06 abril, 2009

Controlo de Enxameação


Talvez um dos aspectos mais ingratos do maneio apícola. O objectivo (teórico) é impedir a perda de abelhas, e de potencial produtivo, mas na prática acabam quase sempre por sair com as consequências conhecidas.
A captura sistemática de enxames faz com que as colmeias com maior tendência para enxamear se reproduzam mais, seleccionando-se e mantendo-se essa característica indesejável. Com o passar dos anos torna-se mesmo um ciclo vicioso.
Em tempos tive colmeias com tais tendências para enxamear, que ainda lhes faltava ocupar metade do ninho e já tinham dúzias de alvéolos reais. Chegava a destruir os alvéolos semanalmente e nem assim “dava conta do recado”. Uma vez, tinha acabado de fechar uma colmeia e preparava-me para destruir os alvéolos da seguinte, ao ouvir o característico ruído, virei-me, e assisti impotente à saída de mais um. Persegui-o de carro, por raiva, e consegui capturá-lo, nesse tempo compravam-se carros com muita facilidade...

Factores que levam uma colónia a enxamear:

Rainhas demasiado velhas
Excesso de população para o espaço disponível
Muito calor e ventilação deficiente
Ninho bloqueado/ceras velhas
Propensão genética
Captura sistemática de enxames
Factores ambientais
Sanidade da colmeia

...

Para combater estes factores e controlar a situação há uma série de práticas, mais ou menos “praticáveis”, mais ou menos eficazes, que não “dando conta do recado” pelo menos atrasam ou aliviam o problema.

1. Dar espaço à colónia
A falta de espaço no ninho, seja pelo desenvolvimento da colónia/dimensões da população, ou pelo facto dos respectivos quadros se encontrarem bloqueados com mel e pólen velho, potenciam bastante a enxameação. A indisponibilidade de alvéolos para a rainha fazer a postura quase sempre desencadeia tal estímulo.
Pelas mesmas razões, a existência de ceras velhas no ninho também potenciam a enxameação uma vez que a rainha evita fazer aí a postura.
Para evitar esta situação devemos colocar a alça logo que os dez quadros do ninho estejam ocupados por abelhas. Infelizmente, esta acção não nos garante que a colmeia não enxameie, mas se não o fizermos, ela enxameará de certeza.

É comum nesta fase a rainha subir às alças e aí colocar os ovos. Não é um acontecimento muito agradável para alguns apicultores, alegando que mais tarde isso criará dificuldades na cresta, que têm demasiada criação a ocupar o espaço ao mel, chegando até a isolar a rainha no ninho com uma grade excluidora.
Pessoalmente é o que menos me incomoda. Desde que substitui a maioria das colmeias (Reversíveis) por Lusitanas, raramente tal me acontece, mas se suceder, a rainha que disponha do espaço que entender para cumprir a sua função. Raras são as alças ocupadas com criação que até ao fim da estação produtiva (Primavera + Verão) não sejam cheias de mel.

2. Arejamento da Colmeia
O ar abafado e húmido no interior da colmeia é mais um dos factores que leva à enxameação. Quase sempre os apicultores pensam que o bater de asas das abelhas no interior, à entrada e na tábua de voo, é suficiente para renovar a atmosfera interna. “Agarrados” a este preconceito tapam todos e quaisquer “buraquinhos” que a caixa possa ter, não se constipem as abelhas: Réguas reguladoras de entrada durante a Primavera, buraco da prancheta tapado e sabe-se lá que mais...
Sempre se pode argumentar que muito antes do Homem “pôr” os pés na Terra, já haviam abelhas em “tocas” naturais, e algumas sem qualquer arejamento, mas se nós pudermos dar uma ajuda...
Desta feita, importa retirar a régua reguladora da entrada (pelo menos colocá-la na posição com mais aberturas), logo que terminem as sessões de alimento estimulante, tal como remover a tampa do buraco da prancheta.
Também se pode fomentar o arejamento eliminando aquelas estranhas “esculturas” que as abelhas tanto gostam de fazer sobre a cera velha e no estrado da colmeia.

3. Cortar as asas à rainha...
Exactamente isso que eu disse, pior ainda: que escrevi. Há quem o tenha feito (faça?) e até vem aconselhado nalguns manuais. Nunca fiz tal coisa, já me disseram no entanto que este método também não prima pela eficácia.
Dizem que a rainha tenta sair da colmeia, normalmente, como se tivesse asas. Cai, ou fica-se pela tábua de voo, as abelhas saem todas com ela e gera-se uma grande confusão...
Se alguém tiver uma opinião diferente sobre este procedimento agradecia-lhe que partilhasse o seu ponto de vista, pois conheço-o muito mal...

4. Grade excluidora de rainhas à entrada da colmeia
Tal como o anterior, é um processo pouco comum.
Consiste na colocação de uma “armadilha” em rede, cujos orifícios permitem a passagem das obreiras mas a rainha não o pode fazer. Pouco conheço este método, mas apontam-lhe falhas semelhantes ao anterior.

5. Arrefecer o ninho
Aparenta ser um bom método, ainda assim pouco eficaz.
Consiste em intercalar quadros de cera moldada entre os quadros de criação. Tem até uma série de vantagens: a substituição de ceras velhas por novas, o que torna o ninho mais atractivo para a postura da rainha, favorece o arejamento e cria mais espaço. Tudo isto contraria a enxameação.
Mas será possível controlar de facto esse arrefecimento? E se a criação morrer? É pior a emenda que o soneto... Se as temperaturas forem altas até é tentador, mas o mês de Abril costuma ser frio.
Ainda que tudo corra bem nada nos garante que a rainha não parta com o seu séquito...

Talvez seja mais correcto se esse arrefecimento for faseado: Substituindo primeiro os quadros das extremidades (só com mel e ceras velhas), e só mais tarde colocar um ou dois quadros de cera moldada entre os quadros de criação.
Mas isto não é bem um “arrefecimento”, é mais uma troca de ceras!!! o que já ajuda bastante...

