
É uma história triste mas verdadeira.
Aliás, é um paradoxo, uma história verdadeira sobre mentiras, desculpas e formas de “sacudir a água do capote”… conheci-a há uns anos atrás, e hoje continua tão actual como nesse data.
Foi nos meus tempos de técnico de apicultura. Sempre que visitava um apiário e encontrava demasiadas colónias mortas, ou sempre que um apicultor me relatava tal facto, a culpa nunca era dele.
Quer a colmeia morresse com Varroose, Loque Americana, Fome, Frio, falta de rainha, fosse o que fosse a culpa era sempre de um tal velhinho que tinha uns cortiços “
ali para trás daquela colina”, “
nunca os trata, tem para ali aquela porcaria ao abandono”, “
é um foco de doenças e ninguém faz nada”…
Eu argumentava que de facto se podia fazer alguma coisa, ou se chamava a atenção ao tal “velhinho”, convidando-o inclusivamente para sócio da associação e… caso ele mantivesse tudo na mesma, se alertassem as autoridades oficiais.
A resposta – tipo do apicultor andava sempre à volta disto: “
Ahhh, ele ainda é de família, ou já tem problemas que chegue, não vale a pena incomodá-lo, qualquer dia eu é que as mudo de sítio…”
Passaram-se os anos e percebi que todas as terras e locais tinham um “
velhinho – com – cortiços – abandonados – ali – atrás – da - colina…”.
Até ao dia em que não aguentei de curiosidade e resolvi ir procurar os ditos cortiços abandonados. Era uma injustiça, o apicultor cumpria com as obrigações, fazia os tratamentos e acabava por levar por tabela, com perdas nos efectivos, e o velho ainda se andaria a rir com isto tudo…
Com ou sem apicultor queixoso, foram vários os locais onde calcorreei covas e cabeços, vales e planícies e… nem um cortiço abandonado para amostra. Por vezes nem colina havia… o terreno era mesmo plano.
Amadureci e percebi que o “
velhinho dos cortiços” era uma metáfora, ou se a gramática mo permite: uma treta. Boa parte das vezes o apicultor não tratava as colmeias, ou tratava tarde e mal, e as consequências eram óbvias.
Mas… é aqui que está o busílis, o
ORGULHO em admitir a falha ou a preguiça “encalhada” no meio de tão doutos conhecimentos. Assumir as culpas era o último recurso, nem se colocava tal hipótese.
Hoje em dia, já não “engulo” a história do velhinho, mas também já poucos a usam. Agora há um “
sacudidor de água dos capotes” muito mais eficaz: O
Síndroma do Despovoamento de Colmeias.
O apicultor faz os tratamentos, as abelhas desaparecem e não deixam sintomas, é como um crime perfeito. “
Está a ver? Nem sinais de Varroa, e Loque nem pensar, os quadros estão cheios de mel mas as abelhas desapareceram”, “
fiz tudo como devia ser feito e olhe, veja por si próprio, nem uma abelha”.
Primeira ilação: O
SDC mais que um problema é um alívio.
Se as abelhas morressem de Fome, Varroa, Loque ou outra moléstia qualquer: desatenção ou incompetência do apicultor, uma vergonha. Assim todos temos as mãos limpas, ninguém pode fazer ou ser acusado de nada.
Ao menos deixaram o “
velhinho em paz”…
De há dois ou três anos para cá, só em Portugal, estão a morrer milhares de colónias de abelhas. Deixamos de culpar o velhinho, isentamo-nos a nós próprios das culpas, mas… o
ORGULHO impede-nos de falar nestas coisas.
Carregam-se as colmeias vazias para o armazém e ninguém toca no assunto. Eu disse colmeias “vazias”? Nada disso! Elas vão é atestadas de traça. Maldita praga, apesar das baixas temperaturas ocupam a totalidade dos quadros abandonados em menos de uma semana.
Porque razão os apicultores não comunicam estas baixas às entidades oficiais? Directamente, via associação ou via Federação?Recentemente consegui saber que grande parte dos apicultores da região, e doutras regiões, apicultores com mais de 200, 300 e até 500 colmeias já perderam mais de metade dos efectivos. Soube-o em grande segredo, com garantias de não revelar os lesados. Não fossem as respectivas famas de grandes abelheiros sofrerem uma beliscadura.
Há um que posso revelar a entidade, o “
Mestre Pífano”, como já me chamam no blog, tinha 86 colmeias no fim de Setembro. Anteontem tinha 61, e ainda a “
Procissão vai no Adro”, mais de 70% dos meus efectivos estão com menos de cinco quadros ocupados.
Tratei com acaricidas, não encontro uma Varroa nem para uma mesinha, e o que vejo é aterrador. Já vou na terceira sessão de alimento artificial (com características de estimulante, apesar da estação do ano) e nem isso as parece animar. Há alimentadores que nem foram visitados.
No Verão de 2003 morreram milhares de colmeias com a vaga de incêndios. Depressa e bem foram accionados mecanismos de ajuda aos apicultores para reposição dos efectivos.
Acredito que as baixas causadas pelo
SDC (?) já ultrapassaram ou vão ultrapassar em muito os números de 2003. Mas parece que ninguém quer reparar nisso.
Já alguma associação se lembrou de contabilizar as baixas entre as colónias de todos os associados? De o comunicarem à Federação para que por sua vez informasse a DGV?
Que me tenha chegado aos ouvidos: nada!
E isto é de lei, quando há uma alteração superior a 20 colmeias nos efectivos deve ser feita uma nova Declaração de Existências de Apiários…
Surge um foco de Língua Azul, Febre Aftosa, Brucelose ou outra maleita qualquer nas cabras, vacas ou ovelhas e todos os telejornais abrem com essa notícia. A não ser que o Cristiano Ronaldo seja considerado mal empregue para jogar na selecção, ou os amigos do nosso primeiro-ministro cometam uma argolada.
As raras reportagens em que se falou na “eventual” mortalidade exagerada de colmeias, concluiu-se que não passavam de números dentro da normalidade. Nada havia a recear.
As características climáticas deste ano, associadas às do anterior, que também não foi famoso, apontam para tremendas baixas nos efectivos apícolas. Que aliás, já se estão a verificar e ainda o pior está para vir.
Mas ninguém repara nisto? Não se contabilizam as baixas? Os prejuízos? E as Zonas Sanitárias Controladas? Têm alguma alínea que previna esta situação? E o Programa Sanitário? Esse mito, sempre é o desejado D. Sebastião que o vai trazer?
Caros amigos, no próximo fim-de-semana realiza-se o Fórum Nacional de Apicultura, espero encarecidamente que alguém tenha a coragem de tocar a sério no assunto. Caso não se tome nenhuma medida séria, eu deixo uma sugestão:
Talvez as abelhas desaparecidas se tenham refugiado nos cortiços do tal velhinho, aqueles abandonados atrás da colina…