03 julho, 2009

As abelhas, noutra perspectiva


Há uns largos milhões de anos atrás, ainda antes do tempo dos Dinossauros, no período Carbónico, época em que grandes florestas luxuriantes cobriam a maior parte do planeta, surgiu um grupo de seres vivos extremamente bem adaptados – os insectos.
Estes rapidamente invadiram todos os habitats possíveis e imagináveis, actualmente encontramo-los desde as calotes Polares até aos tórridos desertos Africanos, desde as camadas mais altas da atmosfera até às profundidades oceânicas, e inclusivamente em minas e grutas naturais de grande profundidade onde a vida parece impossível. Posso ainda apresentar alguns exemplos mais extremos, como as larvas de uma determinada mosca que vivem em lagos com salinidade superior a 87%, ou das larvas de outra mosca ainda, que se desenvolvem naturalmente nos charcos de petróleo bruto, e que alguém conseguiu manter com vida em petróleo puro refinado.
O seu sucesso biológico deve-se entre muitas outras razões às suas capacidades reprodutivas com proles muito numerosas, que permitem que apenas alguns casais de insectos reponham toda uma população. O que se verifica nos nossos campos de cultivo após os tratamentos com pesticidas que resultam na maioria das vezes ineficazes.
O seu exoesqueleto de quitina permite-lhes sobreviver ás condições ambientais mais adversas, inclusivamente ás radiações nucleares como aliás já foi diversas vezes provado.
Á semelhança das aves possuem asas, ou melhor ainda, e como me disse um dia um entomólogo “... os insectos são os únicos seres vivos que ganharam um par de asas sem detrimento de outro par de membros, à excepção dos anjos.”.
E não é difícil de estimar o potencial adaptativo que as asas conferem a qualquer ser vivo, seja pela capacidade de alcançar e explorar lugares inatingíveis por animais apteros, seja pela capacidade de escapar aos predadores ou apanhar as presas.
Por outro lado, os insectos possuem ainda uma grande capacidade de se dissimularem, ou seja, de passarem despercebidos, existindo então alguns a imitarem flores, os fasmídeos, muito usados em estudos de genética assemelham-se de tal forma ás hastes de gramínias que as populações rurais os designam por “ Bichos – palha “. Outros insectos semelhantes às cochonilhas, possuindo uma carapaça em forma de espinho confundem-se assim com os espinhos verdadeiros de alguns arbustos. Algumas borboletas de cores vistosas quando voam, passam a autênticas folhas secas com nervuras e tudo, quando pousam.
A força e o trabalho desenvolvido pelos insectos, outro factor a não desprezar. Desde sempre se fizeram comparações à força do Homem e dos insectos, em especial das formigas, calculando-se hoje que as coisas não serão tão proporcionais assim, fiquemo-nos ainda com as primeiras ideias, tal como as transcreveu E. Sousa D’Almeida na obra “O Homem e os insectos”, onde se diz que um determinado escaravelho tem em relação ao seu peso tanta força como dez juntas de bois, ou se compararmos o esforço que faria um homem para igualar uma formiga a carregar um grão de trigo por cima de um muro de dois metros “... repetido na escala humana, (...) um homem, carregando com um fardo de mais de 500 quilos, subir a pique uma altura de quase duas vezes a do Himalaia e repetir este feito várias vezes ao dia”.
E muitos outros exemplos poderia dar para ilustrar esse mundo tão estranho dos insectos, e a forma como se têm relacionado com o Homem, mas para quem quiser saber mais sempre poderá consultar as referências do presente artigo.

Apis mellifera conservada em ambar (fóssil).

