29 outubro, 2008

O medicamento não presta !

Uma das frases que mais ouvia entre os apicultores referia-se à ineficácia de determinados medicamentos: todos. Sempre que morria ou enfraquecia uma colónia a culpa era do acaricida utilizado, mesmo quando o responsável não era a Varroose.
O segundo lugar deste ranking era o mito de um alegado velhinho que tinha uns cortiços abandonados atrás daquela colina, que nunca tratava as abelhas, cujo apiário era um autentico foco de infecção. Após infrutíferas tentativas, nunca consegui encontrar os ditos cortiços, menos ainda o tal velhinho...
Não quero dizer que não há maus medicamentos, que os há de facto, mas a culpa muitas vezes tem a ver com a forma como são aplicados/utilizados. Muitos apicultores tal como os agricultores em geral têm o péssimo hábito de não ler o rótulo ou de não seguir as instruções do fabricante.
Diga-se em abono da verdade que muitas vezes as instruções de utilização se referem a condições ideais, nem sempre iguais à realidade. Uma das mais frequentes é o aconselhamento a colocar uma tira acaricida entre o 2º e o 3º quadro, e a outra entre o 7º e o 8º, quando pode acontecer que as abelhas e demais criação não se encontrem no centro da colmeia.


Numa situação destas, devemos confirmar a posição correcta da zona de criação e demais abelhas e tentar colocar cada uma das tiras acaricidas nos limites dessa zona.

Voltando aos erros mais frequentes na aplicação de medicamentos, encontrava muitas vezes no campo, além da segunda figura, situações como as seguintes:

- Pela dificuldade em introduzir tiras demasiado flexíveis no espaço exíguo entre dois quadros, o apicultor optava por deixá-las deitadas sobre os quadros, diminuindo consideravelmente o seu contacto com as abelhas.


- Por razões semelhantes à anterior e de uma forma muito mais fácil, o apicultor limitava-se a introduzir as tiras acaricidas pela entrada da colmeia, assentando-as no estrado e sob os quadros.


- Também era frequente encontrar colmeias onde não retiravam os medicamentos após o seu período de actuação. Tal prática leva ao surgimento de resistências no ácaro Varroa destructor tornando os tratamentos subsequentes obsoletos.


Uma vez até me deparei com uma situação muito curiosa, durante a visita a um apicultor muito temperamental e conhecido pelos seus acessos de mau génio. Ele queixava-se de uma mortalidade anormal nas colónias e sem qualquer razão que o justificasse, pelo menos aparentemente.
Após abrirmos umas quantas colmeias que já definhavam, verifiquei que o dito apicultor se dedicava a coleccionar no ninho as tiras acaricidas de muitos tratamentos anteriores. A julgar pelo número e fazendo as contas a quatro tiras por ano, talvez desde a entrada da Varroa em Portugal...
Olhe, nem com um alicate você as consegue arrancar”, foi a resposta evasiva à minha proposta de retirarmos todo aquele “lixo” da colmeia. Refeito da surpresa, disse-lhe que tirando os quadros do ninho seria muito fácil destacar as ditas tiras.
Nem no dia que fui inspeccionar apiários com um equipamento todo esburacado senti a minha vida tão ameaçada. Quando lhe falei em tirar os quadros do ninho, o homem olhou para mim como um pelotão de fuzilamento olha para o condenado, “nem pense numa coisa dessas, isso era o fim das abelhas...”.
Não foi o fim das abelhas, mas o apicultor, enquanto tal, durou pouco mais, com esta prática em poucos meses acabou por abandonar a actividade.

Outras vezes há em que seguimos todas as regras e instruções de aplicação e ainda assim as coisas correm mal. O próximo exemplo ocorreu comigo, na primeira vez que tratei as minhas colmeias contra a Varroose.
Apliquei as tiras acaricidas e no dia seguinte fui ao apiário para ver se estava tudo em ordem. Foi quando me deparei com um quadro que me deixou bastante apreensivo: à frente de cada colmeia tinha um grande monte de abelhas mortas, quando um dia antes o mesmo espaço estava limpo.

Numa situação destas é fácil atribuir culpas, a única variável antes da elevada mortalidade de abelhas foi mesmo a aplicação do medicamento.
Foi então que me apercebi de um facto curioso, apenas metade das colmeias tinham perdido abelhas, a outra metade não tinha sofrido qualquer dano. Este apiário tinha uma forma peculiar, por restrições de espaço coloquei as colmeias em “L”, e apenas num dos braços do “L” haviam abelhas mortas.
Nesta fase pensei que a culpa talvez não fosse do medicamento, pois a todas as colmeias tinha sido ministrada a mesma substância.

Numa observação mais acurada notei que as colmeias afectadas estavam viradas para Norte, sem protecção contra os ventos dominantes, enquanto as outras estavam viradas para Nascente.

Entretanto detectei mais uma série de erros, como o facto de ter aplicado o acaricida numa data em que as temperaturas estavam muito baixas, Dezembro, e ainda por cima ao fim do dia. Acontece muitas vezes que as abelhas incomodadas com o cheiro do medicamento venham para o exterior, e as temperaturas demasiado baixas fazem o resto.
Quando não temos alternativa a aplicar medicamentos nos meses frios, devemos optar por fazê-lo na parte da manhã e de preferência com muito sol, para que a colónia se reequilibre desta intrusão antes das temperaturas baixas da tarde e da noite.
Diga-se em jeito de graça que as “Estórias Apícolas” não acontecem só aos outros, fruto da minha inexperiência resolvi pura e simplesmente rodar as colmeias 180º para ficarem orientadas para Sul. E que rica ideia, horas depois tinha uma enorme mancha de abelhas nas traseiras de cada colmeia, onde antes estava a entrada. Abelhas que também começaram a sucumbir pelo frio. Lá voltei a girar as caixas para a posição original e mercê da sorte de principiante não perdi uma única colónia...

Que este exemplo sirva para ponderarmos bastante antes de cada acção no apiário, para que tenhamos presentes todos os nossos actos e intervenções, pois quando surgirem surpresas desagradáveis é muito mais fácil fazer um diagnóstico e actuar no sentido de resolver o problema.

Fica agora o conselho para o fim mais “digno” a dar aos medicamentos usados:

- Não devemos abandonar as tiras usadas no campo, (apiário), os químicos ainda activos irão poluir os solos e cursos de água.
- Queimar as tiras de medicamento também não é uma opção correcta, as toxinas resultantes da sua combustão poderão ser ainda mais poluentes.
- Os restos de medicamentos não devem ser colocados no lixo doméstico. Os apicultores devem procurar junto das respectivas associações ou entidades oficiais o melhor fim para dar aos medicamentos usados.
Há cerca de um ano que a ADERAVIS recolhe esses restos para que possam ser destruídos por uma entidade especializada para o efeito.

