14 setembro, 2009

Avis mellifera 2009

Como era de esperar, aí está a segunda edição das Jornadas Técnicas Apícolas Avis mellifera, cujo tema é a Diversificação da Produção Apícola.
A data mais provável deverá ser no fim de semana de 5 e 6 de Dezembro, pormenor a confirmar mais oportunamente, tais como os temas específicos e respectivos oradores...

12 setembro, 2009

À Conversa com António G. Pajuelo sobre o SDC...

O Síndroma do Despovoamento de Colmeias (SDC), ou (CCDColony Collapse Disorder), é um dos assuntos que mais anda na ordem do dia em apicultura.
Ou melhor... devia andar, pelo menos em Portugal é muito escassa ou nula a informação referente a esta “moléstia”, que já causou demasiadas baixas e custos às explorações apícolas, na Europa e no mundo em geral.
A falta de conhecimentos sobre o fenómeno tem de alguma forma levado os apicultores portugueses ao comportamento da Avestruz, “enterrando a cabeça na areia” não vêm o problema e esperam que este não os veja a eles... Desculpam-se com outros factores mais “mundanos” e chega a ser tabu falar no SDC...
Segundo a Wikipedia, o CCD é um fenómeno em que as operárias de uma colónia de abelhas desaparecem abruptamente. Embora tais desaparecimentos ocorressem desde sempre, o termo CCD surgiu quando tais ocorrências sofreram um aumento alarmante (...)
Na região de Portalegre, entre muitas outras, houve relatos em que no ano passado apicultores profissionais com perto de 500 colmeias ficaram com pouco mais de 200.
Aproveitando a presença do conhecido técnico e investigador apícola espanhol A. G. Pajuelo, no XI Concurso de Mel de Montemor-o-Novo, onde também fui júri, resolvi colocar-lhe algumas questões acerca do assunto e que passo a transcrever:

Monte do Mel
Começaria por te pedir que falasses no historial, origens e primeiras “teorias” acerca do CCD...

António G. Pajuelo
O CCD aparece em 2003, vindo a acentuar-se em 2004/2005. Inicialmente em países Centro Europeus como a Alemanha e a França. Só em 2004 foi detectado nos EUA e em 2005 estendeu-se a outros países da Europa Central como a Itália ou a Suíça...


MMel
Pensei que o “alarme” tivesse sido dado nos EUA...

A. Pajuelo
O problema surgiu de facto nos países da Europa Central em 2003, apenas se tratava de um fenómeno desconhecido e os nomes variavam de local para local. Mesmo os EUA em 2004 davam-lhe uma designação diferente (semelhante a Colony Collapse Disorder, mas que não consegui reter), e a homogeneização do nome para o actual CCD surgiu em 2005, daí a confusão com a sua origem nos EUA.

MMel
Ao que parece, os sintomas e respectivos problemas (apesar de semelhantes), surgiram em vários locais do planeta independentemente, por isso lhes chamaram nomes diferentes. Só em 2005 convencionaram a sigla CCD para Colony Collapse Disorder.
E as teorias que acompanharam todo o processo?...

A. Pajuelo
Em 2005 surgem várias tentativas de explicação para o fenómeno:
1. Surgimento de novos agentes patogénicos. Nesse ano, os Centros de Investigação (espanhóis) de Marchamalo e Guadalajara citam pela primeira vez a presença de Nosema ceranae em abelhas europeias (Apis mellifera), quando este agente apenas afectava a abelha asiática (Apis ceranae), onde tinha sido detectado em 1996.
Tal descoberta, associada à elevada mortalidade de abelhas europeias leva à hipótese de uma possível correlação com este novo agente patogénico.
Mais tarde encontram-se exemplares de Nosema ceranae em antigas colecções (de abelhas conservadas em laboratório), colecções antigas e datadas de 1986 em França, 1987 nos EUA e desde 1990 no Uruguai e México.

MMel
Então a Nosema ceranae não pode justificar a mortalidade verificada com o CCD, uma vez que a sua presença é muito anterior a esta moléstia...

