20 setembro, 2009

Criadeira de Rainhas: Um modelo Alemão

Na última visita ao Vicente Furtado, enquanto aguardava o seu regresso de Lagos, houve uma estranha colmeia que me chamou a atenção. Era muito maior que as outras e tinha uns acabamentos muito “estilizados”, além disso ainda era suportada por quatro pés que a mantinham bastante elevada do solo.
Tinha o formato e o volume aproximado de uma colmeia Jumbo, mas percebia-se facilmente que era diferente

Quando o Vicente chegou é que me informou de tal novidade, duas “Criadeiras de Rainhas” de modelo alemão, tinha-as comprado.
Entenda-se por “criadeiras” as colmeias onde se colocam os quadros porta cúpulas, e respectivas larvas, onde serão construídos os alvéolos reais que albergam as jovens abelhas rainhas.
Estas colmeias costumam ter como características “biológicas” uma forte população de abelhas saudáveis que recolham nutrientes em quantidade suficiente e aqueçam a criação (rainhas). Devem igualmente possuir boa quantidade de abelhas “amas”, com poucos dias de vida, que produzam geleia real em quantidade suficiente para o número de rainhas a criar nas cúpulas.
... já me esquecia de uma característica muito importante: estas caixas não devem ter RAINHA, pelo menos que possa contactar com as cúpulas e alvéolos reais, caso contrário destrui-los-iam.

Há imensas formas e modelos de “criadeiras” concebidas ou modificadas para o efeito. Aliás, qualquer colmeia com as características biológicas apresentadas atrás pode ou deve funcionar.
Existem no entanto pormenores que poderão tornar o processo muito mais eficaz, sobretudo quando a opção é a produção contínua de rainhas.
Senão veja-se: como foi dito atrás, eram necessárias muitas abelhas amas para a produção de geleia real e para cuidarem das novas rainhas (larvas), mas era “proibida” a presença física de uma rainha e sem rainha, não há produção de abelhas novas...
Como resolver este dilema? Retirar periodicamente umas mão-cheias de amas de uma colmeia com rainha e adicioná-las à criadeira?
Era um processo difícil, moroso e até chato,... mas há quem o faça.

O ideal (nas “criadeiras” que conheço) é manter uma rainha em actividade (a pôr ovos e a nascerem amas) separada fisicamente do quadro porta cúpulas. O que se consegue com uma grade excluidora de rainhas. As amas obviamente que acabam por migrar através da grade excluidora e aceder às larvas no porta cúpulas.

Na minha região usavam (usam) uns curiosos modelos adaptados de uma colmeia Langstroth, que mais lembram uma colmeia Reversível associado a um núcleo Reversível:

No entanto, tal "apetrecho" não passa de uma colmeia Langstroth modificada:

A “parte da colmeia” alberga uma colónia normalíssima, igual a todas as outras, com rainha, (até serve para produzir mel). É então na parte do núcleo (sem rainha) que se coloca(m) o(s) quadro(s) porta cúpulas.
É como se a Colmeia estivesse acoplada lateralmente ao Núcleo, apenas estão separadas por uma grade excluidora de rainhas. Têm no entanto entradas distintas.
As amas que nascem na colmeia podem assim passar livremente para a o Núcleo (pela grade excluidora) e aceder às larvas de rainha, sem que a rainha velha as possa destruir.

Como se constrói (adapta), esta colmeia “criadeira” a partir de uma Langstroth?

Como se sabe, as colmeias Langstroth têm dez quadros (muito compridos):

Retiram-se as réguas dos quadros, que estão nas paredes mais curtas, e colocam-se réguas maiores nas paredes mais compridas. Desta feita, em vez de dez quadros Langstroth, passa a levar cerca de quatorze ou quinze quadros Reversíveis.
Não devemos é esquecer de tapar a entrada original e agora substituí-la por duas entradas laterais: Uma para a câmara com 10 quadros (onde fica a rainha) e outra para a câmara com 5 quadros (onde fica o quadro porta cúpulas.
Não esquecendo obviamente de dividir estas duas câmaras com uma parede de madeira onde se instala uma janela com grade excluidora de rainhas...