27 outubro, 2008

"Estórias" da Apicultura III


Provérbios apícolas, retirados do “Correio de Azeméis On-Line” e enviados pelo apicultor Sérgio Franco:

Ainda que doce seja o mel, a mordidela da abelha é cruel.
Ano de abelhas, ano de ovelhas.
Aquele que cuidava conhecer a toca da árvore onde as abelhas fabricavam o mel enxotou o passarinho-do-mel. (Provérbios macuas)
As abelhas têm a sua rainha e as cegonhas o seu guia. (Provérbio dinamarquês)
Deus não queira, nas minhas colmeias, abelha que não coma mel.
Diz-me a abelha: darei mel e cera, mas traz-me segurelha.
É com mel que se pega a abelha.
Em Junho abafadiço fica a abelha no cortiço.
Longe das minhas colmeias, semelham zângão.
Miguel, Miguel: não tens abelhas… E vendes mel?!
Morta é a abelha que dava mel e cera.
Morto por morto, antes à abelha que ao porco.
Mosca, gentre; abelha, presente.
Não há rosa sem espinhos, nem mel sem abelhão.
Não morde a abelha senão a quem trata com ela.
O mel, por ser bom de mais, as abelhas dão-lhe fim.
O que cobiça o mel, deve suportar as picadas da abelha. (Provérbio africano)
O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.
O rei das abelhas não tem ferrão.
O sábio que não põe em prática o seu saber é uma abelha que não dá mel. (Provérbio russo).
Os rostos tristes picam as abelhas (Provérbio japonês)
Pelas abelhas de São Pedro pagam as de São Paulo.
Pequena é a abelha mas o seu fruto é o primeiro na doçura.
Pica-pau não tem machado e come abelhas e formigas.
Quando chupa a abelha, mel torna; quando a aranha, peçonha.

23 outubro, 2008

e por falar em "animais amigos"...

Abelhas, traças, vespas e formigas

Todos os animais são nossos amigos... enfim, a traça é mais amiga da onça.
De qualquer forma, este é um exemplo bem elucidativo da importância de alguns “bichos” que nós achamos que não servem para nada e só incomodam, como as vespas e formigas.
Após um ataque de traça, aqueles “bichinhos” reciclaram uma grande quantidade de larvas em menos de uma hora.

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22 outubro, 2008

MelToon - 8


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21 outubro, 2008

Uma Verdade “Deveras” Inconveniente...

Abelhas, Mel e OGM


Para a pergunta: “O que acontece ao mel com pólen de milho transgénico?” não havia resposta até há uns meses atrás...

Mel com comercialização proibida e apicultores sem protecção.
O cultivo de milhos transgénicos torna o mel ilegal.


Em 30 de Maio deste ano, o Tribunal Administrativo de Augsburg – Alemanha, acerca do mel de um apicultor alemão - Karl-Heinz Bablok, deliberou que todo o mel que contem grãos de pólen do milho geneticamente modificado MON810 não pode ser comercializado. Mesmo que o pólen seja encontrado em quantidades vestigiais torna o mel impróprio para consumo, na medida em que a variedade de milho MON810 é proibida para consumo humano, apesar de ser a única cujo cultivo é permitido no espaço europeu.
Por outro lado, o apicultor em causa, segundo decisão do mesmo tribunal, não pode reclamar qualquer protecção contra a cultura do referido milho. As alternativas poderiam passar pela recolha das flores do milho antes da floração, da responsabilidade do agricultor, o que parece ser missão impossível. A outra saída passaria pela deslocação dos apiários durante a floração do milho.
Os juízes reconheceram que com o aumento das áreas de cultivo de milhos geneticamente modificados poderão constituir para este e para outros apicultores um problema sem solução.

Source: Beekeepers against Genetic Engineering (German website)
http://mellifera.weitblick.de/gen/gen.news/para.gen.news.16/index.html


Segundo declarações da Prof.ª Dr.ª Margarida C. Silva, da Plataforma Transgénicos Fora, no XII Encontro da Agricultura Familiar Alentejana:

. Em 2007 cultivaram-se 114.000.000 de hectares de transgénicos em todo o mundo.
O único OGM autorizado na UE é a variedade de milho MON810 da Monsanto.
. Na UE (27 países) durante o ano de 2007 foram cultivados perto de 100.000 hectares do referido milho.
. Na Europa, o maior produtor de milhos OGM é a Espanha, com cerca de 70.000 ha.
. A segunda maior seguradora do mundo, a Lloyds, de Londres não tem apólices para OGM, não quer ter nada a ver com acidentes/efeitos secundários referentes a estas culturas.
. As próprias empresas de engenharia genética que os produzem, como a Monsanto, também não se responsabilizam.
. As rações para animais comercializadas em Portugal, quase todas têm milho e ou soja genética mente modificados na composição.
. Em Portugal, 2007, cultivaram-se cerca de 4837 ha da variedade MON810 de milho.
. No decreto que regulamenta o cultivo de OGM em Portugal não há qualquer referência ao mel.
. Na Alemanha, cerca de 22.000 apicultores já se encontram organizados contra os OGM nas suas regiões.

Face ao exposto, e como se diz na minha terra: parece que temos o “baile armado”...
Já são poucos os concelhos portugueses livres das culturas de OGM, o que atendendo à mobilidade das abelhas, faz com que a probabilidade de haver méis de Verão livres deste problema seja quase ínfima.
Para não fala da outra possibilidade, não menos negra, dos efeitos directos do referido milho nas nossas abelhas, uma vez que os mesmos foram transformados para produzir os seus próprios insecticidas.
Em 2008, dada a procura de mel na UE, transaccionaram-se muitas toneladas para fora do território português. Como a “fome” de mel era muito sentida, os compradores preocuparam-se sobretudo com a quantidade.
Mas o que irá acontecer em anos de maior produção e menor procura?
Não devemos esquecer que a Alemanha é um dos maiores importadores europeus de mel, senão do mundo. E os alemães são deveras “preciosistas” com tudo o que se relaciona com a sua alimentação...

20 outubro, 2008

A Visão das Abelhas


Imagem retirada de “Apicultura Cientifica e Prática” de Warwick Estevam Kerr e Erico Amaral, 1960, hipótese sobre a forma como as abelhas poderão ver o céu.
Se esta hipótese for válida, as abelhas só com uma pequena porção de firmamento, conseguem determinar a posição exacta do Sol, mesmo que se encontre encoberto por densas nuvens.
O "Sol" é o semicírculo castanho no centro da imagem, um pouco mais abaixo, para onde se dirigem todas as linhas.

18 outubro, 2008

Sementes melíferas

Hoje fiz um achado curioso no mercado de antiguidades de Estremoz, um catálogo de sementes da Marca Moinho – Jerónimo Pereira Mendes & C.ª, datado de 1972.
Ao folheá-lo deparei-me com uma informação curiosa, a oferta de sementes de flores que poderão ser destinadas à apicultura e como tal, semeadas pelos apicultores.
Interessantes os tempos antigos, a interactividade entre a apicultura e outros sectores agrícolas era muito mais viva e sentida que nos dias de hoje... e no fim todos beneficiavam com isso!


