30 dezembro, 2008

Alimento Artificial de Inverno


Detesto fazer isto, mas tem mesmo de ser...
Não é por nada, apenas porque mete uma parte na cozinha, e cada vez que eu lá entro disparam uma série de alarmes e... normalmente com razão.
Depois tenho que “afinar” as proporções de nutrientes, os tempos no fogão, o ponto do açúcar, a viscosidade final e... pasmem-se: o número de orifícios ou cortes no saco “alimentador”, para não falar no trabalho que dá incorporar os componentes numa mistura tão viscosa.

O Porquê da Alimentação Artificial de Manutenção ou de Inverno?
A maioria das colmeias que possuo são do modelo “Lusitana”, e as reservas de mel chegam e sobram para os três ou quatro meses de frio. O pior são as reservas de pólen, apesar dos eucaliptais e de algum alecrim, a flora polinífera da zona é muito escassa no Inverno.
Por isso, durante os meses de Novembro/Dezembro, confecciono sempre o dito suplemento nutritivo, dito de manutenção, uma vez que pela pequena percentagem de humidade é muito diferente dos néctares naturais recolhidos pelas abelhas, e como tal não estimulam a postura da rainha nem o consequente desenvolvimento da colónia.
Seria desastrosa a ministração de alimentos muito líquidos nesta data, uma vez que tal facto levaria a aumentos exagerados de criação e a impossibilidade das abelhas alimentarem tantas “bocas” com tais condições climatéricas.

Ingredientes por colónia:
Pólen ....................... 100g
Mel ......................... 100g
Açúcar ...................... 150g

O Pólen é de facto o componente mais importante, a parte proteica tão necessária na estação fria. No entanto é importante torná-la apetecível para as abelhas, pelo que se deve misturar com mel e ou açúcar. As 100 gramas de pólen podiam ser substituídas, neste caso, por 200 gramas de farinha de soja ou 50 de levedura de cerveja, mas prefiro o pólen por todas as razões.
O açúcar em maior quantidade que o mel deve-se ao facto de ser mais barato, e por outro lado torna mais fácil o controlo da viscosidade da mistura.

Os Custo$
Pólen ...................... 3,50 €/Kg ......... 0,35 €/colmeia.
Açúcar ..................... 0,85 €/Kg ......... 0,13 €/colmeia.
Mel ........................ 2,35 €/Kg ......... 0,24 €/colmeia.

O que dá um total de 0,72 €/colmeia em nutrientes, assumido agora um custo de 0,28 €/colmeia em gás, água, combustíveis e no saco, custa aproximadamente 1,00 €/colmeia. Mas acreditem que este número se encontra sobrestimado.

Procedimento:
Esta é a parte mais polémica e susceptível à crítica, no entanto vou apenas descrever como habitualmente faço as coisas, nem sempre isentas de erros.

1º – Começo por colocar o açúcar numa panela ao fogão, com um mínimo de água, pouco mais de meio litro a um litro para cinco quilogramas de açúcar. Por vezes adiciono também uma colher de sopa, quase cheia de sal grosso.
Deixo ferver até que a mistura fique transparente, ou seja, até que o açúcar seja todo dissolvido.

2º - Em seguida apago o fogão, deixo arrefecer uns minutos e coloco o mel que normalmente está cristalizado. A temperatura do açúcar é suficiente para descristalizar o mel e homogeneizar a mistura. É bom que se vá mexendo tudo com uma colher para não perder a fluidez durante o arrefecimento.

3º – Coloco a panela dentro de um alguidar ou outro recipiente com água fria para acelerar o arrefecimento.
Nesta fase, costumo humedecer o pólen, em pó, num recipiente à parte, com um mínimo de água tépida, para facilitar a dissolução na mistura de mel com açúcar. Não sei se facilitará muito...

4º – Quando a temperatura da mistura de mel e açúcar desce para os 40 a 30ºC, adiciono “bolas” de pólen previamente humedecido, com a ajuda de uma colher de sopa. Coloco quatro ou cinco bolas de cada vez e depois com a ajuda de uma colher de pau dissolvo o melhor possível. À partida parece missão impossível, pois a mistura está muito concentrada, mas apertando os grumos de pólen contra a parede da panela e não parando de mexer, consegue-se homogeneizar tudo.

5º – Finalmente, ...nem calculam como a palavra “finalmente” me é cara neste episódio do alimento artificial, com a ajuda de uma concha ou caço/cace de sopa, coloco três a quatro doses num saco de plástico. Cada dose rondará aproximadamente as 100 gramas.
Aqui são mesmo necessárias duas pessoas, uma para segurar o saco, junto à parede da panela, e outra para deitar o alimento.
Os sacos são depois atados com um nó, o mais baixo possível, cortando-se o excesso de plástico que só vai é atrapalhar as abelhas... e o apicultor.

Problemas mais comuns até esta fase:
A) - O alimento fica demasiado fluido para o efeito que queríamos
, e como tal pouco apropriado para esta estação.
Das duas três, se detectou o problema no dia seguinte, quando a mistura já está dentro dos sacos de plástico e suficientemente arrefecida: não há nada a fazer!!! Quando isso me acontece guardo esses sacos para a ALIMENTAÇÃO ARTIFICIAL ESTIMULANTE, para lhes dar em meados de Fevereiro. Se tiver olho clínico para a culinária, e detectar o problema na panela antes de ensacar a mistura: ainda há remédio. Ou se junta mais um pacote de açúcar, não o derreta, adicione-o tal como sai do pacote, ou uma porção de farinha de soja ou ... mais pólen. Atenção que a última opção se bem que desejável é a mais cara.

Este problema, o mais comum, resulta dos “facilitismos” durante o processo de confecção, a adição exagerada de água para facilitar a dissolução do açúcar ou do pólen acaba sempre por se pagar mais tarde.

