14 novembro, 2009

Acondicionamento de Colmeias na Transumância: BRASIL

Depois de tantas “conversas” acerca da transumância, vantagens, desvantagens, florações de destino, cuidados com o transporte, legislação, etc., o amigo Carlos Correa enviou-me as instruções para o transporte seguro de colmeias a grandes distâncias.
Normalmente, as minhas transumâncias não vão além dos 50 km, já as fiz com o dobro da distância, mas poucos cuidados tenho com a preparação das caixas para a viagem. Refiro-me obviamente ao arejamento das abelhas durante o trajecto.
Por um lado faço o transporte durante a noite, quando as temperaturas estão mais baixas, nunca transporto muitas colmeias sobrepostas (o que também aumenta o stress da colónia e consequentemente a sua temperatura. Por outro, e como já referi, na minha região não preciso de mais de 50 km para cobrir uma área suficiente de florações.

Neste caso falamos mais uma vez do Brasil, em que um “é logo ali” corresponde por vezes a centenas e centenas de quilómetros. O transporte prolongado de muitas colónias sem arejamento pode resultar na morte de toda a carga.
O Carlos apresenta-nos então um conjunto de técnicas e equipamentos que permitem um transporte longo, demorado e seguro, quer para a carga quer para as próprias abelhas.

Antes do transporte começa por substituir o tampo e a prancheta de cada colmeia por uma cobertura de “tela” rede mosquiteira, fixa com quatro ripas:

Com esta montagem (e não sobrepondo muitas colmeias), é possível fazer transumância para longas distâncias sem riscos de sobreaquecimento e morte de abelhas.

Agora um curioso modo de fixar a alça (melgueira) à caixa, para uma melhor estabilização da carga e sem que o conjunto se separe:

Para tal, usa-se um grampo com 5mm de diâmetro cujo formato podemos observar na próxima imagem e uma fita de 20mm de largura semelhante à dos cintos de segurança de um carro:

Depois de colocar a fita em torno da colmeia, unem-se as pontas e coloca-se o grampo:

O grampo deve sofrer uma rotação de 180º, e se por acaso escorregar e não esticar as fitas devem inverter-se as pontas da fita:

Na sequência, com o grampo, unem-se as fitas e gira-se 180º:

Em seguida, dão-se duas voltas com o grampo e faz-se um laço para maior segurança:

Finalmente, a colmeia está segura, arejada e pronta para a viagem:

Apesar de todos estes cuidados com a ventilação e arejamento das colónias a transportar, ainda há o cuidado, imagine-se, de deixar espaços entre filas de colmeias para passar uma mangueira com água para refrigeração das abelhas em dias de muito calor…

13 novembro, 2009

POESIA APÍCOLA

Como tristezas não pagam dívidas, fiquem hoje com estas "décimas" da autoria do Sr. José da Silva Máximo, grande mestre na arte de versejar e pai de um grande amigo (Fernando Máximo) a quem solicitei a obra, digam lá se não valeu a pena:

Voando de flor em flor
Fazem polinização;
Desse constante labor
Resulta a fecundação.


Numa caixinha quadrada
Que o homem lhe preparou,
Nela o enxame encontrou
Quadros com cera moldada;
Uma pequenina entrada
Evita algum predador,
Uma rampa tem valor
Para chegada e partida,
Quão é grande a sua lida
Voando de flor em flor…

Crescem a cera fazendo
Com arte e com perfeição
Os favos que mais não são
Que alvéolos que vão crescendo;
Com o mel os vão enchendo
O mel doce que nos dão,
Esses insectos que vão
Aqui e ali procurando
Nas flores sempre poisando
Fazem polinização.

São da colmeia ciosas
Se alguém as for atacar,
Não hesitam aplicar
As picadas dolorosas;
Não são nada carinhosas
Ao defender-se a rigor,
Desde manhã ao Sol por
Vão trabalhando a preceito,
E o homem tira proveito
Desse constante labor.