A. Pajuelo
Sim, não há uma correlação entre tal patogénico e o CCD. Alguns Centros de Investigação espanhóis encontraram a N. ceranae em grandes percentagens de infecção nas colmeias, pelo que hoje se crê que tal agente é apenas um oportunista, que se instala (está latente) e só se desenvolve quando encontra condições, ou seja, quando a colónia de abelhas está enfraquecida.
Por exemplo: sabe-se que cerca de 80% das colónias têm esporos de Loque Americana, que só se manifesta quando as condições o permitem.
2. Também em 2005, mas nos Estados Unidos, se pensou que a causa de tal mortalidade nas abelhas se devesse ao ataque do Vírus da Paralisia Aguda Israelita (VPAI), uma vez que se encontram muitas colónias infectadas com VPAI nas regiões afectadas pelo CCD.
Estudos recentes também não lhe apontaram “grandes culpas” para o problema em causa.
3. Cada vez se admite mais o CCD estar relacionado com problemas/deficiências nutricionais muito importantes. Nomeadamente na mobilização fisiológica de proteínas e gorduras, cuja falta enfraquece as colónias de abelhas.

MMel
Quando falamos em deficiências nutricionais, falamos em deficiências na pastagem, na floração: seja pelo escassear de flora apícola, seja pela sua qualidade, ou pela quantidade/qualidade dos constituintes do néctar e do pólen dessa vegetação.
Estas circunstâncias, quando se verificam, normalmente ocorrem em zonas localizadas, limitadas no espaço. Como foi possível que nos últimos anos, assumindo que é esse o factor mais importante, se tenham verificado em tão grande escala e quase por todo o mundo em simultâneo?

A. Pajuelo
Os anos de 2004 e 2005 foram os anos mais quentes e secos da última década (a nível global). (2003 também – MMel). Tais calores estivais reflectem-se bastante na flora Outonal, com as consequentes deficiências nutricionais nessa estação. E a deficiência nutricional é hoje largamente suspeita do CCD, uma vez que as mortalidades ocorrem sobretudo no período de Outono/Inverno.
4. Outra das causas poderá/deverá ser um deficiente controlo da Varroose (Varroa destructor), factor muito ligado ao anterior, uma vez que estes ácaros picando e sugando a hemolinfa das abelhas (e respectivas reservas), acabam por indirectamente as afectar do ponto de vista nutricional.
5. Outra causa provável tem a ver com o acumular consecutivo de resíduos de acaricidas nas ceras durante os últimos 25 anos. Desde que a Varroa surgiu em meados da década de 1980 que as colmeias são anualmente (e semestralmente) tratadas com acaricidas. E não devemos esquecer que os acaricidas também têm actividade insecticida.
Em Itália, França, EUA e Espanha, foram encontrados níveis alarmantes de contaminação da cera com tais substâncias.
Resumindo: Podemos dizer que quando estamos em situação de abundância, fontes de néctar e pólen quantitativa e qualitativamente importantes, tudo vai bem, não se verificam quaisquer sintomas ou mortalidade. Com problemas nutricionais, todos estes factores actuam de um forma sinérgica desencadeando o problema.


MMel
Só a título de curiosidade, até porque foi muito ventilado na imprensa, a possibilidade da influência da radiação electromagnética das antenas de telemóvel...

A. Pajuelo
Não dei grande importância a esse boato, há imensos casos de apiários na proximidade ou mesmo sob as ditas antenas, sem que com isso manifestem qualquer sintoma de CCD.
O comentário partiu de um apicultor Inglês e atingiu as dimensões que atingiu.

MMel (off record) Num mundo sincero, honesto e com as características que todos conhecemos, gostaria de saber se realmente houvesse alguma correlação comprovada, com as redes de telemóvel a fazerem publicidade em toda a comunicação social e a patrocinarem tudo e mais alguma coisa. Era o mesmo que se se detectassem propriedades cancerígenas na Coca Cola, alguém iria mexer uma palha ???

A. Pajuelo
Para mim, e à luz dos conhecimentos mais actuais, o problema principal deve-se mesmo às deficiências nutricionais no período do Outono.
Deficiências nutricionais levam a uma baixa significativa na criação e quantidade de abelhas jovens. Se a Varroa estiver mal controlada, os ácaros vão concentrar-se em grandes quantidades nessa criação restante sacrificando a que resta.
Desta forma, “entra-se” no Outono/Inverno com a última geração de abelhas geradas no Verão/Outono, cuja adiantada longevidade as torna demasiado velhas para suportarem os rigores da estação fria. Problema que se acentua em Invernos longos e rigorosos.
É portanto nesta estação (e nestas circunstâncias) que se dá o colapso das colónias – CCD ou SDC...
Uma má floração no período Verão/Outono é que acaba por desencadear esta série de acontecimentos, pois num “destes” Outonos perde-se cerca de um mês de floração, imprescindível para a Invernada.