6. Destruição de alvéolos reais
É o método mais moroso e cansativo, ainda assim o que nos dá mais garantias de sucesso.
Não tem nada de especial, limitamo-nos a destruir todos os alvéolos reais que encontramos na colmeia. Esta tarefa deve ser feita de oito em oito dias (semanalmente), procurando com todo o cuidado os alvéolos reais no ninho e inclusivamente nas alças.
Normalmente iniciamos esta acção em finais de Março (depende dos anos e das regiões). Logo que se destruam os primeiros não podemos falhar mais nenhuma sessão, ou perde-se todo o trabalho.
Os primeiros alvéolos reais encontram-se quase sempre no centro e extremidades dos quadros (junto à criação), a partir da primeira sessão começam a surgir um pouco por todo o lado, na parte de baixo dos favos (quando a cera não encosta à madeira), entre os quadros do ninho e das alças e até em alças com pouca ou nenhuma criação. Parece que as abelhas “adivinham” as nossas intenções, camuflando e escondendo os ditos alvéolos nos locais mais inesperados.
O “perigo” de enxameação só passa com o fim das fontes exteriores de néctar, data em que podemos parar com o controlo.

MUITO IMPORTANTE:
Antes de iniciarmos a destruição dos alvéolos de cada colmeia, convém verificar alguns aspectos que possam indiciar o facto da colmeia já ter enxameado. Nesse caso, tal tarefa além de uma perda de tempo, ainda pode condenar a colónia, na medida em que a rainha (o enxame) já saiu e convém deixar alguns alvéolos para que nasça uma nova rainha.

Ausência da rainha (velha), podemos apenas não a encontrar, como pode já ter saído no enxame.
Ausência de ovos, ou ovos do dia (posição vertical).
Alvéolos reais abertos lateralmente, indício muito seguro da saída do enxame, não só a rainha velha já saiu como também já nasceu a nova e destruiu os restantes alvéolos.
Existência de rainhas jovens a percorrer os quadros ou mortas no exterior. Reconhecem-se pelas pequenas dimensões, quando estão vivas deslocam-se muito depressa, aparentemente “nervosas” quando comparadas com uma rainha fecundada e já estabelecida.

Legenda da figura anterior:

1 - Alvéolo real em forma de cálice, existem na colmeia durante quase todo o ano. Podem ou não ter ovos/larvas, consoante irão ou não ser utilizados.
2 - Alvéolo real com ovo ou larva no interior. Ainda está por opercular, mas é um alvéolo real activo e em crescimento.
3 – Alvéolo real já operculado. No máximo, em sete ou oito dias irá nascer a nova rainha.
4 – Alvéolo real aberto. A rainha já nasceu, quase sempre é visível a “tampinha” do orifício aberto pela rainha ao nascer. Nestas situações o controlo de enxameação falhou ou já não se justifica.
5 – Alvéolo real destruído antes da saída da rainha. Outro indício de falhas no controlo de enxameação. A abertura lateral foi provocada pela rainha velha, pela(s) primeira(s) rainha(s) nova(s) que eclodiu, e ou até pelas obreiras.

Outro indício da proximidade da enxameação é quando se acumulam grande número de abelhas no exterior da colmeia ou do cortiço. Os espanhóis têm uma expressão curiosa para este fenómeno: hacer la barba, pois de facto o acumular de abelhas na tábua de voo e parede frontal lembram uma barba.

Pouco tempo depois é visível na frente da colmeia uma grande nuvem de abelhas, num voo ruidoso e que podem ou não pousar nas proximidades do apiário.

Não devemos confundir este comportamento com outro, em tudo semelhante, onde as abelhas voam em grande número viradas para a entrada da colmeia. Trata-se de um grupo de abelhas jovens, que fazem o primeiro voo, mantendo-se durante algum tempo a pairar naquela posição.
Na Primavera de 2001, com trinta colmeias consegui produzir uma tonelada de mel (aprox. 35Kg/colónia). Todos os fins de semana entre quinze de Março e quinze de Maio fiz o controlo de enxameação pela destruição de alvéolos reais.
Foi um trabalho bastante duro, não só pelo facto de carregar com 300 quadros do ninho e 810 quadros de alça, fazer uma rotação com o pulso para os ver na frente e verso e ainda a atenção necessária para encontrar e destruir os ditos alvéolos.
Finda a Primavera, sem perder um enxame, desdobrei todas as colónias. Com as 60 resultantes ainda produzi cerca de 700 kg de mel de Girassol. Foi um ano bem produtivo, mas confesso que estive sempre lá, a trabalhar com elas...

02 abril, 2009

Enxameação, consequências...

Os enxames, as jóias da coroa apícola, amados por uns e odiados por outros, vêm e vão como os amores na Primavera.

Ninguém constrói uma vacaria e deixa as portas abertas à espera que as vacas caiam do céu, quem as quiser tem de as pagar... caras. Já a apicultura é uma das actividades com menores custos iniciais. Os enxames não “caem” do céu, mas é pelos céus que se dirigem em todas as direcções para povoar quantas caixas e cortiços os apicultores preparem para o efeito.
São ainda o cartão de visita de qualquer abelheiro, não há apicultor digno desse nome que não guarde na memória as peripécias que passou para capturar uns quantos enxames. Para não falar da forma como contam essas histórias até à exaustão (de quem os ouve...).

Agora mais a frio, o termo “enxameação” nunca trás nada de bom, perdem-se abelhas (muitas abelhas), perde-se potencial produtivo e consequentemente o mel e os lucros.
É sob essa óptica que vou tentar relatar como se processa tal fenómeno em duas regiões próximas mas distintas e como isso afecta toda a apicultura local.