Há uma abelha rainha
Que é a que põe os ovos,
Logo dão enxames novos
Quando Abril se avizinha;
Procura nova casinha
Esses milhares que então
Dentro em pouco já irão
Trocando o pólen colhido
Nas flores que hão escolhido
Resulta a fecundação.

Autor: JOSÉ DA SILVA MÁXIMO/Santo António das Areias

12 novembro, 2009

“História” do Velho dos Cortiços Atrás da Colina…

É uma história triste mas verdadeira.
Aliás, é um paradoxo, uma história verdadeira sobre mentiras, desculpas e formas de “sacudir a água do capote”… conheci-a há uns anos atrás, e hoje continua tão actual como nesse data.
Foi nos meus tempos de técnico de apicultura. Sempre que visitava um apiário e encontrava demasiadas colónias mortas, ou sempre que um apicultor me relatava tal facto, a culpa nunca era dele.
Quer a colmeia morresse com Varroose, Loque Americana, Fome, Frio, falta de rainha, fosse o que fosse a culpa era sempre de um tal velhinho que tinha uns cortiços “ali para trás daquela colina”, “nunca os trata, tem para ali aquela porcaria ao abandono”, “é um foco de doenças e ninguém faz nada”…
Eu argumentava que de facto se podia fazer alguma coisa, ou se chamava a atenção ao tal “velhinho”, convidando-o inclusivamente para sócio da associação e… caso ele mantivesse tudo na mesma, se alertassem as autoridades oficiais.
A resposta – tipo do apicultor andava sempre à volta disto: “Ahhh, ele ainda é de família, ou já tem problemas que chegue, não vale a pena incomodá-lo, qualquer dia eu é que as mudo de sítio…
Passaram-se os anos e percebi que todas as terras e locais tinham um “velhinho – com – cortiços – abandonados – ali – atrás – da - colina…”.
Até ao dia em que não aguentei de curiosidade e resolvi ir procurar os ditos cortiços abandonados. Era uma injustiça, o apicultor cumpria com as obrigações, fazia os tratamentos e acabava por levar por tabela, com perdas nos efectivos, e o velho ainda se andaria a rir com isto tudo…
Com ou sem apicultor queixoso, foram vários os locais onde calcorreei covas e cabeços, vales e planícies e… nem um cortiço abandonado para amostra. Por vezes nem colina havia… o terreno era mesmo plano.
Amadureci e percebi que o “velhinho dos cortiços” era uma metáfora, ou se a gramática mo permite: uma treta. Boa parte das vezes o apicultor não tratava as colmeias, ou tratava tarde e mal, e as consequências eram óbvias.
Mas… é aqui que está o busílis, o ORGULHO em admitir a falha ou a preguiça “encalhada” no meio de tão doutos conhecimentos. Assumir as culpas era o último recurso, nem se colocava tal hipótese.
Hoje em dia, já não “engulo” a história do velhinho, mas também já poucos a usam. Agora há um “sacudidor de água dos capotes” muito mais eficaz: O Síndroma do Despovoamento de Colmeias.

O apicultor faz os tratamentos, as abelhas desaparecem e não deixam sintomas, é como um crime perfeito. “Está a ver? Nem sinais de Varroa, e Loque nem pensar, os quadros estão cheios de mel mas as abelhas desapareceram”, “fiz tudo como devia ser feito e olhe, veja por si próprio, nem uma abelha”.

Primeira ilação: O SDC mais que um problema é um alívio.
Se as abelhas morressem de Fome, Varroa, Loque ou outra moléstia qualquer: desatenção ou incompetência do apicultor, uma vergonha. Assim todos temos as mãos limpas, ninguém pode fazer ou ser acusado de nada.
Ao menos deixaram o “velhinho em paz”…
De há dois ou três anos para cá, só em Portugal, estão a morrer milhares de colónias de abelhas. Deixamos de culpar o velhinho, isentamo-nos a nós próprios das culpas, mas… o ORGULHO impede-nos de falar nestas coisas.
Carregam-se as colmeias vazias para o armazém e ninguém toca no assunto. Eu disse colmeias “vazias”? Nada disso! Elas vão é atestadas de traça. Maldita praga, apesar das baixas temperaturas ocupam a totalidade dos quadros abandonados em menos de uma semana.

