10 junho, 2009

A Varroose e a Selecção Natural

Todos os dias ouvimos falar no perigo de a Varroa se tornar resistente aos medicamentos utilizados contra ela. Tal como também ouvimos falar na possibilidade das abelhas se tornarem resistentes ao ataque do dito ácaro.

De que forma se poderão dar tais alterações nas abelhas e nas varroas?
Como podem evoluir estes organismos de forma a poderem defender-se respectivamente de um parasita e de um veneno?
Em que medida o ser humano pode intervir no sentido de direccionar a evolução no sentido que lhe interessa?


Em qualquer população de seres vivos, obviamente da mesma espécie, eles não são todos iguais. Para cada característica que se considere em cada um, há diferenças, algumas muito subtis, mas há sempre uma gradação de tais diferenças.
Se considerarmos a característica ou parâmetro “altura” numa determinada população de seres humanos, verificamos que existem desde muito baixos (1,50m ou menos) até aos muito altos (2,0m) ou mais, passando por todos os tamanhos intermédios.
Se agruparmos essas “alturas” em classes de dez centímetros por exemplo, verificamos que há grupos muito mais numerosos que outros. Os grupos com alturas intermédias (1,60m a 1,70m) terão muito mais indivíduos (maior frequência) que o grupo (1,90m a 2,00m). Este grupo de indivíduos muito altos tem uma frequência semelhante ao grupo dos muito baixos (1,50m a 1,60m).
No entanto, nessa população também existem indivíduos mais baixos que 1,50m e mais altos que 2,00m , só que em frequências muito baixas.

Se representarmos graficamente essa distribuição de classes de altura em função da frequência de cada uma, surge-nos uma curva como a seguinte:

Gráfico 1
É uma curva em forma de sino, chamada “distribuição normal” ou “distribuição de GAUSS”.
Tal gráfico é válido para a maioria das características quantificáveis de qualquer população de seres vivos, como a altura dos seres vivos, o peso, a tendência para engordar, a agressividade, resistência à Varroose, comprimento dos dedos, etc...
A distribuição normal, ou de GAUSSE, foi desenvolvida pelo matemático francês Abraham de Moivre em 1773, e permite-nos estudar estatisticamente um sem número de fenómenos naturais.
Se voltarmos ao exemplo inicial (altura dos seres humanos) deparamo-nos exactamente com o mesmo resultado:

Gráfico 2
As características intermédias é que definem determinada população (homens com 1,70/1,75m) pois são as mais frequentes, já as características extremas (mais raras) também existem, mas em menores frequências (são a excepção que confirma a regra...).

Mas de que forma é que tais distribuições de características nos seres vivos explicam a sua evolução?

Em 1809 o naturalista francês Lamarck propôs a teoria dos caracteres adquiridos, em que se demonstrava num curioso exemplo, como uma população original de girafas de pescoço curto evoluíra nas actuais girafas de pescoço longo.
Segundo ele, como a população de girafas aumentava muito, mais que os recursos, a vegetação rasteira e arbustos começou a escassear pela pressão causada por tantos seres vivos que se alimentavam dela.
Dessa forma, as girafas originais, de tanto esticarem o pescoço para chegarem à copa das árvores, ficavam com o pescoço mais comprido e passavam essa característica à sua descendência. Os seus filhos, de pescoço mais longo, voltariam a passar pelas mesmas dificuldades, faziam os mesmos esforços e voltavam a transmitir essas características aos seus próprios filhos. Ao fim de muitos anos e muitas gerações surgiram (gradualmente) as girafas de pescoço longo, tal como as conhecemos actualmente.

Mais tarde e graças à Teoria da Evolução das Espécies do inglês Charles Darwin, provou-se que Lamarck estava errado. As características adquiridas por um ser vivo ao longo da vida não se transmitem à descendência.
Tal explicação encontra-se mais uma vez na “Distribuição Normal ou de GAUSSE”:

Gráfico 3
Numa determinada altura, em que a vegetação abundava desde as herbáceas rasteiras até às árvores de grande porte, existia uma população de girafas caracterizadas por possuírem pescoços curtos.
Nessa população e segundo a curva de distribuições, havia uma larga maioria de girafas de pescoço curto, outras (mais raras) de pescoço muito curto e outras ainda (também raras) de pescoço longo. Quando a população aumentou muito a vegetação rasteira começou a escassear, pois a maioria das girafas tinha um pescoço curto. Desta feita, as girafas de pescoço longo teriam mais hipóteses de sobrevivência, sendo por isso beneficiadas (ou seleccionadas) pela selecção natural. Elas e os seus descendentes estavam melhor adaptadas (pois chegavam às árvores altas: alimentavam-se) e reproduziam-se mais.
Ao fim de muitos anos (milhares?/milhões?) a população de girafas passou a ter um pescoço longo, a pressão da selecção natural deu-se no sentido de um pescoço mais longo, a curva de GAUSSE deslocou-se no sentido crescente dessa característica.

Gráfico 4
Claro que se actualmente fizermos um estudo de distribuição de classes de altura do pescoço das girafas, voltamos a deparar-nos com a mesma curva de distribuições: uma mais baixas, outras mais altas e outras muito mais altas ainda, é a regra...
Importa saber que é nessa “salada” de diferenças que a Selecção Natural actua, ou seja, escolhe os indivíduos melhor adaptados através da destruição dos menos aptos.

... tanta conversa e ainda não falamos de abelhas !!!