Alguns insectos, das ordens Hymenoptera e Ortoptera evoluíram no sentido de uma vida em sociedade, com divisão de funções e tarefas, levando essa especialização tão longe que se tornaram incapazes de sobreviver sozinhos. Dentro dos hymenopteros, um grupo tem interessado particularmente ao ser humano, o género Apis, mais precisamente a espécie Apis mellifera, dadas as suas capacidades de armazenamento de substâncias de grande interesse económico, sendo sobre esta espécie que nos iremos debruçar.
Nos últimos dois séculos bastante luz se tem feito sobre os mistérios das abelhas, mesmo o “segredo da abelha” o subterfúgio para tudo o que era inexplicável na colmeia tem sido gradualmente desvendado. No entanto, e para quem se interessa verdadeiramente pelo tema, por cada mistério resolvido, por cada verdade conquistada, ficam sempre novas dúvidas, novas questões, por vezes pouco importantes no contexto global, e que tocam já as raias da filosofia, mas que continuam de certa forma a aguilhoar as mentes mais curiosas.
E na realidade não é necessária muita perspicácia para constatarmos o carácter único da nossa pecuária, que estranhos ganadeiros serão os apicultores cujos animais diferem de todos os outros domesticados pelo Homem ? O próprio comportamento das abelhas que tantas questões e problemas têm levantado.
Umas mais agressivas, outras nem por isso, “... não conhecem o dono.” dizem uns, “... defendem o que é delas e nós tentamos roubar”, dizem outros, mas o que é um facto é que esta característica é bastante impeditiva para muitos potenciais apicultores que não chegam a sê-lo.
Outras questões também enigmáticas prendem-se com a sua vida colonial, o seu comportamento social, as hierarquias tão definidas, a divisão de tarefas como se uma colónia funcionasse como um único organismo. Há uma nítida perda de individualidade por parte dos “indivíduos” que constituem a colmeia, o formigueiro ou o vespeiro, nenhum é representativo dos restantes, nenhum sobrevive sozinho.
Suponho que não seja fácil para a teoria evolucionista de Darwin explicar como é que determinados animais originalmente solitários, tenham evoluído para uma estrutura social tão interdependente, apesar de todas as contrapartidas que daí retiraram.
Muitos autores tentaram classificar as colónias de abelhas, de formigas, de térmites e das vespas sociais como um organismo indiviso, e não como um grupo, uma colónia. Cada abelha, formiga, vespa ou térmite não seriam mais do que células especializadas em determinada função e inseparáveis fisiológicamente de todas as outras. Os exemplos, são demais conhecidos, no caso das abelhas, a rainha e os zangãos não serão mais do que os ovários ou os testículos de um super organismo, os responsáveis pela reprodução, precisam no entanto de ser alimentados e protegidos pois não o conseguem fazer por si só. As obreiras, variam as suas funções ao longo do tempo, limpando a colmeia, defendendo-a de intrusos e buscando alimentos para toda a colónia, passando assim de sistema excretor, como se dos rins ou da bexiga se tratasse, a sistema imunitário e finalmente a sistema digestivo e circulatório, fazendo passar os nutrientes por toda a colónia alimentando-a. Estas, não conseguem então reproduzir-se pois são estéreis.
Há assim uma especialização de funções que as obriga a uma união continua ao longo de toda a vida, impossibilitando integralmente uma vida solitária.
Em tempos li um livro bastante curioso sobre genética, ou melhor ainda, sobre uma abordagem bastante filosófica da genética e do comportamento, e que poderá de certa forma trazer alguma luz às questões aqui levantadas. Alerto no entanto para o facto de serem apenas reflexões, não me vou pronunciar acerca da validade cientifica da obra que tem um caracter muito particular, mas cujas ideias estão apresentadas de uma forma muito clara e inteligente, e de certa forma até irrebatíveis, dada a impossibilidade de provar o contrario.

A ideia base da obra a que me reporto, não é mais do que um ponto de vista curioso sobre o comportamento dos animais, justificado em parte pelas proximidades genéticas, onde o autor pretende demonstrar que os seres vivos, as suas características e os seus comportamentos não são mais do que estratégias arquitectadas pelos genes para estes sobreviverem e acima de tudo estarem presentes nas gerações seguintes.
Esta teoria, se assim lhe posso chamar, tenta de certa forma reduzir o comportamento dos animais, e do Homem inclusivamente, a algo muito mecanicista. O eixo da consciência, e o sistema cognitivo em geral é assim deslocado do cérebro para os genes, as estruturas responsáveis pela transmissão hereditária das características, ou seja, o que faz com que os filhos se assemelhem aos progenitores.

Vamos então a uma das questões fundamentais nas abelhas, o suicídio, atitude muito comum nas obreiras, para defesa da colónia.
A abelha ao desferir a picada vê-se desprovida do ferrão que arrasta consigo alguns órgãos vitais levando à sua morte. Uma atitude louvável e cheia de altruísmo, como todos a classificam. Mas segundo esta teoria, parece que as coisas não são bem assim, este comportamento ao contrário do que parece revela o puro egoísmo.
Como disse atrás, aos genes importa apenas estarem presentes na geração seguinte, a qualquer custo e independentemente do seu tempo de vida, de onde ressalta um exemplo que diz que uma mãe ao deixar de comer para alimentar os filhos colocando em causa a sua própria sobrevivência, pratica um acto de egoísmo, pois os seus genes já transitaram para a próxima geração, já se encontram “copiados” nos seus filhos, e são apenas os genes que contam, os organismos não passam de estratégias.