Porque razão os apicultores não comunicam estas baixas às entidades oficiais? Directamente, via associação ou via Federação?

Recentemente consegui saber que grande parte dos apicultores da região, e doutras regiões, apicultores com mais de 200, 300 e até 500 colmeias já perderam mais de metade dos efectivos. Soube-o em grande segredo, com garantias de não revelar os lesados. Não fossem as respectivas famas de grandes abelheiros sofrerem uma beliscadura.
Há um que posso revelar a entidade, o “Mestre Pífano”, como já me chamam no blog, tinha 86 colmeias no fim de Setembro. Anteontem tinha 61, e ainda a “Procissão vai no Adro”, mais de 70% dos meus efectivos estão com menos de cinco quadros ocupados.
Tratei com acaricidas, não encontro uma Varroa nem para uma mesinha, e o que vejo é aterrador. Já vou na terceira sessão de alimento artificial (com características de estimulante, apesar da estação do ano) e nem isso as parece animar. Há alimentadores que nem foram visitados.

No Verão de 2003 morreram milhares de colmeias com a vaga de incêndios. Depressa e bem foram accionados mecanismos de ajuda aos apicultores para reposição dos efectivos.
Acredito que as baixas causadas pelo SDC (?) já ultrapassaram ou vão ultrapassar em muito os números de 2003. Mas parece que ninguém quer reparar nisso.

Já alguma associação se lembrou de contabilizar as baixas entre as colónias de todos os associados? De o comunicarem à Federação para que por sua vez informasse a DGV?
Que me tenha chegado aos ouvidos: nada!
E isto é de lei, quando há uma alteração superior a 20 colmeias nos efectivos deve ser feita uma nova Declaração de Existências de Apiários…

Surge um foco de Língua Azul, Febre Aftosa, Brucelose ou outra maleita qualquer nas cabras, vacas ou ovelhas e todos os telejornais abrem com essa notícia. A não ser que o Cristiano Ronaldo seja considerado mal empregue para jogar na selecção, ou os amigos do nosso primeiro-ministro cometam uma argolada.
As raras reportagens em que se falou na “eventual” mortalidade exagerada de colmeias, concluiu-se que não passavam de números dentro da normalidade. Nada havia a recear.

As características climáticas deste ano, associadas às do anterior, que também não foi famoso, apontam para tremendas baixas nos efectivos apícolas. Que aliás, já se estão a verificar e ainda o pior está para vir.
Mas ninguém repara nisto? Não se contabilizam as baixas? Os prejuízos? E as Zonas Sanitárias Controladas? Têm alguma alínea que previna esta situação? E o Programa Sanitário? Esse mito, sempre é o desejado D. Sebastião que o vai trazer?

Caros amigos, no próximo fim-de-semana realiza-se o Fórum Nacional de Apicultura, espero encarecidamente que alguém tenha a coragem de tocar a sério no assunto. Caso não se tome nenhuma medida séria, eu deixo uma sugestão:

Talvez as abelhas desaparecidas se tenham refugiado nos cortiços do tal velhinho, aqueles abandonados atrás da colina…

11 novembro, 2009

Flora Apícola: O Capixingui - BRASIL

Imagens de um tipo de flora apícola quiçá desconhecido na Europa. Fotos enviadas pelo amigo Carlos Correa de Guarulhos – SP BRASIL.
Não vou fazer grandes comentários às imagens, elas falam por si, e de que maneira…
Só faço votos para que as gerações vindouras não precisem do montedomel para as ver, antes as possam sempre admirar ao vivo. Sinal que essa floresta maravilhosa continua de pé e com saúde.
Não consigo ficar indiferente quando me refiro à floresta tropical, creio que ninguém consegue…

