16 abril, 2010

Apicultura Tradicional nos Alpes Franceses ( III )

Mais um dia de passeio pelos Alpes Franceses, desta vez seleccionamos uma região mais plana. A vila de Argentine situa-se num vale entre duas cadeias montanhosas, onde abundam os prados verdes, e alguma agricultura muito bem cuidada.

A cada curva surgiam-nos pequenas parcelas verdes, rodeadas de árvores e com meia dúzia de vacas ou cavalos na pastagem. Para não falar das galinhas, coelhos, gatos e …abelhas, entre muitos outros adereços que compõem as paisagens rurais.

Não foi preciso andar muito para que o meu olho clínico (ou será viciado?) tivesse vislumbrado naquela pintura muito bucólica a “característica – fila – de – caixinhas – coloridas”…
Mas como íamos com outro destino memorizei mentalmente o local, para aí regressar mais tarde.
O que mais me chamou a atenção, sendo fácil reconhecer o local por isso, foi a presença de um imenso celeiro, ou casa agrícola, totalmente construída em chapas de metal onduladas. Longe do mau aspecto que estes materiais costumam conferir aos bairros de lata, esta “cabana” de zinco, matizada por manchas com diversos graus de oxidação, enquadrava-se perfeitamente na paisagem.

Junto àquela e sob um alpendre construído com os mesmos materiais, lá se encontravam umas quantas colmeias que apesar de velhas estavam em muito bom estado e sobretudo com muita população.

Foram as primeiras colónias activas que encontrei por estas paragens. O fluxo de abelhas carregadas de pólen devia-se decerto à baixa altitude a que hoje nos encontrávamos, pois nos dias anteriores e em alta montanha não se via qualquer movimento.
Nova tentativa para conhecer outro apicultor e com ele trocar dois dedos de conversa, mas como já vai sendo hábito: encontrava-se ausente. “Pode ir ver as colmeias e fotografar à vontade” assim me aconselhou a mesma vizinha que me informara da ausência do proprietário. Era o que eu queria ouvir para invadir o prado de trevo e me abeirar das colmeias.
Detive-me logo à entrada da pequena propriedade, onde uma torneira propositadamente aberta pingava para dentro de um alguidar e salpicava a erva onde dúzias de abelhas matavam a sede:

Logo à primeira vista se percebeu, pelas cores dos insectos, que nesta região o pool genético deve ser bastante rico, atendendo à quantidade de híbridos existentes. Decerto cruzamentos entre a abelha negra europeia com a ligustica e ou a carnica:

Junto ao apiário confirmei finalmente que a “criatividade” dos apicultores portugueses, que tantas vezes me diverte, é uma característica muito mais ubíqua do que eu imaginava. Tenho visto centenas de estratégias para protecção das abelhas contra as intempéries, para lá das colmeias, mas o que se me deparou a seguir foi mesmo inédito:
Apesar de estarmos num vale a baixa altitude, apesar do local e da exposição abrigados, apesar do telheiro de zinco… as colmeias embrulhadas em serapilheira. Fez-me lembrar as idosas na minha terra com os xailes às costas ou a cobrir a cabeça!

Fiquei tão absorto com tais “casacos” para as colmeias, que por pouco não levei uma daquelas ferradelas de boas vindas com que os nossos bichinhos tanto gostam de nos brindar…

De qualquer forma tratava-se de um óptimo apiário, muito bem cuidado, com as colmeias “abafadinhas” e em cima de estrados. Dava gosto ver e ouvir aquela multidão no característico vaivém carregadas de pólen.

Do lado oposto do apiário nova surpresa, desta vez nada de inédito, coisa que os meus compatriotas muito gostam de fazer: Colmeias no interior da casa com acesso ao exterior por uma abertura na parede.

Decerto que nesta região o Inverno seja mesmo muito rigoroso. Todas as protecções que visem isolar as colónias da intempérie se devem justificar a qualquer custo.
Abandonamos o local na ânsia de novas descobertas e estas não se fizeram rogadas. Logo ali muito perto encontrei outro apiário ao fundo de um prado, infelizmente não me pude aproximar o suficiente para lhe captar os pormenores.

