12 julho, 2009

Cerificador Solar

Há dois ou três anos encontrei uma caixa metálica de parede dupla, que resolvi reciclar como cerificador solar. A dita caixa em inox, era um chafing dishe como os utilizados nas cantinas ou restaurantes com água aquecida para manter a comida quente.

Adaptei-lhe uma janela em alumínio a servir de tampa, mas com um único vidro, devia ter optado por vidro duplo.

No interior, para a cera não assentar directamente no fundo, improvisei um estrado com a grelha metálica retirada da traseira de um velho frigorífico. Cortei-lhe as curvas do tubo de cobre com um alicate, deixando apenas seis viradas para baixo a servir de pés e quatro viradas para cima para lhe podermos pegar.

Sobre a grelha ainda coloquei rede mosquiteira para reter algumas impurezas da cera fundida. Foi uma boa opção, de facto há imensos resíduos que ficam neste filtro.
Há que ter o cuidado de limpar a rede mosquiteira quando está quente, caso contrário torna-se difícil remover as impurezas que a podem impermeabilizar.

O objectivo inicial era que a cera fundida caísse no fundo da caixa e escorre-se por um tubo até ao recipiente exterior de recolha, (molde), sob a estrutura.
A parte da fusão da cera foi um sucesso, qualquer “ponta de Sol” era eficaz, o pior é que a cera solidificava muito rapidamente no fundo da caixa e entupia o tubo de saída.

Não sei se o problema se deveu à “sombra” causada pela grelha + rede mosquiteira + cera ainda sólida, ou ainda às temperaturas anormalmente baixas dos últimos três anos...

O que é um facto é que tive de modificar a forma de extrair a cera. Isto é, passei a recolhê-la com uma espátula do fundo da caixa de inox ao fim do dia, já sólida mas ainda quente, o que facilita o trabalho.
Tal procedimento leva a novo trabalho de refundição da cera, que desta vez já cai para dentro de moldes no interior da caixa, o que é bom pois a nova filtragem deixa a cera completamente limpa, mas com o dobro do tempo e do trabalho...

Vou mesmo ter de alterar todo o conjunto de modo a ter um plano inclinado no interior, em chapa metálica, com a mesma grelha e rede mosquiteira por cima, mas que a cera fundida já escorra para um molde no interior da caixa e só solidifique nesse local.

Creio que é um desperdício de energia e de dinheiro a aquisição de cerificadores a gás ou eléctricos, num país com tantas horas de Sol como o nosso. Pelo que a utilização de cerificadores solares, em metal ou em madeira, além de muito baratos (na aquisição e no consumo) são bastante eficazes e práticos.

08 julho, 2009

Lembram-se ???

Lembram-se?
Esta mensagem foi publicada há quase um ano, a 24 de Julho de 2008:

Detesto insistir nestas coisas, mas por vezes não há alternativa.
Há pouco mais de um mês fizemos as candidaturas ao PAN 2008, devido aos atrasos na publicação do Despacho Normativo n.º 23/2008. Foram preenchidos e entregues os respectivos modelos de candidatura, disponíveis no site do IFAP.
Nessa altura, copiei mais que um exemplar da cada modelo, sabendo que dentro de um mês teria que fazer a candidatura para a época seguinte. Até porque nos primeiros modelos já estavam previstos os campos para os anos de 2009 e 2010 (ver imagem PAN 2008).
Então não é que volvidos pouco mais de 30 dias o dito impresso já estava desactualizado? Já estava disponível no site do IFAP outro impresso para a Medida 1B, praticamente igual ao anterior, só que lhe faltavam os campos de 2008.
Será possível que estiveram tantos meses (ou anos?) para criar um documento e em menos de um mês já lhe detectaram falhas? ... mistério ...
O modelo recente, curiosamente trás os campos para a campanha de 2010, adivinha-se um documento duradouro ... no entanto aposto 5 € e o esquerdo em como no ano seguinte vamos ter um impresso novinho em folha e pronto a estrear.