É agora..., vamos então escolher uma característica das abelhas (que nos interessa) e sujeitá-la ao dito gráfico da distribuição Normal ou de Gauss:

Gráfico 5
Não sei se este trabalho está feito, mas independentemente de estar ou não, e sabendo da resistência média das abelhas ao ácaro Varroa (pouca a nula) pude construir o gráfico anterior.
A larga maioria das colónias de abelhas são sensíveis ao ataque da Varroa. Sabemos disso na nossa prática diária, se não fizermos os tratamentos acaricidas perdemos todas as colónias da nossa exploração.
Também não sei se alguém já fez a experiência (espero que não, e se morar perto de mim pior ainda) de não tratar as colmeias. Se o fizessem, haviam de perceber que num apiário de 50 colmeias a larga maioria morreria em menos de um ano, mas haviam de haver algumas (muito poucas) que duravam mais uns meses.
Estas últimas situam-se mais à direita no gráfico que as primeiras. Não estou de modo algum a dizer que são resistentes à varroa, essas são mesmo muito raras, e a sua probabilidade numa exploração de 50 colmeias è decerto nula, mas pode ocorrer. Elas estarão nalgum lado, e de acordo com tal teoria ocorrem numa frequência muito reduzida mas existirão decerto. Talvez se tomarmos como amostra uma região, aí sim já poderemos encontrar algumas colónias resistentes.
Veja-se a região de Primorski, na Rússia, onde segundo Alejandro Garcia existem abelhas com o comportamento SMR. (VARROOSE, O PRINCÍPIO DO FIM ??? - Montedomel – 09/06/2009).

Nessa óptica e deixando de tratar as colmeias, ao fim de alguns anos (muitos) a pressão causada pelos ácaros levaria a que a maior parte das abelhas se extinguisse, sobrevivendo apenas as colónias da extremidade direita do gráfico. A curva Normal ou de GAUSS ia-se assim deslocando no sentido das colónias mais resistentes.

Gráfico 6
Findo o processo, a curva do gráfico nº 5 seria alterada para:

Gráfico 7
No gráfico nº 7, a classe mais frequente (dita normal), de resistência à Varroose seria a das colónias de abelhas “muito resistentes”, já as menos resistentes e sensíveis ficariam reduzidas a uma minoria na extremidade esquerda do gráfico.
Entretenho-me a pensar nas “raridades” que ficariam mesmo na pontinha direita do dito gráfico, tais abelhas deviam ser autênticas “vampiras” para as varroas...

Poderemos perguntar porque razão as abelhas com tais características (muito resistentes) não manifestaram ainda o seu vigor (resistência) contra a Varroose?
A resposta é muito simples, elas ocorrem em quantidades mínimas, autênticas raridades (veja-se a sua frequência no gráfico nº 5), e no estado actual das coisas não têm qualquer vantagem selectiva sobre as outras abelhas, uma vez que todas as colónias são medicadas com acaricidas. Anulado o ácaro com produtos químicos, anula-se a pressão da selecção natural.
Poder-se-ia (e pode-se) extrapolar esta regra para o ser humano: se não houvessem médicos e medicamentos, decerto haveriam muito menos doenças e doentes... Tais medidas eram boas para a espécie mas más para o indivíduo. A Segunda Guerra Mundial deu-se por causa de uma tentativa semelhante...

Mas, não há bela sem senão...

Estas regras também se aplicam ao ácaro Varroa destructor, relativamente à sua distribuição Gaussiana por classes de resistência aos medicamentos acaricidas:

Gráfico 8
Se a grande maioria das varroas “ainda” é sensível aos medicamentos, uma boa parte já apresenta algum grau de resistência. Por outro lado, na extremidade direita do gráfico existem as tais “raridades” muito resistentes.
Com as doses massivas de químicos que se adicionam às colmeias, independentemente do grau de infecção, formulações caseiras, desrespeito pela duração dos tratamentos e outros malabarismos que se fazem com os acaricidas, estamos a direccionar a selecção no sentido de varroas cada vez mais resistentes:

Gráfico 9
O contacto constante das varroas com os medicamentos leva à diminuição (ou extermínio) das mais sensíveis, deixando a colmeia livre para as mais resistentes, que sem competidores se começam a reproduzir mais e a deixar mais descendentes.
Daqui tiramos outra ilação curiosa: as varroas, no exemplo anterior, ganharam resistência a “um” medicamento, “uma” substância activa. O que já não é verdade para uma substância activa diferente, para a qual serão decerto sensíveis.

Gráfico 10
Face ao exposto, e ao fim de umas quantas sessões a usar uma determinada substância activa, o fluvalinato por exemplo, devíamos tratar umas quantas vezes com timol, seguindo-se depois o amitraz... Desta forma conseguíamos evitar ou diminuir bastante a incidência de resistências.

A mensagem principal deste post pretende uma reflexão sobre os conhecimentos da evolução dos seres vivos (natural e artificial), de modo a usá-los no combate à principal moléstia da Apis mellifera.
Uma das ideias em que mais insisti, parece apontar para o fim da adição de acaricidas às colmeias e com isso despoletarmos os mecanismos evolutivos direccionados para uma resistência crescente das abelhas ao parasita varroa. Esta “teoria” não é original, nem tão pouco é recente, desde o primeiro dia da “invasão” que se fala nela.
Mas valerá a pena correr o risco? Existirão mesmo as ditas colónias resistentes, diluídas nos milhões de colmeias dos apicultores? O seu número será significativo para dar continuidade à espécie Apis mellifera?
E se as coisas corressem mal? Como ficaríamos?
Se a decisão dependesse de mim, eu nunca arriscaria...

09 junho, 2009

Varroose, o princípio do fim ???