MMel
Desde que o CCD foi detectado podemos dizer que estamos a ganhar, a manter ou a perder terreno face à moléstia?

A. Pajuelo
Em Espanha, tivemos mortalidades muito fortes em 2004/2005. Neste período calculo que se perderam cerca de 500.000 colmeias. Tínhamos 2.500.000 e passamos a ter 2.000.000 colmeias.
Em 2006, houve uma diminuição real de 6,0 %, quando nos anos anteriores chegou aos 20,0%.
Em 2007/2008 também houveram perdas consideráveis, mas sobretudo em zonas mais secas. Em regiões com chuva/humidade regular verificou-se apenas a mortalidade natural da época.


MMel
Estamos em Setembro, início da fase crítica, que cuidados devem ter os apicultores para o Outono/Inverno que se aproxima?
Que sinais/sintomas devem observar nas colónias de abelhas para avaliar a “presença” ou o risco de CCD/SDC, e se possível, como intervir para o contrariar?

A. Pajuelo
1º Observar o número de quadros (do ninho) ocupados por abelhas à entrada do Outono.
2º Observar o número de quadros com criação (quantidade de criação) na mesma época.
3º Avaliar a sobrevivência dessa criação (da criação gerada nessa época).
4º Avaliar as quantidades de pólen armazenadas/disponíveis na colmeia e nesse período.
5º Avaliar a qualidade da cera (análises de resíduos de acaricidas presentes).
6º Avaliar e controlar a Varroose de todos os apiários.



MMel (off record)
Parece fácil, mas não é nada fácil.
Cada um dos conselhos anteriores poder-se-á revestir de tais subjectividades na cabeça de cada apicultor que só poderá redundar na maior das confusões...
Para resolver, ou remediar as dúvidas, nada como um bom conhecimento das nossas colónias, o que só é possível (com poucas colmeias), bons apontamentos e visitas regulares.
Não vamos aqui apresentar uma fórmula única, atendendo a que há diversos tipos de colmeias, cada região tem as suas características próprias e que podem influenciar alguns senão todos aqueles parâmetros.
Ainda assim...
1º Considero uma colónia com população suficiente para enfrentar o Inverno quando possui pelo menos sete ou oito quadros ocupados por abelhas. Se bem que (sete e oito) já correm algum risco...
2º A quantidade de criação é muito subjectiva em cada época e cada região, dependendo do clima e da floração disponível. Daí a importância de cada apicultor conhecer sumariamente as características da sua região e da sua apicultura.
3º É um dos parâmetros mais difíceis, entre duas visitas ao apiário podemos “calcular” um número igual de abelhas, o que aparenta ser positivo. Mas pode tratar-se de abelhas mais velhas (pois a criação terá morrido) e as abelhas demasiado velhas já não vivem o suficiente para “atravessar” o Inverno...
Não digo que seja o mais acertado, mas poderíamos marcar quadros de criação (com fotos digitais) e passado algum tempo verificar se esta se mantêm ou foi removida. Não esquecendo de não contar com as que nasceram naturalmente...
4º A avaliação de reservas nutricionais parece-me uma tarefa mais acessível, pela contagem de quadros ou áreas com esta substância armazenada.
Na sua ausência ou rarefacção vale a pena antecipar as primeiras doses de alimento artificial (rico em pólen ou “muito” rico em pólen). Não convindo esquecer que face às características da estação que se aproxima, esse alimento deverá ser o mais sólido possível... (Ver: ALIMENTO ARTIFICIAL DE INVERNO – 30/12/2008).
Este parâmetro (tal como os outros) deverá ser reavaliado ao longo de todo o período crítico.
5º Processo que deverá ser caro e moroso. Assumindo resultados positivos para os acaricidas na cera o que podemos/devemos fazer nesta fase do ano ???
De qualquer forma, sempre podem consultar o Engº Miguel Maia : APISMAIA: 962 889 512 ou 917 172 854 ou ainda apismaia@sapo.pt
6º Poderá ser uma excelente oportunidade para uma sincronização geral das datas de tratamento da Varroose para esta data, o que diminuirá decerto os riscos de CCD.