Sexta feira passada, 03/07/2009, encontrei este documento no site do IFAP, para a candidatura ao PAN 2010 : ...

06 julho, 2009

Pólen e Pão de Abelha

Por definição, é o pólen armazenado nos favos, no interior da colmeia.
Normalmente está misturado com mel, talvez com algum própolis e apresenta inícios de fermentação.

É impressionante a quantidade de pólen (pão de abelha) que alguns quadros apresentam, principalmente os do ninho.

Muito fácil de identificar pelo aspecto colorido (várias cores), pela posição em redor da criação e pelo facto de estar desoperculado.
Ou pelo menos eu pensava assim, mas segundo Morse e Hooper (1986) “Enciclopédia Ilustrada de Apicultura”, em determinadas circunstâncias, quando o pão de abelha não está a ser usado, é coberto com uma camada de mel e também operculado com uma “tampinha” de cera. No entanto, encontramo-lo principalmente desoperculado.

Círculos Azuis: Pão de Abelha em utilização (desoperculado).
Círculos Amarelos: Pão de Abelha de reserva (também desoperculado mas coberto com mel).

Esta imagem, tirada durante a extracção do mel, é bastante elucidativa da informação anterior.
Com luz normal a incidir sobre a superfície do quadro apercebemo-nos facilmente da existência de dois tipos de alvéolos: amarelados com mel e outros mais escuros e desoperculados com pólen. Se colocarmos o quadro em contra-luz, conseguimos observar um terceiro tipo de alvéolos operculados como os do mel mas com uma tonalidade mais escura (contêm pão de abelha).
Na próxima imagem, tirada propositadamente antes e depois da desoperculação dos alvéolos, permite-nos observar tais diferenças e encontrar o pólen “escondido”:

Porque carga de água me lembrei agora do pão de abelha?
Resposta: Fiz a cresta/extracção há pouco tempo e passei a noite à procura dos quadros de alça com tal petisco. É o que mais gosto entre todas as iguarias produzidas pelas abelhas. Este ano após desalojar um enxame selvagem instalado há dois ou três dias numa parede, resolvi aproveitar os pequenos favos cheios de néctar e pão de abelha. Creio que nunca provei nada assim, a cera era muito recente e tenra, pelo que nem ela se escapou.

Imagens semelhantes às anteriores, tiradas com luz normal e em contra-luz, desta vez só com alvéolos não operculados.

Alvéolos com pão de abelha operculados?, o opérculo rebaixado (abaixo do nível dos alvéolos) é característico desta situação. Os alvéolos com o interior brilhante contêm mel, apenas mel, desta vez não se trata de uma pequena camada a cobrir o pão de abelha.
Também nesta imagem se percebe facilmente o aspecto compacto do pólen armazenado, o que deixa adivinhar a dificuldade em extrair tal substância mesmo com a destruição dos alvéolos de cera.

No armazenamento do “pão de abelha”, as obreiras retiram as “pelotas” de pólen que trazem nas patas e depositam-no nos alvéolos de cera. A este pólen é adicionado algum mel e eventualmente própolis em pequenas quantidades.
De seguida, as abelhas compactam as “pelotas” empurrando-as com a cabeça contra o fundo do alvéolo, o que decerto trará algumas vantagens em termos de conservação:

Muitas vezes observamos estas reservas de pólen nos quadros de criação. Se observarmos com mais cuidado, notamos que alguns dos alvéolos têm uns aglomerados de pólen não compactado (pelotas) à superfície:

Outra imagem semelhante, os alvéolos com o círculo vermelho ainda não estão cheios de pólen, enquanto o do círculo azul já com a superfície plana já está completo.