Comportamento SMR das abelhas, uma das notícias mais curiosas que vi este ano.
O comportamento SMR, (Suppress Mite Reproduction) ou Supressão da Reprodução dos Ácaros, é um comportamento natural das abelhas que as leva a detectar Varroas na criação operculada, desopercular essa criação contaminada, desalojar os ácaros de Varroa e assim diminuir o grau de infestação.
Segundo Alejandro Garcia – Espanha, as primeiras abelhas a mostrar o comportamento SMR foram as abelhas Russas da região de Primorski, onde a Varroa primeiro entrou no continente Europeu. Ao que parece, os fortes ataques do ácaro, somados a Invernos muito rigorosos permitiram apenas a sobrevivência das colónias de abelhas mais fortes e que “lutaram” contra o invasor.
Dessa forma, a selecção natural agiu no sentido de “favorecer” as colónias de abelhas com características mais resistentes, ao contrário do resto do mundo em que se “inundaram” as colmeias com produtos químicos muitas vezes desnecessários e que tornaram os ácaros cada vez mais resistentes.
José Manuel Flores Serrano e Francisco Padilla Álvarez, da Universidade de Córdoba – Andaluzia, estão a fazer a selecção desse comportamento através da inseminação artificial. Tal trabalho visa sobretudo dar primazia à selecção de abelhas geneticamente mais resistentes à Varroa em detrimento dos tradicionais químicos de síntese.
Os apicultores podem ajudar neste trabalho seleccionando nos seus apiários as colónias com este comportamento. É muito fácil de identificar, tratam-se das colónias em que se observam nos quadros com criação operculada, pupas (abelhas quase no estado adulto) perfeitamente formadas e de aspecto saudável mas desoperculadas. Algumas já apresentam pigmentação nos olhos. A presença de opérculos mais abobadados, resultantes da reoperculação, é também um indício do SMR.
Tal observação não indicia de modo algum que a colmeia esteja livre de Varroa. O que se disse é que tais abelhas se permitem viver com os ácaros que tenham menos descendência.

O comportamento SMR processa-se da seguinte forma:

Algumas abelhas amas, ao que parece bem poucas, apercebem-se de presença de ácaros na criação operculada e desoperculam-na. O simples acto de “abrir” os alvéolos operculados faz com que a Varroa os abandone.
Caso isso não aconteça, outras abelhas tentam retirar as Varroas do alvéolo contaminado e voltam a operculá-lo, deixando a pupa saudável e sem ácaros. Se ainda assim não o conseguem, retiram tudo (pupa e ácaros) e limpam o alvéolo para que a rainha faça nova postura.
Este trabalho parece ser efectuado por abelhas com diferentes “sensibilidades”, a primeira (detectora), localiza os alvéolos contaminados e inicia a desoperculação, continuando com a mesma tarefa noutros alvéolos. Atrás dela vêm outras abelhas que retiram as Varroas e reoperculam ou limpam o alvéolo.
O comportamento SMR não elimina as Varroas de uma colmeia, impede muito a reprodução dos ácaros mantendo a sua população em níveis aceitáveis que permitam a sobrevivência das abelhas. Nas colónias onde este comportamento é mais acentuado, a colónia subsiste sem a intervenção humana, ou seja, sem adição de acaricidas.
Um dos problemas inerentes ao estudo em causa é que tal selecção se obteve mediante um nível muito intenso de consanguinidade, para que se conseguissem obter tais características, o que resulta num padrão defeituoso e descontinuo da criação (criação em pimenteiro). Tentar-se-á resolver este efeito colateral no futuro, mas quando se tenta seleccionar um determinado caracter muito raro, a consanguinidade parece ser o método mais usual.

De facto já tenho observado nas minhas colmeias, nos quadros de criação operculada, séries de dez a vinte alvéolos desoperculados onde vejo as respectivas pupas de aspecto muito saudável. Interrogava-me porque razão a criação daquela idade já estaria desoperculada? Desconfiei de motivos higiénicos, mas as pupas de cor branca e aspecto saudável não apresentavam nenhuma moléstia ou malformação visível...
Vou tentar tirar fotos na próxima oportunidade, até lá vejam estas retiradas de: http://apicultura.entupc.com :

Fig. 1 – Foi detectada a presença do ácaro e começa-se a desopercular o respectivo alvéolo. Note-se a ninfa em perfeito estado e com os olhos a começar a escurecer.

Fig. 2 – Um estado mais avançado da desoperculação.

Fig. 3 – As abelhas começam a reopercular o alvéolo saneado, onde a pupa sobreviveu ao processo sanitário.

Fig. 4 – Quase terminada a reoperculação, observe-se o aspecto do opérculo: já não fica plano como os que estão à volta, mas mais abaulado ou abobadado.
A presença destes opérculos também é um indício do SLR, não confundir com os alvéolos com larvas de zangão...


Fig. 5 – Alvéolo reoperculado (mais abobadado).

(Fotografia: Alejandro Garcia)
Agradecimentos a Carlos Correa : Brasil

08 junho, 2009

MelToon - 38

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07 junho, 2009

Abelhas sem Ferrão - Meliponário do Sertão

Esta semana, chegou-me um comentário do Brasil acerca de uma identificação errada que fiz sobre os meliponineos.
Por causa disso percebi que o autor do comentário (Kalhil França) era também o autor de um excelente blogue sobre as abelhas sem ferrão http://www.meliponariodosertao.blogpost.com. Desta feita, convidei o Kalhil a escrever um artigo para o montedomel, onde nos contasse a sua experiência sobre esses fantásticos polinizadores e produtores de mel, que ainda por cima não picam...

A pedido do Amigo Joaquim me foi solicitado que escrevesse alguma coisa sobre as abelhas, contudo, devo confessar que não sou um grande conhecedor do mundo da Apis Melífera, principalmente das espécies que são criadas na Europa, em especial em Portugal.
Fora isso, ainda persiste em mim, mesmo tendo um contato muito próximo com a apicultura, um receio muito grande no manejo. ­­Devo confessar que não tenho muita simpatia com as abelhas de Ferrão, haja vista o meu conhecimento de muitos acidentes e mortes na minha região com as abelhas Africanizadas do Brasil, abelhas essas extremamente defensivas (se não agressivas), bem diferentes da mansidão das Apis européias.