Com a Colmeia Criadeira Alemã o processo é semelhante ao anterior. Só que esta possuindo uma divisão longitudinal (2 x 16 quadros), possui uma multiplicidade de combinações de câmaras com rainhas e outras com quadros porta cúpulas, obviamente separados por grades excluidoras. O número de câmaras com rainha e de câmaras com quadros porta cúpulas, tal como das combinações entre elas depende obviamente da vontade e dos objectivos do operador.

A situação ideal para a criação de rainhas (segundo Vicente Furtado), resulta na combnação de duas câmaras com rainha a produzirem “amas” para duas câmaras com quadros porta cúpulas.

Quando se abre o tampo destas colmeias (com dobradiças) deparam-se-nos logo duas pranchetas longitudinais em esferovite. Como este equipamento é proveniente da Europa do Norte compreendem-se as preocupações com a temperatura:

Sob cada uma das “pranchetas térmicas” está a respectiva prancheta em acrílico para uma monitorização do interior sem ter de abrir a colmeia:

Pormenor do interior da colmeia com os dois espaços, os quadros em plástico, grades excluidoras (longitudinais) e os “separadores de colónias”:

Pormenor dos quadros de plástico, da prancheta em acrílico e do quadro porta cúpulas.

No fim, e como é hábito, o Vicente falou-me noutro tipo de criadeira, esta sim idealizada por ele. Tratar-se-ia de uma colmeia com trinta quadros, dividida em três câmaras (rainhas nas extremidades, rainhas da mesma idade), e no meio “isolada” por duas grades excluidoras, uma terceira câmara com dois quadros porta cúpulas.
Desta forma, seja pela maior separação física das rainhas, seja pela grande produção de abelhas ama que migrariam para a câmara central, poder-se-iam obter cerca de 48 rainhas de grande qualidade.
Pode ser, pode ser que para o ano tal utensílio já seja uma realidade...

18 setembro, 2009

Transumância na Apicultura Profissional

Muitas são as vezes em que acordo de madrugada (à força), tomo um duche, visto o equipamento e parto para os meus apiários.
Num ano ano normal-a-bom, consigo ganhar algum para umas férias mais folgadas, adquirir e renovar alguns equipamentos e obviamente ter mel para mim e para os amigos.
Nessas madrugadas em que saio contrariado da cama, boa parte dos pensamentos que me ocorrem andam à volta de:
se eu hoje não for, não se há-de ressentir muito nas produções...
se eu hoje não for, não é por isso que vou deixar de ter férias...
se eu hoje não for, não há-de ser por isso que vou deixar de ter mel para comer...
se eu hoje (e noutros dias) não for de forma que comprometa a produção e a exploração, não há-de ser por isso que vá à falência ou venha a passar dificuldades...

Em suma: eu não sou um apicultor profissional, não vivo da produção de mel. As grandes oscilações que o sector possa sofrer só as sinto indirectamente como técnico, o meu investimento é mais pessoal e profissional, para não falar da paixão que nutro pelas abelhas...

Mas há quem não possa pensar assim, há quem fazendo chuva ou Sol, apeteça ou não sair da cama tem de o fazer.
Do bom e oportuno maneio de centenas ou milhares de colmeias depende toda uma economia empresarial (e familiar), um modo de vida, uma profissão, empregados, compromissos... vidas.

As paixões que afectam o pescador de fim de semana que vai até ao lago com a cana e a lata das minhocas deve sr semelhante à do pescador que embarca numa casca de noz e se faz ao mar alto, ambos são pescadores, mas as motivações...

Costumo gracejar com o meu amigo Abílio da COLMEICENTRO – Abrantes: Posso telefonar-te a qualquer hora do dia ou da noite sem riscos de te incomodar, estás sempre acordado, as abelhas não te deixam parar... Pudera, perto de 3.000 colónias chegam e sobram para tirar o sono a muita gente.
Pior ainda quando se multiplica esse número pelo dobro ou pelo triplo ao apostar-se numa transumância contínua para manter as abelhas sempre a produzir.

Não há post sobre transumância neste blogue em que eu não me queixe das dores nas costas, e falo de umas dezenas de colmeias, será que o Abílio tem costas?
Tem, e tem melhor que isso, o tema central deste artigo, uma excelente grua adaptada à camioneta permitem-lhe transportar centenas de colmeias por noite e com um mínimo de esforço. O “truque” está na excelente ideia que teve em modificar as colmeias e adaptá-las a paletes de quatro unidades.