O pão de abelha foi um dos “assuntos” que muito me interessava há uns anos atrás. Estava na moda entre os apicultores tentarem extraí-lo dos alvéolos de cera. Infelizmente sem grande sucesso.
Lembro-me de uma palestra em Alcobaça, organizado pela AVAPI, onde o Eng.º Rosa Agostinho fez mais uma excelente dissertação sobre este tema. Ele detinha/detém o “segredo” para a extracção do pão de abelha e apesar das tentativas da assistência, ninguém chegou a saber como se fazia.
Ofereceu-me uma curiosa bisnaga com mistura de mel e pão de abelha, nesse tempo a empresa do Eng.º Rosa Agostinho (a EUROPROPOLIS) comercializava-a para o estrangeiro para ser incluída em kits de sobrevivência para alpinistas.

Nunca mais soube nada do Eng.º Rosa Agostinho, era um prazer ouvi-lo falar sobre o pão de abelha, o pólen, a geleia real e o própolis, entre outras curiosidades das abelhas. Era estimulante o carinho e a sensibilidade com que ele tratava e desenvolvia tais tecnologias.
A maior parte de nós olhamos para as explorações apícolas como autênticas “centrais de produção de mel”, e até parece que as abelhas só produzem mel... Se no entanto nos embrenharmos pelos meandros da colmeia, pelo labirinto de favos e alvéolos, deparamo-nos com imensos produtos de grande utilidade e valia obtidos pelas abelhas.
Um pouco mais de trabalho (e paciência) durante a extracção do mel na melaria, poderia resultar na obtenção de uma boa quantidade de própolis raspado dos quadros (só dos quadros) e algum pão de abelha extraído dos alvéolos.



No entanto, “mais trabalho” ou “paciência” são atributos de que nem todos nos podemos gabar, e a haver uma forma fácil e expedita de retirar o pão de abelha em grandes quantidades seria de todo desejável. Mas como ???...

A “prensagem” que o pólen sofre em tantos alvéolos contíguos, confere-lhe um aperto e uma compactação tal que quase impossibilita a sua extracção. A superfície de contacto entre os blocos de pão de abelha (em forma de pirâmide hexagonal) e os alvéolos de cera onde estão colocados, provocam tal nível de atrito à sua remoção que seria necessária uma força gigantesca para os separar em simultâneo. Isto, claro está, sem destruir as ceras.
A extracção do mel é muito facilitada por este último se encontrar no estado líquido.

Favos vazios e com pólen armazenado.

Forma mais correcta de esquematizar tridimensionalmente os mesmo favos, no entanto seguiremos o primeiro esquema para uma visualização menos confusa...

De todas as “hipóteses”, “conversas” e “diz-que-disse” que ventilavam nesse tempo, consegui reter três formas prováveis de fazer a dita extracção, mas seria de facto assim ???

1. Retirar os “grãos” de pão de abelha com uma agulha..., processo que “poupa” as ceras mas é muito lento, o produto final seria muito caro.

2. Cortar parte dos alvéolos com uma faca para o pólen ficar mais exposto e por isso acessível: também não me parece que funcione...

3. Congelar o favo e depois seccioná-lo com uma máquina de cortar fiambre... nunca tentei este, mas também nunca me contaram exactamente o processo...
Parece-me ser o mais acertado, mas alguém conhece os pormenores? E quer divulgá-los? Eu agradecia desde já...