Mas logicamente, sei da importância que ela desempenham na natureza, sem as abelhas com ou sem ferrão, não há como se manter a cadeia de sobrevivência de muitas árvores, sem falar da nossa própria sobrevivência que dependem diretamente delas.
Na verdade, minha paixão (paixão não, amor incondicional) é pelas abelhas sem ferrão (meliponicultura), posso dizer que o meu contato inicial com o mundo das abelhas sem ferrão foi muito recente, mas intenso, foi amor a primeira vista e desde aquele dia a minha vida se transformou de uma maneira completamente inesperada.
Antes de continuar esse pequeno relato, gostaria de me apresentar, meu nome é Kalhil Pereira França, tenho 28 anos, nasci e me criei em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, Brasil.
Sou servidor público do Ministério Público Estadual, advogado por formação acadêmica e meliponicultor por vocação.
Certa vez, durante uma roda de bate papo com alguns amigos, um deles que é dentista, me relatou que criava alguns enxames de abelhas em casa. Eu tomei um susto imenso, como pode alguém criar abelhas em casa? Área urbana, próximo a colégios, hospitais, aquilo era um perigo!
Fiquei eu extremamente surpreso quando ele me disse que as abelhas que ele criava não tinham ferrão, como pode abelha não ter ferrão? Ora, claro que existem abelhas sem ferrão, só no Brasil, se estima que existam mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão (ASF), elas são as verdadeiras abelhas nativas de nossas matas e florestas.
Veja o quanto da minha falta de conhecimento sobre o assunto, principalmente porque eu só conheci durante toda a minha vida a Apis Melifera, abelha essa de ferrão que vocês conhecem tão bem.
Lembro-me demais desse dia, pois ao chegar em casa fui correndo ao computador pesquisar na internet sobre as tais abelhas sem ferrão, Uruçu, Moça branca, Jataí, Tiúba, Jandaíra etc.
Desse dia em diante surgiu em mim uma paixão que só quem é do ramo pode entender, não explicar, fui aos poucos conhecendo o mundo maravilhoso das abelhas sem ferrão e aos poucos fui me tornando um grande curioso/estudioso sobre seus comportamentos e manejos adequados, principalmente porque os estudos sobre essa área ainda são muito recentes e caminham a passos curtos.
Atualmente crio 9 tipos de Abelhas sem Ferrão, damos ênfase na Abelha Jandaíra (melípona subnitida) haja vista ser a mais indicada para a minha região, tenho dois grandes meliponários, cada um com mais de 200 colônias que possui focos na produção de mel e formação de novas colônias para comercialização na região e em todo o Brasil.
Venho também, já algum tempo, realizando muitos estudos comportamentais para compreender afundo o complexo ritual de postura das Jandaíras e outras melíponas, tenho contado inclusive, com a orientação de um grande Mestre português, o Dr. Pedro Cappas e Souza, uma das maiores autoridades em estudos comportamentais sobre melíponas, pessoa demais atencioso e profundo conhecedor do mundo comportamental dos insetos sociais.
Há muitas diferenças entre a Apis melífera e as nossas abelhas nativas, a apis constrói no mesmo espaço as crias e ou mel, Já as ASF fazem em lugares distintos, existe uma região para as crias, as ASF fazem potes de alimentos, já a apis faz favos, fora que as técnicas de manejo são completamente diferentes, não se usa macacão nem roupas especiais, não se usa fumaça, as caixas são bem diferentes.
As técnicas de reprodução também, as melíponas (uma tribo dos meliponídeos), por exemplo, não fazem realeira, a célula real é do mesmo formato da obreira comum, não há como se saber qual célula tem uma rainha, é um grande mistério, principalmente porque ainda não se sabe quando a rainha põe ovos reais. Mas isso não é problema pois 20% das crias que nascem são princesas prontas para serem fecundadas.
As principais diferenças são a população das colônias e o valor do mel.
Enquanto que na Apis podemos encontrar enxames com 60, 70, 80 mil ou mais indivíduos, nos meliponídeos as espécies mais populosas não ultrapassam a casa dos 4.000 indivíduos.
As minhas Jandaíras, por exemplo, uma colônia forte apresenta em média cerca de 800 abelhas, não chegam a mil, produzem, em floradas muito boas, de 1 a 2 kilos de mel/ano, é isso mesmo, ano.
Contudo, elas possuem um ponto a favor, o valor do seu mel. No mercado Brasileiro, enquanto que um Kilo de mel de apis se vende por R$ 3,00 (1 Euro), o mel da abelha Jandaíra pode alcançar nos mercados mais luxuosos o preço surpreendente de R$ 100,00 (cerca de 34 Euros) o Kilo.
A nobreza desse mel se explica, o alto valor se deve principalmente pela raridade do mel, devido ao desmatamento de nossas matas, a cada dia fica mais difícil encontrar uma Jandaíra na natureza, fora isso, seu mel é muito suave, com uma cor dourada muito bonita, tem sabor super agradável, não é enjoativo pois possui um teor mais baixo de açúcar e tem uma concentração maior de água, chega em épocas do ano a ter entre 26% a 29%.
Estudos recentes de Universidades do Brasil comprovam que o mel de várias ASF possuem teor bactericida até 15 vezes mais intenso que o mel comum (apis). São verdadeiros antibióticos naturais, ainda muito pouco conhecidos até mesmo pelos próprios meliponicultores no meu País.
Na minha região o mel da Jandaíra é tido pelos mais velhos como medicinal, se usa o mel como remédio para tratamento de muitas doenças, inflações de garganta, dores de ouvido, conjuntivites, feridas abertas, queimaduras etc.
Mesmo com essas grandes qualidades, boa parte dessas abelhas é desconhecida pela população, não só isso, o próprio poder público não procura investir na preservação dessa riqueza nacional, que é a imensa variabilidade de espécie de abelhas sem ferrão.
O nosso órgão fiscalizador ambiental, o IBAMA (Instituto Brasileiro de Proteção ao Meio Ambiente), simplesmente desconhece a existência dessas abelhas em nosso território.
No próprio site do órgão, na relação de abelhas nativas do Brasil, só consta a existência de 4 espécies, se não fosse trágico seria até cômico, pois esse desconhecimento transforma muito criadores conservacionistas, amantes da natureza, em criadores clandestinos, ilegais.
Bem, sem querendo me alongar mais, conclamo a todos os amigos do monte do mel a darem uma passadinha no blog do meu Meliponário, “Meliponário do Sertão” (www.meliponariodosertao.blogpost.com) para conhecerem mais a respeito do maravilhoso mundo das abelhas sem ferrão do Brasil.
Gostaria de Agradecer ao amigo Joaquim pelo espaço cedido, confesso que fiquei muito feliz em saber que existe este espaço tão bem cuidado, com tanta informação sobre o Mundo da Apis Melifera, espaço esse que passarei a adotar nas minhas leituras diárias.
Atenciosamente,