MMel
Outro dos fenómenos associados ao CCD/SDC, que já li nalgumas revistas e me foi confidenciado por alguns apicultores, é o fenómeno do mel que fica nas colmeias (mortas/abandonadas) não ser pilhado pelas colónias vizinhas... fica a sensação de estar contaminado...

A. Pajuelo
O problema do CCD não é apenas de uma ou duas colmeias, é de todo o apiário (apesar de algumas sobreviverem). O que fariam as abelhas “pilhadoras” com pouca população e excesso de mel com mais aquele mel? Nem sequer se trata de uma época com estímulo para a recolha de mel...
Se as restantes colmeias estão deficitárias em criação e abelhas adultas para que necessitam de mais mel?
Se isto se passasse na Primavera, período muito activo na recolha de néctar, muita criação ávida de alimentos, então sim, dar-se-ia a pilhagem e esse mel era de imediato mobilizado. Nem se poderia colocar a hipótese de contaminação, pois na Primavera as abelhas pilham mel contaminado com Loque americana e até com quimiotóxicos...

MMel
Para terminar, uma pergunta mais “política”, só por comparação à realidade em Portugal. Que se está neste momento a fazer em Espanha relativamente à investigação/luta com o CCD/SDC? Tal como a respectiva comunicação de resultados e aconselhamentos aos apicultores e associações de produtores?~


A. Pajuelo
Há vários Programas e Equipas de trabalho ligados ao Ministério da Agricultura Espanhol. Outros são particulares ou universidades, todos trabalhando em rede e que estão há anos a estudar e a tentar resolver o problema, mas mantendo sempre uma proximidade com as organizações de apicultores.
Esses grupos encontram-se em Guadalajara, Marchamalo, Valladolid, na Universidade de Madrid, Universidade de Córdoba, e os laboratórios Apinevada particularmente.

MMel
Fundos comunitários e...

A. Pajuelo
...e do Ministério da Agricultura Espanhola

MMel
Mas a iniciativa é espanhola...

A. Pajuelo
Obviamente que sim...

Na parte final da conversa ainda me deu o site do Ministério da Agricultura Espanhol, onde podem ser consultados vários dos estudos citados: http://www.marm.es/

Ao abrirem a página inicial deverão seleccionar o espaço “Ganaderia”, uma vez nesta página devem procurar e seleccionar “sector apícola” que vos abrirá vários itens:

...aparte tudo isto, perdoem-me pelo meu péssimo espanhol, na possível tradução errada de algumas expressões. Por outro lado, a conversa foi gravada num local com muito barulho... desculpas...

09 setembro, 2009

"Novos" Alimentadores para Nucléolos de Fecundação e Estágio de Rainhas

Ainda se lembram dos posts: "Nucléolos de Fecundação e Estágio de Abelhas Rainhas - 21/02/2009" e "Construção de um Nucléolo de Estágio/Fecundação de Rainhas - 24/02/2009" ?

Onde respectivamente se apresentavam e ensinavam a construir tais utensílios...

Na última visita ao Vicente Furtado, foi-me apresentado um novo tipo de Alimentador artificial para os ditos Nucléolos. Também reciclado de embalagens de iogurte, mas desta vez de iogurte líquido.
Justificou-o com a necessidade de ministrar xaropes líquidos às abelhas e por isso mais vantajoso.

Na pequena garrafa de plástico "reciclada" é feito um orifício perto da boca por onde vai sair o xarope liquefeito. Esse xarope cai para uma reentrância escavada numa base de madeira onde também se encaixa a garrafa invertida...

Quem quiser experimentar esta nova aplicação, basta retirar o bloco de madeira que antes servia para elevar o antigo alimentador (de alimento sólido) e colocar o novo alimentador tal como aqui se exemplifica:

E ainda há mais "invenções" úteis, vamos aguardar...