B) - O aquecimento exagerado do açúcar aumentará o HMF da mistura e tornará o alimento menos aconselhável/saudável para as abelhas.
De facto assim é, por essa razão verificaram que só aqueci o açúcar, exageradamente, para o poder dissolver e conferir à mistura o ponto desejado. O mel só recebeu o calor do açúcar fundido e pouca ou nenhuma alteração lhe trouxe.

Este problema pode ser resolvido de duas formas:
B1)-
Fazer a mistura toda a frio, é muito fácil, bate-se o mel, pouco ou nada cristalizado, com o açúcar e com o pólen em pó. O truque é tentar homogeneizar o máximo possível até conseguir uma consistência semelhante ao barro amassado.




Esta imagem ilustra o resultado dos dois métodos propostos, mas com um erro: devia ter sido utilizado pólen em pó...
Não gosto deste método, apesar da facilidade de execução e de aplicação, pois basta ser colocado directamente em cima da prancheta ou sobre um prato de plástico. Normalmente sucede que as abelhas apenas sugam o mel, a parte húmida, já os cristais de açúcar juntamente com o pólen não são levados para o ninho, e perde-se o principal objectivo.

B2)- Misturar a frio apenas o mel líquido, mas muito viscoso, com o pólen, até obter a consistência desejada e aplicar como no caso anterior.
O principal inconveniente desta opção é o preço, uma vez que se usa apenas mel.

De qualquer forma, não creio que seja assim um problema tão grave, sempre tenho utilizado o método descrito sem qualquer surpresa desagradável.

C) – O saco está roto e começa a sair o xarope para o exterior. É preferível colocar o saco dentro de outro do que despejar o conteúdo do primeiro. Como está tão viscoso a maior parte vai-se perder.

Aplicação do Alimento Artificial de Manutenção

Outra dor de cabeça. Mais uma vez o truque é a redução de custos e a facilidade de execução.
Os alimentadores habituais, muito acessíveis no mercado, até são baratos. Mas quando o número de colmeias é grande... começam a ficar caros. Para não falar na dificuldade em transportar e montar várias dúzias de alimentadores.





Os sacos de plástico apresentam uma boa funcionalidade, e são muito baratos. Têm no entanto um problema: a dificuldade em aferir o número e o tamanho dos orifícios para a saída do alimento, em função da viscosidade deste e da população de abelhas.
Se está muito líquido e as abelhas são poucas, vai escorrer para o exterior. Se está demasiado sólido, torna-se difícil o acesso das abelhas.





Acabei por optar por colocar o saco com grandes aberturas dentro de um prato de plástico. O prato evita que o alimento se perca e tem bom acesso para as abelhas. Corre-se no entanto o risco de muitas morrerem afogadas, o que se resolve colocando ramos e folhas dentro do prato.


As abelhas não comem cogumelos!!!, só que encontrei-os no dia da "alimentação" e resolvi partilhar as imagens...

FELIZ 2009...

MelToon - 19


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29 dezembro, 2008

MONTE DO MEL 6 meses, o balanço...



“E as Abelhas nunca mais serão as mesmas...”
Foi com com esta frase que nasceu o http://montedomel.blogspot.com há cerca de um ano.
O objectivo era mesmo começar no dia 1 de Janeiro de 2008, mas... não começou. Após publicitá-la, adiei essa data até finais de Junho.
Até podia desencantar uma série de desculpas convincentes para o atraso, mas vou mesmo ser sincero: reconsiderei uma série de vezes e a vontade de o iniciar era cada vez menor... nula quase.
Mercê de meia dúzia de voltas pelo país, reuniões, palestras e encontros, várias (muitas) vezes ouvia a mesma pergunta: “...e o blog? O Montedomel? Quando sai cá para fora?”
Lá me resolvi a publicar algumas coisas, poucas, a vontade ainda não era muita, ainda hoje não sei se o é, mas resolvi experimentar durante seis meses para ver o que dava. Aguentei-me, já estamos em Dezembro, cerca de 120 “postagens” deram um trabalhão como devem calcular, noites e noites com o portátil ao colo a escrever sobre assuntos que pudessem interessar aos apicultores e demais interessados.
Além dos artigos de Opinião, Técnicos e Notícias, que já publicava na Revista “O Apicultor”, Jornal “Crisopa” e outros jornais, resolvi tentar outras “coisas” que poderiam de alguma forma trazer outra luz ao sector, como o MelToon, a rubrica Colmeias Diferentes e a bolsa de negócios on-line Beesiness, entre outros.
O MelToon, como devem calcular é-me particularmente querido, gosto bastante de tiras de BD. Muitas foram as noites em que para abrir o apetite, começava por fazer os desenhos à toa, nem sequer tinha o “enredo” na mente, mas acabava por surgir depois. Outras vezes, na estrada, tinha de parar o carro para tomar notas sobre alguma ideia que me surgia pelo caminho e não queria perder. Na sala de espera do Hospital de Elvas, numa tarde de Outubro, enquanto aguardava a consulta do meu pai, fiz dois cartoons de seguida. De facto o nosso Sistema Nacional de Saúde “puxa muito pela nossa imaginação”...
Com as Colmeias Diferentes, ainda numa fase inicial, procurei ilustrar sobretudo a criatividade dos apicultores. Não só pela forma como constroem colmeias, mas também com os materiais e desenhos mais insólitos que se possa imaginar, ou os locais e circunstâncias em que praticam a apicultura.
Já o Beesiness – Negócios Apícolas On-Line, parece ser o grande fiasco do montedomel, esperava mais contactos, mais gente a anunciar pelo menos, afinal de contas o serviço é de borla... mas pouco ou nenhum feed back tem havido. Enfim... pontapé p'rá frente e cara alegre, como se diz na minha terra, pode ser que melhore em 2009.
Agora também não levem este desabafo muito a peito, e por solidariedade ou caridade alguém se lembre de anunciar os ditos “parafusos em segunda mão para os pés da centrifuga...”.

Os números e os factos...
A nossa sociedade, tão mal classificada na disciplina de matemática, anseia sempre pela informação numérica, que nem sempre dá uma boa imagem da realidade, mas é fácil de visualizar...