Então chegamos a uma contradição, não faz sentido o suicídio da obreira, não defende a progenitura, os seus genes não estão na geração seguinte pois ela não se reproduz, logo não poderá ser uma “ estratégia “ para a propagação de genes. Precisamos então de uma explicação mais convincente, o que se consegue atendendo às características peculiares da reprodução destes insectos.


Como é do conhecimento geral os zangãos ( o sexo masculino ) resultam de óvulos não fecundados, logo todos os seu genes provêm de um único progenitor, a rainha. As fêmeas férteis e estéreis, nomeadamente a rainha e obreiras, resultam de um processo reprodutivo normal, herdando informação genética de dois progenitores, logo os seus genes provêm 50% do pai e 50% da mãe.


Para aclarar as ideias, podemos afirmar que uma obreira filha de um zangão com características agressivas ( portador de genes para a agressividade ), e de uma rainha com características dóceis, poderá ser dócil ou agressiva, 50% de probabilidades para cada hipótese. No entanto, um zangão filho de uma rainha dócil, será decerto dócil e transmitirá essa característica à descendência, se for filho de uma rainha com características agressivas, herdará apenas genes para a agressividade que transmitirá posteriormente à descendência.
É então possível atribuir afinidades, e graus de parentesco entre as diferentes “castas” nas abelhas e assim tentar explicar o suicídio das obreiras. Nos insectos sociais podemos dividir a colónia em dois grupos distintos, os produtores ( rainha e zangãos ) e os criadores ( as obreiras ) que cuidam da descendência dos primeiros.
O que ganham as obreiras com isto ?, ou ainda, o que ganham os seus genes ? Poderíamos pensar que as obreiras são manipuladas de uma forma egoísta pela rainha, para cuidarem dos seus filhos, e por assim dizer dos seus genes.
Mas há outra abordagem possível !, porque não pensar que é antes a rainha a entidade subjugada pelas obreiras para produzir réplicas suas e dos seus genes ?
É certo que não são os próprios descendentes que as obreiras cuidam, no entanto são-no muito próximos geneticamente, mais próximos do que poderíamos pensar, e talvez seja aqui que está a chave do mistério.
As obreiras recebem genes da mãe (rainha), e do pai (zangão). Os genes que recebem da rainha podem ser de dois tipos diferentes, pois a rainha teve um pai e uma mãe herdando genes de duas fontes distintas, e por isso poderá transmitir a cada filha um tipo ou outro, nunca os dois em simultâneo. Os genes vindos no espermatozóide do zangão serão apenas de um tipo, pois o zangão não tem pai, logo só transmite o mesmo tipo genético à descendência, o tipo que herdou da mãe.
Podemos daqui concluir que todas as abelhas fêmeas (rainhas e obreiras), serão forçosamente gémeas por parte dos genes paternos, o que lhe dá uma grande proximidade genética entre elas, superior ainda à proximidade com a mãe.
Para podermos fazer comparações e aclarar o termo proximidade genética, pode-se dizer que os gémeos verdadeiros, no homem por exemplo, têm uma proximidade genética de 100%, pois partilham todos os genes.
Esta proximidade, levará segundo este ponto de vista, a uma maior predisposição das obreiras a regular a sua própria mãe como uma máquina eficiente de produzir irmãs, tal como à facilidade com que se suicidam para salvar genes tão próximos dos seus, mais ainda do que se de filhos se tratasse.
Outros pontos de vista curiosos ressaltam ainda desta obra, como por exemplo, o que terá levado animais solitários a viver em grupo?
Imagine-se o comportamento de um grupo disperso de herbívoros numa pradaria quando se aproxima um predador. Esse grupo disperso tende a aglomerar-se cada vez mais, uma vez que cada um tenta estar mais próximo do centro, e por assim dizer mais afastado da periferia onde se encontra o predador.
Hipoteticamente, com os insectos sociais poderá ter acontecido algo semelhante, levando a uma especialização dos que ficam na periferia do grupo para a defesa da colónia abdicando da fertilidade, pois se tivessem filhos estes estariam mais expostos. Enquanto que os do centro, portanto na zona segura, evoluíram no sentido do atrofio dos órgãos de defesa, especializando-se na reprodução. Esta situação vê-se nos dias de hoje quando um enxame desprotegido da colmeia ou de um abrigo natural, pousa temporariamente no ramo de uma arvore por exemplo.
Muitas outras hipóteses poderiam ainda ser levantadas sobre este tema tão vasto do comportamento das abelhas, no entanto, volto a frisar que o que foi dito são apenas teorias, mais ou menos fundamentadas.
Duma coisa podemos nós ter a certeza, as abelhas picam, e altruística ou egoísticamente elas continuarão a picar quem delas se aproxime, mas também a apicultura perderia toda a graça sem este pormenor.
Referências:
Almeida, Eduardo Sousa.( 1946 ) – O Homem e os Insectos – Livraria Sá da Costa
Dawkins, Richard.( 1976 ) – O Gene Egoísta – Ed. Gradiva