Kalhil Pereira França
Mossoró-RN-Brasil
(84) 91502506
kalhil_p@yahoo.com.br

05 junho, 2009

“Elas querem é desprezo... “

Há uns anos atrás, enquanto dava uma formação de apicultura aqui perto, passou-se mais uma daquelas “estórias” das abelhas que nunca mais vou esquecer...
Faltavam poucos dias para a primeira aula prática, primeira visita a uma apiário para alguns, e os formandos andavam visivelmente excitados.
Estávamos em Fevereiro ou Março e eu tinha deixado “esquecido” um apiário num local de Verão, onde ficara desde a última transumância para o Girassol. Já nem sei se por preguiça ou porque começou a chover mais cedo e a minha carrinha deixou de ter acesso àquelas estradas enlameadas. Mas se quiserem apostem mesmo na preguiça...
Recordo-me que era um lugar muito agradável, na margem de um ribeiro com árvores altas e boas sombras.
Como já lá não ia há algum tempo, resolvi perguntar ao guarda florestal, meu amigo, se o apiário estava em condições para ir mostrar aos formandos. “Se eu fosse a ti não ia...” foi a resposta, “as colmeias mal aparecem no meio do trigo e só devem estar duas ou três vivas”, e eu tinha lá 22...
De facto fizeram uma sementeira de trigo nesse local, durante o Inverno. Eu não costumo agir assim, mas recordo-me que foi no ano em que comprei a casa e as minha atenções desviaram-se bastante das abelhas.
Não me querendo dar por vencido, comecei logo a preparar os formandos na última aula teórica, dizendo-lhes que o apiário estava em muito más condições e que seria uma excelente oportunidade para aprender com os erros (dos outros... meus!). Seria até um grande desafio tentar recuperar as poucas colmeias sobreviventes.
Dia D, hora H, e lá estávamos todos no local, as piadinhas do costume entre a rapaziada, acerca das picadas das abelhas e da resistência dos equipamentos que vestiam pela primeira vez, enfim...
Enquanto me equipava ia lançando uns olhares de soslaio às colmeias, que de facto pouco mais se viam que o zinco dos tampos por entre o trigo. Mas àquela distância era impossível ver quais tinham ou não tinham abelhas.
Enquanto nos aproximávamos, eu parecia ir enfrentar um pelotão de fuzilamento, que grande vergonhaça iria passar... Nem as piadas idiotas deles me chamavam a atenção.
Perante o grupo e no meio do cereal lá abri a primeira colmeia, morta claro, nem outra coisa era de esperar. A segunda colmeia, completamente cheia de abelhas, os quadros do ninho todos ocupados e uma grande e ruidosa população saudável. Era a tal excepção que costuma confirmar a regra, pensei eu. Mas a terceira colmeia estaria igual ou melhor que a segunda, a quarta igual à terceira, a quinta, a sexta...
Saldo final: das 22 colmeias havia uma morta e outra fraca, as restantes pareciam ter saído de um SPA para abelhas!...
Foi precisamente na penúltima ou antepenúltima colmeia do apiário, que registei uma conversa entre dois dos formandos mais velhos, abelheiros de longa data, numa daquelas pronuncias Alentejanas muito “carregadas”:
"Está mais que visto que elas (as abelhas) querem é desprezo...”

04 junho, 2009

Leptus ariel, a nova doença ?


Esta semana, o amigo Carlos Correa enviou-me uma revista de apicultura do Brasil. É editada pela APACAME – Associação Paulista de Apicultores, Criadores de Abelhas Melificas Europeias. É de distribuição gratuita entre os associados: 7200 associados, quase metade dos apicultores portugueses registados..., chama-se “Mensagem Doce” e considerei-a EXCELENTE!
Têm um lema que achei muito curioso, e quem sabe não nos irá trazer alguma inspiração: “Não somos ricos, somos organizados

Uma das notícias a que é dado largo destaque, ironicamente, parece não fazer jus ao nome da revista, ou não se tratasse de mais uma doença (nova doença?) que afecta as abelhas. Ainda por cima se trata de mais um ácaro: Leptus sp. LATREILLE 1796:

“Ocorrência de Larvas de Leptus sp. LATREILLE 1796 (Acarina: ERYTHRAEIDAE) em operárias de abelhas africanizadas Apis mellifera LINNAEUS 1758 (Hymenoptera: APIDAE), no Brasil” da autoria de Érica Weinstein Teixeira.

O estudo foi feito no Estado de S. Paulo, município de S. José dos Campos. Os exemplares do dito ácaro encontravam-se agarrados ao corpo de obreiras de abelhas africanizadas que chegavam à tábua de voo das colmeias. As áreas de fixação preferidas pelas larvas do ácaro foram o tórax e a cabeça das abelhas campeiras.
Existem cerca de 90 espécies descritas do género Leptus (BAKER e SELDEN, 1997) e destas, apenas o Leptus ariel foi confirmada e descrita em Apis mellifera, na Guatemala (SOUTHCOTT, 1989).
A infestação foi constatada em dois apiários no referido município de S. José dos Campos – S. Paulo no final do Inverno de três anos consecutivos (2006, 2007 e 2008). Cerca de 3 a 5 larvas de ácaro, de cor vermelho – alaranjada, por obreira (em média), encontrando-se no entanto algumas com 20.
Como não se encontraram ácaros adultos nas larvas de abelha, os especialistas acreditam que a infestação ocorra fora d colmeia, no campo, provavelmente durante a colecta de néctar e pólen, ou mesmo no contacto com o solo húmido à procura de água.
O ciclo de vida do ácaro não deverá ocorrer todo no corpo da abelha, uma vez que após a fase larvar a abelha é trocada por um lugar abrigado, onde se dá a passagem a protoninfa. Nesse estudo não se encontraram indivíduos adultos nem sequer na fase de ninfa, provavelmente nem se trata de um parasita obrigatório, uma vez que descrevem o adulto como tendo vida livre.