Ultrapassar as 3.000 visitas foi uma surpresa, pois inicialmente contava com cerca de 2.000 para os primeiros seis meses, e àquele número ainda correspondem mais de 7.000 page views.

Durante o último mês, data a partir da qual percebi que “clicando” sobre o “site meter”, conseguia saber a origem dos acessos ao blog, nomeadamente a cidade, região e país, foi outra surpresa:

13 países, incluindo o nosso:

Portugal com cerca de oitenta e tal porcento das visitas, Brasil com cerca de 10% e as restantes distribuídas por: Itália; França; Alemanha; Luxemburgo; Bélgica; Espanha; Austrália; EUA; Argentina; Uruguai e Nova Zelândia.
De Portugal, os acessos neste último mês corresponderam a mais de 100 localidades diferentes, distribuídas de Norte a Sul e Ilhas. Do Brasil, cerca de 50 localidades pertencentes a 17 Estados.
Claro que a maior parte das visitas estrangeiras aconteceram casualmente, os visitantes colocavam palavras ou frases num motor de busca e acediam assim ao blog. Curiosamente vi imensos casos em que o visitante já acedia directamente à página sem buscas no Google, nomeadamente no Brasil, Argentina, Itália, França e Alemanha.

A média de visitas por dia rondava inicialmente as 10 ou 12, que passaram para perto de 20, 25 e quase tocaram as 30 em finais de Novembro. Este número decresceu durante o mês de Dezembro, principalmente por decréscimo de visitas de outros países.
Na volta não vivem um Natal tão apícola como o nosso... é engraçado “brincar” com os números nesta quadra, até porque não há muito mais para fazer com as abelhas.
Noutra volta ainda, estes números nem serão nada de especial, mas eu ainda sou do tempo em que os computadores eram uma miragem, e a felicidade de um dia de brincadeiras era medida pela quantidade de lama que levava no corpo para casa, ou pelo consequente número de voltas que dava à mesma casa a correr à frente dos meus pais...

Fica um obrigado especial ao meu primo José Manuel Varela, o “informático” de facto, que resolve todos problemas de funcionamento, à Luísa pelas fotografias, à ADERAVIS pelo apoio e aos visitantes pelo interesse, apoio e “fé” que têm demonstrado.

O Futuro...
Esta conversa toda cheira mesmo a despedida, mas não é disso que se trata, não há nada que o Português mais goste do que as pieguices das despedidas... mesmo que seja à chegada...!
Posso e devo dizer que vou “tentar” mais seis meses, para fazer um ano, e depois logo se vê.
Mas... era importante, muito importante mesmo, que este espaço fosse mais partilhado, participado e houvessem mais intervenções. Cada assunto que aqui abordo, seja ele qual for, sempre que fica despido de comentários, de contradições, outras opiniões, fica a cheirar a “verdades absolutas”, e muito raras são as verdades dessa casta que não tresandem a grandes mentiras.
As notícias/factos, normalmente são o que são, a não ser que haja falha minha ou das fontes, agora os escritos técnicos resultam sobretudo do meu trabalho e experiências acerca dos temas versados, pouco mais são que um relatório de actividades, de onde tiro as conclusões que vos apresento. Era muito bom para mim e para todos que houvesse um confronto de ideias, de novas experiências e consequentemente de outros resultados para que todos pudessem enriquecer os conhecimentos com tal debate.
Espero sinceramente que o próximo semestre seja mais rico em intervenções dos visitantes...

Só me resta agora desejar um BOM ANO de 2009, com TUDO de BOM para a Apicultura e para o resto..., ficam umas fotos do Monte do Mel físico, onde vivo e que emprestou o nome ao Monte do Mel digital:
Joaquim Pífano








...mas se alguém tiver mesmo os ditos parafusos em segunda mão para os pés da centrifuga, e os queira vender, ou comprar, diga qualquer coisa, o Beesiness existe para isso mesmo...

22 dezembro, 2008

MelToon - 18

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A Visão das Abelhas

Nem me passava pela cabeça vir a escrever qualquer coisa sobre este tema. No entanto, consegui saber que alguns brasileiros que visitam o montedomel fazem-no colocando no Google as palavras de busca: “visão das abelhas”.
Desconheço completamente o assunto, mas como tenho alguns livros que o abordam, um até é brasileiro, resolvi transpor para aqui alguma da informação... talvez um pouco desactualizada, é de 1960.
Só que desta vez não vou “trabalhar” de graça, vou mesmo cobrar pela informação. Não peço muito, só queria que alguém do Brasil me dissesse porque razão todo o mundo anda interessado na VISÃO DAS ABELHAS??? Dá-me uma curiosidade enorme...
Mandem-me a resposta para os comentários do blog,(http://montedomel.blosgpot.com)ou para o meu mail: (montedomel@gmail.com), fico à espera e agradeço antecipadamente.

As abelhas possuem dois grandes olhos compostos, ou seja, formados por milhares de omatídeos ou ocelos. As obreiras possuem cerca de 6300 ocelos nos dois olhos, a rainha apenas 3900 e os zangãos 13000.
Além dos olhos compostos, cada abelha ainda possui mais três pequenos olhos simples implantados na “testa”.


Os estudos de dois alemães demonstraram que as abelhas vêm as cores e inclusivamente são sensíveis à radiação ultravioleta. Ou seja, vêm num comprimento de onda ou uma cor que o olho humano não vê. Essas descobertas deveram-se respectivamente a Karl von Frisch e Kuhn.

Segundo o autor, daqui podem ser retirados conhecimentos importantes para a prática da apicultura: as abelhas não vêm o vermelho, pelo que as restantes cores visíveis para elas podem e devem ser utilizadas para pintar a frente das colmeias.
Por outro lado, os olhos das abelhas são “parados” o que lhes dará vantagem na detecção de movimentos.