Ponte de Sor: Muita Flora de Inverno e Primavera, em detrimento do Verão.
É uma região caracterizada por extensas herdades com montado de sobro, cruzada pelo rio Sor e imensas linhas de água. O solo é essencialmente arenoso, muito sujeito à erosão pelos ventos e águas de escorrência. O mato que o cobre, de importância apícola, compreende sobretudo o Rosmaninho, Estevas, Alecrim, e algumas Ericácias entre outras espécies menos abundantes.
Apesar da flora mais importante ser de porte arbustivo, cujos sistemas radiculares são mais resistentes à seca, a ausência de chuvas Primaveris depressa interrompe a produção de néctares, por causa da fraca capacidade de retenção de água dos solos arenosos.

O ano apícola em Ponte de Sor inicia-se após um Inverno normalmente rico em fontes de néctar, o que se traduz em colmeias populosas e dimensionadas muito cedo. Este estímulo, que evita a alimentação artificial na estação fria, deve-se ao Alecrim, a algumas matas de Eucalipto e sobretudo à prolificidade de Salgueiros que acompanham as linhas de água.
Por estas razões, as colmeias enxameiam muito e muito cedo, logo a partir de meados de Fevereiro. Pior que isto é o facto do aumento de efectivos nesta região há muito se fazer pela captura de enxames, o que tem seleccionado esta característica. A maioria dos apicultores duplica o número de colónias durante a Primavera, à custa de fortes perdas na produção.
Com a chegada do Verão, a segunda parte do problema, não há néctares disponíveis nesta estação. Segue-se um período de forte mortalidade, as colónias velhas não tiveram tempo de refazer as reservas e populações e com as novas passa-se o mesmo. A ausência de floração mantém as abelhas na colmeia, a inactividade aumenta a longevidade dos insectos doentes e a proximidade das outras leva ao fácil contágio das moléstias.
Cheguei a visitar apiários em várias horas do dia em que nos podíamos passear sem equipamento frente às colmeias, o movimento de abelhas era mesmo nulo.
Os efectivos muito aumentados na Primavera eram agora reduzidos aos números iniciais. Quando se faziam declarações de existências em Junho e Dezembro, o gráfico ao longo dos anos parecia um serrote por causa do sobe e desce. O pior é que as produções de mel eram muito reduzidas por causa da enxameação:


A única forma de resolver este problema passava pela proposta aos apicultores no sentido de fazerem o CONTROLO DE ENXAMEAÇÃO durante o período crítico. Este processo levado a bom termo, impedindo a saída de abelhas, aumentaria as produções de mel.
Finda a Primavera o apicultor poderia então optar por fazer DESDOBRAMENTOS, para aumentar os efectivos e TRANSUMÂNCIA para regiões com flora de Verão. A Transumância tornava-se mesmo uma necessidade no caso da opção pelos desdobramentos, pelos motivos óbvios.
Houve apicultores que modificaram o tipo de maneio neste sentido e com óptimos resultados.


Do gráfico (e proposta) anteriores ressaltam duas tarefas difíceis de executar, seja pela morosidade, dificuldade física (para apicultores idosos) e alguma incerteza nos resultados. Trata-se, claro está, do Controlo de Enxameação e até da Transumância.
O Controlo de Enxameação mais vezes se baseia na fé que em métodos fiáveis. Tal como o tentarei demonstrar no próximo “post”, ou se seleccionam colónias sem tendência para enxamear ou lutaremos para sempre contra este problema.

Podemos optar por uma abordagem diferente, que nos evitará o stress do Controlo de Enxameação: o maneio é em tudo semelhante ao anterior, apenas fazemos os desdobramentos no início da Primavera, em meados de Fevereiro.
As colónias iniciais também “perdem” abelhas neste processo, mas aumentamos os efectivos sem riscos de perder abelhas (de facto) e sem a necessidade de fazer sentinela no apiário durante semanas (meses?) à espera dos ditos enxames.


De ressalvar uma grande vantagem deste método: os desdobramentos operados nesta data, extensível até meados de Março, apresentam uma taxa de sucesso muito superior aos feitos no fim da Primavera, depois da cresta. A criação de rainhas, inerente aos desdobramentos, encontra muito melhores condições de humidade, temperatura, disponibilidade de pólen e néctar no início da Primavera que à entrada do Verão.

Como devem calcular, esta abordagem irá custar alguns kg de mel à produção de Primavera, mas se os enxames escaparem ainda é pior. O ano passado fiz 20 desdobramentos em meados de Fevereiro, que me produziram exactamente 200kg de mel, uma alça por cada uma das novas colónias. As colmeias que ficaram com a rainha produziram em média uma e meia a duas alças por colónia. Já no Verão, no Girassol, cada colmeia produziu uma alça de mel. Não foi grande produção, mas o ano também não foi excepcional, e a minha zona é diferente de Ponte de Sor.

Avis, Sousel, e Fronteira: Muita flora de Primavera e ou Verão, em detrimento do Inverno.
Nesta região, à semelhança da anterior, também se verifica uma oscilação nas existências dos apicultores. A diferença é que se parte de um Inverno mais pobre em floração, o que vai atrasar os acontecimentos registados no caso anterior.
A flora é semelhante à de Ponte de Sor, havendo no entanto menos Alecrim e Salgueiros, o que empobrece bastante as fontes de néctar da estação fria. Já o Verão é bem mais acolhedor dada a disponibilidade da Melada de Azinho, o Cardo e o Girassol. Nas Primaveras chuvosas (parte final) a Soagem possibilita grandes colheitas de mel.
Podemos até afirmar que os solos mais argilosos, fazem com que a vegetação continue produtiva mesmo nos anos secos, salvo no caso da Soagem e do Cardo (herbáceas), cujas raízes não têm o rendimento das arbustivas.

O ano apícola inicia-se com colónias muito fracas, resultado de um Inverno rigoroso e sem flores. A enxameação só acontece durante os meses de Abril e Maio, uma vez que as colónias usam os néctares de Primavera (Rosmaninho) para se dimensionarem (encherem o ninho).