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E não esqueçam: “Do Algarve ao Minho, as melhores sementes são as da marca Moinho”.

16 outubro, 2008

Primavera Chuvosa


Durante a Primavera e como resposta ao influxo crescente de néctar, é comum as boas colónias ocuparem a maior parte dos quadros com criação. Por vezes há mesmo poucas reservas armazenadas, quer pela falta de espaço, quer pelo grande consumo que se verifica pela enorme quantidade de abelhas no estado larvar.
O néctar e o pólen que entram na colmeia pouco tempo têm para serem processados, são consumidos quase que de imediato. Trata-se portanto de um período em que há grande mobilização das reservas
Por vezes verificam-se interrupções prolongadas nas recolhas de néctar, nomeadamente nos dias de chuva intensa e contínua, este ano até acompanhadas de ventos fortes. Estas interrupções serão mais ou menos prejudiciais consoante o tempo que demoram. Normalmente as chuvadas de Primavera duram uma hora ou duas, surge um período sem chuva e recomeça outra vez horas ou dias mais tarde. O mau tempo surge assim interrompido por períodos onde as abelhas podem regressar à laboração normal, inclusivamente aos comportamentos higiénicos e sanitários.

Há no entanto situações em que a chuva e o mau tempo se prolongam por vários dias, dois, três, quatro e até mais. Desta feita poderão haver colónias que sofram graves injúrias e até a própria morte, caso se esgotem a totalidade das reservas e não haja possibilidade de reposição. Este fenómeno é mais comum em colónias muito fortes e populosas como as descritas atrás. Não só têm o espaço quase todo ocupado por criação, impossibilitando um maior armazenamento de reservas, como há demasiadas bocas para alimentar. Não é raro os apicultores queixarem-se da morte de colmeias com sintomas de fome durante a Primavera “ainda por cima as colmeias mais fortes”.
PROCEDIMENTO
Nesta fase é deveras importante um controlo rigoroso das colmeias para avaliação das reservas nutricionais. Em caso de faltas dever-se-á ministrar a alimentação artificial complementar, para que as colónias não pereçam com fome.
Os alimentadores deverão ser internos para que não se fomente a pilhagem. A composição dos mesmos deverá ser à base de açúcar e ou mel (de proveniência conhecida), não esquecendo a componente proteica como o pólen e ou a farinha de soja. Devemos lembrar-nos que quanto mais diluído for o xarope, mais se estimula a rainha para a postura o que poderá agravar o problema. Por outro lado, um alimento muito sólido poderá inibi-la em termos de postura o que não é muito indicado nesta estação.

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Em determinadas regiões, as Primaveras chuvosas acabam por ter outro tipo de consequências, desta vez do foro sanitário. Muitas vezes os apicultores deparam-se com um monte de abelhas mortas sem motivo aparente frente à colmeia. Os mais atentos acabam por observar a presença de abelhas muito escuras e brilhantes (quase gordurosas) a lutar com outras de aspecto normal na tábua de voo. São as chamadas abelhas “negrinhas”, infectadas com os virús da paralisia, cujo sintoma principal é a perda dos pelos das abelhas o que lhes confere a cor negra.
È uma doença com pouca incidência e que não causa grande mortalidade quando as condições climatéricas são boas. No entanto, nas colmeias com mais população e mais uma vez nas Primaveras chuvosas, o problema agrava-se. O mau tempo obriga a que grande quantidade de abelhas se junte e contacte num espaço exíguo, aumentando o contágio e por conseguinte o número de abelhas “negrinhas”. Surgem então as características lutas na tábua de voo, com a tentativa de expulsão das abelhas doentes e o monte de abelhas mortas junto à entrada.


PROCEDIMENTO

Não há verdadeiramente um medicamento para o combate dos referidos virús. No entanto, esta doença costuma aparecer associada à Varroose, pelo que controlando esta se diminuem as probabilidades de surgimento da primeira. Com o regresso do bom tempo, o número de colmeias diminui na colmeia (pois saem para a colecta), diminuindo assim o contágio e desaparecendo os sintomas.

11 outubro, 2008

MelToon - 7

a continuar assim, lá para o n.º 100 edito a caderneta...


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10 outubro, 2008

Sr. Ministro, assim não !!!


Na minha terra quando se agradece efusivamente um favor pouco importante, costuma dizer-se:
Obrigado pelo agasalho da burra, toda a noite lhe choveu em cima”, apesar de aqui não ser o mesmo contexto, a frase não me sai da cabeça...

No dia 2 de Janeiro de 2007, ainda mal recuperados da passagem de ano, fomos semi surpreendidos com as novidades para as Unidades de Produção Primárias publicadas no DL n.º 1/2007. Onde ficamos a saber que poderíamos comercializar cerca de 500kg de mel a retalho, por ano e nos limites do distrito:

A Portaria n.º 699/2008 de 29 de Julho “empurra-nos” para muito longe dos limites do distrito, nomeadamente para o concelho e concelhos limítrofes do local de produção primária.

Para quem vive em concelhos contíguos a Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal, etc, não é o fim do mundo, mas que dizer de quem vive no interior?
A maior parte dos concelhos em torno de Avis mal chegam aos 5.000 habitantes, e nem sequer é dos casos mais graves. Afinal a conversa da treta para combater desertificação do interior e as assimetrias regionais não passam disso mesmo – tretas...

Flora de Outono

A partir de meados de Setembro a Tágueda é uma das mais importantes fontes de néctar nesta região.
Muito procurada pelas abelhas, a planta forma maciços ao longo dos caminhos e próximo de zonas húmidas. Tem um aroma muito forte e característico e as folhas produzem uma resina abundante.
Normalmente só "regresso" com as abelhas aos apiários de Primavera quando a Tágueda já está em floração.

É curioso observar no mesmo local o aspecto fantasmagórico das flores secas de Rosmaninho. Passou um Verão por elas, cheias de semente encerram a próxima geração de Rosmaninhos que são o garante de novas produções de mel...