O Sentido de Orientação das Abelhas
Segundo Kerr e Amaral, as abelhas orientam-se sobretudo de três maneiras: pelos acidentes do terreno; pelo Sol e pelo céu (luz polarizada).
“A abelha decora o caminho da colmeia até às fontes de alimento, tomando por referência troncos de árvores, postes, estradas, morros, etc...”
O mais importante para a orientação das abelhas é a posição do Sol quando está visível. Através da conhecida dança que fazem na colmeia, comunicam a outras abelhas a posição do alimento através do ângulo que terão de fazer com o Sol para chegarem a esse local.
Frisch e Lindauer fizeram uma curiosa experiência em que demonstraram como as abelhas percebem que o Sol se movimenta no firmamento de Este para Oeste, a uma determinada velocidade e sabem fazer o cálculo do seu itinerário.

Experiência de Frisch e Lindauer:
Foi colocado um alimentador com xarope açucarado a uma determinada distância de colmeias teste. As abelhas foram habituadas a esse alimentador, de manhã até às 10 horas, fazendo um ângulo que varia entre os 130º e os 100º à direita do Sol.

As abelhas foram depois fechadas às 10 horas, quando aquele ângulo era de 116º. Todo o equipamento foi levado de seguida para um local afastado 10 km e montado como estava, com o alimentador à mesma distância e ângulo das colmeias.

Às 17 horas, quando o Sol estiver entre os 30º e os 45º à esquerda do alimentador, se se libertarem as abelhas, elas irão directamente para o alimentador, agora apenas orientadas pelo Sol, pois o terreno é diferente. Se as abelhas “desconhecessem” o movimento do Sol iriam ter ao local assinalado com um (?), ou seja, a um ângulo de 116º do Sol como tinham feito na parte da manhã.

Voltando aos “olhos” das abelhas, os omatídeos começam por ter uma secção hexagonal, que se torna octogonal na zona do nervo óptico. Von Frisch descobriu que é nas partes octogonais que as abelhas são sensíveis à luz polarizada.
Dessa forma, as abelhas não vêm o céu “limpo” como os humanos o vêm, mas sim manchado, com tantas manchas octogonais quantos os omatídeos dos seus olhos. É assim formada uma espécie de “grelha” no céu, cada zona com uma configuração diferente, onde a abelha consegue determinar com precisão a posição do Sol, mesmo que o céu esteja muito nublado.
A luz polarizada contribui assim para a orientação das abelhas.
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Retirado de:
APICULTURA – Científica e Prática
Warwick Estevam Kerr e Erico Amaral, 1960

Secretaria da Agricultura do Estado de S. Paulo
Diretoria de Publicidade Agrícola

17 dezembro, 2008

Instalar um Apiário II

7. A Disposição das Colmeias
Acerca deste ponto tenho visto de tudo um pouco, desde os apiários colocados numa linha recta muito certinha, aos que, para irmos de uma colmeia a outra temos de ir de carro...
É outra das situações em que se apela ao bom senso, e podemos optar por uma série de soluções muitas vezes condicionadas pelo terreno.

A) – Linha Recta: Facilita bastante o trabalho de inspecção, agrava no entanto o problema da deriva de abelhas quando há poucos referenciais.
Quando se opta por este esquema, convém pintar de cor diferente a parede frontal de cada colmeia, ou colocar símbolos que facilitem a respectiva distinção pelas abelhas.

B) – Linhas Rectas Paralelas: Tem as mesmas vantagens e desvantagens do modelo anterior, com a agravante de as abelhas das filas de trás encontrarem uma ou mais “barreiras” de colmeias no regresso a casa. Minimiza-se o problema quando o terreno tem um declive muito acentuado.
Em circunstâncias de falta de espaço já o tenho utilizado sem grandes problemas, mas é uma opção que evito sempre que possível.

C) – Curva ou Semicírculo: Há quem o defenda apontando vantagens sobre a linha recta, alegando que as colmeias estão viradas para direcções diferentes, reduzindo o risco de deriva. No entanto, existem apicultores que dizem exactamente o contrário.
Muitas vezes opta-se por ele pelas características do terreno, mas não sou grande adepto deste modelo.

D) – Colmeias Dispersas: Do ponto de vista da deriva de abelhas é talvez o esquema mais correcto, agora em termos de desempenho para o operador não parece ser lá muito eficaz.
Diria que menos de 10% dos apicultores optam por este desenho, mas lá vai encontrando os seus adeptos. São quase sempre as condições do terreno, normalmente acidentado e rochoso, que levam os apicultores a optar por ele.
Estes apiários têm quase sempre acesso difíceis e por isso pouco práticos para quem faça transumância.

E) – Linha Irregular: Esta disposição parece juntar os aspectos positivos dos pontos anteriores. Por um lado, as colmeias em linha recta facilitam o trabalho ao apicultor, e por outro, a rotação suave para direcções diferentes decerto reduzirá a deriva de abelhas.
Não é um esquema muito comum, costumo utilizá-lo mais vezes quando tenho pouco espaço e as colmeias estejam demasiado próximas, evitando que as entradas fiquem muito juntas.
Em resumo, a forma de colocar as colmeias num apiário é importante, mas... há aspectos bem mais influentes.

8. Suportes e Distâncias entre as Colmeias

A existência de suportes sob as caixas irá sem dúvida prolongar-lhes a longevidade, sobretudo a do estrado, e por outro lado evitará o excesso de humidade no interior da colmeia.
Nesta matéria, mais uma vez a imaginação dos apicultores não tem limites: Blocos de cimento, lajes de xisto, traves de madeira, vigas, pneus,... por aí a fora. Não há uma regra definida, convém optar por materiais baratos e resistentes.
Já a distância entre as colmeias tem “pano para mangas”, desde encostadas umas às outras até aos casos em que não se percebe se pertencem ao mesmo apiário. Dizem as referências que não há uma distância ideal, convém que estejam suficientemente afastadas que permitam a passagem do operador entre elas.
No meu caso deixo espaço suficiente para outra colmeia no intervalo, para o caso de ter de fazer desdobramentos.