04 setembro, 2009

Introdução de Rainhas (Parte II)

Quando se visita o Vicente Furtado de Lagos nunca há "uma novidade", estas são sempre às dúzias...
Ainda se lembram do post "INTRODUÇÃO DE RAINHAS" publicado em 28/01/2009 ?
O quadro/gaiola de introdução de rainhas apresentado nessa notícia não tem de ser necessariamente um quadro com dimensões "de ninho", também pode ter as dimensões de um quadro de alça...
Quem quiser construir os ditos quadros pode consultar as dimensões (para quadro de ninho) em 28/01/2009.

02 setembro, 2009

Cardo de Abelha

Não conheço flora melífera mais surpreendente e enigmática que o “Cardo de Abelha” ou “Cardo Asnil”. Mas se quiserem parecer mais eruditos chamem-lhe Carlina racemosa L.

Já alguém se aventurou por caminhos de terra batida em pleno Verão Alentejano? Naquelas tardes em que o termómetro vai para lá dos 40ºC?
A paisagem é de pura desolação nalguns locais. Se seguirmos à risca a cartilha da correcta instalação de apiários decerto afastaríamos as abelhas desses sítios. Por vezes nem as ovelhas ou cabras mais esfaimadas se arriscam em tais pastagens.

Um olhar mais atento permite-nos ver manchas amarelo-esverdeadas aqui e acolá. Aliás, nem necessitamos de as ver: as picadas nas pernas lembram-nos constantemente que a opção de abandonar a estrada ou os trilhos não foi lá muito feliz...
Mas vamos focar-nos com toda a tenção nessas manchas de aspecto espinhoso e maravilhar-nos com mais um capricho da Natureza:

Essa vegetação espinhosa tem flores, pequeninas, amarelas e de aspecto ressequído:

Ainda assim, ninguém parece dar nada por elas. Uma planta tão espinhosa e de aspecto pouco viçoso, poucos benefícios parece trazer seja para que animal for.
Continuamos a admirá-la pelo estoicismo de “mais morta que viva” gastar as últimas energias na flor, quase seca e ainda “preocupada” com a reprodução...
Foram imensas as vezes em que vi o “Cardo de Abelha” completamente seco e cheio de flores. O amarelo das folhas (picos) chega a rivalizar com o amarelo das flores.

Não tarda muito que para “completar o quadro”, ouvimos o zumbido já nosso conhecido: abelhas nas proximidades. Centenas, milhares delas a deambularem por ali.
Ocorre-nos tudo menos o facto destes insectos aproveitarem tal floração para a recolha de néctar e pólen. Na volta andam na Melada de Azinho, mas já começa a ser tarde para esses açúcares! E não há outra floração num raio de quilómetros!
Olhem lá de novo, mas “com olhos de ver”: as abelhas andam mesmo no Cardo!!! Pousam e demoram-se em cada flor. Os pequenos botões amarelo-moribundo escondem muita vida, muito pólen e néctar:

Este ano, depois de uma Primavera muito aquém do esperado e de um Verão/Girassol ainda pior, voltei a insistir e colocar de novo as alças sobre os ninhos.
Confesso que a esperança não era muita, as florações principais tinham falhado e e o resto do Verão não parecia (parece?) muito promissor. Mesmo nos melhores dias de Girassol só via grande tráfego de abelhas nas primeiras horas da manhã e nas últimas da tarde, e nesse período (Junho/Julho) os calores eram quase “glaciais” quando comparados com os do mês de Agosto...
Foi então que num dos primeiros dias de altas temperaturas, por volta do meio dia (para ajudar à festa) resolvi passar por um desses apiários. Não ia à procura ou à espera de nada de especial, apenas parar o carro à sombra e olhar para as colmeias por trás do parabrisas (é mais seguro).
Notei logo que algo de anormal se passava: o vai-vem de abelhas era demasiado mesmo para um dos melhores dias de Primavera (ainda por cima ao meio dia). Ocorreu-me logo que andavam a recolher água para combaterem as altas temperaturas, mas o fluxo era em sentido contrário ao da fonte...
Um olhar mais atento permitiu-me ver que boa parte das abelhas regressavam “apernadas” de pólen, entre muitas outras que entravam e saiam apressadamente das colmeias.