09 outubro, 2008

Síndroma do "Desaparecimento de Colmeias"


Uma das primeiras referências que vi acerca do Collony Colapse Disorder, CCD ou SDC, alertava para a dificuldade em atribuir uma causa a este recente distúrbio das abelhas. Curiosamente, nesse escrito chamaram-lhe “Síndroma do Desaparecimento de Colmeias”, uma má tradução apesar de bem intencionada, mas chamou-me a atenção para o problema.
Até pensei “na minha terra temos um termo mais simples, trata-se mesmo de: roubo!”, e as causas até já são fáceis de identificar, tantas vezes o cântaro foi à fonte... mas problema não era esse, tratava-se de um quadro bem mais negro e sem solução à vista.
Curiosamente, nos últimos dois anos tenho notado uma forte diminuição na população de abelhas, após a cresta de Primavera. Noutros anos e com produções semelhantes, após retirarmos uma série de alças de cima de cada colmeia, fica sempre aquela sensação de falta de espaço em virtude do elevado número de abelhas. Nos dias que antecedem o transporte das caixas para o girassol é comum verem-se grandes aglomerados de abelhas na tábua de voo, o que não me acontece desde a Primavera de 2007. Mesmo durante a cresta surgem-me os quadros das alças cheios de mel, operculados, mas com poucas abelhas.
Por um lado facilita muito os trabalhos, mas por outro fico apreensivo.
Felizmente que nestes dois anos os Verões além das temperaturas amenas têm proporcionado boas colheitas, também devido ao regresso do Girassol. Tal facto permite a reposição nas populações para quantidades mais que suficientes para passarem o Inverno. Fiz os tratamentos há uma semana e as colmeias tinham mais população que no fim da Primavera.

Na revista “O Apicultor” n.º 60, de Abril/Junho de 2008, encontra-se um estudo muito interessante sobre o problema em causa, da autoria de A. Pajuelo, entre outros.
No referido estudo são testadas algumas variáveis que poderão estar na origem do desaparecimento das abelhas, entre as quais o stress nutricional das colmeias: carências proteicas motivadas por pólens pouco ricos e nutritivos, ainda por pesticidas, doenças emergentes e práticas de maneio pouco adequadas.

Por outro lado, e no mesmo artigo, também há referências a um aumento significativo nos efectivos dos apicultores em Espanha. Provavelmente estimulados pelas fortes ajudas regionais ao sector apícola (isto não se lê no artigo). Tanto os aumentos de densidade de colónias como o stress nutricional foram os aspectos que mais me chamaram a atenção e sobre os quais é possível estabelecer paralelismos com a região onde me encontro.
O aumento de efectivos numa dada região tem de ter em conta a capacidade de suporte do meio, caso contrário poderá comprometer as produções e inclusivamente a própria sobrevivência das abelhas. Há muitos anos que a margem esquerda do rio Sor alberga centenas ou milhares de colmeias, cada dobra de terreno tem um pequeno apiário. Desde 2003/2004 para cá que os apicultores se queixam de aumentos na mortalidade e problemas sanitários nessa região. Desde os tristemente famosos incêndios desses anos que os proprietários rurais dessa zona são “obrigados” pelas companhias de seguros a desmatar as terras.
Não havendo um aumento de efectivos, neste caso houve uma forte diminuição da capacidade de suporte do meio, a disponibilidade de flora apícola foi muito reduzida. Não está em causa a prevenção dos fogos, agora creio que é bastante falível o método utilizado. Há muitas formas de fazer a gestão de matos, em faixas ou em mosaico, que limitam a progressão do fogo sem eliminar os matos de reconhecida importância para as abelhas, para não falar da protecção dos solos arenosos dessa região, tão susceptíveis à erosão pela chuva e pelo vento.
Todos os anos aumentam as áreas desmatadas onde antes proliferava a flora apícola. Este empobrecimento quantitativo e qualitativo do coberto vegetal autóctone terá decerto reflexos na sobrevivência das colónias de abelhas, sobretudo na estação fria.
Posso ainda contar, a título de curiosidade, que há três ou quatro anos pedi um orçamento sobre várias modalidades de seguros para a apicultura a um amigo meu que trabalhava no ramo. No que se referia ao seguro contra incêndios para as colmeias, creio que o único que me aceitavam, colocavam como condição que eu desmatasse creio que um ou mais quilómetros em torno do apiário... Educadamente respondi-lhe que o objectivo era mesmo produzir mel e não fazer uma pista de aterragem para... porta-aviões!!

Todas esta razões, e mais algumas que me escapam, decerto estarão na origem de aumentos atípicos na mortalidade das colónias de abelhas nos últimos anos. Apesar desta crise ainda não ser muito sentida na região, e arrisco mesmo dizer que a nível nacional, é mais que tempo de se avaliarem os riscos e dentro da medida do possível se tomarem as medidas necessárias.
Como disse José Saramago esta semana:
“Por vezes é preciso mudar para que tudo continue na mesma...”

06 outubro, 2008

Troca de Ceras


A substituição de ceras no ninho é uma das decisões mais acertadas dos apicultores, apesar de por vezes haver alguma resistência a esta prática. De facto, alem do mel e do pólen que as abelhas perdem nesta operação, visto que são quase sempre os quadros com reservas que retiramos, fica-nos sempre a sensação de atrasarmos muito o trabalho delas, ao retirar toda a cera já puxada.
No entanto, este trabalho acaba por ser muito compensado em termos de aumento da postura da rainha quer no desenvolvimento da própria colónia, para não falar na importância sanitária de tal operação. As ceras velhas, normalmente albergam agentes patogénicos como bactérias e fungos entre muitos outros causadores de moléstias.
Outro dos problemas desta cera, prende-se com a aversão que a rainha demonstra em fazer nelas a postura, obrigando-a muitas vezes a subir para as alças.
Há pois uma série de razões que justificam a substituição anual de pelo menos dois ou três quadros por outros de cera nova (moldada).
A melhor altura para o fazer é antes da Primavera, durante o mês de Fevereiro e inícios de Março, logo que as temperaturas sejam suficientemente altas.
Nessa altura, seleccionam-se cerca de dois ou três quadros de cera mais velha, já escurecida, quadros com reservas (mel e pólen) dado que não podemos retirar os que têm criação. No seu lugar colocam-se então outros com cera moldada, tendo muita atenção ao lugar onde estes se inserem. Surge-nos assim uma situação controversa, ou seja, se por um lado a cera nova deve ficar à disposição da rainha, perto do centro, por outro não pode de modo algum “separar a zona de criação” o que a poderia arrefecer e causar outros estragos:

A situação esquematizada atrás parece ser uma boa solução, disponibilizando os quadros de cera nova no centro do ninho o que permite a sua utilização imediata pela rainha. No entanto, e pelo que foi visto, a zona de criação deve manter-se inalterável.

Esta ultima situação parece ser a mais acertada, pois nessa posição a cera nova é imediatamente “puxada”, e logo que a rainha resolva aumentar a zona de criação poderá fazê-lo para os lados.
Quando os quadros novos estiverem repletos de criação podem então ser deslocados para uma posição mais central, “empurrando” sempre as ceras velhas para as extremidades para que no próximo ano, ou na próxima época de produção (no caso de transumância) se possam substituir novas ceras.

Quem tenha por hábito fazer desdobramentos para aumento dos efectivos, tem à partida este problema resolvido, na medida em que substitui pelo menos metade dos quadros (e ceras) de cada vez.