O “sobe e desce” dos efectivos é em tudo semelhante à região anterior, menos acentuada e desfasada no tempo. O mesmo já não se pode dizer das produções de mel e da mortalidade acentuada, pois o prolongamento da época produtiva com muita flora de Verão possibilita crestas razoáveis de méis escuros (durante o mês de Agosto), tal como boas reservas para as colónias enfraquecidas com a enxameação.
No gráfico acima podemos ver duas interrogações: 1 – Alimentação Estimulante e 2 – Transumância. A primeira deve-se ao facto de boa parte dos apicultores ainda não a fazerem, a segunda porque a deslocação de colónias pode ou não justificar-se consoante o local onde o apicultor tenha os assentamentos.

Esta “apicultura” também pode e deve ser maximizada em termos de produções:


Como se pode observar no gráfico anterior, a ministração de Alimento Artificial Estimulante a partir de finais de Janeiro, não só dimensionará as colónias como possibilitará a prática de desdobramentos durante o mês de Fevereiro (finais) e Março.

IMPORTANTE: Em teoria tudo é possível, mas admitamos que na prática estimular as abelhas tão cedo é, ou pode ser, muito arriscado. Esta decisão é sempre uma das mais difíceis que tomo. Imaginem que temos dias soalheiros em Janeiro, estimulamos as colónias e “surge-nos” um Fevereiro (ou Março), frios e chuvosos. As colmeias cheias de criação (com as reservas sempre no limite, e sem espaço para elas) podem colapsar em pouco dias se não forem mais alimentadas. Torna-se assim um ciclo vicioso...
Quando preparo o alimento artificial estimulante (líquido) para esse efeito, costumo fazer também um “seguro”, preparando boa quantidade de alimento de manutenção (sólido). Caso a meteorologia não colabore terei de travar o estímulo com alimento sólido, o que felizmente nunca foi necessário...

Mas voltando ao gráfico, e assumindo que o S. Pedro vai ajudar, podemos fazer os ditos desdobramentos com boa taxa de sucesso. Tal acção alivia-nos muito o controlo de enxameação, fenómeno que é muito potenciado após as sessões de alimento estimulante.
Verifica-se uma ligeira mortalidade durante a Primavera (Mortalidade 1), o que se justifica com o facto de alguns desdobramentos não terem corrido bem: não criaram rainha, a rainha não foi fecundada ou foi morta no voo nupcial...
Mais uma vês a transumância. Raramente (nesta região) um bom local de Primavera será um bom local de Verão, convém ponderar nesta hipótese. Eu opto sempre pelo “sim”, até porque as distâncias maiores raramente vão além dos 20 ou 30 km, e é uma garantia para os desdobramentos mais atrasados.
O controlo de enxameação ou os desdobramentos e a transumância permitem duas crestas anuais, o que acaba por tornar este tipo de apicultura muito compensadora, para não falar nas vantagens de manter as colónias activas a maior parte do ano.
Já no Inverno torna-se necessária (determinante) a alimentação artificial de manutenção, com os ditos alimentos sólidos, uma vez que a flora desta região pouco ou nada ajuda nesse período. E quando o Eucalipto ajuda, (mau sinal), trata-se de um Inverno demasiado quente com consequências piores ainda na Primavera...
A Mortalidade 2, refere-se obviamente a perdas durante o período frio, acho que incontornáveis, o regresso da transumância do Girassol prega-nos sempre algumas partidas e os rigores da estação também ajudam à festa...

Neste “post” reporto-me a duas regiões bem definidas, mas as observações podem ser extrapoladas para tantos outros locais do país com condições semelhantes.

Varroose na Idade Média: Parte II

Afinal não foi necessário o laboratório de referência...
O sacristão de serviço desvendou (quase) todo o mistério. Como também é apicultor, resolveu guardar o medicamento que lhe sobrou na dita caixa, à revelia do Padre. O seguro morreu de velho: como se tratava de uma substância tóxica guardou-a numa caixa onde há séculos ninguém mexia, mais vale prevenir...
Quanto à Cruz dos Templários, foi uma coincidência engraçada, usou cartão canelado da embalagem de uma conhecida marca de lixívia que usa a dita Cruz como logotipo.
Faltou-me resolver a assinatura do bispo, mas... o que seria da nossa apicultura se não fossem estes mistérios ???
Perdoem-me lá mais esta...!!!

01 abril, 2009

Varroose na Idade Média ???

Apetece responder que sim, ou pelo menos os factos parecem confirmá-lo...
É do conhecimento geral que esta moléstia só entrou em Portugal em meados da década de 1980, pouco depois de ter infestado toda a Europa.
Mas... na semana passada, durante uma visita de rotina às colmeias do Padre Gervásio Pinote, pároco de uma das freguesias do concelho de Avis, deparo-me com esta estranha mas grandiosa descoberta:

Uma tira acaricida, muito velha e ornamentada com a cruz da Ordem dos Templários!!!, onde se pode também observar uma assinatura quase ilegível.

A principio nem me surpreendeu, ou não fosse o dito padre comunicar-me que a caixa de onde a retirei ninguém lhe mexia há uns três ou quatro séculos. O cheiro apesar de vestigial não deixava dúvidas: tratava-se de “amitraz” a conhecida substância activa do “acadrex”, medicamento clandestino usado no combate à Varroose. Isto foi mais tarde confirmado pelo Zanganeiro, nome fictício do produtor local deste medicamento, e a seu pedido por recear consequências maiores, cujo olfacto detecta tal produto a quilómetros.
O Sr. Padre Pinote ainda comparou a assinatura, ou o que resta dela, com outras existentes em velhos documentos da paróquia, e acreditem ou não, assemelha-se muito à de um bispo que viveu entre 1302 e 1386.