Ainda é cedo para estimativas, de qualquer forma tal fenómeno já dura acerca de um mês, data em que fiz a cresta do Girassol e lhes devolvi as alças vazias. Semanalmente passo pelo local e a dita azáfama não parece querer parar.
Nem calculam a curiosidade que tenho em abrir as alças para ver o que se passa lá dentro, mas ainda não o fiz, nem farei senão no dia da cresta, da terceira cresta que espero fazer lá para finais de Setembro, e seja o que Deus quiser...
Acredito que tal buliço se deva à flor do Cardo que abunda nestas paragens. Há dois anos também fiz uma terceira cresta (2ª de Verão) à custa desta vegetação humilde, ainda assim de importância extrema no Alentejo. O Cardo de Abelha “aprecia” chuvas tardias, trata-se de uma herbácea e por isso detentora de um sistema radicular pouco desenvolvido, é de facto muito resistente mas não se lhe pode exigir o impossível...
Tenho alguma dificuldade em caracterizar o mel de Cardo, normalmente vem misturado com a Melada de Azinho e apresenta-se mais escuro. Também já o tenho colhido bem mais claro e a cristalização é mais ou menos rápida consoante as misturas de outros néctares.


À laia de conclusão, não devemos avaliar seja o que for pelo aspecto: uma paisagem que pouco mais parece dar que pedras e picos, esconde um verdadeiro "tesouro dourado" que permite não só a sobrevivência das nossas abelhas como também excelentes produções de mel...

30 agosto, 2009

CRIAÇÃO DE RAINHAS: Quadros Articulados para Nucléolo e Alça

Como o prometido é devido lá fui visitar o amigo Vicente Furtado, movido pela saudade e pela curiosidade acerca da “misteriosa” invenção que me tinha falado ao telefone.
É sempre uma alegria rever os amigos, mais ainda quando comungamos de opiniões e interesses semelhantes, neste caso: as abelhas...
Era grande a minha expectativa em torno do novo tipo de quadro inventado pelo Vicente, (Vicente Algarvio – como lhe chamam os amigos). Tratava-se de um quadro de alça dividido ao meio e adaptável para os nucléolos de fecundação ou para as alças.

O objectivo era colocá-lo numa alça com uma lâmina de cera moldada para que as abelhas puxassem a cera e lá colocassem mel, pólen e criação. Uma vez completo, a grande novidade: podia dobrar-se ao meio obtendo-se um duplo quadro pronto a utilizar num Nucléolo de Fecundação e Estágio.

Para quem faz e gosta da Criação de Abelhas Rainhas, a disponibilidade de quadros com estas características é sempre uma mais valia. No entanto, a procura do modelo de quadro ideal é mais um dos muitos “mitos apícolas”:
Os mais conhecidos são os quadros desmontáveis, com um sistema de encaixe mais ou menos complexo (em madeira, metal ou plástico) e que permitem o seu uso alternado nos ditos nucléolos ou em alças ou ninhos. Os principais problemas prendem-se quase sempre com a eficácia do encaixe, muitos soltam-se ou partem-se com facilidade, e quase sempre resultam numa estrutura pouco firme ou segura.
Há quem resolva o problema usando quadros de ninho ou alça em Nucléolos de Fecundação/Estágio exageradamente grandes, que obrigam a um maior consumo de cera, reservas nutricionais e até a uma maior disponibilidade de abelhas. Vale-lhes no entanto o facto de tais quadros poderem ter outras aplicações.
Por fim, os quadros pequenos só para nucléolos, difíceis de puxar a cera com tão poucas abelhas, ou que obrigam a cortar cera puxada de quadros maiores para montar nestes pequenos caixilhos. Para não falar na armazenagem e conservação destas estruturas fora da época de criação de rainhas, pois não têm outra utilidade.

De tanto trabalhar, matutar e aperfeiçoar estes “utensílios” o Vicente “Algarvio” conseguiu um novo mecanismo de quadro convertível, aparentemente muito mais eficaz que qualquer outro dos modelos conhecidos.
O “truque” desta invenção prende-se com a engenhosa dobradiça a meio do quadro que permite transformar um quadro de alça em dois de Nucléolo, sem nunca se separarem as duas metades.