Fica no entanto a ideia que a nossa legislação para o ordenamento apícola aqui perde todo o sentido. Pelo menos no que se refere à proximidade das habitações de terceiros.
E devo dizer muito mais: o orgulho notório e muito sentido que os vizinhos dos apicultores locais demonstram por estes. Apercebi-me disso não só com a mulher que me informou da ausência daquele apicultor, como no vizinho do apicultor de Jarrier ou na queijaria onde procurei informações e em muitos outros locais.
As pessoas aqui quase que veneram os “abelheiros” e falam deles com um carinho como se se tratassem de figuras imprescindíveis na sociedade, que o são de facto, mas é tão raro ver-se tal reconhecimento…
Detesto viajar com aquele sentimento de regressar um dia com uma listagem de aspectos em que os outros são melhores que portugueses, nunca o faço, mas marcou-me toda aquela “atmosfera” em volta dos apicultores e das abelhas.
Nesse momento ocorreu-me uma famosa cresta em que fiz a extracção na casa dos meus pais e me esqueci de isolar a divisão onde armazenei as alças…
Nessa tarde e apesar de ser a primeira vez que via os meus vizinhos nesse dia quase que não houve feed back aos meus cumprimentos. E nada o justificava pois alguns andavam com um olho ou com a face inchadas, outros um braço ou uma mão, mas todos apresentavam as orelhas intactas…
Mais à frente e em plena povoação, uma colmeia espreitava alegremente empoleirada numa varanda. Pena que não tivesse abelhas, ou pelo menos não as vi entrar ou sair:

De novo no campo e outra modalidade de apiário (no primeiro andar) nos maravilhava à nossa passagem. Mais uma vez só tive acesso ao vizinho que com um sorriso de orelha a orelha se me desculpava que o apicultor até estava em casa, mas desta vez eram as abelhas as ausentes…

Apesar da ausência das abelhas, os serviços de polinização estavam garantidos:

Para terminar a estadia em Argentine, uma visita ao Musée du Félicien, onde um idoso virtual nos mostra os rigores da vida na Sabóia francesa ao longo das estações e na primeira metade do século passado. Apesar de não ouvir qualquer referência à apicultura tradicional da região (ou a minha acuidade auditiva para o francês me prega destas partidas) valeu bem a pena. Foi muito curioso poder comparar tais tradições com a cultura portuguesa desses tempos.

Um agradecimento especial à responsável pelo Museu do Félicien pela simpatia e por nos ter marcado o encontro com um apicultor profissional ainda para essa tarde.

12 abril, 2010

Apicultura Tradicional nos Alpes Franceses ( II )

Segundo dia da “expedição” nos Alpes Franceses.
Resolvi madrugar neste dia, depois de uma série de voltas pela montanha, vários apiários visitados, centenas de fotografias tiradas, faltava agora um “encontro imediato de 3º grau”: a conversa com um apicultor alpino…

Nada me é mais fácil (e agradável) do que conversar seja com quem for, principalmente com quem partilhe os mesmos “vícios” que eu. No entanto, por mais que eu já tivesse deambulado pelos campos à procura de um apicultor, nunca encontrei nenhum nos apiários, que acabei por fotografar impunemente e à revelia dos proprietários.

Podia bater a uma porta e… vamos falar de abelhas? Eu não sei como reagiria se me batessem à porta e ouvisse um “Hello! Let's talk about beekeeping???“ decerto que reagia da melhor forma, aliás… como acabaram por reagir comigo. Apesar da tremenda simpatia das pessoas, não se encontrava ninguém nos caminhos rurais nem nas ruas, acabei por sentir alguma inibição para incomodar fosse quem fosse.