As colmeias não têm pranchetas, para um melhor arejamento durante o transporte. Aliado a isso, o tampo, perfurado para o mesmo efeito, não “encaixa” na colmeia, apenas se apoia sob os bordos da caixa. À primeira vista parece uma montagem pouco segura, mas as colmeias são aparafusadas à palete e os tampos são ligados aos ninhos através de grampos de mola.
Esta estratégia permite-lhe também transportar as alças sobre os ninhos – fixas com os ditos grampos.

As colmeias ainda possuem outras particularidades:

Uma chapa metálica perfurada no fundo para aumentar o arejamento.
Uma entrada de abelhas reduzida com duas tampas perfuradas, que lhes permite fechar hermeticamente a colmeia para o transporte e servem simultâneamente de tábua de voo.
Um segunda entrada de abelhas mais elevada, tapada com uma porta semelhante, onde poderá encaixar uma armadilha capta-pólen.

Tudo parece mais fácil assim, luzes retrovisoras de cor vermelha para não incomodar as abelhas, o braço extensível da grua encaixa nas duas asas da palete e levanta ou baixa quatro colmeias (com ou sem alças) sem o mínimo esforço.
Soube também que o Abílio se prepara agora para construir paletes para oito colmeias, uma vez que a grua o permite, o que decerto facilitará e acelerará ainda mais a transumância.

O único senão é a procura de assentamentos planos ou aplanados para o efeito, mas nada que não se corrija com paus, pedras ou blocos de cimento para que as paletes fiquem bem horizontais.
As características do local onde o Abílio tem boa parte das colónias dá uma boa ajuda, os aceiros florestais permitem o descarrego das colmeias ao longo desses caminhos à medida que o camião se vai deslocando.

Eu continuo com os meus braços, a coluna e uma cinta lombar para ajudar nos esforços. Quando tenho ajudas, além da Luísa que leva a lanterna, também usamos uma padiola onde equilibramos uma colmeia de cada vez, mas o esforço é mais dividido e a transumância não deixa de se fazer.
Vou sugerir à Luísa que use uma lanterna de luz vermelha para não incomodar as abelhas, e quanto à minha cinta lombar, perdidos vinte quilogramas, descai-me para a cintura e só me protege essa zona, mais das picadas que do esforço.
Quem não tem cão...
Fica no entanto o apelo às Associações de Apicultores e ao Programa Apícola que em vez de investirem tanto nos laboratórios possam dotar cada associação com uma destas máquinas, incentiva a transumância e decerto aumentará as produções.

16 setembro, 2009

XI Concurso de Mel de Montemor-o-Novo - 2009

Há semelhança de outros anos, as diversas amostras de mel a concurso foram divididas em três tipos florais, nomeadamente o mel de Rosmaninho, mel de Soagem e Multifloral.
O Júri foi constituído pelo Eng.º José Gardete, Dr. Joaquim Pífano e Dr. António Pajuelo, de cujos paladares, aromas e demais sentidos resultou o seguinte veredicto:

MEL DE ROSMANINHO:

1.º Lugar Vicente Maltez – Baldios/S.Cristóvão
2.º Lugar Claudino Trejeira – S. Cristóvão
3.º Lugar Maria de Fátima Trejeira – S. Cristóvão


MEL DE SOAGEM:

1.º Lugar Vicente Maltez – Baldios/S.Cristóvão
2.º Lugar Quizcamp – Santiago do Escoural
3.º Lugar Cercimor – Nossa Senhora da Vila


MEL MULTIFLORAL:

1.º Lugar Claudino Trejeira – S.Cristóvão
2.º Lugar Maria de Fátima Trejeira – S. Cristóvão
3.º Lugar Marco Pereira – Torrão

Para o ano há mais, ficam os parabéns à excelente organização do evento pela Montemormel, na pessoa do Eng.º Paulo Varela.
Deixo apenas “uma dica”: seria bastante interessante na próxima edição abrirem mais uma modalidade para o Mel de Melada, uma vez que surge na região em grande abundância e sobretudo com uma excelente qualidade...

