Não foi há muito tempo que regressei ao local dos muros apiários. Só me queria certificar que ainda lá estavam.Para quem anda mais arredado destas lides, informo que os ditos muros “não são lá muito móveis”, a eventual ausência poderia dever-se à erosão das frágeis paredes em taipa.
Felizmente lá estavam, camuflados de pasto, com as quatro fileiras de lajes de xisto, onde outrora se perfilavam várias dezenas de cortiços. Acho os locais muito nostálgicos, não sei se este mundo tende para o silêncio ou se imagino o “antigamente” mais buliçoso... Antes havia muita gente pelos campos.
As paredes de taipa pareciam ter cedido sob uma enorme pressão, o peso dos anos, eram agora mais largas que altas. As chuvas desgastaram o topo das paredes nuas, e acumularam os detritos lateralmente, reforçando essa impressão.
É mais fácil de perceber esse processo se soubermos como foram construídos os muros:
O apicultor não só escolhia uma encosta suave, de matos e virada a nascente, como também seleccionava o local pela natureza do solo. Terras ricas em barro prestavam-se mais à construção em taipa.
A matéria prima era recolhida ali próxima, escavava-se e amassava-se com pouca água, o mínimo: pouco mais que humedecida. O “truque” estava na forma com era prensada entre os taipais. As pancadas secas mas constantes dos maços haviam de lhe conferir a rigidez necessária para aguentarem o temporal. Adicionavam pequenas pedras à argila, para dar consistência, até havia quem lhe metesse alguma palha para ligar melhor.
Estamos a falar de paredes com pouco mais de um metro, os cuidados arquitectónicos não eram determinantes, bastava resistirem à chuva, aos texugos e a alguma raposa. No fim “escarranchavam” Estevas sobre as paredes, as raízes para cima e a folhagem para baixo permitiam que a água escorresse sem danos maiores. Se lhe adicionassem uns tojos, pouco travavam os humores de S. Pedro, mas os animais selvagens já pensariam duas vezes...
O “montão” de xistos que o apicultor coleccionava há vários meses, era agora distribuído em três ou quatro filas paralelas, com ou sem socalcos, dependia do declive. Os cuidados com o frio e a humidade já são antigos, e a estinhagem no fim do Inverno não resolvia tudo.
Os mais metódicos erigiam estas “malhadas” na proximidade de uma árvore, um poleiro para os enxames e uma sombra para as colónias já estabelecidas.
Pareceu-me “ouvir” alguém doutras paragens a imaginar um “chaparro” bem Alentejano a velar pelas abelhas. Mas desenganem-se, não há árvore mais Transtagana que o Carrasco: o Quercus coccifera, pela folhagem mais lembra a azinheira, mas é mais pequeno.
Muro do Mouchão VelhoErigido no lado poente da Herdade do Mouchão – Casa Branca, mais famosa p'los vinhos que pelo mel. Ainda assim o “Zé Gonilha” e a esposa lá labutaram a crestar e a apanhar enxames durante muitos e bons anos. Justiça seja feita a quem a merece, era mais “abelheira” a Dª. Luísa do que ele, que muito pavor tinha das abelhas.
Quando se acabaram as abelhas e o apicultor, faliu o muro, restam os “camalhões” de terra a delimitar uma área quase sagrada, quem sabe se um dia...
Muro da Estrada das “Tesas”Localizado entre as freguesias de Vimieiro – Arraiolos e Casa Branca – Sousel, muito próximo da mítica Estrada das Tesas, que em tempos medievais fazia a ligação entre Lisboa e Badajoz. Pertencia ao “Ti Bento Antão” que o vendeu ao Inácio Buxo, “abelheiros” de tempos antigos, este último ainda cuida de um punhado de cortiços.







