Aos quadros de cera velha retirados às colmeias deve-lhe ser extraído o mel, tendo em atenção que este è impróprio para consumo humano, na medida em que já esteve em contacto com produtos químicos. Este mel deve ser armazenado em recipientes para ser fornecido às abelhas como alimentação artificial quando necessária.

As ceras velhas uma vez libertas do mel deverão ser recicladas e trocadas, optando sempre por cerificadores solares, as questões ambientais são da responsabilidade de todos e os apicultores mais que ninguém devem continuar a contribuir para essa causa.

MelToon - 6

Especial abertura da caça...

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02 outubro, 2008

BEESINESS II


BEESINESS já está receptivo para todos os interessados que queiram VENDER, COMPRAR ou TROCAR equipamentos apícolas.
Para tal basta contactarem o MONTEDOMEL através do mail montedomel@gmail.com ou do telemóvel 96 58 18 250 e indicarem o serviço pretendido, de forma completamente gratuita.
Durante a próxima semana já será publicada a lista, ainda reduzida, de equipamentos disponíveis, lista que será mais ou menos aumentada consoante a participação de todos nesta iniciativa.
Bons negócios...

"ESTÓRIAS" DA APICULTURA II, para rir e sorrir...

6. ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL I
A alimentação artificial é um dos assuntos mais controversos entre os apicultores mais idosos (para não falar dos mais novos...). Têm sempre umas ideias muito próprias, com segredos e mesinhas já de várias gerações e dos quais raramente abdicam. O vinho e outras bebidas alcoólicas são sempre as preferidas para a alimentação das abelhas.
Uma vez visitei um apicultor idoso, uma visita de rotina só para avaliar o desenvolvimento das colónias. Correu tudo dentro da normalidade até eu lhe chamar a atenção para um aspecto curioso do seu apiário. Tratava-se de um canal comprido feito com telhas e que estava frente ás colmeias. Respondeu-me que era onde colocava o alimento para as abelhas. Expliquei-lhe o inconveniente dos alimentadores artificiais face á possibilidade de fomentarem a pilhagem, o que ele percebeu.
Contou-me o segredo da sua alimentação artificial, uma panela ao lume, cervejas fora da validade, açúcar, vinho quando o há, maçãs; pêras; figos e laranjas. Ia eu tomando nota da receita quando o apicultor muito atrapalhado, me chamou a atenção, “_ está a escrever isso? Então diga aí que as laranjas devem ir sem casca, primeiro eu não a tirava e o xarope amargava muito...”
Uma vez recebi a visita deste apicultor que queria á viva força uma licença de “espancamento” abelharucos... percebi mais tarde que o ICN em tempos passava licenças para espantar as ditas aves, foi um problema de dislexia.

7. ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL II

Desta vez foi um formando que me confessou que alimentava as abelhas com gelados fora da validade, caixas de Cornettos e Pernas de Pau da Olá... Ele tinha uma pequena loja onde vendia estes artigos. E a vida sorri ...

8. ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL III

O Inverno de 2003 foi extremamente duro nesta parte do Alentejo, morreram muitas colmeias com falta de reservas, doenças e nalguns casos por falta de rainha. Os apicultores queixavam-se pelas mais variadas razões. Uma tarde, estava eu num desses grupos de apicultores a tentar encontrar forma para minimizar os danos causados por essa invernada. Quando acabou a reunião, todos foram saindo, acabando por ficar para o fim um apicultor recente, rapaz reservado mas muito interessado nas abelhas.
Percebi logo que vinha aí uma confissão importante, e não me enganei..., disse-me então, que ouvira atentamente os relatos dos demais presentes, mas tinha ficado calado para não ferir susceptibilidades. “_ Olhe, pois cá a mim não me morreu uma única colmeia durante o Inverno, dei-lhe um alimento que não admite falhas”. Conte-me lá então a receita milagrosa, se não for segredo _ pedi-lhe eu. "É simples, cozi um pouco de feijão branco com açúcar amarelo, vinho tinto e feijão preto” achei graça à referência das cores dos alimentos, “finalmente coloquei a massa no apiário em pequenas manjedouras feitas de canas rachadas, em cima de forcas de Esteva". Fiquei maravilhado com tal revelação. “Graças a esse alimento, não me morreu uma colmeia".


Não é incorrecto o facto de se dar massa de feijão às abelhas, no fundo é uma fonte proteica tal como a soja ou o pólen, mas gracejei com ele pelo facto de as abelhas “comerem” tanto feijão. Espero que não faça muito uso do fumigador ou qualquer dia o apiário vai pelos ares com uma explosão.

9. PARA ESPANTAR ABELHARUCOS

Esta “etapa do maneio apícola” apela sempre à capacidade inventiva e à imaginação dos apicultores. Uma estratégia relativamente desconhecida e pouco usada consiste em encontrar a colónia das referidas aves e enfiar-lhe pinhas verdes nos buracos. De seguida aquecem a pinha com um maçarico e as brácteas vão abrir, impossibilitando a sua remoção e a saída dos pobres abelharucos...
Outros há, menos atrozes, que se limitam a afugentá-los. Fazem recurso de tudo e mais alguma coisa, desde os tiros de pólvora seca ao pendurar de espelhos nos apiários, garrafões vazios e sacos com água. Uma vez um apicultor já velho disse-me para nunca pendurar abelharucos mortos no apiário para afugentar os outros, pois “...as abelhas têm-lhes tanto ódio que os enchem de ferrões, acabando por morrer elas em grandes quantidades”.


10. PARA CAPTURAR ENXAMES II

Tal como já foi dito, os episódios da captura de enxames são os mais ricos em fantasia de todo o folclore apícola.
Uma vez deparei com uma decoração no mínimo estranha, frente a um grupo de colmeias, paus com cerca de dois metros espetados no chão e ligados por fios. Parecia um estendal da roupa. Só que em vez da “barrela” semanal, estavam pendurados pelas raízes vários arbustos de carqueja. Explicou-me então o apicultor que tinha por hábito esse procedimento nos apiários onde não havia árvores próximas. Os enxames quando saíam penduravam-se na carqueja, e ele colhia-os como fruta madura.

Na minha terra, tal como em muitos outros locais, havia o hábito de atirar terra ou areia ao ar sempre que passava um enxame a voar. Tal artifício destinava-se a obrigá-lo a pousar para ser capturado. Conta um amigo meu, que numa bela tarde foi sobrevoado por um enxame de grandes dimensões. Estava no campo e não lhe foi difícil encontrar terra para atirar ás abelhas.
Era suposto existir uma árvore ou arbusto por perto para as abelhas pousarem, (ou um estendal de carquejas). Mas como descurou este pormenor viu-se em poucos segundos coberto com largos milhares de abelhas, que não encontrando pouso mais conveniente em redor o usaram como “poleiro”. Foi o cabo dos trabalhos para se ver livre de tal carga, mas tudo acabou em bem e lá aumentou o efectivo apícola.