Existiria de facto tal parasitose nas abelhas medievais? E já havia tratamento para ela? Porque razão a ornamentaram com a cruz dos Templários? E porquê assinatura do bispo da época? Seria ele o responsável pelo Programa Apícola desses tempos?
De facto, sempre que me falam no Programa Apícola só me ocorrem “coisas” Medievais, mas assim? Perdoem lá esta do dito Programa, mas a excitação de tal descoberta está a mexer muito comigo...

Ponto da situação: A tira de cartão foi anteontem enviada para um laboratório de referência, onde irão tentar aferir a data em que tal objecto foi feito.
Logo que tenha notícias... já sabem!

31 março, 2009

MelToon - 32

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Beesiness - Novidades

Vendem-se colónias de Abelhas: Ver Beesiness (Pag. inicial)

30 março, 2009

Dois conselhos para vender mel...

O último apicultor que tive na família, terá sido sensivelmente há 200 anos.
No fim do Verão de 1998 fiz a minha primeira cresta, dentro de um alguidar. Fiquei pacientemente a ver escorrer o mel de nove quadros de uma alça (corpo igual ao ninho). Creio que enchi oito ou nove frascos da “Tofina” com a minha primeira produção.
Entre a minha casa, família e alguns amigos, terei despachado seis ou sete. Vendi os dois que sobraram... Vendi toda a produção numa assentada: 2.000$00! Ainda pensei numa offshore qualquer, mas acho que investi tudo em luvas novas.
No segundo ano, já ultrapassei a mítica barreira dos 100kg, ainda pensei que por minha causa iria haver uma baixa nos preços.
Consegui vender uns 50 ou 60kg, às tias, vizinhas, amigos e outro pessoal conhecido. Fiquei à espera que os clientes anónimos me batessem à porta e comprassem o resto. Mas ninguém veio...
De facto, os meus pais não foram nem são apicultores, nem os meus avós, bisavós, etc, ninguém me associava a um produtor de tal substância. Nem sequer conheceram o meu primo Martinho que terá vivido em mil oitocentos e pouco, a minha última referência apícola...
Ao terceiro ano as pessoas, além de mim, passaram a palavra, contaram uns aos outros que eu vendia mel. Ainda assim, as vendas eram difíceis, os clientes de mel são muito fiéis ao produtor. Até às embalagens, os frascos da “Tofina” eram reciclados até à exaustão.

Surge então a oportunidade de ouro: um mau ano de mel!
Os apicultores locais, com pequenos efectivos, uma vez esgotados os stocks insuficientes para toda a clientela, nada fazem para satisfazer a restante. “Mel? Só para o ano, a estação foi má e já o vendi todo...” Muitas vezes ouvi esta conversa. Face a este panorama, os clientes faziam o circuito dos apicultores para ver se abasteciam antes do tempo das gripes.
Foi assim que consegui os primeiros clientes além – família, pois eu tinha mel. Quando acabei as reservas comprei mais a um grande produtor, mas nunca disse que não a um cliente. Sempre pensei que no ano seguinte a maioria voltasse ao antigo produtor, mas foram poucos os que o fizeram.
A justificação é simples, boa parte da clientela são pessoas que vivem em Lisboa, noutros centros urbanos ou emigrantes. Quando vêm passar o fim de semana ou as férias à terra, todo o tempo é pouco para estarem com a família ou os amigos. Convém que o período dedicado à compra de “mimos” como o mel, queijos, vinhos, enchidos, etc, lhes tome o mínimo tempo possível, e acreditem que uns míseros dez minutos já pesam na decisão. Desta feita preferem ir a um local onde têm a certeza que compram do que arriscarem no fornecedor habitual.

É extremamente importante a existência de um stock permanente de mel. Se não houver produção compra-se a um apicultor de confiança, com mel de características semelhantes, e informa-se a clientela. Mesmo que o lucro seja reduzido, é de todo mais importante que perder um cliente.
Pessoalmente, desanimo bastante quando vou comprar seja o que for e não o consigo por ruptura de stocks. Dá muito má imagem de quem vende.

Lembro-me de ter ainda quinze ou dezasseis anos e ter ido comprar mel lá para casa. Tinha a perfeita noção que à data em que o fui comprar já não devia haver, quase nunca havia e era sempre racionado. Chegado a casa do apicultor deparei-me com cerca de 20 frascos, foi um espanto, nunca tinha visto tanto mel junto. À pergunta se podia levar mais que um, respondeu-me que levasse os que quisesse, estavam lá era para vender...

O segundo conselho refere-se ao criar hábitos de consumo nos possíveis futuros clientes.
Durante uma formação de apicultura, no intervalo, fomos tomar café a um bar ali próximo. Um dos formandos lembrou-se de pedir mel para adoçar a bica. A resposta já era esperada: não havia, e o argumento enferrujado: “não há porque ninguém pede, por isso não tenho!”. Ninguém o pedia porque ele não estava lá, ninguém o via... e ficamos sem saber se o ovo ou a galinha...
Se houvesse um frasco de mel sobre o balcão decerto alguém quereria experimentar, a ASAE por exemplo... (esta saiu sem querer).
Resolvemos montar uma experiência, no dia seguinte fomos a um novo bar, o último já sabia da “coisa” e o resultado era viciado. Durante uns dias, cada formando, à vez, pediria para adoçar o café com mel. Finalmente, o dono do café, sabendo-nos apicultores pediu ao grupo se alguém lhe podia vender tal produto.
Não acompanhamos o desenvolvimento da experiência, mas seria interessante saber se a “ocasião teria feito um novo ladrão”...

24 março, 2009

Caixa para colocar alvéolos reais na incubadora

Trata-se de uma caixa de madeira com um número variável de divisões, onde se podem colocar os alvéolos reais saídos da colmeia criadora para colocar na incubadora. Desta feita, as rainhas nascem num ambiente controlado e sem possibilidade de causarem danos umas às outras.
O equipamento é mais indicado para quem use o cupularve, uma vez que as rainhas são geradas a partir de ovos da mesma idade, o que sincroniza os nascimentos quase para a mesma hora.