14 setembro, 2009

Avis mellifera 2009

Como era de esperar, aí está a segunda edição das Jornadas Técnicas Apícolas Avis mellifera, cujo tema é a Diversificação da Produção Apícola.
A data mais provável deverá ser no fim de semana de 5 e 6 de Dezembro, pormenor a confirmar mais oportunamente, tais como os temas específicos e respectivos oradores...

12 setembro, 2009

À Conversa com António G. Pajuelo sobre o SDC...

O Síndroma do Despovoamento de Colmeias (SDC), ou (CCDColony Collapse Disorder), é um dos assuntos que mais anda na ordem do dia em apicultura.
Ou melhor... devia andar, pelo menos em Portugal é muito escassa ou nula a informação referente a esta “moléstia”, que já causou demasiadas baixas e custos às explorações apícolas, na Europa e no mundo em geral.
A falta de conhecimentos sobre o fenómeno tem de alguma forma levado os apicultores portugueses ao comportamento da Avestruz, “enterrando a cabeça na areia” não vêm o problema e esperam que este não os veja a eles... Desculpam-se com outros factores mais “mundanos” e chega a ser tabu falar no SDC...
Segundo a Wikipedia, o CCD é um fenómeno em que as operárias de uma colónia de abelhas desaparecem abruptamente. Embora tais desaparecimentos ocorressem desde sempre, o termo CCD surgiu quando tais ocorrências sofreram um aumento alarmante (...)
Na região de Portalegre, entre muitas outras, houve relatos em que no ano passado apicultores profissionais com perto de 500 colmeias ficaram com pouco mais de 200.
Aproveitando a presença do conhecido técnico e investigador apícola espanhol A. G. Pajuelo, no XI Concurso de Mel de Montemor-o-Novo, onde também fui júri, resolvi colocar-lhe algumas questões acerca do assunto e que passo a transcrever:

Monte do Mel
Começaria por te pedir que falasses no historial, origens e primeiras “teorias” acerca do CCD...

António G. Pajuelo
O CCD aparece em 2003, vindo a acentuar-se em 2004/2005. Inicialmente em países Centro Europeus como a Alemanha e a França. Só em 2004 foi detectado nos EUA e em 2005 estendeu-se a outros países da Europa Central como a Itália ou a Suíça...


MMel
Pensei que o “alarme” tivesse sido dado nos EUA...

A. Pajuelo
O problema surgiu de facto nos países da Europa Central em 2003, apenas se tratava de um fenómeno desconhecido e os nomes variavam de local para local. Mesmo os EUA em 2004 davam-lhe uma designação diferente (semelhante a Colony Collapse Disorder, mas que não consegui reter), e a homogeneização do nome para o actual CCD surgiu em 2005, daí a confusão com a sua origem nos EUA.

MMel
Ao que parece, os sintomas e respectivos problemas (apesar de semelhantes), surgiram em vários locais do planeta independentemente, por isso lhes chamaram nomes diferentes. Só em 2005 convencionaram a sigla CCD para Colony Collapse Disorder.
E as teorias que acompanharam todo o processo?...

A. Pajuelo
Em 2005 surgem várias tentativas de explicação para o fenómeno:
1. Surgimento de novos agentes patogénicos. Nesse ano, os Centros de Investigação (espanhóis) de Marchamalo e Guadalajara citam pela primeira vez a presença de Nosema ceranae em abelhas europeias (Apis mellifera), quando este agente apenas afectava a abelha asiática (Apis ceranae), onde tinha sido detectado em 1996.
Tal descoberta, associada à elevada mortalidade de abelhas europeias leva à hipótese de uma possível correlação com este novo agente patogénico.
Mais tarde encontram-se exemplares de Nosema ceranae em antigas colecções (de abelhas conservadas em laboratório), colecções antigas e datadas de 1986 em França, 1987 nos EUA e desde 1990 no Uruguai e México.

MMel
Então a Nosema ceranae não pode justificar a mortalidade verificada com o CCD, uma vez que a sua presença é muito anterior a esta moléstia...