Resolvemos “mudar de freguesia” e encaminhamo-nos para Jarrier, outra povoação nas redondezas. Entrei numa queijaria tradicional, no campo, e perguntei onde poderia comprar mel. Informaram-me que nesta fase os produtores locais já teriam vendido toda a produção, teria de esperar pela próxima campanha. Agradou-me a proposta, mas tinha imenso para fazer onde vivo e por outro lado fora-se o principal argumento para falar com um apicultor… a compra de umas embalagens de mel.
Também fiquei satisfeito por saber que aquela rapaziada não tinha grandes problemas em escoar a produção…
Nesta povoação, a menor altitude, começaram a abundar os prados com extensas áreas verdes cobertas de trevo. Foi precisamente numa destas pastagens que encontramos o primeiro apiário “a céu aberto”, pois não tinha a característica protecção em madeira e metal:

Tratava-se de um curioso apiário, com apenas cinco colmeias em muito bom estado, numeradas e da mesma cor. Valeu também pela excelente vista do vale lá em baixo.
Logo encontramos outro apiário, mais tradicional, no entanto sem colmeias. Além da bonita construção de madeira só subsistiu a placa com o número de apicultor…
Senti-me mais confortável ao pensar que as abelhas deviam andar na transumância, e quase decerto que assim era.

Mais à frente, mais acima e já na povoação, um pequeno apiário junto a uma casa. Ainda por cima se viam indícios de uma serração familiar onde decerto o proprietário construía as próprias colmeias.
Já tinha alguém a “quem dar conversa”, desta vez ia mesmo falar com um apicultor francês. Foi assim que conhecemos a simpática família Berard, de Jarrier, ambos apicultores amadores, que nos convidaram a entrar.

Com uns copos do habitual “aperitif français”, a conversa sobre “o nosso assunto” foi fluindo sobre todos os aspectos do sector apícola e não foi necessário muito para mais uma vez confirmarmos que a globalização ainda é o que era… e veio para ficar…
E tal como nós, tal como o espanhol que conheci no Cabo Finisterra, tal como em todo o mundo, a Varroa, o Klartan, o Acadrex e tantas outras pérolas que cada vez mais nos enriquecem o vocabulário fazem parte da vida apícola geral. Por acaso até tratavam com produtos homologados, mas os outros também se arranjam e a eficácia é a que nós conhecemos.
Também tiveram sérias perdas com o SDC, e na altura da minha visita preparavam-se para encher uns alimentadores com xarope para as colmeias que tinham junto à residência.
Trabalham essencialmente com a abelha negra europeia e com a caucasiana, se bem que a italiana também abunda por aquelas paragens. Não têm mais de 20 colmeias, como a grande maioria dos apicultores da região e fazem parte de uma Federação/Sindicato de Apicultores, “Le Rucher des Allobroges – Syndicat d’ Apiculture de la Savoie” Fundada em Albertville em 1893. Da qual me ofereceram uma revista de periodicidade trimestral, que me pareceu excelente em conteúdos.

http://rucher-des-allobroges.com

Conversa puxa conversa e acabamos por provar o mel da sua produção. Dois lotes de locais distintos, ambos de Mel de Montanha, sinónimo do nosso Multifloral dada a não dominância de nenhuma floração a essa altitude (acima dos 1000 metros).
Ambas as amostras, se encontravam cristalizadas (o que nem sempre sucede, como nos contaram) mas com uma excelente cristalização e melhores ainda de sabor. Confirmou-nos que nesta fase todo o mel estava vendido nos produtores, principalmente o de montanha: o mel preferido dos consumidores, como nos disse um apicultor profissional dias depois.