Nos apiários estudados morreram cerca de 20% das abelhas (não havendo referências a baixas no número de colónias). De qualquer forma, tal mortalidade não pode ser correlacionada com segurança ao Leptus ariel, uma vez que não foram encontrados ácaros no corpo das abelhas mortas frente à colmeia.
Também não foram avaliadas outras moléstias/doenças que poderiam ter causado tal mortandade, mas sabe-se que os sucos digestivos produzidos e injectados pela larva do ácaro na abelha produzem alterações fisiológicas consideráveis.

Vamos aguardar por mais novidades, mas de qualquer forma creio que ainda não será este ácaro a desalojar a Varroa dos nossos pesadelos...

02 junho, 2009

Colmeias Diferentes - 9

De passagem pela Serra da Lousã, deparei-me com este curioso apiário na aldeia de Candal.
Parece ser um lugar agradavel para as abelhas, talvez mais trabalhoso na cresta. No entanto os cortiços estavam despovoados...


Já do outro lado da mesma serra, na aldeia de Coentral das Barreiras, duas formas curiosas de estar na apcultura:

Cortiços na prateleira, mesmo à porta de casa e entre as couves. Isto é que é ter as abelhas sempre à mão. Vi este apiário há dois ou três anos atrás, nunca mais o esqueci pela forma do "assentamento". Como passei lá perto, resolvi ir matar saudades e fotografá-lo. Faz-me lembrar uma daquelas fotos antigas, com combatentes da I Grande Guerra, onde um dos soldados ainda conserva o "capacete" na cabeça...


Pertença de uma simpática família, que veio à porta e sorriu ante a perspectiva de ver o seu "cesto do pão" como alvo das atenções.
Esqueci-me de perguntar se se tratava de uma padaria, ou se o cortiço servia para receber o pão quentinho todas as manhãs. Sei que quando o vi fiquei com uma tremenda vontade de comer pão com mel...

28 maio, 2009

Aniversário www.apicultura.forumeiros.com Macedo de Cavaleiros 23-05-09

Para quem não foi a Macedo de Cavaleiros: a minha "conversa"...

seis horas de viagem
seis horas de sono
uns copos ao almoço
desculpas...
Acerca da "festa" de aniversário do forum: FANTÁSTICO
Fica apenas a sensação de pouco tempo para estar com toda a gente...

21 maio, 2009

Quem Quer Ser Milionário ???

Já perdi a conta ao número de jovens e menos jovens que se abeiram de mim com o desejo de se tornarem apicultores.
Invariavelmente, a segunda ou a terceira questão que me colocam, quando não é a primeira, é se “...então e isso dá dinheiro?”.
Claro que dá dinheiro, fortunas, aliás, um dos principais problemas dos apicultores é precisamente onde guardar e o que fazer a tanto dinheiro... Recuperada a calma e o ar sério, lá lhes justifico que até a simples actividade de pregar botões pode dar dinheiro. É necessário muito empenho, dedicação, sorte e algum engenho.
Claro que o “...então e isso dá dinheiro?”, perde toda a inocência quando associado ao “...elas (as abelhas) não precisam de pastor...”. É uma frase curiosa que a rapaziada aqui da região costuma dizer, insinuando que a apicultura não dá qualquer trabalho ao apicultor.
Se entendermos por “pastor” todo aquele que guarda, cuida e sobretudo acompanha o gado até à pastagem, o apicultor não é de facto um pastor, e as abelhas também não precisam dele. Mas que a apicultura dá muito trabalho, lá isso dá.

Passada a primeira abordagem vêm os orçamentos e as respectivas contas de cabeça ali mesmo à minha frente:
“Quanto custa uma colmeia?”, “e com abelhas?”, “que quantidade de mel produz uma colmeia num ano?”, “...5,00€/kg, e isso vende-se bem? Sai todo?”
“...ora 100 colmeias vezes 30 kg vezes 5,00€ é dinheiro à bruta!!...”


Querem ver que o gajo vai tirar o país da crise e eu aqui com as mãos nos bolsos? Onde é que o Sócrates tinha a cabeça quando convidou o Manuel Pinho para ministro da Economia?
Ó amigo, isso dos 5,00€/Kg é uma treta, é só para vender à vizinha, aponte aí para os dois euros e pouco e faça a festa mais barata... E os custos? Equipamentos? E as baixas? Doenças? Más produções? Dores de costas? Picadas? ...
Poucos resistem a esta observação, mas ainda assim há os determinados que mesmo com o orçamento rectificativo em baixa lá partem para a actividade apícola.

A ajudar à festa, há outros que me contactam no sentido de lhes dar formação, retirar dúvidas ou marcar uma visita para me acompanharem aos apiários e se familiarizarem com as abelhas. No fim da conversa normalmente perguntam quanto é que isto lhes vai custar.
Confesso que por uns nanosegundos ainda penso que aí está uma boa forma de juntar uns trocos. De imediato faço os cálculos de quanto paguei aos Mestres que me ensinaram tal ofício, para assim poder aferir a “conta” do interessado. Nada! zero!, zeríssimo, foi um prazer para uma infinidade de nomes terem partilhado o seu saber comigo e sem qualquer ganho. Ainda hoje partilham, todos os dias me ensinam qualquer coisa de novo. Porque é que eu não devo fazer o mesmo? Será que não ganhamos todos com isso?
Perdoem-me a brutalidade da próxima expressão, mas enquanto continuarmos a basear esta merda no dinheiro nunca iremos a lado nenhum. Obviamente que não me refiro só à apicultura.
Qualquer dia, em vez de sairmos da maternidade com a antiga e gasta Cédula de Nascimento presa às fraldas, saímos com o cartão de contribuinte e um livro de facturas...
Veja-se o resultado de anos e anos de empresas cada vez mais competitivas e inovadoras no estado actual da economia. Porque carga d'água ninguém pensou simplesmente em empresas viáveis? Ou sustentáveis? Enfim...

