorme mancha de abelhas nas traseiras de cada colmeia, onde antes estava a entrada. Abelhas que também começaram a sucumbir pelo frio. Lá voltei a girar as caixas para a posição original e mercê da sorte de principiante não perdi uma única colónia...

Que este exemplo sirva para ponderarmos bastante antes de cada acção no apiário, para que tenhamos presentes todos os nossos actos e intervenções, pois quando surgirem surpresas desagradáveis é muito mais fácil fazer um diagnóstico e actuar no sentido de resolver o problema.

Fica agora o conselho para o fim mais “digno” a dar aos medicamentos usados:

- Não devemos abandonar as tiras usadas no campo, (apiário), os químicos ainda activos irão poluir os solos e cursos de água.
- Queimar as tiras de medicamento também não é uma opção correcta, as toxinas resultantes da sua combustão poderão ser ainda mais poluentes.
- Os restos de medicamentos não devem ser colocados no lixo doméstico. Os apicultores devem procurar junto das respectivas associações ou entidades oficiais o melhor fim para dar aos medicamentos usados.
Há cerca de um ano que a ADERAVIS recolhe esses restos para que possam ser destruídos por uma entidade especializada para o efeito.