Contou-me um apicultor a forma curiosa como há muitas décadas atrás um familiar seu capturou e transportou dois enxames.
O seu bisavô, capataz numa grande herdade, regressava a casa montado num soberbo cavalo. A determinada altura o cavaleiro encontra um grande enxame pousado num arbusto. Como apicultor aficcionado que era não quis perder a almejada presa, apesar de não ter uma caixa, cortiço ou saco para transportar as abelhas. Resolveu na mesma o problema, com muito cuidado quebrou o ramo do arbusto, e transportou o enxame aí pousado.
Uns quilómetros mais adiante novo enxame o aguardava, como ainda tinha um braço disponível trouxe-o também.
E assim ia ele, montado no cavalo de rédeas livres , os dois braços abertos e com um pau carregado de abelhas em cada um. Já perto de casa, nova peripécia surgiu, cansado de levar os braços abertos deixa-os descair e as abelhas com as oscilações da montada, começam a subir pela vara e pelo braço acima.
Umas horas depois deu entrada no portão do monte montado no cavalo e com um enxame de abelhas debaixo de cada braço...

01 outubro, 2008

MelToon - 5


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29 setembro, 2008

Beesiness - Negócios Apícolas


Beesiness – Negócios Apícolas” pretende ser uma secção do montedomel onde seja possível negociar todo o género de artigos apícolas, desde o mel aos enxames de abelhas, passando pelos parafusos em segunda mão para os pés da centrifuga.
Todos os interessados terão acesso a este serviço de forma inteiramente gratuita, salvo as empresas de material apícola, bastando para isso contactar o montedomel através do mail montedomel@gmail.com ou do telemóvel 96 58 18 250 e disponibilizar todos os dados que considere convenientes para que se realize o negócio.
Todas as informações/anúncios classificados em OFERTA; PROCURA e TROCA, estarão disponíveis com as características dos materiais/equipamentos e o contacto dos interessados.

DADOS A DISPONIBILIZAR AO MONTEDOMEL:

. Nome do interessado (facultativo)
. Material/Equipamento/Produto (artigo) para oferta/procura/troca
. Principais características ou referências do artigo
. Preço e ou forma de pagamento (facultativo)
. Foto do artigo (facultativa)
. Telefone e ou telemóvel e ou E.mail
. Informar o montedomel logo que o negócio se realize e ou o artigo ou a sua procura deixe de estar disponível.


ESTE SERVIÇO SERÁ DISPONIBILIZADO MUITO EM BREVE

Bons Negócios...

28 setembro, 2008

Polinização, Ambiente e Economia.


Desde há muito que se especula sobre o futuro da Terra e da Humanidade na ausência das abelhas. Assunto sobre o qual se têm traçado os mais diversos cenários, cada um mais negro que o outro. É indiscutível a importância de cada espécie no equilíbrio natural do planeta, até de algumas que nem percebemos bem para que servem. De qualquer forma, desde há séculos que se regista a extinção de inúmeros grupos de seres vivos sem que isso tenha alterado muito a nossa vida, o que não deixa de ser lamentável, e em termos naturais há facturas que demoram milénios a serem pagas.
No caso das abelhas è possível determinar uma relação causa/efeito imediata, quer em termos económicos directos nas explorações apícolas, quer indirectamente na polinização de espécies cultivadas e na vegetação dita espontânea. É a partir dos impactos económicos e sobretudo ambientais que nos baseamos para simular os ditos quadros, face a uma eventual e não pouco provável extinção da Apis mellifera.
Há portanto uma relação muito próxima entre os insectos polinizadores e as plantas, o que se chama uma coevolução, na medida em que estes dois grupos evoluíram conjuntamente, adaptando-se muito um ao outro.
Esta relação resulta da necessidade de reprodução das plantas face à impossibilidade de se deslocarem para encontrar um parceiro sexual. É aqui que entram os polinizadores (insectos, aves, mamíferos, etc...) que medeiam a troca de genes entre plantas, funcionando como casamenteiros.
Deste facto retira-se um dos ensinamentos mais importantes do mundo natural, na natureza não se fazem favores, ninguém trabalha de graça, tem de haver sempre um incentivo, suborno ou moeda de troca. A natureza é uma das mais perfeitas aulas de economia. Para que as abelhas transportem os grãos de pólen de uma flor para outra, a planta começa por atraí-las com pétalas de cores vistosas e disponibilizando-lhe néctar com que as alimenta.
Há plantas que dispensam esta ajuda, produzindo um pólen menos nutritivo, em maior quantidade e com estruturas que lhe permitem voar, sendo levados pelo vento, são as ditas plantas anemófilas em oposição às entomófilas (polinizadas por insectos ou zoófilas quando polinizadas por animais em geral). De notar que o vento não é um “carteiro” muito fiável, e a probabilidade de o grão de pólen chegar ao destino é reduzida, daí a grande produção de pólen destas plantas como o pinheiro.
Já com as abelhas é completamente diferente, todos conhecem a fidelidade destes insectos à mesma espécie de plantas o que facilita muito as trocas genéticas na chamada polinização cruzada.

O que acontece então no processo de “polinização”?
As plantas com flor, apresentam folhas modificadas com cores vistosas, designadas por pétalas e têm como função atrair os polinizadores. Rodeadas pelas pétalas, normalmente, encontram-se as estruturas sexuais das flores: o carpelo, parte feminina, onde se encontra o ovário com os respectivos óvulos, e os estames, masculinos, com as respectivas anteras que produzem os grãos de pólen.

Na base dos ovários encontram-se estruturas designadas por nectários que segregam e disponibilizam o néctar às abelhas. Quando as abelhas entram no espaço apertado entre as pétalas e os estames e carpelos, acabam por arrastar grãos de pólen nos pelos do corpo, além dos que colectam para a sua alimentação, e que depois também acidentalmente depositam no carpelo doutra flor.

Nesta fase podíamos pensar que os polinizadores eram dispensáveis, na medida em que muitas flores possuem estruturas femininas e masculinas – hermafroditas, mas tal como no reino animal é muito preferível evitar toda e qualquer forma de consanguinidade.
Quando um grão de pólen cai no carpelo de outra flor várias coisas podem acontecer:

Fig. A). Autopolinização: o pólen de uma flor cai num carpelo da mesma planta, é reconhecido e pode ou não ser aceite, dependendo da espécie em causa e de outras circunstâncias. No entanto a consanguinidade deve ser sempre evitada.

Fig. B). Pólen de outra espécie: Não é reconhecido, não é aceite e não chega a germinar. Caso o fizesse originaria um híbrido, situação muito rara na Natureza.

Fig. C). Polinização cruzada: A situação ideal, o grão de pólen originário de uma planta vai fecundar uma flor da mesma espécie mas noutro indivíduo. O grão é reconhecido, aceite e humedecido para que possa germinar. Ao fazê-lo, emite um pequeno tubo, tubo polínico, que transporta dois núcleos até um dos óvulos. Há portanto uma dupla fecundação.