A. Pajuelo
Sim, não há uma correlação entre tal patogénico e o CCD. Alguns Centros de Investigação espanhóis encontraram a N. ceranae em grandes percentagens de infecção nas colmeias, pelo que hoje se crê que tal agente é apenas um oportunista, que se instala (está latente) e só se desenvolve quando encontra condições, ou seja, quando a colónia de abelhas está enfraquecida.
Por exemplo: sabe-se que cerca de 80% das colónias têm esporos de Loque Americana, que só se manifesta quando as condições o permitem.
2. Também em 2005, mas nos Estados Unidos, se pensou que a causa de tal mortalidade nas abelhas se devesse ao ataque do Vírus da Paralisia Aguda Israelita (VPAI), uma vez que se encontram muitas colónias infectadas com VPAI nas regiões afectadas pelo CCD.
Estudos recentes também não lhe apontaram “grandes culpas” para o problema em causa.
3. Cada vez se admite mais o CCD estar relacionado com problemas/deficiências nutricionais muito importantes. Nomeadamente na mobilização fisiológica de proteínas e gorduras, cuja falta enfraquece as colónias de abelhas.

MMel
Quando falamos em deficiências nutricionais, falamos em deficiências na pastagem, na floração: seja pelo escassear de flora apícola, seja pela sua qualidade, ou pela quantidade/qualidade dos constituintes do néctar e do pólen dessa vegetação.
Estas circunstâncias, quando se verificam, normalmente ocorrem em zonas localizadas, limitadas no espaço. Como foi possível que nos últimos anos, assumindo que é esse o factor mais importante, se tenham verificado em tão grande escala e quase por todo o mundo em simultâneo?

A. Pajuelo
Os anos de 2004 e 2005 foram os anos mais quentes e secos da última década (a nível global). (2003 também – MMel). Tais calores estivais reflectem-se bastante na flora Outonal, com as consequentes deficiências nutricionais nessa estação. E a deficiência nutricional é hoje largamente suspeita do CCD, uma vez que as mortalidades ocorrem sobretudo no período de Outono/Inverno.
4. Outra das causas poderá/deverá ser um deficiente controlo da Varroose (Varroa destructor), factor muito ligado ao anterior, uma vez que estes ácaros picando e sugando a hemolinfa das abelhas (e respectivas reservas), acabam por indirectamente as afectar do ponto de vista nutricional.
5. Outra causa provável tem a ver com o acumular consecutivo de resíduos de acaricidas nas ceras durante os últimos 25 anos. Desde que a Varroa surgiu em meados da década de 1980 que as colmeias são anualmente (e semestralmente) tratadas com acaricidas. E não devemos esquecer que os acaricidas também têm actividade insecticida.
Em Itália, França, EUA e Espanha, foram encontrados níveis alarmantes de contaminação da cera com tais substâncias.
Resumindo: Podemos dizer que quando estamos em situação de abundância, fontes de néctar e pólen quantitativa e qualitativamente importantes, tudo vai bem, não se verificam quaisquer sintomas ou mortalidade. Com problemas nutricionais, todos estes factores actuam de um forma sinérgica desencadeando o problema.


MMel
Só a título de curiosidade, até porque foi muito ventilado na imprensa, a possibilidade da influência da radiação electromagnética das antenas de telemóvel...

A. Pajuelo
Não dei grande importância a esse boato, há imensos casos de apiários na proximidade ou mesmo sob as ditas antenas, sem que com isso manifestem qualquer sintoma de CCD.
O comentário partiu de um apicultor Inglês e atingiu as dimensões que atingiu.

MMel (off record) Num mundo sincero, honesto e com as características que todos conhecemos, gostaria de saber se realmente houvesse alguma correlação comprovada, com as redes de telemóvel a fazerem publicidade em toda a comunicação social e a patrocinarem tudo e mais alguma coisa. Era o mesmo que se se detectassem propriedades cancerígenas na Coca Cola, alguém iria mexer uma palha ???