09 novembro, 2009

Apicultura no Parque Nacional da Peneda - Gerês

Antes de mais, não fiquem à espera de um artigo de fundo, completo e exaustivo, sobre o assunto do título. Se por um lado a minha curta estadia no local não me permitiu ir mais longe, por outro, também não encontrei nenhum apicultor activo com quem falar, além do Sr. Pires das “Corpelas dos Cortiços”.
No entanto, aproveitei o que tinha à mão, fossem os apiários que encontrava nos passeios pela serra, a flora que muito me impressionou e outras ilações que fui tirando durante a viagem.
Na pior das hipóteses, e à falta de informações mais interessantes, apreciem as imagens que à partida me parecem sugestivas de um lugar com fortes aptidões apícolas.
Comecemos pelos Castanheiros, abundantes e responsáveis pela produção do característico mel de Castanheiro e Urze, de cor escura e com sabores e aromas inconfundíveis, que tanto aprecio.

Nunca antes visitara esta região, mas já contava com a presença dos Medronheiros que decerto terão bastante influência nas características do Mel do Gerês:

Esta vegetação sempre me impressionou, porque tal como a Laranjeira conseguem apresentar o fruto e a flor da próxima geração em simultâneo.

E agora, talvez uma das fontes de néctar mais importantes para a apicultura da Serra do Gerês, a Urze, tal como o Medronheiro é da família das Ericaceas.
Encontrei grandes extensões desta vegetação (creio que já na fase final) e não me cansei de lhes tirar fotografias, gosto do aspecto da flor e são muito raras na minha região.

São muitas as espécies e variedades em Portugal e impressionam-me sobretudo os nomes vernáculos: Urze, Queiró, Morganiça, Mongoiriça, Mangoiriça, etc…

As próximas duas flores têm “ar” de espécies protegidas, não me são estranhas, mas desconheço-lhes o nome.
Alguém sabe do que se trata? Têm alguma importância do ponto de vista apícola?
Pelo menos parecem-me bastante bonitas e atractivas para as abelhas…

O Tojo é uma “velha conhecida”, muito abundante no meu Alentejo, não sei se se trata da mesma espécie mas creio que sim.
Para uns apicultores é muito importante para as abelhas, como primeira flora de Inverno (no Sul), para outros não tem qualquer importância. Para mim digo que “quem não tem cão caça com gato”, onde as abelhas não têm outra alternativa o Tojo é o melhor petisco…

Esta é que eu não estava à espera, uma Cistacea (família a que pertencem as Estevas), julgava-a uma espécie de climas mais Mediterrânicos, mas como existem tantas espécies e variedades… Na minha região florescem só na Primavera.
Aqui só vi uma, esta que fotografei!

Alguns dos apiários que encontrei pelo caminho. Trata-se de um tipo de estrutura que a qualquer apicultor nunca passa despercebida, mesmo quando vamos a conduzir.
Aquele conjunto de formas geométricas cúbicas e de aspecto muito colorido, a contrastar com a vegetação, chamam-nos sempre a atenção: “Olha, lá está mais um…”
Ainda andei uns dias a pensar nos apicultores proprietários e no esforço que deveriam fazer aquando das crestas, com as alças carregadas por caminhos tão… impraticáveis…
Mas a zona pareceu-me ser muito boa para a prática da apicultura.

No próximo apiário, parabéns ao proprietário pelo aspecto saudável das colónias, pelo menos pela frequência e abundância com que as abelhas entravam e saiam das colmeias.

No entanto, para fotografar o dito apiário devo ter “violado” alguma regra local, tive que parar o carro na berma de estrada e não andei meia dúzia de metros quando se me deparou a placa da imagem seguinte:

Gostei do local e da disposição em “cascata” do próximo apiário. Se por um lado dificulta o acesso aos “amigos do alheio”, o proprietário também deve penar para se aproximar dele…

Sem desmérito de tudo o que vi e relatei até então sobre a apicultura do Gerês, o próximo aspecto foi o que mais invejei. Se pudesse teria trazido umas quantas para “plantar” um pouco por todo o Alentejo…
Não calculam o número de vezes que enchi e despejei os cantis para provar esta e aquela e mais aquela ainda. A Água, o verdadeiro tesouro desta região! Que pena não ser assim em todo o lado…

Fica a promessa para uma segunda visita, mais demorada, onde espero acompanhar alguns apicultores na sua labuta e apresentar uma notícia completa e digna dessa magnífica região que é o Parque Nacional da Peneda – Gerês.

