
Talvez um dos aspectos mais ingratos do maneio apícola. O objectivo (teórico) é impedir a perda de abelhas, e de potencial produtivo, mas na prática acabam quase sempre por sair com as consequências conhecidas.
A captura sistemática de enxames faz com que as colmeias com maior tendência para enxamear se reproduzam mais, seleccionando-se e mantendo-se essa característica indesejável. Com o passar dos anos torna-se mesmo um ciclo vicioso.
Em tempos tive colmeias com tais tendências para enxamear, que ainda lhes faltava ocupar metade do ninho e já tinham dúzias de alvéolos reais. Chegava a destruir os alvéolos semanalmente e nem assim “dava conta do recado”. Uma vez, tinha acabado de fechar uma colmeia e preparava-me para destruir os alvéolos da seguinte, ao ouvir o característico ruído, virei-me, e assisti impotente à saída de mais um. Persegui-o de carro, por raiva, e consegui capturá-lo, nesse tempo compravam-se carros com muita facilidade...
Factores que levam uma colónia a enxamear:
Rainhas demasiado velhas
Excesso de população para o espaço disponível
Muito calor e ventilação deficiente
Ninho bloqueado/ceras velhas
Propensão genética
Captura sistemática de enxames
Factores ambientais
Sanidade da colmeia
...
Para combater estes factores e controlar a situação há uma série de práticas, mais ou menos “praticáveis”, mais ou menos eficazes, que não “dando conta do recado” pelo menos atrasam ou aliviam o problema.
1. Dar espaço à colónia
A falta de espaço no ninho, seja pelo desenvolvimento da colónia/dimensões da população, ou pelo facto dos respectivos quadros se encontrarem bloqueados com mel e pólen velho, potenciam bastante a enxameação. A indisponibilidade de alvéolos para a rainha fazer a postura quase sempre desencadeia tal estímulo.
Pelas mesmas razões, a existência de ceras velhas no ninho também potenciam a enxameação uma vez que a rainha evita fazer aí a postura.
Para evitar esta situação devemos colocar a alça logo que os dez quadros do ninho estejam ocupados por abelhas. Infelizmente, esta acção não nos garante que a colmeia não enxameie, mas se não o fizermos, ela enxameará de certeza.
É comum nesta fase a rainha subir às alças e aí colocar os ovos. Não é um acontecimento muito agradável para alguns apicultores, alegando que mais tarde isso criará dificuldades na cresta, que têm demasiada criação a ocupar o espaço ao mel, chegando até a isolar a rainha no ninho com uma grade excluidora.Pessoalmente é o que menos me incomoda. Desde que substitui a maioria das colmeias (Reversíveis) por Lusitanas, raramente tal me acontece, mas se suceder, a rainha que disponha do espaço que entender para cumprir a sua função. Raras são as alças ocupadas com criação que até ao fim da estação produtiva (Primavera + Verão) não sejam cheias de mel.
2. Arejamento da Colmeia
O ar abafado e húmido no interior da colmeia é mais um dos factores que leva à enxameação. Quase sempre os apicultores pensam que o bater de asas das abelhas no interior, à entrada e na tábua de voo, é suficiente para renovar a atmosfera interna. “Agarrados” a este preconceito tapam todos e quaisquer “buraquinhos” que a caixa possa ter, não se constipem as abelhas: Réguas reguladoras de entrada durante a Primavera, buraco da prancheta tapado e sabe-se lá que mais...
Sempre se pode argumentar que muito antes do Homem “pôr” os pés na Terra, já haviam abelhas em “tocas” naturais, e algumas sem qualquer arejamento, mas se nós pudermos dar uma ajuda...
Desta feita, importa retirar a régua reguladora da entrada (pelo menos colocá-la na posição com mais aberturas), logo que terminem as sessões de alimento estimulante, tal como remover a tampa do buraco da prancheta.
Também se pode fomentar o arejamento eliminando aquelas estranhas “esculturas” que as abelhas tanto gostam de fazer sobre a cera velha e no estrado da colmeia.
3. Cortar as asas à rainha...Exactamente isso que eu disse, pior ainda: que escrevi. Há quem o tenha feito (faça?) e até vem aconselhado nalguns manuais. Nunca fiz tal coisa, já me disseram no entanto que este método também não prima pela eficácia.
Dizem que a rainha tenta sair da colmeia, normalmente, como se tivesse asas. Cai, ou fica-se pela tábua de voo, as abelhas saem todas com ela e gera-se uma grande confusão...
Se alguém tiver uma opinião diferente sobre este procedimento agradecia-lhe que partilhasse o seu ponto de vista, pois conheço-o muito mal...
4. Grade excluidora de rainhas à entrada da colmeiaTal como o anterior, é um processo pouco comum.
Consiste na colocação de uma “armadilha” em rede, cujos orifícios permitem a passagem das obreiras mas a rainha não o pode fazer. Pouco conheço este método, mas apontam-lhe falhas semelhantes ao anterior.
5. Arrefecer o ninhoAparenta ser um bom método, ainda assim pouco eficaz.
Consiste em intercalar quadros de cera moldada entre os quadros de criação. Tem até uma série de vantagens: a substituição de ceras velhas por novas, o que torna o ninho mais atractivo para a postura da rainha, favorece o arejamento e cria mais espaço. Tudo isto contraria a enxameação.