03 julho, 2009

As abelhas, noutra perspectiva


Há uns largos milhões de anos atrás, ainda antes do tempo dos Dinossauros, no período Carbónico, época em que grandes florestas luxuriantes cobriam a maior parte do planeta, surgiu um grupo de seres vivos extremamente bem adaptados – os insectos.
Estes rapidamente invadiram todos os habitats possíveis e imagináveis, actualmente encontramo-los desde as calotes Polares até aos tórridos desertos Africanos, desde as camadas mais altas da atmosfera até às profundidades oceânicas, e inclusivamente em minas e grutas naturais de grande profundidade onde a vida parece impossível. Posso ainda apresentar alguns exemplos mais extremos, como as larvas de uma determinada mosca que vivem em lagos com salinidade superior a 87%, ou das larvas de outra mosca ainda, que se desenvolvem naturalmente nos charcos de petróleo bruto, e que alguém conseguiu manter com vida em petróleo puro refinado.
O seu sucesso biológico deve-se entre muitas outras razões às suas capacidades reprodutivas com proles muito numerosas, que permitem que apenas alguns casais de insectos reponham toda uma população. O que se verifica nos nossos campos de cultivo após os tratamentos com pesticidas que resultam na maioria das vezes ineficazes.
O seu exoesqueleto de quitina permite-lhes sobreviver ás condições ambientais mais adversas, inclusivamente ás radiações nucleares como aliás já foi diversas vezes provado.
Á semelhança das aves possuem asas, ou melhor ainda, e como me disse um dia um entomólogo “... os insectos são os únicos seres vivos que ganharam um par de asas sem detrimento de outro par de membros, à excepção dos anjos.”.
E não é difícil de estimar o potencial adaptativo que as asas conferem a qualquer ser vivo, seja pela capacidade de alcançar e explorar lugares inatingíveis por animais apteros, seja pela capacidade de escapar aos predadores ou apanhar as presas.
Por outro lado, os insectos possuem ainda uma grande capacidade de se dissimularem, ou seja, de passarem despercebidos, existindo então alguns a imitarem flores, os fasmídeos, muito usados em estudos de genética assemelham-se de tal forma ás hastes de gramínias que as populações rurais os designam por “ Bichos – palha “. Outros insectos semelhantes às cochonilhas, possuindo uma carapaça em forma de espinho confundem-se assim com os espinhos verdadeiros de alguns arbustos. Algumas borboletas de cores vistosas quando voam, passam a autênticas folhas secas com nervuras e tudo, quando pousam.
A força e o trabalho desenvolvido pelos insectos, outro factor a não desprezar. Desde sempre se fizeram comparações à força do Homem e dos insectos, em especial das formigas, calculando-se hoje que as coisas não serão tão proporcionais assim, fiquemo-nos ainda com as primeiras ideias, tal como as transcreveu E. Sousa D’Almeida na obra “O Homem e os insectos”, onde se diz que um determinado escaravelho tem em relação ao seu peso tanta força como dez juntas de bois, ou se compararmos o esforço que faria um homem para igualar uma formiga a carregar um grão de trigo por cima de um muro de dois metros “... repetido na escala humana, (...) um homem, carregando com um fardo de mais de 500 quilos, subir a pique uma altura de quase duas vezes a do Himalaia e repetir este feito várias vezes ao dia”.
E muitos outros exemplos poderia dar para ilustrar esse mundo tão estranho dos insectos, e a forma como se têm relacionado com o Homem, mas para quem quiser saber mais sempre poderá consultar as referências do presente artigo.

Apis mellifera conservada em ambar (fóssil).