01 julho, 2009

Mais Girassol...

Um dos meus apiários de Verão no Girassol de sequeiro.
Este tipo de Girassol tem vantagens e desvantagens, há quem diga que por não ser regado os açúcares (néctares) estão mais concentrados e as produções são maiores. Por outro lado, e segundo as mesmas fontes, a ausência de rega não “lava” o néctar das flores e a melada da planta. Mas se a “seca” for tanta que não ajude a planta do ponto de vista vegetativo...
Este ano vou ter oportunidade de fazer a experiência, uma vez que tenho colmeias em Girassol regado e não regado. E ainda... já cá faltava, um terceiro e curioso tipo de Girassol, o Girassol de regadio sem água. É uma forma de cultura que a rapaziada anda a desenvolver aqui no Alentejo, creio que fazem a sementeira em terrenos de regadio (mais subsidiados) e depois... se as plantas quiserem água vão bebê-la à barragem que fica sempre por perto...


E agora o que se chama “perder uma boa oportunidade de ficar calado”:
Não sei se alguém já se interrogou acerca da estranha forma helicoidal como a flor do Girassol é desenhada, à semelhança das pinhas, ananases e muitas outras flores e folhas na Natureza?
Cada folha, ou flor (neste caso) é “inserida” no caule (ou estrutura de suporte) a cada 37º virgula qualquer coisa, que não é mais que o limite da Série de Fibonacci se a memória não me falha...
Ou seja, ... se bem que este “ou seja”, não vai clarificar muito mais as coisas..., cada flor de girassol (mini-flor) cria um halo de inibição que só deixa crescer a próxima flor a uma determinada distância e rotação de 37, ?º...
Mas tal como eu não se preocupem muito com isso, o Girassol há-de dar mel da mesma forma...

Coloquei cerca de dezoito colmeias para 27 hectares de Girassol (neste campo), é uma densidade baixa de colmeias.
Quando o Girassol era de ciclo longo (a flor durava quase um mês) a quantidade de colmeias/hectare era muito menor (cerca de 0,5), agora chego a colocar duas colmeias hectare (e três) uma vez que a floração quase não chega às duas semanas.
Nestas circunstâncias (18 colmeias: 27 hectares) é raro verem-se imagens como a anterior, duas abelhas numa flor. No entanto, lembro-me de há três anos, onde nesta região apenas fizeram meio hectar de Girassol, encontrava cinco e seis abelhas na mesma flor.


Não é assim que se tiram fotografias ao Girassol, as plantas estão todas “de costas”. Mas para as fotografar de frente teria de andar quase um km, ainda por cima eram três horas da tarde e estava calor...
De qualquer forma reparem na riqueza deste local, o montado de sobro e azinho poderão constituir boas fontes de melada nestas manhãs húmidas e de nevoeiro.


Uma pequena flor de Girassol, característica da cultura de sequeiro.
Os agricultores a apicultores referem-se ao Girassol antigo (de ciclo longo) como tendo grandes “cabeças” grandes flores, lembram até as “rodas de um carro”.