Mas será possível controlar de facto esse arrefecimento? E se a criação morrer? É pior a emenda que o soneto... Se as temperaturas forem altas até é tentador, mas o mês de Abril costuma ser frio.
Ainda que tudo corra bem nada nos garante que a rainha não parta com o seu séquito...
Talvez seja mais correcto se esse arrefecimento for faseado: Substituindo primeiro os quadros das extremidades (só com mel e ceras velhas), e só mais tarde colocar um ou dois quadros de cera moldada entre os quadros de criação.Mas isto não é bem um “arrefecimento”, é mais uma troca de ceras!!! o que já ajuda bastante...
6. Destruição de alvéolos reaisÉ o método mais moroso e cansativo, ainda assim o que nos dá mais garantias de sucesso.
Não tem nada de especial, limitamo-nos a destruir todos os alvéolos reais que encontramos na colmeia. Esta tarefa deve ser feita de oito em oito dias (semanalmente), procurando com todo o cuidado os alvéolos reais no ninho e inclusivamente nas alças.
Normalmente iniciamos esta acção em finais de Março (depende dos anos e das regiões). Logo que se destruam os primeiros não podemos falhar mais nenhuma sessão, ou perde-se todo o trabalho.
Os primeiros alvéolos reais encontram-se quase sempre no centro e extremidades dos quadros (junto à criação), a partir da primeira sessão começam a surgir um pouco por todo o lado, na parte de baixo dos favos (quando a cera não encosta à madeira), entre os quadros do ninho e das alças e até em alças com pouca ou nenhuma criação. Parece que as abelhas “adivinham” as nossas intenções, camuflando e escondendo os ditos alvéolos nos locais mais inesperados.
O “perigo” de enxameação só passa com o fim das fontes exteriores de néctar, data em que podemos parar com o controlo.
MUITO IMPORTANTE:Antes de iniciarmos a destruição dos alvéolos de cada colmeia, convém verificar alguns aspectos que possam indiciar o facto da colmeia já ter enxameado. Nesse caso, tal tarefa além de uma perda de tempo, ainda pode condenar a colónia, na medida em que a rainha (o enxame) já saiu e convém deixar alguns alvéolos para que nasça uma nova rainha.
Ausência da rainha (velha), podemos apenas não a encontrar, como pode já ter saído no enxame.
Ausência de ovos, ou ovos do dia (posição vertical).
Alvéolos reais abertos lateralmente, indício muito seguro da saída do enxame, não só a rainha velha já saiu como também já nasceu a nova e destruiu os restantes alvéolos.
Existência de rainhas jovens a percorrer os quadros ou mortas no exterior. Reconhecem-se pelas pequenas dimensões, quando estão vivas deslocam-se muito depressa, aparentemente “nervosas” quando comparadas com uma rainha fecundada e já estabelecida.
Legenda da figura anterior:1 - Alvéolo real em forma de cálice, existem na colmeia durante quase todo o ano. Podem ou não ter ovos/larvas, consoante irão ou não ser utilizados.
2 - Alvéolo real com ovo ou larva no interior. Ainda está por opercular, mas é um alvéolo real activo e em crescimento.
3 – Alvéolo real já operculado. No máximo, em sete ou oito dias irá nascer a nova rainha.
4 – Alvéolo real aberto. A rainha já nasceu, quase sempre é visível a “tampinha” do orifício aberto pela rainha ao nascer. Nestas situações o controlo de enxameação falhou ou já não se justifica.
5 – Alvéolo real destruído antes da saída da rainha. Outro indício de falhas no controlo de enxameação. A abertura lateral foi provocada pela rainha velha, pela(s) primeira(s) rainha(s) nova(s) que eclodiu, e ou até pelas obreiras.
Outro indício da proximidade da enxameação é quando se acumulam grande número de abelhas no exterior da colmeia ou do cortiço. Os espanhóis têm uma expressão curiosa para este fenómeno: hacer la barba, pois de facto o acumular de abelhas na tábua de voo e parede frontal lembram uma barba.
Pouco tempo depois é visível na frente da colmeia uma grande nuvem de abelhas, num voo ruidoso e que podem ou não pousar nas proximidades do apiário.
Não devemos confundir este comportamento com outro, em tudo semelhante, onde as abelhas voam em grande número viradas para a entrada da colmeia. Trata-se de um grupo de abelhas jovens, que fazem o primeiro voo, mantendo-se durante algum tempo a pairar naquela posição.
Na Primavera de 2001, com trinta colmeias consegui produzir uma tonelada de mel (aprox. 35Kg/colónia). Todos os fins de semana entre quinze de Março e quinze de Maio fiz o controlo de enxameação pela destruição de alvéolos reais.Foi um trabalho bastante duro, não só pelo facto de carregar com 300 quadros do ninho e 810 quadros de alça, fazer uma rotação com o pulso para os ver na frente e verso e ainda a atenção necessária para encontrar e destruir os ditos alvéolos.
Finda a Primavera, sem perder um enxame, desdobrei todas as colónias. Com as 60 resultantes ainda produzi cerca de 700 kg de mel de Girassol. Foi um ano bem produtivo, mas confesso que estive sempre lá, a trabalhar com elas...








