Há quem opte por uma solução aparentemente cara, mas que é muito resistente e duradoura. Trata-se de um suporte feito com dois blocos de cimento e duas vigas de pré-esforçado com três metros cada. Os custos afinal rondam os 1,5 a 2,0 €/colmeia, mas são quase eternos e facilmente recicláveis.

9. Protecção Anti-Formigas

Tenho o maior respeito por quem as utiliza, e até gosto de ver, dão um ar cuidado ao apiário e são extremamente úteis. Mas para quem tem muitas colmeias e passa o tempo com “elas às costas”, torna-se muito difícil de realizar.
Prefiro continuar a ser apologista de que colmeias fortes são à prova de formigas; ratos; vespas; traças; etc...
Actualmente há um aspecto muito importante a ter em conta: o transporte, manuseio e utilização de óleos lubrificantes usados ou “queimados”. Já soube de muito boa gente que foi multada por haver uma mancha de óleo no solo da quinta, no local onde habitualmente estacionam o tractor. Bem basta não sermos reconhecidos como merecedores de ajudas agroambientais, só faltava sermos acusados de poluir o ambiente...

16 dezembro, 2008

Um Conto de Natal...

As Abelhas que Semeiam Arvores
O Natal é uma quadra que nos remete para o mais profundo e belo que há em nós. Será sempre um período de reflexão onde conseguimos vasculhar o passado e encontrar motivos de orgulho que nos iluminam o futuro. Creio sinceramente que todas as pessoas em todos os recantos do mundo fazem, fizeram ou irão fazer uma obra, que de alguma forma afectará o melhor possível as pessoas à sua volta.
Ontem, por exemplo, um jornalista do Iraque atirou com um par de sapatos ao George W. e só agora percebi que o W. é a abreviatura de Walker, enfim... mas o dito jornalista passou de simples anónimo a herói planetário em dois arremessos. Nem sequer acertou no alvo, imaginem se acertasse. Mas estamos no Natal e vou acabar com as ironiazinhas... desafio a quem encontrar mais uma que seja pelo texto abaixo... vale uma embalagem de mel. Mas acreditem que no desenho do início me senti tentado a substituir a abelha “semeada” por um par de sapatos.
Continuando...
Para que a vida não tenha sido em vão, todos temos como objectivo plantar árvores, fazer filhos e escrever livros, ou pelo menos cumprir uma parte disso. Outros há, que sem realizar nenhum daqueles feitos, conseguem uma vida plena e realizada, apenas pelo facto das suas acções, de uma forma desinteressada e quantas vezes sem reconhecimento, melhorarem ou tornarem possível as vidas alheias.
Até porque há muitas formas de plantar arvores, escrever livros ou fazer filhos.

Recordo-me de uma história, verídica, passada nos Alpes no principio do século XX, onde um pastor solitário munido de um varão com um bico e um saco de bolotas, tinha como passatempo fazer buracos no solo onde enterrava as ditas sementes. Muitas, cerca de 100.000 todos os anos, dessas, apenas 20.000 germinavam, perder-se-iam ainda metade, mas 10.000 Carvalhos nascidos anualmente naquelas encostas áridas eram muitas arvores. Mais serão ainda se multiplicarmos esse número por quarenta anos de actividade e solidão do pastor Elzéard Bouffier, que de uma forma desinteressada e sem subsídios plantou centenas de milhares de Carvalhos, Faias e Bétulas. Mudou a face e o clima de uma região, as fontes e regatos voltaram a correr, a vida tornou-se possível.
Mais tarde, a esse mesmo local foi reconhecida importância nacional, tendo ganho o estatuto de área protegida. Sabe-se que mais tarde o pastor trocou as ovelhas por cerca de uma centena de colmeias, não fossem as primeiras destruir as arvores jovens.
Pergunto-me, quantos Elzéard Bouffier haverá no mundo ? Posso adiantar que segundo os últimos censos, em Portugal existirão mais de 15.000, 1.800 dos quais fazendo-o profissionalmente. Desculpam-se que produzem mel, ou pólen ou própolis, perante terceiros, mas na realidade o que eles fazem é plantar arvores, arbustos e herbáceas. Propagam e disseminam milhares e milhões de plantas, por hectares e hectares de terreno, umas para madeira, outras para frutos, outras apenas para sombra e ornamentação, mas todas para uma renovação contínua da atmosfera e do ar que respiramos. Removendo constantemente milhões de toneladas de dióxido de carbono, entre outros gases tóxicos e substituindo-os por oxigénio.
Esta acção passa-se a uma escala espaciotemporal para a qual não temos sensibilidade, não por razões de negligência ou desinteresse, apenas porque é um processo imperceptível no contexto humano, limitamo-nos a respirar sem com isso fazer esforços voluntários e sem pensarmos sequer no assunto.
Mas para haver ar respirável têm de existir plantas, vegetais, para haver plantas têm de haver sementes fecundadas, viáveis, estas por sua vez devem a existência a insectos incansáveis que visitam constantemente as flores provocando a polinização – as abelhas.
Infelizmente, e desde a disseminação do ácaro Varroa destructor, as abelhas para subsistirem precisam da ajuda dos apicultores. É assim um pouco por todo o mundo, abelhas e apicultores são os guardiões do ambiente, de uma forma desinteressada e muitas vezes incompreendida, levantam-se de madrugada para limpar e purificar o ar que todos respiramos.
A apicultura é uma actividade económica, quem a pratica visa a produção de mel, cera, pólen, própolis, geleia real e toda uma série de produtos que acaba por vender para daí extrair algum lucro.
Para os apicultores, o mel, o produto principal, é sempre vendido muito barato, no entanto o consumidor acha-o sempre muito caro, ironicamente o serviço ambiental promovido pelas abelhas, de longe o mais importante... é gratuito.
Poucos governos reconhecem e gratificam este serviço público, como acontece na Suécia. Um país onde o Ministério da Agricultura incentiva as pequenas explorações familiares, de modo a que todos tenham algumas colmeias no jardim, cobrindo vastas áreas do território. O mesmo não se pode exigir aos grandes produtores que para rentabilizarem as explorações apenas fazem os apiários em zonas de grande floração, polinizando apenas esses locais.
O objectivo desta mensagem é provocar alguma reflexão sobre a actividade apícola, sobre a forma como todos os apicultores sempre que capturam um enxame, fazem desdobramentos, criam rainhas ou simplesmente tratam das colónias, estão no fundo a fazer muito mais que isso, estão a manter este planeta habitável, estão a plantar árvores...
Bem hajam e Feliz Natal...