As dobradiças metálicas (chapa zincada), muito funcionais e fáceis de fabricar, ainda permitem a fixação do “duplo quadro” ou “quadro dobrado” na câmara do Nucléolo:

Na imagem anterior, a forma das quatro dobradiças (duas para a parte superior do quadro e duas para a parte inferior), mais dois pregos para fixar cada dobradiça e um rebite para unir as duas dobradiças de cada par de modo a permitir a rotação entre elas.

Na anterior sequência de imagens percebemos a rotação que permite transformar o quadro de alça (ou meia alça) num duplo quadro de Nucléolo de Fecundação/Estágio.

O mesmo esquema das dobradiças, mas que nos permite ver a diferença entre as montagens inferior e superior. De notar que nas dobradiças superiores há uma tira metálica mais comprida que ao ficar exposta após a dobragem permite fixar o quadro no encaixe do nucléolo.

Nas imagens anteriores (esquemas da dobragem do quadro vista por cima e por baixo) permite-nos perceber o mecanismo relatado no ponto anterior.

Estes Nucléolos de Fecundação/Estágio são ligeiramente diferentes dos apresentados em (Nucléolos de Fecundação e Estágio de Abelhas Rainhas: http://montedomel.blogspot.com 21/02/2009), uma vez que deixamos de ter dois nucléolos por módulo, ou seja: desta forma cada caixa só nos permite colocar uma única rainha ou alvéolo real. A vantagem deste método, além da versatilidade do quadro, tem a ver com a população acrescida de amas para cuidar da rainha/alvéolo real, uma vez que trabalhamos com um quadro duplo:

Legenda da figura anterior:
1.Câmara para o alimento artificial.
2.Encaixe da dobradiça do quadro.
3.Acesso das abelhas ao alimentador.
4.Câmara do quadro e das abelhas.
5.Porta de entrada/saída de abelhas.
6.Encaixe ou suporte normal de quadros em chapa zincada.

Na próxima figura podemos ver um apiário de módulos com dois nucléolos (por cima), e por baixo um apiário com o novo tipo de nucléolos, de quadro duplo ou dobrado:

Tanto a forma do apiário como o sistema de ancoragem do Nucléolo aos suportes de fixação é perfeitamente indiferente, pois o modelo de Nucléolo apresentado neste artigo poderia perfeitamente ser utilizado em estruturas como as da parte superior da imagem e vice versa.

Outras diferenças/semelhanças aos Nucléolos anteriores:

Este nucléolo já não possui paredes laterais em vidro para monitorização do interior, esta é feita por cima mediante o uso de uma “prancheta” em acrílico muito fino. É nesta tela de acrílico que se encontra um orifício (tapado com fita gomada) por onde se introduz a rainha ou se coloca a cúpula com o alvéolo real.
É curioso o pormenor que o Vicente fez: um orifício no forro em esferovite da tampa do Nucléolo, onde a cúpula que suporta o alvéolo real vai encixar:

A dita “prancheta” de acrílico possui um segundo orifício sobre a câmara do alimento artificial por onde se adiciona o xarope. Esta prancheta é presa à caixa de madeira (Nucléolo) com fita gomada, evitando assim perder-se ou cair para o chão quando a mesma se abre.
A porta de acesso ao interior/exterior, à semelhança dos nucléolos anteriores, trata-se de um disco rotativo que permite várias posições:
Acesso a todos os tipos de abelhas (Rainhas, Zangãos e Obreiras).
Acesso restrito a Obreiras.
Sem acesso (entrada ou saída) de qualquer tipo de abelhas, mas permitindo a ventilação:

Os alimentadores também me pareceram mais versáteis, bastou para tal forrar a câmara de madeira com “chapa” de estanho (acho que é esse o nome), inclusivamente reciclando aquelas que vêm com as empadas...

À data da Visita não sei se o Vicente já se encontrava a patentear este novo tipo de quadro articulado, mas confessou-me ser seu objectivo fazê-lo.

Uma última curiosidade: à despedida perguntei ao Vicente “Algarvio” se não se importava que publicasse/divulgasse as imagens e pormenores deste quadro, ao que ele me respondeu com aquela humildade que tanto o caracteriza:

“Se não divulgássemos as novidades e as descobertas que vamos fazendo, isto não teria graça nenhuma, a magia da apicultura é isso mesmo...”