Mais duas abelhas que se encontraram na mesma flor.
Reparem na “floresta” de estruturas produtoras de pólen e néctar onde as abelhas se encontram.
O Girassol pertence à família botânica das Compostas (Compositae, para dar aquele ar de entendido...), cuja principal característica é que cada flor não é uma única flor, mas sim uma grande quantidade delas.
O mesmo acontece com os malmequeres, as margaridas, camomilas, etc...
O conjunto de flores evoluiu de tal forma que em vez de surgirem num cacho como muitas outras plantas, surgem numa estrutura cuja forma lembra... uma flor!
As flores centrais, como poderão ver nesta e noutras imagens à frente, têm as pétalas pouco desenvolvidas, as periféricas cuja função è de atrair os insectos, desenvolveram grandes pétalas com uma cor amarela muito apelativa.
Cada uma das pequenas flores (que constituem o Girassol) possuem estames, carpelo, estigmas, óvulos, ovários e pólen, e cada uma dará origem a uma semente (se for polinizada).
A grande vantagem para abelhas e apicultores é que as flores se encontram juntas em capítulos, e os capítulos juntos na área de cultivo, o que disponibiliza toneladas de néctar e pólen às abelhas sem que elas tenham de se deslocar muito.

O Girassol ainda não abriu.
Ainda assim, é demasiado tarde para as abelhas. Nunca devemos deslocar as colmeias para um campo de Girassol quando a cultura já se encontra nesta fase. É uma perda de tempo e esforço.
A não ser claro está, que as colónias estejam muito activas, venham de outra produção e tenham muita população, para que possam começar a trabalhar de imediato.
A fase ideal para levar as colmeias para esta cultura é quando as plantas têm entre 30 a 50 cm (altura dos joelhos).
Normalmente quando o fazemos o Rosmaninho já não tem floração há quase um mês e as rainhas quebraram o ciclo de posturas. As abelhas preparam-se para o período estival, as colónias regridem em número de indivíduos e tornam-se menos activas.
Quando as levamos para o Girassol, por qualquer fenómeno evolutivo (co-evolução entre o Girassol e as Abelhas), esta planta “prepara” as Abelhas para a polinização. Isto é, a cultura do Girassol “percebe” que vai necessitar de grande quantidade de polinizadores para tão grande quantidade de flores. Para isso e muito cedo estimula as colónias de abelhas a aumentarem de dimensões. Muito antes da floração a planta do Girassol produz e disponibiliza uma melada que irá estimular a abelha rainha a aumentar a postura.
Desta forma, quando a flor surgir, as colónias de abelhas estarão suficientemente fortes e populosas para darem conta do recado...
Há quem diga que mais de 50% do mel de Girassol é produzido antes desta planta florir...


Cá está outra abelha num autêntico “canteiro florido” que não é mais que uma flor de Girassol.

Acabou a floração do Girassol.
Daqui as abelhas já pouco ou nada conseguem tirar. A não ser que haja Cardo nas proximidades.
Tirei a fotografia porque achei a imagem curiosa, parece uma plantação de “Varroas gigantes”...livra... se as pequenas já são o que são...



O facto de haverem plantas em diversas fases vegetativas é sempre uma ajuda.
Quando umas deixam de disponibilizar néctar há outras que iniciam agora a produção.


O mais importante:
A visita do Mário e da Natália da “Ferradela” ao Monte do Mel.
É preciso coragem para uma fotografia destas sem teleobjectiva, e o Mário ganhou o direito de provar o mel do Monte do Mel, pois no minuto seguinte levou uma tremenda “Ferradela” no braço...
Espero que o Mário perdoe a agressividade das abelhas e tenha apreciado a visita ao meu apiário...

29 junho, 2009

Cresta: Primavera 2009

A Cresta...
É um dos momentos mais aguardados do ano apícola, o culminar de um ciclo.
Só è superado pelo acto da venda do mel, aliás... pelo momento em que se recebe o cheque, aliás... quando nos confirmam que o cheque tem fundo...
Pessoalmente é das etapas que menos aprecio na apicultura, a cresta ainda passa, mas a venda de mel nunca me seduziu muito, apesar de necessária.

Como faço as coisas ?
O trabalho começa habitualmente na semana anterior, em que numa última visita aos apiários verifico o estado de maturação do mel.
Começo muito cedo, no relógio e no calendário, cerca das 06:00 horas da manhã nos últimos dias de Maio ou primeiros de Junho. A floração do Rosmaninho já cessou há cerca de um mês e não existem mais fontes de néctar nestes locais.

No dia anterior ao da cresta começo por lavar o estrado da carrinha de caixa aberta, chego até a colocar um plástico onde assentam as alças. Levo inclusivamente um lençol de linho com que cubro as alças sobre a carrinha, à medida que aí as vamos colocando. Caso contrário levaria mais abelhas do que mel para a melaria.