Este texto foi publicado na revista “O Apicultor” e outros jornais há uns anos atrás, reproduzi-o aqui com algumas alterações.

15 dezembro, 2008

MelToon - 17


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11 dezembro, 2008

Instalar um Apiário I

A instalação de um apiário sempre encerra decisões determinantes no sucesso da exploração.
Dependendo das características do local onde se faz o assentamento, assim estimulamos ou comprometemos aspectos como a produtividade ou a sanidade das nossas colónias.
A bibliografia apícola é extremamente rica em conselhos acerca dos melhores sítios onde podemos/devemos colocar as colmeias. Fica no entanto um conselho que nunca aparece nas referências: além dos preceitos normais, convém decidirmo-nos por um local onde nós próprios nos sintamos bem, uma vez que vamos lá passar muitas horas a tratar das abelhas.

1. Flora apícola
Como é óbvio, este será sempre o factor mais importante a ter em conta na instalação de um apiário. É da quantidade e da diversidade da flora que irá depender a quantidade e a qualidade do mel produzido.
Raros são os locais em Portugal onde é possível manter as colónias em produção por mais de três ou quatro meses, os períodos de floração normalmente demoram menos tempo. A transumância é o método pelo qual podemos ter as abelhas em floração quase contínua.

2. Distância a Vias Públicas e Edifícios em Utilização

De acordo com o Artigo 5º do DL 203/2005 de 25 de Novembro, os apiários devem estar implantados a mais de: a) 50 m da via pública; b) 100m de qualquer edificação em utilização. Exceptuando-se os caminhos rurais e agrícolas, bem como as edificações destinadas à actividade apícola do apicultor detentor do apiário.
Muitas vezes é uma tentação colocar duas ou três colmeias no quintal ou no jardim de casa, principalmente quando a rua é ajardinada com uma longa fila de laranjeiras ou tílias. No entanto é sempre desagradável quando as nossas abelhas causam problemas a terceiros, e mesmo o respeitar da referida lei não nos livra da responsabilidade civil...

3. Exposição

Uma vez escolhido o local, importa agora decidir acerca da exposição das colmeias, ou seja, para que lado virar a entrada/saída das abelhas. Quando o apiário se situa numa encosta não há muito a decidir, esta escolha recairá obviamente sobre a exposição da própria encosta.
Diz a regra que as colmeias deverão estar viradas para Sul – Nascente, uma margem de manobra de 90º, para que a entrada tenha o maior número de horas de luz por dia, tal como também protege as ditas entradas dos ventos frios do Norte.
Há dois meses encontrei um excelente local para fazer um apiário. Muito rosmaninho e estevas na encosta de um ribeiro, e sem abelhas por perto. Nem pensei duas vezes, passei uma rica tarde a cavar e arrancar mato. Só no fim me apercebi que... estava quase virado para Norte! Nem tudo ficou perdido, é um excelente local para o Verão, e acabei por encontrar outra encosta próxima e com boa exposição.

4. Protecção de Ventos Dominantes

Este ponto acaba por estar muito relacionado com o anterior.
Quer pelas baixas temperaturas a que poderão estar associados, ou pelos distúrbios que causam no voo de tão pequenos insectos, os ventos dominantes podem e devem ser evitados de várias formas:
i) Instalação do apiário em socalcos a meia encosta.
ii) Protecção por sebes naturais, árvores ou arbustos.
iii) Muros de pedra ou alvenaria, etc.
Creio que se torna desnecessária a construção de elaborados, e caros, muros em alvenaria, com telhado e outras extravagâncias, a não ser que se tenham poucas colónias e tratadas como animais de estimação.

5. Proximidade de Água

Apesar de não parecer trata-se de um dos factores de produção mais importantes, sobretudo na estação quente. A água a grandes distâncias implica a mobilização de muitas abelhas para essa função, abelhas que fazem falta para outras funções...
Os apicultores costumam resolver o problema com bebedores artificiais, atestados periodicamente, mas a água parada com o calor do Verão tende sempre a ficar insalubre. No entanto, acho sempre curiosas as pequenas pranchas de cortiça, colocadas em tanques ou outros recipientes para que as abelhas não se afoguem.
O ideal será sempre uma fonte de água corrente e não poluída, ribeiro ou regato, com margens baixas e arenosas onde as abelhas possam beber.

6. Afastamento de Fontes de Poluição

A proximidade de ETARes, rios poluídos e outras fontes de contaminação química e bacteriológica, é altamente desaconselhada para o assentamento de colmeias.
Nos últimos anos a instalação exagerada de antenas das operadoras de telemóveis e outro tipo de retransmissores, além dos já antigos cabos de alta e muito alta tensão, têm causado diversos distúrbios nas colónias de abelhas. Mercê de sensores específicos, sensíveis a estímulos que a nós passam despercebidos, as abelhas reconhecem, orientam-se e “desorientam-se” com a radiação electromagnética, pelo que a distância às referidas antenas, postes e cabos é sempre desejável.
Continua...

... outro pensamento

O surgimento da Varroa até "aliviou" a consciência do apicultor.
Antes “roubávamos” o mel às abelhas, agora dão-no-lo em troca da vida...

09 dezembro, 2008

As Zonas Sanitárias Controladas e o Mito do Correio Azul...