06 novembro, 2009

Avis mellifera 2009 - O Programa

Clique na Imagem para Ampliar

No seguimento do trabalho iniciado em 2008, o Avis mellifera 2009 pretende continuar com a melhoria e divulgação da apicultura da região.
Este ano, o tema central será a Diversificação da Produção Apícola, tentando com isso estimular os apicultores para rentabilização das explorações com outras mais-valias da colmeia, que não só o mel.
Para tal, foram convidados especialistas nas mais diversas áreas, entenda-se Produtos da Colmeia, cuja experiência deverá sensibilizar os apicultores presentes para a importância desta temática, onde se espera concluir que o trabalho das abelhas vai muito para além da produção do mel...

Para mais informações sobre o evento deverá contactar:
Joaquim Pífano: 965818250 / montedomel@gmail.com
Dália Peças: 965778681 / daliapecas@gmail.com

05 novembro, 2009

Avis mellifera 2009

FALTAM 30 DIAS, É "JÁ" NO SÁBADO 5 DE DEZEMBRO 2009
Este ano com diversas novidades, o Programa deve ser publicado até ao fim de semana...

04 novembro, 2009

Alimentadores Artificiais Colectivos e Individuais: BRASIL

Depois da “passagem” do Minho para o Algarve, vamos até S. Paulo no Brasil. A descida das temperaturas e o mau tempo que se começa a fazer sentir na nossa região já nos faz sonhar com climas mais paradisíacos…

Há cerca de um mês atrás, na minha troca habitual de E.mail’s com o amigo Carlos Correa de Guarulhos – SP – Brasil, revelou-me a existência de umas estruturas peculiares para ministrar alimento artificial às abelhas.
O que mais me impressionou é que um desses alimentadores está concebido para conter alimento sólido para as abelhas (farinhas de milho, trigo, soja, pólen, etc.) …
Mas comecemos pelo início, um dos alimentadores colectivos é para xaropes líquidos, constituído por um bidão de plástico (tipo banheira) obtido a partir de um depósito de plástico cortado em dois.
O alimentador, colocado no chão perto do apiário, é fixo entre quatro pilares que suportam simultaneamente uma chapa ondulada, que serve de sombreiro, com dois blocos de cimento em cima para não ser arrastada pelo vento. O telhado de chapa ondulada serve principalmente para a evitar a entrada de água da chuva, não esqueçamos que se trata de um clima tropical, e o excesso de água iria diluir o xarope tornando-o menos atractivo ou até fermentá-lo.
Esse depósito é cheio com mato (além do xarope açucarado) para que as abelhas não se afoguem:

Em Portugal, e sobretudo nos últimos anos, cada vez são mais desaconselhados e menos usados os alimentadores colectivos, visto que o seu uso pode fomentar a pilhagem. Já são muito raros os que encontro no campo, desde a habitual lata ou panela, até ao canal feito com telhas que os apicultores enchem com xaropes à base de mel, açúcar e sumos de fruta.
Voltando ao nosso assunto, o que mais me surpreendeu foi uma segunda fotografia, semelhante à anterior mas com uma nova montagem: o Alimentador Colectivo para Alimentos Sólidos:

Obtém-se colocando um suporte sobre o primeiro alimentador, e por cima um recipiente semelhante mas de menores dimensões. A curiosidade tem a ver com o estranho alimentador feito em lata que é colocado no interior do recipiente de cima. É nesta lata modificada que se colocam as referidas farinhas (secas) ou o pólen (também seco) e que acabam por ser muito procuradas pelas abelhas…

Como se constrói o Alimentador Colectivo para Pólen e Farinhas?