Nesse processo, uma das fecundações dá origem ao embrião, como é habitual, a outra dá origem ao endosperma, ou seja, à reserva de nutrientes da semente. O conjunto do embrião com o endosperma formam a chamada semente.

Durante o processo de germinação da semente, é o endosperma que permite a sobrevivência do embrião antes deste ter folhas fotossintéticas, e como tal, ser autosuficiente. Já toda a gente observou a germinação do feijão, do melão, etc, onde inicialmente surgem duas pequenas folhas muito espessas, os cotilédones, com o dito endosperma: reservas nutritivas que alimentam o embrião no início do crescimento.

Logo que os óvulos tenham sido fecundados e formadas as sementes, a planta inicia novos trabalhos e prepara novos “negócios”. Agora é necessário transportar as sementes para longe da planta mãe, de modo que não haja competição entre elas e as novas plantas tenham maior probabilidade de sobrevivência.
Para isso, a planta “constrói” uma nova estrutura, especializada na dispersão das sementes e que se designa por fruto. O fruto resulta do acumular de nutrientes em grande quantidade, sobretudo de açúcares, nas paredes do ovário/carpelo que ficam bastante entumescidas no final do processo:

Mais uma vez a planta volta a negociar com os animais, oferece os nutritivos frutos, que vão ser ingeridos por um herbívoro, cujos excrementos contêm as sementes que sobreviveram à digestão e que vão germinar longe da planta mãe, se encontrarem condições favoráveis para o efeito.

Ponto da Situação:
Se não houver polinizadores como a abelha, muito dificilmente haverá polinização e respectiva produção de sementes. Não havendo sementes, também não haverá propagação dos vegetais, com os consequentes danos ambientais.
Voltando à “economia natural”, se não houver formação de sementes a planta não “verá” qualquer necessidade de acumular reservas de açúcar e formar os frutos, uma vez que não há sementes para transportar. A produção de frutos representa um investimento demasiado caro em termos energéticos, para uma planta, pelo que tem de ser bastante “ponderado”.
A não produção de frutos, resulta nas consequentes perdas económicas que infelizmente já se fazem sentir. Do ponto de vista social e humano, a falta de alimentos, a fome e respectivas consequências são perspectivas que nem queremos imaginar.
Ainda se poderá argumentar que na falta de abelhas, outros polinizadores selvagens poderão dar conta do recado. Mas que outros polinizadores ocorrem em densidades tão grandes como as abelhas? Os apicultores chegam a concentrar cerca de 100 colmeias x 80.000 indivíduos, o que dá cerca de 8 milhões de insectos numa área restrita.

Posto isto, ainda não temos dados suficientes para simular “um mundo sem abelhas”, mas acredito que o resultado seja pouco animador. Pelo sim pelo não, é melhor continuarmos a lutar pela sobrevivência destes “bichinhos” que por vezes nos parecem ingratos, mercê das dores agudas que provocam, mas que em contrapartida muito lhes devemos.

26 setembro, 2008

AVIS Mellifera 08


Data, local e programa definitivo.
Para efectuar a inscrição:
Tel. 242 412 719
Tlm. 965 818 250
Mail. aderavis@gmail.com

25 setembro, 2008

"Estórias" da Apicultura ... Zero!

“ESTÓRIAS” DA APICULTURA I

Ao contrário do que vos tenho habituado, desta vez não trago uma conversa cinzenta sobre a apicultura, sector que também nos dá muitos motivos para rir, mas desta vez com um riso saudável...
Por isso vou contar-vos cinco histórias de entre muitas que tenho coleccionado nos anos de técnico de apicultura:


1. PARA CAPTURAR ENXAMES

Há muitos anos atrás, ainda eu andava fora destas lides apícolas, quando um apicultor amigo me instruiu sobre a arte de capturar enxames. Contou-me em grande segredo os ingredientes e a técnica de borrifar os cortiços com a mistela mágica para atrair abelhas.
Jurou-me a pés juntos que a técnica era infalível, ainda no ano anterior capturara mais de vinte. O segredo da mistura era simples, urina de adolescente virgem! Imaginem!!! Ele próprio andava a guardar o orgânico líquido dos filhos, uma vez que se aproximava a Primavera.
Fiquei maravilhado com tal revelação. Nunca me passara pela cabeça que a castidade influenciasse tanto as abelhas, mas lá encaixei mais esse conhecimento.
Alguns dias mais tarde, noite escura, quando regressava a casa, encontrei por acaso a filha do dito apicultor. Vinha com o namorado, vinham dum local muito usado pelos jovens da terra para os “voos nupciais”.
Já devem calcular o fim da história..., no entanto fiquei tranquilo, ainda bem que os espanhóis comercializam o perfume de Aristeu, o conhecido atractivo de abelhas, pois à conta daquela filha ele nunca mais apanharia enxames.

2. PARA AFUGENTAR SAPOS E LAGARTOS DO APIÁRIO

Este truque foi-me ensinado pelo Galego, rapaz do campo e de muitos artifícios, 36 anos deles. Entre conversas de caça, dicas para matar lebres e javalis lá me confessou uma estratégia infalível para matar sapos e lagartos frente às colmeias, ensinamento que lhe transmitiu um idoso.
Ora o truque era o seguinte: em apiários onde se desconfie que sapos e lagartos façam o repasto entre as abelhinhas, crava-se obliquamente no chão um pau com 30 a 50cm.

Ainda pensei que se tratasse de um pau aguçado, e que a ideia daquele mastruço fosse a de espetar os bichinhos no pau. Mas não, nada disso, o requinte de malvadez ia mesmo mais longe.
Aconselhou-me então a atar um fio de pesca com anzol na extremidade do pau. O Galego não me falou no diâmetro do fio nem no tamanho do anzol, devia ser indiferente. De qualquer forma, e a quem interessar, basta ir a uma loja de pesca e pedir um anzol para capturar sapos.
Importa é que a extremidade do fio com o anzol não toque no chão, mas sim que fique a uma distância de 15 a 20 cm.

De seguida apanha-se uma abelha morta, ou mata-se para o efeito e prende-se no anzol, qual isco para sapo. Finalmente é só aguardar que o sapo venha almoçar, o vento oscile a abelha – isco e o sapo a engula. Ficará preso, mal tocando no solo, e o apicultor mediante umas pauladas certeiras fará justiça.



Moral da história: Pela boca morre o sapo ou o lagarto, ou como se diz na minha terra: levanta-se um padeiro às cinco da manhã para fazer pão para um mastruço destes!!!