A caixa tem as paredes laterais e o fundo salientes, e com uma ranhura para encaixar o vidro de monitorização do interior:

Na parte parte superior encontram-se os orifícios onde vão encaixar as cúpulas com os alvéolos reais. A parte de trás é tapada com rede para circulação do ar.

É uma “engenhoca” fácil de construir, e para quem use a incubadora para criar as rainhas poderá ser um utensílio de grande aplicação.

Em vez de um bloco com várias divisões pode optar-se por caixinhas individuais, com o mesmo efeito:

23 março, 2009

A “Caixinha” da Cresta...

“A Apicultura é uma Actividade Lucrativa”


A frase publicitária da empresa Alberto da Silva Duarte & Filhos Lda.
Desde a primeira vez que a li, a achei enigmática. Nesse regresso de Coimbra vim a matutar nela até Abrantes. São quase 150 km...
Pensei no primeiro, no segundo e até no terceiro sentido, à espera de “gato escondido com o rabo de fora” e... nada.
A mensagem era, e é claríssima, a apicultura pode ser de facto uma actividade muito lucrativa. Infelizmente não o terá sido para a dita empresa que a ostentava na publicidade. Soube que a Alberto da Silva Duarte & Filhos Lda. aparentemente já encerrou.
Nunca fui um grande cliente, não eram o tipo de materiais com que trabalho, mas estive lá algumas vezes, mostraram-me as instalações e confesso que me senti muito bem. Era um local agradável. Entretanto até chegaram outros apicultores, e com eles chegaram as conversas sobre a apicultura, o mel e as abelhas. Mais que um espaço comercial era também um lugar de convívio, troca de experiências, e porque não de aprendizagem?
A Alberto da Silva Duarte & Filhos Lda., agora é mais um número estatístico, mais uma das centenas, desculpem, milhares de empresas que já fecharam recentemente no nosso país. Mas esta toca-nos em especial, trabalhava connosco, fazia parte do “nosso” mundo...

Mas a apicultura continua e continuará a ser uma actividade lucrativa, não digo a apicultura do mel, do pólen e das ferroadas, mas a outra mais comercial. A que se aproveita dos incautos e lhes vende toda a espécie de bugigangas, sejam úteis ou não.

A semana passada fui visitar um apicultor, jovem e recém apicultor, estivemos no apiário, na melaria e no armazém, onde nos detivemos à conversa.
Às tantas, orgulhoso, mostrou-me a sua última aquisição: quatro caixas para transportar os quadros na cresta... Feitas em platex reforçado com barras de madeira interiores, onde encaixavam os cerca de doze ou catorze quadros carregados de mel. Tinham uma tampa do mesmo material e duas pegas para transporte. Já me esquecia, também servem para transportar os quadros vazios no regresso ao apiário, uma vez extraído o mel...


Perguntei-lhe o preço (identificado o problema gosto sempre de saber a sua extensão), cerca de 21 ou 22,00 €, quase o preço de uma colmeia completa. Disse-lhe que na pior das hipóteses uma alça era bem mais barata, e curiosamente os quadros também cabiam lá dentro. Isto para não falar da alça de onde saíram os quadros, que ficou vazia e inútil sobre o ninho, até ao regresso daqueles.


Ainda argumentou que as alças não tinham tampa nem fundo...

Havia outro apicultor que crestava para dentro de caixas das bananas. Para quem ande arredado do mel e das bananas, as caixas desta fruta parecem ter sido estratégicamente concebidas para receberem cerca de 20 quadros Reversíveis ou Lusitanos. Só me falta saber se os Langstrooth encaixarão no comprimento...
Este é outro dos grandes mitos da apicultura. Porque razão há apicultores que deixam as alças sobre o ninho após a cresta e transportam os quadros em caixas recicladas ou concebidas para o efeito?

Porque já vi coisas piores, bem piores até.
Há um amigo meu cuja cresta parece um funeral, com caixão e tudo. Tem um jipe comprido, para ajudar à festa, e na parte de trás coloca aquele caixão imenso revestido por dentro a chapa metálica.
Carrega os quadros de três ou quatro alças de uma vez e são necessárias duas pessoas para o transportar... por enquanto ainda dispensa o padre, mas não sei até quando.

Arrisco-me a contar a maior “treta” do mundo, mas eu quando vou crestar levo uma ou duas alças sem quadros e cada uma que fica vazia recebe os quadros da próxima. A opção pela segunda alça vazia a levar para o apiário, justifica-se quando há criação nas alças. Caso isto se verifique em mais que uma colónia junto os quadros com criação de várias colmeias na mesma alça.

20 março, 2009

Apontamentos: Diário de um Apicultor Transumante

30 dias antes:
Ainda estamos em plena floração de Primavera, mas convém desde já começar a prospectar os locais de transumância para o Verão.
As florações que mais interessam nesta região são o Girassol, a Melada de Azinho e o Cardo. Podemos arranjar locais fixos para as últimas duas, mas a primeira, uma cultura anual, nem sempre a encontramos no mesmo local.

Costumo falar com agricultores conhecidos, ou dar umas voltas de carro pelos locais de regadio, para ver se já há girassol nascido. Nos últimos anos não tem havido muita escolha, esta cultura foi quase abandonada, se bem que pareça querer recuperar.
De qualquer forma, quando encontro um desses locais começo por pedir autorização ao proprietário para colocar lá as colmeias. Alguns até agradecem, mas há outros que colocam uma série de condições, parece que estão a fazer um favor gigantesco. De facto até estão, mas sem qualquer custo beneficiam bastante mais.
Feitas estas diligências costumo ir ao local verificar:
- Os acessos
- Um local com muita sombra para as colmeias

- A proximidade de água (limpa)
- Existência de outros apiários próximos
- Existência de outras culturas de regadio sujeitas a muitos tratamentos químicos
- Proximidade de Azinheiras ou zonas com Cardo
- Confirmar o perímetro de acção do pivot, as colmeias dispensam a rega...