A. Pajuelo
Para mim, e à luz dos conhecimentos mais actuais, o problema principal deve-se mesmo às deficiências nutricionais no período do Outono.
Deficiências nutricionais levam a uma baixa significativa na criação e quantidade de abelhas jovens. Se a Varroa estiver mal controlada, os ácaros vão concentrar-se em grandes quantidades nessa criação restante sacrificando a que resta.
Desta forma, “entra-se” no Outono/Inverno com a última geração de abelhas geradas no Verão/Outono, cuja adiantada longevidade as torna demasiado velhas para suportarem os rigores da estação fria. Problema que se acentua em Invernos longos e rigorosos.
É portanto nesta estação (e nestas circunstâncias) que se dá o colapso das colónias – CCD ou SDC...
Uma má floração no período Verão/Outono é que acaba por desencadear esta série de acontecimentos, pois num “destes” Outonos perde-se cerca de um mês de floração, imprescindível para a Invernada.


MMel
Desde que o CCD foi detectado podemos dizer que estamos a ganhar, a manter ou a perder terreno face à moléstia?

A. Pajuelo
Em Espanha, tivemos mortalidades muito fortes em 2004/2005. Neste período calculo que se perderam cerca de 500.000 colmeias. Tínhamos 2.500.000 e passamos a ter 2.000.000 colmeias.
Em 2006, houve uma diminuição real de 6,0 %, quando nos anos anteriores chegou aos 20,0%.
Em 2007/2008 também houveram perdas consideráveis, mas sobretudo em zonas mais secas. Em regiões com chuva/humidade regular verificou-se apenas a mortalidade natural da época.


MMel
Estamos em Setembro, início da fase crítica, que cuidados devem ter os apicultores para o Outono/Inverno que se aproxima?
Que sinais/sintomas devem observar nas colónias de abelhas para avaliar a “presença” ou o risco de CCD/SDC, e se possível, como intervir para o contrariar?

A. Pajuelo
1º Observar o número de quadros (do ninho) ocupados por abelhas à entrada do Outono.
2º Observar o número de quadros com criação (quantidade de criação) na mesma época.
3º Avaliar a sobrevivência dessa criação (da criação gerada nessa época).
4º Avaliar as quantidades de pólen armazenadas/disponíveis na colmeia e nesse período.
5º Avaliar a qualidade da cera (análises de resíduos de acaricidas presentes).
6º Avaliar e controlar a Varroose de todos os apiários.



MMel (off record)
Parece fácil, mas não é nada fácil.
Cada um dos conselhos anteriores poder-se-á revestir de tais subjectividades na cabeça de cada apicultor que só poderá redundar na maior das confusões...
Para resolver, ou remediar as dúvidas, nada como um bom conhecimento das nossas colónias, o que só é possível (com poucas colmeias), bons apontamentos e visitas regulares.
Não vamos aqui apresentar uma fórmula única, atendendo a que há diversos tipos de colmeias, cada região tem as suas características próprias e que podem influenciar alguns senão todos aqueles parâmetros.
Ainda assim...
1º Considero uma colónia com população suficiente para enfrentar o Inverno quando possui pelo menos sete ou oito quadros ocupados por abelhas. Se bem que (sete e oito) já correm algum risco...
2º A quantidade de criação é muito subjectiva em cada época e cada região, dependendo do clima e da floração disponível. Daí a importância de cada apicultor conhecer sumariamente as características da sua região e da sua apicultura.
3º É um dos parâmetros mais difíceis, entre duas visitas ao apiário podemos “calcular” um número igual de abelhas, o que aparenta ser positivo. Mas pode tratar-se de abelhas mais velhas (pois a criação terá morrido) e as abelhas demasiado velhas já não vivem o suficiente para “atravessar” o Inverno...
Não digo que seja o mais acertado, mas poderíamos marcar quadros de criação (com fotos digitais) e passado algum tempo verificar se esta se mantêm ou foi removida. Não esquecendo de não contar com as que nasceram naturalmente...
4º A avaliação de reservas nutricionais parece-me uma tarefa mais acessível, pela contagem de quadros ou áreas com esta substância armazenada.
Na sua ausência ou rarefacção vale a pena antecipar as primeiras doses de alimento artificial (rico em pólen ou “muito” rico em pólen). Não convindo esquecer que face às características da estação que se aproxima, esse alimento deverá ser o mais sólido possível... (Ver: ALIMENTO ARTIFICIAL DE INVERNO – 30/12/2008).
Este parâmetro (tal como os outros) deverá ser reavaliado ao longo de todo o período crítico.
5º Processo que deverá ser caro e moroso. Assumindo resultados positivos para os acaricidas na cera o que podemos/devemos fazer nesta fase do ano ???
De qualquer forma, sempre podem consultar o Engº Miguel Maia : APISMAIA: 962 889 512 ou 917 172 854 ou ainda apismaia@sapo.pt
6º Poderá ser uma excelente oportunidade para uma sincronização geral das datas de tratamento da Varroose para esta data, o que diminuirá decerto os riscos de CCD.