Eu estou para aqui a vender, aliás a dar, “banha da cobra” e também tive a tentação em tempos, de fazer as ditas contas, “se uma colmeia produz 30 kg, 500 colmeias...” E nós portugueses, à semelhança do resto da humanidade, temos logo a tendência de fazer planos de investimento para o resto da vida: a casa (é justo), a segunda casa, a casa de praia, o carro (um chega), o segundo carro, Mercedes? BMW também serve, o barco, funcionários, mais outro carro, funcionárias, a Margarida tem as pernas bonitas mas não se mexe tanto...

Creio, mas só creio mesmo, que a apicultura à semelhança de tantos outros sectores num mundo finito, com recursos finitos, sofrem de um problema já pouco falado que são os “numerus clausus”. Ou seja, isto até chega para todos, não podemos é todos querer tudo, ou simplesmente querer muito.
A estrutura económica apícola nacional tem um tecido característico, em pirâmide como todos os outros: imensos pequenos apicultores, menos um pouco de apicultores com mais colmeias, menos ainda de médios apicultores, poucos grandes apicultores e pouquíssimos gigantescos apicultores. Esta estrutura ainda está longe de ser equilibrada, ainda cabem imensos apicultores e detentores de imensas colmeias. Estamos muito longe de cada um que aumente os efectivos causar problemas aos vizinhos.
Mas aparte tudo isto, não será possível ser feliz com meia dúzia de colmeias? Apanhar mais um enxame sem com isso ter receio de baixar o preço global do mel???
Cada família uma colmeia, vá lá, uma dúzia. Uma horta para o tempo que sobra, meia dúzia de cabeças de gado, segurança alimentar mesmo sem a ASAE. Não é para vender, é mesmo para comer. Se se vender alguma coisa também não é por aí que o gato vai às filhoses.
Há tantas outras actividades complementares que os apicultores podiam praticar para melhorar a sua qualidade de vida. Nunca me canso de repetir o caso da Suécia, contado pelo Vicente Furtado, em que o próprio governo incentiva a apicultura familiar. Aumenta com isso a rede nacional de apiários, que acabam por surgir em locais de menor floração (sem interesse económico para os grandes produtores) e aumentando consequentemente as áreas polinizadas.
Tenho o maior carinho e admiração pelos grandes produtores de mel, creio que justifiquei lá atrás a sua importância (grande importância) no tecido económico nacional. Este texto pretende apenas fazer a apologia do crescimento lento, ponderado e sustentável. Não faz muitos anos que um colega do meu primeiro curso de apicultura saiu de lá estimulado para comprar 500 colmeias. Comprou 50 que ao fim de dois anos pouco mais serviram que para a lareira do vizinho dele. A madeira propolizada arde com muita facilidade, nem precisa de acendalhas.

Ultimamente têm sido aprovados projectos de apicultura, estes com fundos comunitários, dinheiros públicos, cuja estrutura e viabilidade deixam muito a desejar. Para não falar na própria competitividade, parâmetro de caracter mais ambicioso.
Atingem jovens apicultores, aliás, candidatos a apicultores, pois muitos nem conhecimentos têm. Atraídos pelos prémios de instalação e demais subvenções do dito apoio, lançam-se na vida activa com dezenas (centenas) de colmeias, equipamentos para equipar uma melaria de âmbito regional e... créditos bancários e demais compromissos e “entaladelas”, sem as quais nunca teriam acesso ao almejado prémio = presente de Grego...

E lá em cima? Apostou na resposta “B”? Não quer pensar melhor?
Não pense mais porque acertou! De facto a apicultura é uma excelente aposta, e o termo milionário não se aplica apenas a quem tem muito dinheiro...

16 maio, 2009

Colmeias Diferentes - 8

Disseram-me que se tratava de uma antiga centrifugadora de mel, estrangeira. Mas será mesmo essa a sua utilidade?
À primeira vista, parece, mas com um interior destes:

Se alguém conhecer semelhante "engenhoca" e me puder ajudar, agradecia desde já...

15 maio, 2009

“Obrigado, mas dispensamos o serviço das colmeias...”

Uma vez disseram-me para nunca escrever nada quando estivesse com raiva.
Eu não estou com raiva. Estou com aquela sensação de vazio no estômago (estou a escrever isto depois de almoço, um bom almoço), e estou com essa sensação. Talvez um “estou conformado” seja mais correcto...
Creio que foi Miguel Esteves Cardoso, quem escreveu sobre não haver sentimento pior do que quando nos conformamos com uma tristeza. Quando estamos inconformados temos a sensação de poder remediar algo, quando nos conformamos está tudo perdido.

Mas antes que alguém se derreta em lágrimas, é melhor contar o que se passou.
Logo no início deste ano consegui girassol para a transumância de todas as minhas colmeias. Melhor ainda, consegui girassol para as abelhas de mais uns quantos apicultores. No entanto, tenho cerca de 25 núcleos ainda atrasados, a Primavera não correspondeu e queria dimensioná-los antes da produção de Verão.
Para minha felicidade, também encontrei uns bons hectares de girassol mais adiantado, ainda por cima a meio do percurso do primeiro girassol que “guardava” para o Verão.
Pensei duas vezes antes de falar com o proprietário, não o conhecia, nem o conheço ainda, é espanhol. É um desses espanhóis que compraram/arrendaram uns largos milhares de hectares de terra no Alentejo, para substituírem o que quer que fosse que lá houvesse pelo dito olival intensivo (AS OLIVEIRAS DA DISCÓRDIA 05/11/2008).
Telefonei ao administrador, português, que me atendeu com a maior das deferências e que anotou convenientemente a minha solicitação. Pediu-me 24 horas para falar com o proprietário, uma vez que não podia ser ele a tomar a decisão.
Liguei no dia seguinte para o ouvir dizer “obrigado mas dispensamos o serviço das colmeias”. Frisei que o “serviço” era gratuito, uma vez que ambos beneficiávamos com tal negócio e até referi o aumento de produção que a polinização lhe traria. Voltei a ouvir outra mensagem lacónica que pouco variava da primeira.
Foi quando senti o dito nó no estômago. Mas dissipei a raiva quando pensei que de facto o terreno era dele. Comprado ou alugado era dele e contra isso não havia nada a fazer.