Nunca utilizo fumo durante a cresta, a escova para separar as abelhas dos quadros de mel é substituída por um ramo de Estevas ou outro arbusto. Quando começa a estar muito melado, rapidamente o troco por outro.

Levo sempre duas alças vazias.
Uma serve para colocar os quadros com mel da primeira alça a ser crestada. Como esta fica vazia serve para albergar os quadros da próxima, e assim sucessivamente. A segunda alça só será necessária se houver criação sobre os ninhos, ou seja, nos quadros de mel das alças.

Uma das “discussões” mais comuns nos apicultores da região prende-se precisamente com a maturação do mel e a data de cresta. Boa parte dos apicultores continua a crestar em função de datas, independentemente da maturação do mel.
Dizem inclusivamente que só a partir de Julho é que o mel está pronto, outros ainda dizem que só no quarto minguante de Agosto, quando não há criação. Ora tal afirmação deixou de fazer sentido para quem usa colmeias móveis, uma vez que os espaços da criação e da produção de mel são distintos.
Por causa da manutenção de várias alças de mel sobre o ninho, este ano um apicultor sofreu sérias perdas nos dias de maior calor: a cera derreteu nas alças de cima e o mel escorreu pela colmeia abaixo...

De facto, o mel de Rosmaninho em finais de Maio, princípios de Junho não está totalmente operculado, mas a quantidade de alvéolos abertos é mínima, nada que coloque em risco o armazenamento do mel.
Até costumo fazer um truque: sacudo com algum vigor (mas sem quebrar) um quadro de mel menos operculado sobre o tampo de uma colmeia e verifico se caíram gotas de néctar. Se tal suceder, o teor de humidade é muito elevado: não se pode crestar, se o mel permanecer nos favos está tudo bem.

O processo da cresta...
Começo sempre por colocar a alça vazia sobre o tampo da segunda colmeia da fila, abro a primeira e começo a transferir os quadros.
Quando a alça está cheia, levo-a de imediato para a carrinha e cubro-a com o lençol para não atrair abelhas. Com o levanta quadros destaco a alça que ficou vazia, coloco-a sobre o tampo da colmeia seguinte e assim sucessivamente até à última alça do apiário.

Por vezes surge o problema, a meio da cresta encontramos uma alça com criação.
Nesta fase há que tomar decisões, se o(s) quadro(s) de criação tiverem poucas larvas e muito mel, normalmente ignoro a criação e recolho os quadros como se tivessem apenas mel. Se tiver apenas ovos e mel, o investimento é pequeno para as abelhas e prossigo da mesma forma, mas quando se tratam de grandes “manchas” de larvas já grandes ou operculadas, opto por deixar esse quadro na alça original.
Agora falta-me uma alça para continuar a receber os quadros de mel... foi por isso que trouxe uma suplente.
Todas as colmeias após a cresta ficaram “rasas” pelo ninho, salvo a que tinha criação que ficou com uma alça com vários quadros de criação.
Continuando a cresta, se me surgirem novos casos de criação nas alças não volto a repetir o processo, apenas “limpo” as abelhas do(s) respectivo(s) quadro(s) e levo-o(s) para a alça mais atrás que ficou com criação. Se ainda lá couberem claro, senão tenho de recorrer a nova alça vazia.
Não vejo grande problema em juntar os quadros de alça com criação de várias colmeias sobre o mesmo ninho, as dadoras pouco perdem e a receptora beneficia bastante com este acréscimo de população. Por outro lado também se poupam alças sobre os ninhos.

Há muito tempo que não recorro a este método, de facto já há anos que não me aparece criação nas alças. Curiosamente, este ano foram muitas as colmeias onde este fenómeno se deu, mas à data de cresta as alças só tinham mel, a criação regredira.

Fica mais um conselho para quem não prescinde do fumigador na cresta, poderá usá-lo mas com muito cuidado para não deixar cheiro de fumo no mel. O ideal será apontar o fumo de uma forma oblíqua e não directamente sobre os quadros das alças.

À chegada à melaria costumo descarregar rapidamente as alças para um local fresco e seco, não vão as alças expostas atrair mais abelhas. Já me aconteceu isso um ano e por pouco os vizinhos não fizeram um abaixo-assinado para me arranjarem um novo endereço...

28 junho, 2009

Homenagem da "Ferradela"

Imagens enviadas pelo amigo Mário, do blogue a "Ferradela", resultaram de uma tarde de inspiração artística, de uma amizade que une os dois blogues tal como às pessoas por trás deles...