1. Começa por usar-se uma lata reciclada, vazia, (quadrada, neste caso) onde se abre uma porta lateral para colocar as farinhas no interior, e obviamente para a entrada e saída das abelhas:

2. Na parte superior da lata (na tampa), são abertos quatro orifícios, um a cada canto, para a saída de ar quente provocado pelo esvoaçar das abelhas no interior. Caso contrário boa parte da farinha em suspensão no ar seria expulsa pela entrada principal perdendo-se, com a entrada e saída intempestiva das abelhas e principalmente pelo bater de asas no interior da lata:

Segundo Carlos Correa, as abelhas entram na lata, batem as asas levantando nuvens de pó (farinha mais fina) recolhendo-a em suspensão no ar, agregando-a depois em pelotas nas corbículas (nas patas) e transportando-a para a colmeia como o pólen “natural” que colectam nas flores. A farinha é assim recolhida em voo, enquanto umas abelhas desmancham o monte de farinha batendo as asas, outras recolhem-na em suspensão no ar.

3. Agora um dos pormenores mais importantes: a (s) farinhas (s) e ou pólen a utilizar, não são meramente despejados no interior da lata - alimentador. Há algum cuidado, ou melhor um truque na sua colocação. As farinhas são compactadas manualmente contra a parede de trás da lata, formando um monte em diagonal entre o fundo e a parede de trás como se pode ver na próxima imagem:

Esta informação já tinha sido visto num dos esquemas anteriores, na imagem 4.
Desta forma, as abelhas recolhem apenas a farinha e o pólen mais fino, uma vez que com o bater de asas e desfazendo o montão, colocam a farinha em suspensão mais facilmente, deixando as partículas maiores no fundo da lata. Periodicamente o apicultor volta a compactar as farinhas diagonalmente e repete-se o processo, até ao consumo total (ou quase) de todo o alimento sólido.

Alguma farinha que saia acidentalmente pela entrada das abelhas (buraco maior, lateralmente na lata) ainda é reaproveitada pois cai dentro da tina mais pequena, aí colocada para o efeito, onde se encontra a lata:

Segundo Carlos Correa, esta modalidade de alimentar as abelhas é usada em duas situações: para uma alimentação normal em caso de carências nutritivas, e para preparar/ “treinar” as abelhas para a recolha/produção de pólen.
Como é produtor de pólen, para preparar as abelhas para esta tarefa, normalmente começa por lhe colocar o alimentador com as farinhas (como se fosse um treino ou uma preparação) e só depois começam a colectar o pólen nas flores.
Usa preferencialmente farinhas de milho, trigo, cevada e mandioca, visto que a farinha de soja e o próprio pólen de refugo são demasiado caros. Há quem use levedura de cerveja na mistura, o que ainda encarece mais.

Sempre que forneço pólen às minhas abelhas, tenho de o misturar com algo mais atractivo como o mel e xarope de açúcar, com todo o trabalho e confusão que já descrevi numa série de posts.
Por isso não me contive e acabei por perguntar ao Carlos porque carga d’ água, as abelhas dele se sentiam tão atraídas pela farinha seca e simples…?
Ele confessou-me que para facilitar o processo e tornar o alimento seco mais atractivo, antes de colocar as farinhas na lata unta-lhe todo o interior com mel ou outro xarope açucarado, o que atrai mais facilmente as abelhas. O facto de colocar a tina mais pequena sobre a do xarope líquido (onde as abelhas já estão habituadas a ir) também ajuda n o processo) mas mesmo assim não estou a ver as minhas abelhas …

Como se pode ver na segunda imagem, este alimentador (para sólidos) pode ser combinado com o alimentador maior para xaropes açucarados, sobrepondo-se-lhe.

Estes alimentadores podem ser usados em qualquer altura do ano, mas fazem-no preferencialmente na entrada do Inverno e da Primavera (quando o pólen ainda é escasso). Uma inspecção cuidadosa ao interior da colmeia (favos) indicará ao apicultor a melhor oportunidade para alimentar.

