Texto escrito há uns anos atrás e publicado na Revista "O Apicultor". Pareceu-me oportuno voltar a publicá-lo, pois nesta Primavera irá decerto haver muita avidez pela captura de enxames, para repor os efectivos perdidos durante o fim do ano passado.Uma das características da apicultura que mais “afastam” os eventuais praticantes é sem dúvida a picada das abelhas. Por obra do Criador ou da Selecção Natural, os laboriosos bichinhos foram prendados com tais defesas que lhes permitem até afugentar os animais mais temíveis, e o Homem não constitui excepção, por vezes até com consequências muito graves.
Mas não é este o único perigo para o apicultor, aliás a lista de possíveis azares é, infelizmente, muito extensa. E reporto-me a todo um rol de acidentes que pode ocorrer no transporte de colmeias e outras cargas apícolas, as dificuldades de acesso dos serviços de emergência aos locais onde estão instalados os apiários, nas melarias os objectos aguçados e cortantes, as máquinas rotativas, e até as quedas que ocorrem durante a captura de enxames.
É mais ou menos neste quadro que se insere a história do Arlindo Nanques, novo ainda na idade mas muito experimentado já na vida apícola, tem 45 anos, e já é apicultor há mais de 20, actividade que desempenha com a maior das dedicações e carinho. Vive na Torre das Vargens – Ponte de Sor, e é um dos sócios mais activos da associação local, a Apisor.

Há cerca de sete anos, durante a Primavera e numa das frequentes visitas que fazia ao seu apiário de colmeias Práticas, encontrou um enxame pousado num Sobreiro. Um pequeno enxame, ao qual não ligou importância. Até porque este estava num local de acesso difícil, a cerca de 8 metros de altura.
Entretanto, aproxima-se um pastor, seu amigo, que lhe pediu para capturar o enxame e lho oferecer. O que se passou a seguir é fácil de prever, nesta região quase todos os apicultores têm uma escada perto do apiário, umas mais seguras outras mais improvisadas, que usam para recuperar enxames em locais mais altos. E o Arlindo lá subiu para efectuar esta tarefa, chegado à altura do enxame quebra-se o degrau onde encontrava apoiado, e vem por aí abaixo sob o olhar impotente do pastor.
Sentiu uma pancada forte na coluna, no impacto com o chão, resolveu mexer os dedos, mão braços, etc., para ver se estava tudo em ordem. Satisfeito com o resultado do teste resolveu levantar-se, quando sentiu uma dor forte na perna, estava quebrada muito próximo do pé.
O pastor, que assistira a tudo resolveu ajudá-lo, e quando o acidentado se preparava para tirar um canivete para cortar a bota, aquele antecipou-se e “arrancou-lha” o melhor que pode!, e vão duas! Calculem as dores que tal acto causou, apesar da boa vontade do amigo que nervoso tentou fazer o melhor possível.
De seguida, o pastor veio à povoação para que fosse chamada uma ambulância, visto que nenhum dos dois possuía telemóvel, e ainda que possuísse, posso informar-vos que a zona é pouco ou nada servida de rede.
A ambulância não tinha acesso ao acidentado, e penso que é desnecessário descrever-vos o local uma vez que todos os apicultores estão bem familiarizados com os locais onde é comum instalarem-se colmeias.
Se a montanha não vai a Maomé, vai o Arlindo à ambulância, numa maca improvisada para o efeito, e nada melhor do que a escada de onde se precipitou, com uns ramos de Esteva e Rosmaninho para dar mais conforto e amparar a perna. E vão três !
Já na ambulância surge nova surpresa, esta ficou atolada num ribeiro sazonal cheio de água na Primavera. Chamou-se um tractorista, com o respectivo tractor, e à custa de uns puxões violentos acompanhados dos respectivos solavancos da ambulância e dos gritos do Arlindo lá se superou mais uma etapa. E vão quatro !
A deslocação Ponte de Sor – Abrantes, foi feita a passo de caracol, não houvesse complicações para a coluna, e dados os antecedentes desta “aventura” seria muito fácil.
Chegado a Abrantes, à espera de ser operado de urgência, ainda teve que esperar pelo dia seguinte porque tinha havido um grande acidente na região e com feridos prioritários, e vão cinco !
Resultado, várias fracturas expostas, mais de um ano com placas de metal, gesso, parafusos, dores horríveis sempre que o tempo muda e dificuldades permanentes na locomoção – uma relíquia para o resto da vida!
Quero com esta “história verídica” um pouco de reflexão da parte de todos, sempre que se dirijam para o apiário ou para a melaria. Devemo-nos recordar e praticar todas as normas de segurança e sobretudo cumprir uma regra de ouro:
nunca ir visitar as colmeias sem levar pelo menos um acompanhante.