Alguns insectos, das ordens Hymenoptera e Ortoptera evoluíram no sentido de uma vida em sociedade, com divisão de funções e tarefas, levando essa especialização tão longe que se tornaram incapazes de sobreviver sozinhos. Dentro dos hymenopteros, um grupo tem interessado particularmente ao ser humano, o género Apis, mais precisamente a espécie Apis mellifera, dadas as suas capacidades de armazenamento de substâncias de grande interesse económico, sendo sobre esta espécie que nos iremos debruçar.
Nos últimos dois séculos bastante luz se tem feito sobre os mistérios das abelhas, mesmo o “segredo da abelha” o subterfúgio para tudo o que era inexplicável na colmeia tem sido gradualmente desvendado. No entanto, e para quem se interessa verdadeiramente pelo tema, por cada mistério resolvido, por cada verdade conquistada, ficam sempre novas dúvidas, novas questões, por vezes pouco importantes no contexto global, e que tocam já as raias da filosofia, mas que continuam de certa forma a aguilhoar as mentes mais curiosas.
E na realidade não é necessária muita perspicácia para constatarmos o carácter único da nossa pecuária, que estranhos ganadeiros serão os apicultores cujos animais diferem de todos os outros domesticados pelo Homem ? O próprio comportamento das abelhas que tantas questões e problemas têm levantado.
Umas mais agressivas, outras nem por isso, “... não conhecem o dono.” dizem uns, “... defendem o que é delas e nós tentamos roubar”, dizem outros, mas o que é um facto é que esta característica é bastante impeditiva para muitos potenciais apicultores que não chegam a sê-lo.
Outras questões também enigmáticas prendem-se com a sua vida colonial, o seu comportamento social, as hierarquias tão definidas, a divisão de tarefas como se uma colónia funcionasse como um único organismo. Há uma nítida perda de individualidade por parte dos “indivíduos” que constituem a colmeia, o formigueiro ou o vespeiro, nenhum é representativo dos restantes, nenhum sobrevive sozinho.
Suponho que não seja fácil para a teoria evolucionista de Darwin explicar como é que determinados animais originalmente solitários, tenham evoluído para uma estrutura social tão interdependente, apesar de todas as contrapartidas que daí retiraram.
Muitos autores tentaram classificar as colónias de abelhas, de formigas, de térmites e das vespas sociais como um organismo indiviso, e não como um grupo, uma colónia. Cada abelha, formiga, vespa ou térmite não seriam mais do que células especializadas em determinada função e inseparáveis fisiológicamente de todas as outras. Os exemplos, são demais conhecidos, no caso das abelhas, a rainha e os zangãos não serão mais do que os ovários ou os testículos de um super organismo, os responsáveis pela reprodução, precisam no entanto de ser alimentados e protegidos pois não o conseguem fazer por si só. As obreiras, variam as suas funções ao longo do tempo, limpando a colmeia, defendendo-a de intrusos e buscando alimentos para toda a colónia, passando assim de sistema excretor, como se dos rins ou da bexiga se tratasse, a sistema imunitário e finalmente a sistema digestivo e circulatório, fazendo passar os nutrientes por toda a colónia alimentando-a. Estas, não conseguem então reproduzir-se pois são estéreis.
Há assim uma especialização de funções que as obriga a uma união continua ao longo de toda a vida, impossibilitando integralmente uma vida solitária.
Em tempos li um livro bastante curioso sobre genética, ou melhor ainda, sobre uma abordagem bastante filosófica da genética e do comportamento, e que poderá de certa forma trazer alguma luz às questões aqui levantadas. Alerto no entanto para o facto de serem apenas reflexões, não me vou pronunciar acerca da validade cientifica da obra que tem um caracter muito particular, mas cujas ideias estão apresentadas de uma forma muito clara e inteligente, e de certa forma até irrebatíveis, dada a impossibilidade de provar o contrario.

A ideia base da obra a que me reporto, não é mais do que um ponto de vista curioso sobre o comportamento dos animais, justificado em parte pelas proximidades genéticas, onde o autor pretende demonstrar que os seres vivos, as suas características e os seus comportamentos não são mais do que estratégias arquitectadas pelos genes para estes sobreviverem e acima de tudo estarem presentes nas gerações seguintes.
Esta teoria, se assim lhe posso chamar, tenta de certa forma reduzir o comportamento dos animais, e do Homem inclusivamente, a algo muito mecanicista. O eixo da consciência, e o sistema cognitivo em geral é assim deslocado do cérebro para os genes, as estruturas responsáveis pela transmissão hereditária das características, ou seja, o que faz com que os filhos se assemelhem aos progenitores.

Vamos então a uma das questões fundamentais nas abelhas, o suicídio, atitude muito comum nas obreiras, para defesa da colónia.
A abelha ao desferir a picada vê-se desprovida do ferrão que arrasta consigo alguns órgãos vitais levando à sua morte. Uma atitude louvável e cheia de altruísmo, como todos a classificam. Mas segundo esta teoria, parece que as coisas não são bem assim, este comportamento ao contrário do que parece revela o puro egoísmo.
Como disse atrás, aos genes importa apenas estarem presentes na geração seguinte, a qualquer custo e independentemente do seu tempo de vida, de onde ressalta um exemplo que diz que uma mãe ao deixar de comer para alimentar os filhos colocando em causa a sua própria sobrevivência, pratica um acto de egoísmo, pois os seus genes já transitaram para a próxima geração, já se encontram “copiados” nos seus filhos, e são apenas os genes que contam, os organismos não passam de estratégias.