Há uns anos atrás, era eu criança, aprendi que se colocasse uma carta no Correio, regra geral ela chegava ao destino no dia seguinte. Tempos mais tarde, alguém inventou o “Correio Azul”, muito mais rápido e caro que o convencional, cheguei a pensar que a correspondência chegasse ao destinatário no próprio dia. Nada disso, o Correio Azul demorava as mesmíssimas 24 horas, o convencional é que ganhou o estatuto de não prioritário, passando a demorar mais tempo.
No fundo, o Correio Azul não trouxe nada de novo, a não ser mais lucros para os CTT de então.
Depois inventaram o Correio Verde, foi quando me ocorreu que a escala de cores do visível ainda tinha pano para mangas a explorar e decidi-me então pelo correio electrónico, impessoal e cinzentão, mas é rápido e barato...

Há uns anos atrás, eu já não era criança e aprendi que o Programa Apícola Nacional(1) levado a bom termo, poderia controlar e quase erradicar boa parte dos problemas sanitários da apicultura.
Nesse tempo, a filosofia do dito Programa era precisamente o combate à Varroose, mediante o recenseamento dos apicultores e respectivas existências, culminando na extremamente importante: distribuição gratuita de medicamentos.
Foi também quando se começou a falar nas Zonas Sanitárias Controladas (ZSC), cujo estatuto só previa deveres para os respectivos gestores e por isso depressa foram esquecidas.
Recentemente, verificou-se uma alteração aparentemente pouco importante na filosofia das ditas Zonas, mas que marcou toda a diferença: o direito a um ou mais técnicos pagos por fundos comunitários para gestão e controlo das ZSC. Começaram então a surgir um pouco por todo o lado como cogumelos, o que à primeira vista parecia ser o fim das moléstias apícolas.
A grande novidade veio então como uma revelação, no Programa Apícola Nacional – 2008/2010, a distribuição gratuita de medicamentos passou a contemplar apenas as referidas ZSC. O resto do país talvez tenha ficado com o estatuto de Latrina Sanitária Descontrolada, pois apesar da ajuda de 90%(2) para aquisição do medicamento, os apicultores ainda tinham de pagar uma quantia avultada...

À semelhança do Correio Azul da minha infância, as Zonas Sanitárias Controladas também não trouxeram nada de novo, ficaram com o estatuto que antes contemplava a totalidade do território, remetendo as restantes áreas para um plano secundário e sem importância do ponto de vista da sanidade apícola.

Lembro-me de nos “tempos áureos” do Programa Apícola os técnicos serem instruídos no sentido de angariarem o maior número possível, senão a totalidade, de registos de apicultores, de modo a que os medicamentos acaricidas homologados chegassem a todos os apiários, e só assim se podia debelar a temível doença. Uma das premissas dessa estratégia era que as colmeias tivessem um tratamento sincronizado e de preferência com o mesmo produto. Caso contrário, a Varroa mantinha-se nos apiários não tratados durante a medicação dos outros e vice versa, sobrevivendo assim aos sucessivos tratamentos.
Agora só se focam as atenções nas áreas de estatuto especial em detrimento do resto, cada associação compra os medicamentos que quer... ou que pode... ou nem compra.
Ficam-me no entanto algumas questões sem resposta:
Assumindo que a Varroa é de facto controlada nas ZSC's, como impedem que os ácaros respeitem essa fronteira? Com áreas tampão? E a mobilidade dos enxames? E a dos zangãos? E as colónias selvagens? Por vezes assumimos para as abelhas comportamentos e características próprios de outros animais, como as vacas, as ovelhas ou os porcos, por isso surgem sempre uma série de imprevistos que nos fogem ao controlo.
E a proximidade de outros apiários, das “Zonas Descontroladas”?, o ordenamento que há uns anos se previa fazer com levantamentos por GPS, caríssimos e adquiridos pelas associações ao abrigo do Programa, não passou da fase teórica.
Assumindo igualmente que as Zonas Sanitárias Controladas obrigam ao uso exclusivo de medicamentos homologados, até porque os outros não existem, o que fazer no caso de Loque Americana ou outra enfermidade que não a Varroose? Talvez o Programa preveja a contratação de algum curandeiro para fazer rezas e mezinhas às abelhas... Tenho pouca fé nos abates sanitários e respectivas indemnizações, até porque estas últimas custam mesmo muito dinheiro.
E relativamente aos transgénicos nas ZSC's? A sanidade das abelhas não é só afectada por agentes químicos e microbiológicos...

À data do “fecho da edição”, conversava animadamente sobre o assunto com um apicultor associado na ADERAVIS. Contou-me ele que possui um apiário privilegiado, instalado numa ZSC, onde foi colhida uma amostra de abelhas para análises anatomopatológicas em Março passado, pela qual pagou a módica quantia de 5,00€. Nove meses depois, ainda não recebeu o resultado da dita análise. Se as respectivas colónias forem portadoras de uma moléstia grave, em vez do diagnóstico o laboratório pode enviar-lhe é a certidão de óbito.

Zonas Sanitárias Controladas? Sim! Com toda a urgência, mas uma única que abarque a totalidade do território, a totalidade das colmeias e moléstias, e... com controlo...

(1) Nesse tempo, chamava-se Programa de Acções de Melhoria da Produção e Comercialização do Mel.
(2) 90% em 2008, 50% em 2009 e ... 0% em 2010.

MelToon - 16

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07 dezembro, 2008

Avis mellifera 2008...


O CONCURSO DE MEL

Júri: Eng.º José Joaquim Gardete
Eng.º Paulo Varela
Dr. Pedro Branco

Mel Multifloral: 24 amostras

José Manuel Amâncio – Fronteira
João Domingos Rosa – Avis
Hélder Jesus Ventura – Vale de Maceiras

Mel de Rosmaninho: 16 amostras

1º Maria Luísa S. Garcia – Benavila
2º Carolina Paraire Durão – Ponte de Sor
3º José Francisco Cortes Traquinas – Avis

O Júri...

O Mel de Rosmaninho

Mel Multifloral

Os troféus...


O COLÓQUIO
Presidente da Câmara Municipal de Avis e Direcção da ADERAVIS

Apesar das condições meteorológicas, o colóquio contou com mais de 70 participantes, entre associados da ADERAVIS e provenientes de outros locais do país.
O Presidente da Câmara Municipal de Avis, Dr. Manuel Libério Coelho, e a Direcção da ADERAVIS abriram o colóquio dando as boas vindas a todos os participantes.
Os oradores...