3. PARA ANGARIAR FORMANDOS PARA A APICULTURA

Há uns anos atrás, um apicultor abeirou-se de mim informando-me que tanto ele como um grupo de apicultores seus conhecidos estavam interessados em frequentar uma formação em apicultura. Foi juntar o útil ao agradável, pois uma entidade local que organizava e promovia essas acções encontrava-se na disponibilidade de a realizar.
Contactei o grupo que tinha demonstrado interesse no curso, e estava tudo a postos para começar quando fomos informados de que faltariam ainda dois ou três formandos. Não me preocupei muito, dada a facilidade com que surgiram os primeiros, muito interessados no tema, arranjar-se-iam mais três.
Mas nada disso, missão impossível, mais ninguém queria aprender o ofício de “abelheiro”. Foi o cabo dos trabalhos para conseguir as três almas que faltavam. Entre muitas peripécias, contei com a ajuda de um apicultor meu conhecido, o Bacalhau. Foi então nestas andanças, depois de um dia de tentativas falhadas, que eu regressava a casa pronto a desistir, quando o Bacalhau teve um rasgo de ânimo e sugeriu que entrássemos numa tasca por ele frequentada. Talvez ali se encontrassem os formandos que faltavam. Se eu soubesse o que ia acontecer!!!
O Bacalhau conhecia o dono da tasca e lá fui apresentado como engenheiro, como já era hábito. Nisto, surgiu um gajo bêbado (mesmo muito bêbado), que estava ao balcão e começou a dizer que já conhecia o Bacalhau, e o Bacalhau dizia que não o conhecia. Esta discussão durou uma eternidade. Mais tarde, e conhecida por todos a nossa missão, o barman e o Bacalhau discutiam uma teoria sobre fazer-se ali na hora um cartaz formato A4 para promover o curso (apesar das inscrições terminarem no dia seguinte). Entretanto, o bêbado ia dando cotoveladas no meu braço sempre afirmando que já conhecia o Bacalhau, eu já transpirava. Da reunião Bacalhau – barman lá saiu uma deliberação – Fazer-se o Cartaz ! numa folha limpa e escrita com a letra do Sr. Engenheiro, que devia ser bonita...
Nesta fase, eu já não sentia o braço esquerdo. E foi também quando percebi o significado da expressão “ folha limpa” do barman, ao ver o caderno que ele me trouxe.
Alguém voluntariou uma caneta e consegui escrever qualquer coisa como “Curso de Apicultura”, a data e o local, o meu número de telefone e o do Bacalhau, para contacto dos interessados.
Eu sei que dias mais tarde alguém terá dito que a letra do Engenheiro não estava lá muito bonita naquele cartaz, mas o que as pessoas não sabiam é que enquanto o Engenheiro tentava caligrafar a letra bonita, estava um gajo bêbado (muito bêbado) a bater-lhe no braço e a dizer que conhecia o Bacalhau!
O barman entrou de novo em cena, com uma régua para cortar as franjas do papel A4 na margem arrancada às argolas. Trouxe também uma tesoura e fita cola para colar o cartaz, situação que provocou novo diferendo entre o barman, o Bacalhau e o gajo bêbado, relativamente à localização do papel... Ganhou o barman e o gajo bêbado.
Eu desenvolvia todos os esforços que me eram humanamente possíveis para abandonar aquele filme surrealista. O bêbado desapareceu, e o Bacalhau ainda me convenceu a tomar uma ginja.
Mais tarde, e já no caminho de casa, voltei outra vez a sentir o braço esquerdo...

4. CRIAÇÃO DE RAINHAS EM DEZ MINUTOS

Certa vez, visitei um apicultor que me tinha contactado para o ajudar a juntar duas colónias. Ele optara por este procedimento porque uma delas teria ficado órfã numa fase do ano em que seria infrutífero, ou pelo menos muito difícil, criar outra rainha.
Cheguei ao local, verifiquei as condições de trabalho, e pareceu-me estar tudo em ordem para a operação. É então que reparo num pormenor que poderia resultar numa situação divertida e simultaneamente resolver o problema ao apicultor.
Chamei-o e disse-lhe _ Olhe, não há necessidade de juntar-mos as colónias. Desta vez sem exemplo, eu vou-lhe “criar” uma rainha rápida para a colmeia órfã. Mas peço-lhe por favor que não ensine este truque a ninguém...
O apicultor, estupefacto, olhava muito sério para mim, _ e como vai fazer isso? É possível ? _ Desta vez é, _ respondi eu, tentando ficar com um ar sério.
Retirei o tampo e a prancheta da colmeia órfã, coloquei uma folha de jornal por cima , e finalmente uma alça sobre o conjunto, borrifei tudo com água açucarada.
O apicultor seguia atentamente cada um dos meus movimentos. E o final em grande, virei-me e retirei de uma oliveira atrás de mim, um pequeno enxame de abelhas extemporâneo e coloquei-o na alça sobre o jornal, tapei tudo com a prancheta e o tampo.
O apicultor, muito admirado disse: _ desta é que eu não estava à espera. Nem respondi, contou-me ele mais tarde que o “enxerto” tinha funcionado.

5. COLMEIAS COM VÁRIAS RAINHAS

Depois de tanto falar nos outros... chegou a minha vez, também tenho telhados de vidro. A história passou-se há quase dez anos, no primeiro enxame que eu capturei.
Resolvi seguir os conselhos do Sr. Leonel Belchior, publicados n’ O Apicultor, sobre a tendência dos enxames migrarem para as regiões onde a floração está mais atrasada. E de facto resultou, em menos de três dias tinha um cortiço povoado. Foi uma excitação enorme transferir aquela massa de insectos para dentro de um núcleo, eu tremia que nem uma vara verde. Consegui enfiá-las na caixa à terceira tentativa, nas primeiras duas caíram quase todas ao chão. Mesmo assim ficaram muitas cá fora e receei que voltassem a fugir.
Dos fracos conhecimentos que tinha, recordei-me que se a rainha estivesse na colmeia todas as outras entrariam, só que eu nunca tinha visto uma rainha. Mas como a sorte ajuda os principiantes, imediatamente a vi pousada num ramo. Com todo o cuidado coloquei-a no núcleo. Logo de seguida vi mais duas cá fora, não há que desanimar e com a ajuda de um pauzinho consegui repatriá-las. Nos minutos seguintes ainda vi mais algumas e consegui capturar mais duas, pensei então que com cinco rainhas o trabalho estava perfeito.
Saí dali para deixar que as restantes obreiras (e eventualmente rainhas) entrassem na colmeia e mais tarde a levar para o apiário.
Horas mais tarde, fui buscar a colmeia com um amigo, apicultor recente como eu, contei-lhe a peripécia das rainhas e ele ficou curioso em vê-las. Nada mais fácil, procurei nas redondezas e lá encontrei mais uma, e o Nelson deu-me os parabéns por ter enfiado meia dúzia de zangãos no meu primeiro enxame!!!

Fica apenas a nota de que tenho um imenso respeito, carinho e cumplicidade com as personagens sobre as quais me referi neste escrito, aprendi bastante com eles.