Então chegamos a uma contradição, não faz sentido o suicídio da obreira, não defende a progenitura, os seus genes não estão na geração seguinte pois ela não se reproduz, logo não poderá ser uma “ estratégia “ para a propagação de genes. Precisamos então de uma explicação mais convincente, o que se consegue atendendo às características peculiares da reprodução destes insectos.


Como é do conhecimento geral os zangãos ( o sexo masculino ) resultam de óvulos não fecundados, logo todos os seu genes provêm de um único progenitor, a rainha. As fêmeas férteis e estéreis, nomeadamente a rainha e obreiras, resultam de um processo reprodutivo normal, herdando informação genética de dois progenitores, logo os seus genes provêm 50% do pai e 50% da mãe.


Para aclarar as ideias, podemos afirmar que uma obreira filha de um zangão com características agressivas ( portador de genes para a agressividade ), e de uma rainha com características dóceis, poderá ser dócil ou agressiva, 50% de probabilidades para cada hipótese. No entanto, um zangão filho de uma rainha dócil, será decerto dócil e transmitirá essa característica à descendência, se for filho de uma rainha com características agressivas, herdará apenas genes para a agressividade que transmitirá posteriormente à descendência.
É então possível atribuir afinidades, e graus de parentesco entre as diferentes “castas” nas abelhas e assim tentar explicar o suicídio das obreiras. Nos insectos sociais podemos dividir a colónia em dois grupos distintos, os produtores ( rainha e zangãos ) e os criadores ( as obreiras ) que cuidam da descendência dos primeiros.
O que ganham as obreiras com isto ?, ou ainda, o que ganham os seus genes ? Poderíamos pensar que as obreiras são manipuladas de uma forma egoísta pela rainha, para cuidarem dos seus filhos, e por assim dizer dos seus genes.
Mas há outra abordagem possível !, porque não pensar que é antes a rainha a entidade subjugada pelas obreiras para produzir réplicas suas e dos seus genes ?
É certo que não são os próprios descendentes que as obreiras cuidam, no entanto são-no muito próximos geneticamente, mais próximos do que poderíamos pensar, e talvez seja aqui que está a chave do mistério.
As obreiras recebem genes da mãe (rainha), e do pai (zangão). Os genes que recebem da rainha podem ser de dois tipos diferentes, pois a rainha teve um pai e uma mãe herdando genes de duas fontes distintas, e por isso poderá transmitir a cada filha um tipo ou outro, nunca os dois em simultâneo. Os genes vindos no espermatozóide do zangão serão apenas de um tipo, pois o zangão não tem pai, logo só transmite o mesmo tipo genético à descendência, o tipo que herdou da mãe.
Podemos daqui concluir que todas as abelhas fêmeas (rainhas e obreiras), serão forçosamente gémeas por parte dos genes paternos, o que lhe dá uma grande proximidade genética entre elas, superior ainda à proximidade com a mãe.
Para podermos fazer comparações e aclarar o termo proximidade genética, pode-se dizer que os gémeos verdadeiros, no homem por exemplo, têm uma proximidade genética de 100%, pois partilham todos os genes.
Esta proximidade, levará segundo este ponto de vista, a uma maior predisposição das obreiras a regular a sua própria mãe como uma máquina eficiente de produzir irmãs, tal como à facilidade com que se suicidam para salvar genes tão próximos dos seus, mais ainda do que se de filhos se tratasse.
Outros pontos de vista curiosos ressaltam ainda desta obra, como por exemplo, o que terá levado animais solitários a viver em grupo?
Imagine-se o comportamento de um grupo disperso de herbívoros numa pradaria quando se aproxima um predador. Esse grupo disperso tende a aglomerar-se cada vez mais, uma vez que cada um tenta estar mais próximo do centro, e por assim dizer mais afastado da periferia onde se encontra o predador.
Hipoteticamente, com os insectos sociais poderá ter acontecido algo semelhante, levando a uma especialização dos que ficam na periferia do grupo para a defesa da colónia abdicando da fertilidade, pois se tivessem filhos estes estariam mais expostos. Enquanto que os do centro, portanto na zona segura, evoluíram no sentido do atrofio dos órgãos de defesa, especializando-se na reprodução. Esta situação vê-se nos dias de hoje quando um enxame desprotegido da colmeia ou de um abrigo natural, pousa temporariamente no ramo de uma arvore por exemplo.
Muitas outras hipóteses poderiam ainda ser levantadas sobre este tema tão vasto do comportamento das abelhas, no entanto, volto a frisar que o que foi dito são apenas teorias, mais ou menos fundamentadas.
Duma coisa podemos nós ter a certeza, as abelhas picam, e altruística ou egoísticamente elas continuarão a picar quem delas se aproxime, mas também a apicultura perderia toda a graça sem este pormenor.
Referências:
Almeida, Eduardo Sousa.( 1946 ) – O Homem e os Insectos – Livraria Sá da Costa
Dawkins, Richard.( 1976 ) – O Gene Egoísta – Ed. Gradiva