... só mesmo a imaginação do Mário para colocar um "tapete" destes na entrada...

25 junho, 2009

O melhor apiário do mundo...

P'lo título parece mais uma daquelas “estórias” de apicultores idosos, mas esta é mesmo verdade.
O apiário ideal, entre muitas coisas, devia ter rodas...
Sempre que nos referimos às regras de instalação de um apiário, e as definimos, percebemos que uma boa localização para o Inverno/Primavera, nunca ou dificilmente será uma boa localização para o Verão.
Se na estação fria as abelhas precisam de um local soalheiro, no Verão decerto apreciarão a sombra e a proximidade de água. Inclusivamente, até do ponto de vista económico as colmeias ficarão mais produtivas, uma vez que as abelhas que seriam necessárias para baixar a temperatura, podem ser mobilizadas para outras tarefas.
Até aqui nada de novo, resta encontrar um local com tais características. Nem que seja para fazer transumância por... transumância, melhores condições terão reflexos na sanidade apícola, mas se lhe pudermos adicionar uma nova florada: melhor ainda.

Quando faço os assentamentos de Verão, procuro sempre boas sombras e proximidade de água (junto ao Girassol) para deixar as colmeias. Já devo ter escrito isto umas dúzias de vezes, mas reparem como eu ao dizer “boas sombras” oculto uma das minhas maiores ignorâncias: qual a dinâmica da sombra de uma árvore sob a sua copa???

O movimento do Sol (eu sei que é a Terra que se move) faz com que a sombra também gire, mas sempre de uma forma tão sinuosa que nunca lhe adivinho o percurso. Isso faz com que as colmeias que imaginamos à sombra passem umas boas horas sob o Sol directo, às vezes nas piores horas.

Que inveja daqueles pastores que sabem exactamente em que local a sombra de determinada árvore se encontra de hora a hora. Pudera, eles passam horas aí sentados...
Antes resolvia o problema com várias visitas ao futuro apiário, a várias horas do dia, marcações com paus e pedras, e só então me decidia a levar as colmeias. Com o passar dos anos, refinei o método e comecei a fazer os apiários de Verão no centro de bosquetes de várias árvores... O que resultava muito melhor.
Nestas circunstâncias, por mais que a sombra se movesse, as colmeias estavam sempre protegidas do Sol.

Este ano implementei uma novidade. Ou melhor, encalhei com ela acidentalmente.
Encontrava-me a circundar um imenso campo de girassol, o circuito quase completo e nem uma árvorezinha onde deixar as colmeias.
Foi quando se me deparou um pequeno bosque, em forma de meia Lua, que entrava pelo girassol. O bosque tinha tal densidade de Freixos e Silvas (balsas), que me era impossível entrar. Foi à custa da roçadora que consegui “esculpir” o novo assentamento para as colmeias.
Digo “esculpir” porque o resultado final foi um autêntico salão verde para as abelhas, aberto na vegetação. Penso que até da chuva elas estarão protegidas. Tive inclusivamente que podar uma ou duas árvores e silvas para abrir portas e janelas de acesso ao girassol.
Não creio que venham a ter calor nesse local, e quanto ao Sol directo nem vale a pena preocupar-me com isso.

Os 30 hectares girassol, nesse local, são regados através de um curioso sistema de aspersores montados permanentemente.

Melhor ainda,
Do outro lado da estrada, mais dois pivots, cada um com 35 ha de girassol em diferentes fases vegetativas. O que permite às abelhas um acesso muito fácil às três folhas, uma vez que o percurso não é muito superior a um quilómetro.
A principio ponderei bastante sobre o facto de as abelhas terem de cruzar uma estrada para aceder ao restante girassol. Quando tal acontece são muitas as que morrem à passagem dos carros. No entanto, até para esse problema o local tinha solução: a estrada é ladeada por duas fileiras de Oliveiras que obrigam as abelhas a ganhar altura (muito sobre os carros) para poderem atravessar.
Lateralmente aos campos de girassol: duas soberbas albufeiras, uma de cada lado da estrada.

De facto parece ser mesmo o “melhor apiário de Verão” que alguma vez tive, resta agora ver as produções no final.
Espero não concluir daqui a uns meses que de facto a sombra e a água são determinantes, como já se sabia, mas a ventilação do local também tem o que se lhe diga...