- Já que é só pedir... o ideal seria mesmo encontrar um sítio central onde houvessem várias folhas de Girassol e em diversas fases de desenvolvimento, o que faria com se prolongasse a floração no tempo.

Este último aspecto tem consequências curiosas: antigamente o Girassol era de ciclo longo, a floração durava quase um mês. Desta feita, o encabeçamento aconselhado apontava para uma colmeia para dois hectares. Com a descoberta de novas cultivares, mais rápidas, a floração quase não chega aos quinze dias, pelo que chego a fazer encabeçamentos de duas colmeias/hectare com bons resultados. Até porque uma vez instaladas pode-se estimar a densidade de abelhas, contando o número destas em cada flor.
Não sei muito sobre esse aspecto, o ano passado, os espanhóis, numa polinização paga, queriam cerca de 10 abelhas em cada 100 flores de Girassol (num encabeçamento exigido, de três colmeias/hectare). Já houve um ano, quase sem Girassol em que cheguei a contar 3, 4 e até 6 abelhas/flor...

Todas estas circunstâncias acabam por influenciar a localização do apiário transumante ou até por inviabilizar esta decisão.
Se encontrar um bom local costumo limpá-lo de matos e pastos, junto às áreas de regadio também há incêndios, e o uso do fumigador dá uma grande ajuda...

Curiosamente, uma das observações que me é mais difícil é a previsão da deslocação da sombra das árvores, para que as colmeias apanhem o mínimo de Sol directo. Há quem tenha imensa prática, mas eu acabo por me deslocar ao local a uma série de horas diferentes. Por vezes até procuro um grupo de árvores juntas, uma espécie de telheiro natural.

Uma semana antes:
Normalmente nos primeiros dias de Junho, é feita a cresta, onde aproveito para avaliar as colónias em termos de população.
Nesta fase há que tomar uma série de decisões, pouco lineares, e por vezes até pouco correctas. Vamos começar pela menos pacífica, a questão da sanidade apícola.
Após uma Primavera muito produtiva, com muitos ciclos de criação nas colmeias, é natural que a população de ácaros de Varroa se encontre também desenvolvida. Para o saber, nada como efectuar o “Teste da Varroose”, o que por vezes nem é necessário, ou seja, quando se encontram muitos ácaros sobre as abelhas e ou abelhas jovens com as asas atrofiadas no exterior e sobre os quadros.
De qualquer forma, é arriscado prolongar o período de actividade (e sem tratamento) por mais três ou quatro meses:
- A aplicação de medicamentos quando há alças sobre o ninho é impensável, uma opção que nem sequer considero.
- A não colocação de alças sobre as colmeias, para fazer um tratamento correcto, também é arriscado, pois a colecta de néctares é imediata no local de destino.
- O adiamento da transumância, mantendo as colmeias no local de Primavera, ainda é pior, pois a falta de estímulos externos levam `inibição da postura e à redução da população. De modo que depois precisariam de demasiado tempo para atingirem os níveis necessários à produção.
Só me resta uma alternativa, mas contrariando o meu despudor em “dizer o que me vai na alma”, não me sinto à vontade em “escrever” como resolvo o problema. De uma forma correcta, creio, mas que pode dar azo a más interpretações. Se a curiosidade for muita... telemóvel ou E. mail...
Certo é que a população de Varroas acaba muito diminuída, sem riscos para as abelhas e menos ainda para o mel.

Cinco dias antes (pelo menos):
Preencher e entregar o Modelo da DGV para deslocação de apiários, poderá fazê-lo na sua associação de apicultores ou na Zona Agrária. Original para a DGV, duplicado para o apicultor e triplicado para a entidade receptora...

Um dia antes:
Passagem pelo apiário original para retirar todas as tábuas de voo, só atrapalham durante o transporte.
Tempo também para outra decisão, esta mais pacífica, a colocação ou não de alças vazias antes do transporte. Pessoalmente nunca o fiz, mas há quem defenda que é uma óptima estratégia para evitar perdas no excesso de abelhas que mal cabem no ninho após a cresta, e também morrem menos na viagem. Uma opção válida e a considerar.
A revisão ao veículo a utilizar para o transporte. Um dos aspectos fundamentais para esta actividade. Já fiz transumância de colmeias num percurso em que atravessava sete povoações. A ocorrência de imprevistos dentro de uma localidade: avaria, pneu roto, carro imobilizado, falta de combustível, nunca me sucederam e nem quero pensar nas consequências...
Quem quiser perder tempo, ou ficar mal disposto, ainda pode aproveitar para ir a uma agência de seguros e pedir um seguro contra terceiros... A única vez que tentei a gracinha, só me faziam um contra incêndios, mas tinha de limpar os matos um km em volta do apiário. Ainda estive para perguntar se essa apólice dava direito a um serviço de catering para o caso das abelhas terem fome...

Mais coisas de última hora:
Contactar o proprietário ou o guarda da propriedade, avisando-os que nessa noite vamos circular no local, não nos vão confundir com caçadores furtivos.
- Verificar o estado das cintas para aperto da carga.
- Providenciar uma lanterna.
- Não esquecer as esponjas, ou réguas reguladoras de entrada que impeçam a saída de abelhas.

- Garantir um ou dois ajudantes, a apicultura em geral e a transumância em particular são muito perigosas quando praticadas por uma única pessoa.
- O telemóvel, já evitou que eu passasse uma noite com a carrinha imóvel e com as rodas da frente quase sobre um precipício. A existência de um amigo com um pronto-socorro, que seja apicultor e com paciência para um frete destes às três da manhã são muita coincidência. Mas eu tenho um, segue um grande abraço para o Sr. Calado de Alpalhão...