01 julho, 2009

Mais Girassol...

Um dos meus apiários de Verão no Girassol de sequeiro.
Este tipo de Girassol tem vantagens e desvantagens, há quem diga que por não ser regado os açúcares (néctares) estão mais concentrados e as produções são maiores. Por outro lado, e segundo as mesmas fontes, a ausência de rega não “lava” o néctar das flores e a melada da planta. Mas se a “seca” for tanta que não ajude a planta do ponto de vista vegetativo...
Este ano vou ter oportunidade de fazer a experiência, uma vez que tenho colmeias em Girassol regado e não regado. E ainda... já cá faltava, um terceiro e curioso tipo de Girassol, o Girassol de regadio sem água. É uma forma de cultura que a rapaziada anda a desenvolver aqui no Alentejo, creio que fazem a sementeira em terrenos de regadio (mais subsidiados) e depois... se as plantas quiserem água vão bebê-la à barragem que fica sempre por perto...


E agora o que se chama “perder uma boa oportunidade de ficar calado”:
Não sei se alguém já se interrogou acerca da estranha forma helicoidal como a flor do Girassol é desenhada, à semelhança das pinhas, ananases e muitas outras flores e folhas na Natureza?
Cada folha, ou flor (neste caso) é “inserida” no caule (ou estrutura de suporte) a cada 37º virgula qualquer coisa, que não é mais que o limite da Série de Fibonacci se a memória não me falha...
Ou seja, ... se bem que este “ou seja”, não vai clarificar muito mais as coisas..., cada flor de girassol (mini-flor) cria um halo de inibição que só deixa crescer a próxima flor a uma determinada distância e rotação de 37, ?º...
Mas tal como eu não se preocupem muito com isso, o Girassol há-de dar mel da mesma forma...

Coloquei cerca de dezoito colmeias para 27 hectares de Girassol (neste campo), é uma densidade baixa de colmeias.
Quando o Girassol era de ciclo longo (a flor durava quase um mês) a quantidade de colmeias/hectare era muito menor (cerca de 0,5), agora chego a colocar duas colmeias hectare (e três) uma vez que a floração quase não chega às duas semanas.
Nestas circunstâncias (18 colmeias: 27 hectares) é raro verem-se imagens como a anterior, duas abelhas numa flor. No entanto, lembro-me de há três anos, onde nesta região apenas fizeram meio hectar de Girassol, encontrava cinco e seis abelhas na mesma flor.


Não é assim que se tiram fotografias ao Girassol, as plantas estão todas “de costas”. Mas para as fotografar de frente teria de andar quase um km, ainda por cima eram três horas da tarde e estava calor...
De qualquer forma reparem na riqueza deste local, o montado de sobro e azinho poderão constituir boas fontes de melada nestas manhãs húmidas e de nevoeiro.