Nesse momento ocorreu-me um artigo que lera recentemente sobre agricultores americanos que se debatiam para conseguir abelhas que lhes polinizassem as culturas. O SDC nesta altura é um entrave para muitas produções agrícolas nos EUA. Ocorreu-me também que no ano passado, produtores de girassol espanhóis pagavam pela polinização do girassol (em Portugal).
Ocorreram-me ainda uma série de coisas, entre as quais alguns versos e trocadilhos que em crianças fazíamos com o nome dessa herdade, Herdade do Ramalho. Prestava-se a umas quantas rimas engraçadas que pouco servem agora para o efeito.
Mas também se prestava para as melhores produções de Verão que alguma vez tive. Entre o girassol, o cardo e uma excelente melada de Azinho, tinha sempre muita água fresca à superfície. Até já tinha imaginado as colmeias à sombra de um bosque de choupos que ladeia um charco cuja água é sempre transparente, vendo-se o fundo a mais de três metros de profundidade.

Obrigado mas dispensamos o serviço das colmeias”, foi a castelhana sentença que me afogou o reforço energético dos desdobramentos na tal água cristalina.

Porque carga d'água a Herdade do Ramalho, à semelhança de tantas centenas de herdades no Alentejo, são economicamente rentáveis para os agricultores espanhóis e nunca o foram para os proprietários/agricultores portugueses?
Em algumas, muitas, até substituíram o olival, imaginem, por... olival!
O que recearia o agricultor espanhol? Que as abelhas colectassem sementes em vez de néctar e pólen?
Mas quem pensa/age desta forma pode ser agricultor? Saberá o que está a fazer?
Eu não quero extrapolar este incidente para os restantes milhares de hectares espanhóis em solo luso, mas o Ministro da Agricultura terá ponderado sobre estas e outras consequências ao permitir que “isto”...?
Uma coisa eu tenho a certeza, nunca nenhum apicultor espanhol vai levar uma nega ao tentar polinizar girassol português em Espanha. E não será pela “má vontade” dos agricultores portugueses...

Felizmente que ainda “tenho” à disposição o girassol do agricultor português, grande amigo e pessoa extremamente educada. Já foram muitas as horas que passamos frente ao monte dele a falar nas culturas e quanto elas beneficiam com o serviço das abelhas...

14 maio, 2009

Ó formiga, formiguinha...

Sempre gostei de insectos, em particular dos insectos sociais e dentro destes... as formigas.
Confesso que há uns bons anos nem gostava muito de abelhas, preferia as vespas, achava as primeiras muito “domesticadas”, pelo que perdiam a graça toda.
Ao mesmo tempo custava-me a “inutilidade económica” das formigas, pelo menos a económica positiva. Sabia que nunca haveria de ser um formicicultor, desculpem, um mirmecultor, é o termo mais correcto. Não havia nada que elas colectassem com valor, em quantidades rentáveis e passível de ser “crestado” pelo criador.
Mas na semana passada, o Sr. António Bonito, artesão de Avis, mostrou-me que eu estava errado. Contou-me uma história da infância dele, em que andava com o pai a guardar ovelhas. Nesse tempo a rapaziada do campo ligava pouco à Playstation entre outras inutilidades, tinha então como passatempo a procura e pilhagem de ninhos.
Parece uma barbaridade, mas é curioso como a rapaziada do campo nunca conseguiu extinguir nenhuma espécie de passarinho, ao contrário dos desequilíbrios ambientais provocados pela indústria moderna, inclusive a que produz as ditas consolas de jogos.
Voltando ao Sr. António, disse-me ele que um dia capturou um casal de rolas, retirou-as do ninho e propôs-se a criá-las numa gaiola construída com canas. Dava-lhes trigo, as cearas já estavam bem douradas no tempo dos ninhos de rola, ele colhia umas quantas espigas, debulhava-as à mão e alimentava as avezinhas.
Como tal trabalho era extenuante e com pouco rendimento, “estudou uma manha” para conseguir os grãos de trigo sem grande esforço. Abeirou-se de um carreiro de formigas que carregavam os ditos grãos a partir de uma eira, onde o trigo aguardava pela debulha.
Abriu um buraco profundo mesmo no local onde passava o longo carreiro, colocou uma lata lá dentro e aconchegou-lhe a terra à volta.

De ambos os lados da lata onde o carreiro fora interrompido, construiu uma ponte com dois paus espetados no chão e uma linha esticada a fazer a ligação.

Desta feita, as formigas subiam a custo pelo pau, passavam para a linha “bamba”, tremiam, oscilavam e lá ia a carga para o abismo de lata. Umas atrás das outras quase lhe encheram a enorme lata de trigo.
Contou-me ele que antes das formigas resolverem contornar o obstáculo, ainda juntou trigo para criar as pequenas rolas.

A ideia não me pareceu má, quem gosta de insectos sociais podia diversificar um pouco para a cerealicultura, o pior será mesmo convencer os proprietários da ceara. Por outro lado, as formigas poucas hipóteses tiveram com o fim das eiras, substituídas então pelas modernas ceifeiras. Até estas já enferrujam pelos campos, o trigo no Alentejo pouco mais é que uma miragem...

Esqueceu-me um pormenor, os idosos destas paragens quando “apanham” alguém mais novo gostam muito de os “entalar” com estas histórias-que-pouco-faltam-para-ser-verdade, mas creio que o Sr. António nunca me iria mentir com um assunto destes...