Moderador: Eng.º José Joaquim Gardete

1º tema: Programa Apícola Nacional, Dr.ª Helena Cosinha, DRAPAL.
Nesta comunicação foram apresentadas as diversas “Acções” e respectivas “Medidas” do referido programa, com especial ênfase para a Assistência Técnica.

2º tema: Sanidade Apícola – Varroose, Dr. Filipe Nunes, Laboratório Hifarmax.
Apresentação sumária da biologia do ácaro Varroa destructor, os efeitos nas colónias de abelhas e os métodos e medicamentos usados no controlo da doença.
Foram ainda apresentados estudos de eficácia, conselhos e metodologias de aplicação de diversas substâncias activas.

3º tema: Comercialização do Mel, Dr. Vitor Morgado, COOP Lisboa.
Uma abordagem curiosa à problemática das dificuldades de comercialização do mel, face às complexas e crescentes exigências do mercado. Um notório apelo ao associativismo e organização dos pequenos produtores, no sentido de mais facilmente enfrentarem os obstáculos inerentes a tal processo.

4º tema: Unidades Primárias de Produção, Eng.º Paulo Varela, Montemormel.
O assunto que está na ordem do dia e no topo das preocupações dos produtores/vendedores de mel. Foram apresentadas as exigências legais necessárias ao registo das referidas instalações, tal como os principais equipamentos e materiais aconselhados para a obtenção de um mel salubre e sem riscos de laboração para o operador.

O DEBATE

Um dos momentos altos da tarde e sobretudo muito participado.
As primeiras “farpas” foram para o Programa Apícola Nacional, parece mentira, nomeadamente para o atraso de oito meses e para a ridiculamente exagerada carga burocrática, prazos surreais e demais “infuncionalidades” que há muito o caracterizam.
Ainda relativo ao dito Programa, foi levantado o problema da voluntariamente forçada “perda de direito” ao medicamento, pelos apicultores fora das Zonas Sanitárias Controladas, ou seja, pela maioria dos apicultores. Neste ponto foi largamente reconhecida a importância da apicultura para lá das razões económicas, nomeadamente a sua importância social e ambiental, razões de sobra para que os apicultores TODOS continuassem a receber as habituais ajudas.
Mais uma vez, as exigências inerentes ao registo das Unidades Primárias de Produção, foram alvo de crítica pelos apicultores, dado o desajustamento da legislação em vigor face ao sector apícola. Demonstrando-se mais uma vez que tais regras pouco mais são que uma colagem sem imaginação e adaptada de outros sectores pouco ou nada relacionados.
Relativamente à comercialização, lamentaram-se as regras selvagens que regem os mercados, em particular a especulação promovida por armazenistas e grandes superfícies comerciais.

O único aspecto negativo a assinalar: a ausência de um representante da DGV, convidado para a apresentação do 4º tema. De lamentar que as referidas Jornadas não tenham suscitado junto da autoridade sanitária nacional um mínimo de interesse que justificasse o envio de um técnico.
Fica a dúvida para a autoridade moral a que um dia poderão ter de apelar na fiscalização das mesmas unidades primárias de produção.


Um obrigado especial a todos os participantes, em particular aos que se deslocaram de locais distantes para assistirem às jornadas.

03 dezembro, 2008

Avis mellifera

Só faltam 3 dias, é já no Sábado,
14:30 Salão da Junta de Freguesia


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Notícias: Seixal Mel


A 6.ª edição do Seixal Mel decorre entre os dias 2 e 6 de Dezembro, na Estação de comboios da Fertagus, em Corroios. A feira pretende divulgar o mel e sensibilizar, em especial as crianças das escolas do concelho, para os benefícios que o mel e os benefício que tem para a saúde. Durante este período os visitantes podem participar em provas, visitar uma exposição sobre o mel e adquirir os produtos da colmeia disponibilizados por vários apicultores da ASBA - Associação dos Apicultores do Seixal, Barreiro e Almada.
As crianças das escolas do concelho podem ainda visionar um vídeo didáctico sobre a vida das abelhas e participar numa exposição colectiva através dos desenhos que venham a realizar durante a iniciativa.
A iniciativa é organizada com a colaboração da ASBA e conta com o apoio da Fertagus - Travessia da Tejo, SA.

O Sexo dos Anjos


Nada caracteriza mais um apicultor que a vontade de falar ou discutir qualquer assunto relacionado com a actividade. Às vezes a coisa mais disparatada que se possa imaginar é motivo para horas de conversa.
Já me justificaram isso como resultado das horas de solidão no meio do mato, entre covas e cabeços, ainda por cima separados do mundo pela rede omnipresente da máscara. Um amigo meu dizia-me uma vez que depois de um dia nas abelhas via tudo aos quadradinhos...
Certo é que uma vez tive uma discussão dessas, aliás tive dúzias delas, mas nesta não chegamos a consenso. O diferendo prendia-se com o transporte de colmeias povoadas, onde eu era apologista dos quadros paralelos ao deslocamento do veículo e o outro apicultor defendia a perpendicularidade dos mesmos.
Quem não tiver nada a ver com a apicultura e ler o parágrafo anterior vai passar a olhar para um frasco de mel como quem olha para uma fórmula matemática... mas acredite que isto são só aparências, o mel continua a ser doce como era e até engorda...
O imbróglio da dita conversa encalhava na incerteza dos dois contendores, sobre se um veículo em andamento oscilava mais para os lados ou para a frente e para trás. No primeiro caso a verdade era dele, no segundo, contando com as travagens e acelerações bruscas a razão era minha.
Até que alguém invente um “oscilômetro” que registe os solavancos do caminho, resolvemos deixar a conversa em espera, até lá conduzam com cuidado para não sacrificar as abelhas.

02 dezembro, 2008

MelToon - 15

O primeiro MelToon de FELIZ NATAL...

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