Dia “D”, ou Hora “H”...
Nesta data, é suposto o Girassol ter aproximadamente 50 cm de altura. É a fase ideal para a colocação das colmeias. O néctar extra floral disponibilizado pela planta antes da floração, servirá como estímulo à postura da rainha e consequente dimensionamento da colónia para a fase de produção. Dá a sensação que é a própria planta (Girassol) que cuida das abelhas, preparando-as em quantidade para a sua própria polinização.
Quando fazer o transporte? À noite ou de madrugada?
Os “defensores” da madrugada só argumentam com as temperaturas mais baixas...
O meu carro não tem ar condicionado, ainda assim prefiro ir ao cair da noite. Se alguma coisa correr mal, falta muito para o Sol nascer e tenho cerca de oito horas para resolver o problema.

Por falar em “problema”, já tenho o Luís à minha espera para a “estiva”. Uma jóia de rapaz, mas tem com cada ideia sobre a arte apícola...
Entre o “ahhhh, eu não preciso disso (polainitos)” e vê-lo dançar um “fandango” acompanhado com gritos de dor foi uma questão de minutos. O Luís enfrenta esta actividade com um estoicismo digno de registo.
Chegados ao apiário, devemos deixar o motor a trabalhar e os faróis desligados. A vibração do motor acaba por “acalmar” as abelhas evitando que saiam das colmeias, ou pelo menos em quantidade.
O “sexo dos anjos”: quadros paralelos ao deslocamento do veículo ou transversais? O manual de condução do João Catatau é omisso, ainda assim prefiro a opção “paralelos”, sou dos que creio que há mais oscilações frente-atrás do que laterais...

Nunca sobreponho três fiadas de colmeias, o peso e as temperaturas altas poderão causar estragos em mim e nas abelhas, respectivamente.
Terminada a carga, há que imobilizá-la com cintas de aperto compradas para o efeito. Muita atenção nesta etapa, um ressalto no caminho pode aliviar a pressão e soltar algum gancho, costumo fazer paragens frequentes para verificar a carga. Por outro lado só tenho colmeias Lusitanas e algumas Reversíveis, o que ajuda muito no acomodar da carrada.

Já no caminho do Girassol, o Luís iniciou um estranho relato acerca de uma peripécia das suas abelhas, que passo a contar:
Estava mesmo indignado, tinha acabado de chegar ao apiário quando se lhe deparou este estranho fenómeno. Abriu uma colmeia e num ápice todas as abelhas fugiram para outra caixa ali ao lado.
Todas Luís? “Todas, até a p... da rainha fugiu”.
Antes de lhe dizer que decerto se tratava de um caso de pilhagem a uma colmeia “morta”, ainda tentei “tirar uns nabos da púcara”, quando ele me disse: “... e depois, já dentro da outra caixa, mataram-se todas”. Creio eu que a p... da rainha também terá posto termo à vida, mas agora já não encontrei razões para o sucedido.
O que se terá passado Luís? Não demorou muito até sair um “Sei lá pá, acho que não gostaram do cheiro do mel da outra colmeia...” E se isto não é razão para um suicídio colectivo não sei que outras razões o justifiquem...
Íamos nesta “desconversa” quando sou convidado a encostar pela brigada da GNR. Boa noite Sr. Agente, se não se importar eu paro o carro mais à frente (onde não havia luzes) e venho aqui trazer-lhe os documentos.
Então porquê?” Perguntou ele intrigado. Foi quando fiz um gesto com o polegar para ele olhar para a carga da carrinha. “Mas pode seguir, pode seguir, deixe lá isso...”. O último “pode seguir” já me pareceu um “desaparece daqui depressa”, mas acatei o conselho e fomos andando. O Luís já tinha esquecido a p... da rainha suicida e ria a bandeiras despregadas.
Já perto do destino, acontece-me sempre o mesmo, por mais vezes que lá vá durante o dia, à noite a paisagem muda completamente. E a entrada para o apiário, essa nunca está no mesmo local, daí a importância da lanterna.
Encontrado o sítio, desligar os faróis mas nunca o motor, pelas mesmas razões apresentadas lá atrás. Confesso que preferia carregar 100 colmeias do que descarregar dez, fisicamente é muito mais penoso. Novo arraial de “dança” protagonizado pelo Luís que dispensou os polainitos...
A disposição das colmeias, nestas circunstâncias, não tem muito a ver com a instalação habitual de um apiário. A orientação e exposição das caixas deve ser feita em função da sombra disponível, entre outros factores apontados no início do escrito, sendo os pontos cardeais pouco importantes, até porque a estação e as temperaturas são outras.
Está feito, tudo no respectivo local, uma última revisão para ver se está tudo em ordem e... caminho de regresso.
Vá, voltem lá atrás e destapem as colmeias, retirem as esponjas ou as réguas reguladoras de entrada... já ouvi relatos demasiado dramáticos acerca destes esquecimentos.
Não conheço sensação como a do regresso de uma transumância, amanhã voltamos ao mesmo sítio para confirmar se está tudo bem, deixar uma ou duas alças, conforme a população de cada colmeia e deixá-las em paz nos próximos quinze dias.
Já perto de casa, o Luís apresentava-me um projecto de semear favas frente ao seu apiário no próximo Inverno. Mesmo entre as Estevas e Sargaços, a terra era a indicada, “vai ver, vai ver a produção que vão tirar da flor das favas...”
De facto não há sensação como a do regresso de uma transumância, graças ao cansaço a nossa paciência é de tal forma dessensibilizada que nos permite ouvir tudo...

19 março, 2009

MelToon - 31

Clique na imagem para ampliar...

18 março, 2009

Mais muros apiários...

Mais alguns muros apiários, do distrito de Portalegre, cujas fotos foram retiradas de: "Contributo para o Estudo dos Muros Apiários do Parque Natural da Serra de S. Mamede", da autoria de Joana S. C. Rodrigues (2001-2002 PNSSM - ICN.
As diversas arquitecturas e materiais usados, dependem obviamente das características e relevo do terreno, tal como das tradições de cada local.

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