Curiosidade: nesta região do Brasil existe uma árvore chamada “Barba Timão”, cujo pólen é muito tóxico provocando a mortalidade das abelhas. O Carlos referiu-me terem morrido muitas colónias a um amigo dele durante essa produção de pólen, o que ele conseguiu evitar alimentando-as com as referidas farinhas.

Perguntei ao apicultor porque razão a farinha não era apenas colocada dentro da lata, mas sim prensada na diagonal num formato tão peculiar. Respondeu-me que o truque era esse, só dessa forma as abelhas conseguem fazer “nuvens” de farinha no interior da lata para que as outras a pudessem recolher no ar.
Quando o apicultor regressa ao apiário deve levar mais farinha, voltar a compactar tudo e recolher os grânulos mais grossos (que as abelhas não recolhem) e aproveitam-no para dar às galinhas.

O Carlos Correa ainda disse:

“Você se encantaria em ver as abelhas entrando na lata e saindo todas brancas, voando de frente para a lata se penteando e depositando a farinha nas corbiculas e novamente voltando para aumentar o volume das pelotas nas perninhas.
O vento levando ora para direita hora esquerda as abelhas todas branquinhas é encantador, e sem agressividade , já no xarope é melhor despejar no cocho e sair correndo ...”


Outras modalidades de Alimentadores Artificiais, desta vez individuais:

Na continuidade desta conversa, ainda me apresentou outra modalidade de alimentador para xaropes líquidos. Mas tratam-se de alimentadores individuais (um por colmeia) apesar de se encontrarem no exterior.

O alimentador não é mais que uma caixa de madeira impermeabilizada, com uma tampa deslizante e cuja entrada (acesso das abelhas) encaixa e entra pela própria entrada da colmeia (fixando-se na tábua de voo).

Na próxima imagem, podemos observar o dito alimentador desmontado:

Um dos aspectos que achei mais interessante foi a existência de um flutuador de madeira que se coloca dentro do alimentador, descendo à medida que o nível do xarope também desce.
O flutuador tem quatro pregos espetados por baixo, como se fossem pés de apoio, não o deixando assentar totalmente no fundo. Esse pormenor permite às abelhas recolherem o alimento artificial até ao fim, nomeadamente a as partículas mais densas e pesadas.

Agora, outro procedimento muito curioso com a alimentação artificial das abelhas:
Habitualmente, e após a instalação de um apiário (para a produção de rainhas onde o fluxo de néctar tem de ser contínuo), o Carlos usa um método muito peculiar de ministrar o dito alimento às colónias:
Coloca um depósito de plástico de cinco litros de capacidade, cheio de xarope, dentro de uma melgueira (alça) vazia sobre o ninho ou sobre outra alça.
Esta “dose” dá para cerca de 30 dias, desde que se tenham alguns cuidados, nomeadamente a adição de uma colher de ácido cítrico para cada 20 litros de xarope, que deve ferver até aos 100ºC. Após a fervura há que retardar o arrefecimento da mistura, forrando o recipiente (onde se ferveu o xarope) com papelão ou cartão canelado.
O arrefecimento lento permite a inversão dos açúcares, o que resultará numa alimento melhor aceite pelas abelhas e com maior durabilidade sem se alterar (cerca de 30 dias).

Repare-se no pormenor do acesso das abelhas ao xarope no depósito de cinco litros: uma fenda no dito depósito, onde se encaixa um pequeno “cesto” de rede metálica e onde as abelhas podem aceder sem se afogarem.
Este alimentador/depósito é colocado numa alça vazia (sem quadros) colocada sobre outra alça (melgueira) ou directamente sobre o ninho, com diversas vantagens:
A alça sob o alimentador permite o armazenamento do xarope sem que se “roube” espaço no ninho para a postura da rainha. Por outro lado, a alça vazia serve de abrigo ao excesso de abelhas colectoras em dias de chuva ou calor, não atrapalhando o serviço das amas ou “nodrizas”. Muito engenhoso, não?