MMel
Outro dos fenómenos associados ao CCD/SDC, que já li nalgumas revistas e me foi confidenciado por alguns apicultores, é o fenómeno do mel que fica nas colmeias (mortas/abandonadas) não ser pilhado pelas colónias vizinhas... fica a sensação de estar contaminado...

A. Pajuelo
O problema do CCD não é apenas de uma ou duas colmeias, é de todo o apiário (apesar de algumas sobreviverem). O que fariam as abelhas “pilhadoras” com pouca população e excesso de mel com mais aquele mel? Nem sequer se trata de uma época com estímulo para a recolha de mel...
Se as restantes colmeias estão deficitárias em criação e abelhas adultas para que necessitam de mais mel?
Se isto se passasse na Primavera, período muito activo na recolha de néctar, muita criação ávida de alimentos, então sim, dar-se-ia a pilhagem e esse mel era de imediato mobilizado. Nem se poderia colocar a hipótese de contaminação, pois na Primavera as abelhas pilham mel contaminado com Loque americana e até com quimiotóxicos...

MMel
Para terminar, uma pergunta mais “política”, só por comparação à realidade em Portugal. Que se está neste momento a fazer em Espanha relativamente à investigação/luta com o CCD/SDC? Tal como a respectiva comunicação de resultados e aconselhamentos aos apicultores e associações de produtores?~


A. Pajuelo
Há vários Programas e Equipas de trabalho ligados ao Ministério da Agricultura Espanhol. Outros são particulares ou universidades, todos trabalhando em rede e que estão há anos a estudar e a tentar resolver o problema, mas mantendo sempre uma proximidade com as organizações de apicultores.
Esses grupos encontram-se em Guadalajara, Marchamalo, Valladolid, na Universidade de Madrid, Universidade de Córdoba, e os laboratórios Apinevada particularmente.

MMel
Fundos comunitários e...

A. Pajuelo
...e do Ministério da Agricultura Espanhola

MMel
Mas a iniciativa é espanhola...

A. Pajuelo
Obviamente que sim...

Na parte final da conversa ainda me deu o site do Ministério da Agricultura Espanhol, onde podem ser consultados vários dos estudos citados: http://www.marm.es/

Ao abrirem a página inicial deverão seleccionar o espaço “Ganaderia”, uma vez nesta página devem procurar e seleccionar “sector apícola” que vos abrirá vários itens:

...aparte tudo isto, perdoem-me pelo meu péssimo espanhol, na possível tradução errada de algumas expressões. Por outro lado, a conversa foi gravada num local com muito barulho... desculpas...

09 setembro, 2009

"Novos" Alimentadores para Nucléolos de Fecundação e Estágio de Rainhas

Ainda se lembram dos posts: "Nucléolos de Fecundação e Estágio de Abelhas Rainhas - 21/02/2009" e "Construção de um Nucléolo de Estágio/Fecundação de Rainhas - 24/02/2009" ?

Onde respectivamente se apresentavam e ensinavam a construir tais utensílios...

Na última visita ao Vicente Furtado, foi-me apresentado um novo tipo de Alimentador artificial para os ditos Nucléolos. Também reciclado de embalagens de iogurte, mas desta vez de iogurte líquido.
Justificou-o com a necessidade de ministrar xaropes líquidos às abelhas e por isso mais vantajoso.

Na pequena garrafa de plástico "reciclada" é feito um orifício perto da boca por onde vai sair o xarope liquefeito. Esse xarope cai para uma reentrância escavada numa base de madeira onde também se encaixa a garrafa invertida...

Quem quiser experimentar esta nova aplicação, basta retirar o bloco de madeira que antes servia para elevar o antigo alimentador (de alimento sólido) e colocar o novo alimentador tal como aqui se exemplifica:

E ainda há mais "invenções" úteis, vamos aguardar...