Uma pequena flor de Girassol, característica da cultura de sequeiro.
Os agricultores a apicultores referem-se ao Girassol antigo (de ciclo longo) como tendo grandes “cabeças” grandes flores, lembram até as “rodas de um carro”.


Mais duas abelhas que se encontraram na mesma flor.
Reparem na “floresta” de estruturas produtoras de pólen e néctar onde as abelhas se encontram.
O Girassol pertence à família botânica das Compostas (Compositae, para dar aquele ar de entendido...), cuja principal característica é que cada flor não é uma única flor, mas sim uma grande quantidade delas.
O mesmo acontece com os malmequeres, as margaridas, camomilas, etc...
O conjunto de flores evoluiu de tal forma que em vez de surgirem num cacho como muitas outras plantas, surgem numa estrutura cuja forma lembra... uma flor!
As flores centrais, como poderão ver nesta e noutras imagens à frente, têm as pétalas pouco desenvolvidas, as periféricas cuja função è de atrair os insectos, desenvolveram grandes pétalas com uma cor amarela muito apelativa.
Cada uma das pequenas flores (que constituem o Girassol) possuem estames, carpelo, estigmas, óvulos, ovários e pólen, e cada uma dará origem a uma semente (se for polinizada).
A grande vantagem para abelhas e apicultores é que as flores se encontram juntas em capítulos, e os capítulos juntos na área de cultivo, o que disponibiliza toneladas de néctar e pólen às abelhas sem que elas tenham de se deslocar muito.

O Girassol ainda não abriu.
Ainda assim, é demasiado tarde para as abelhas. Nunca devemos deslocar as colmeias para um campo de Girassol quando a cultura já se encontra nesta fase. É uma perda de tempo e esforço.
A não ser claro está, que as colónias estejam muito activas, venham de outra produção e tenham muita população, para que possam começar a trabalhar de imediato.
A fase ideal para levar as colmeias para esta cultura é quando as plantas têm entre 30 a 50 cm (altura dos joelhos).
Normalmente quando o fazemos o Rosmaninho já não tem floração há quase um mês e as rainhas quebraram o ciclo de posturas. As abelhas preparam-se para o período estival, as colónias regridem em número de indivíduos e tornam-se menos activas.
Quando as levamos para o Girassol, por qualquer fenómeno evolutivo (co-evolução entre o Girassol e as Abelhas), esta planta “prepara” as Abelhas para a polinização. Isto é, a cultura do Girassol “percebe” que vai necessitar de grande quantidade de polinizadores para tão grande quantidade de flores. Para isso e muito cedo estimula as colónias de abelhas a aumentarem de dimensões. Muito antes da floração a planta do Girassol produz e disponibiliza uma melada que irá estimular a abelha rainha a aumentar a postura.
Desta forma, quando a flor surgir, as colónias de abelhas estarão suficientemente fortes e populosas para darem conta do recado...
Há quem diga que mais de 50% do mel de Girassol é produzido antes desta planta florir...


Cá está outra abelha num autêntico “canteiro florido” que não é mais que uma flor de Girassol.

Acabou a floração do Girassol.
Daqui as abelhas já pouco ou nada conseguem tirar. A não ser que haja Cardo nas proximidades.
Tirei a fotografia porque achei a imagem curiosa, parece uma plantação de “Varroas gigantes”...livra... se as pequenas já são o que são...



O facto de haverem plantas em diversas fases vegetativas é sempre uma ajuda.
Quando umas deixam de disponibilizar néctar há outras que iniciam agora a produção.


O mais importante:
A visita do Mário e da Natália da “Ferradela” ao Monte do Mel.
É preciso coragem para uma fotografia destas sem teleobjectiva, e o Mário ganhou o direito de provar o mel do Monte do Mel, pois no minuto seguinte levou uma tremenda “Ferradela” no braço...
Espero que o Mário perdoe a agressividade das abelhas e tenha apreciado a visita ao meu apiário...