As embalagens de mel, em plástico, com 0,5 e 1 kg, tinham a denominação de venda “Miel de Savoie”, eram disponibilizadas aos pequenos apicultores pela referida associação, detentora da marca e vendidas pelo apicultor a 10,00€/Kg. Ficou muito admirado quando lhe expliquei que vendia o meu mel de Lavandula selvagem (Rosmaninho) a 5,00€/Kg…
Voltando à “Le Rucher des Allobroges – Syndicat d’ Apiculture de la Savoie” soube que os associados pagavam uma quotização proporcional aos efectivos: 0,57€/colmeia/ano, mais… (agora a grande novidade): 0,65€/colmeia/ano para um seguro! Seguro esse que reembolsa o apicultor dos prejuízos em caso de destruição das colmeias/colónias pelo fogo, intempéries, estragos causados por animais, pesticidas, etc. Apenas a mortalidade por doença não está contemplada.
Ainda falamos sobre os apiários tradicionais onde o Sr. Berard me referiu que a protecção das colmeias era importante mas as colónias sobreviviam sem isso, prova era as colmeias que tinha lá fora. Ficou muito admirado com as duas ou três crestas que se podem fazer na minha região graças à transumância.
Despedimo-nos de Mr. e Mme. Berard e ainda demos a volta por Jarrier, onde encontramos mais um apiário no centro da vila, junto à Câmara Municipal:

Para despedida deste dia apícola, ainda passamos no “velho apiário aportuguesado” em Les Bottiéres para fotografar em pormenor duas colmeias, entre as quais a que me pareceu uma criadeira de rainhas:

Reparem no pormenor das dobradiças que prendem o tampo: será que estas colmeias não podem levar alças?

Apicultura Tradicional nos Alpes Franceses ( I )

Após uma viagem de perto de 2000km (só para lá) subi finalmente a montanha… ou melhor, comecei a subir, pois como achei que ia enganado no caminho resolvi encostar para me reorientar.
Não podia ter parado em melhor lugar pois a menos de três metros do carro deparei com a “comissão de boas vindas” sob a forma de um apiário tradicional com as respectivas colmeias. Tratava-se de uma construção de madeira, com chapas onduladas no telhado e um estrado onde assentavam as caixas do modelo Dadant.

A coisa prometia, pensei eu, desta vez não vou ter de procurar muito…
A segunda surpresa veio logo a seguir, quando eu pensava que já tinha subido demais para um ser vivo sem asas... ainda me faltavam cinco quilómetros encosta acima para chegar a Les Bottiéres, onde iria ficar.
Não foi o fim do mundo, mas quando as bermas da estrada se encontram desniveladas a pique uns 300 ou 400 metros, por vezes sem rails ou barreiras de protecção, fora a vista panorâmica do vale alguns quilómetros mais abaixo, já dá que pensar a um rapaz do Alentejo onde os desníveis raramente vão além dos dois ou três metros…
Mais cuidado quando escolher o próximo destino de férias…

Chegado então à aldeola de montanha, a confirmação que me encontrava numa região fortemente apícola, as colmeias faziam mesmo parte da paisagem: o Bar – Restaurante “Le Grenier”, não só tinha uma colmeia ornamental na fachada, como ainda usava os artigos apícolas como componentes principais da decoração interior:

Já na sala de jantar:

Chegamos finalmente a casa, descarregar as malas, duche quente e uma soneca numa “cama de verdade” para recuperar das vinte e tal horas de condução. Entretanto caiu um dos maiores nevões que já assisti, mesmo depois de me garantirem que nessa semana a queda de neve ser pouco provável…
Na manhã seguinte, além da neve que já cobria os picos e encostas mais altas, toda a paisagem estava branca, ainda assim resolvemos ir dar um passeio pelo campo nevado. Estávamos a 1350 m de altitude, e devemos ter subido acima dos 1500, não imaginava que nestas condições a atmosfera provocasse tal cansaço.
Depressa nos recompusemos quando num atalho encontramos um gigantesco apiário, com mais de 20 colmeias e núcleos, uma placa com o respectivo número de apicultor e uma enorme construção de madeira a proteger as colmeias.

Achei curioso o facto de quase todas as colmeias terem uma protecção de madeira sobre a entrada/saída das abelhas, algum costume daquela região:

Numa prateleira, sobre outras colmeias, encontravam-se três colmeias tradicionais em palha entrançada:

Pareceu-me um apiário “muito português”, pois sob o mesmo telheiro e na parte de trás das colmeias encontrava-se uma verdadeira oficina/armazém onde o apicultor devia proceder aos consertos e guardava vários materiais e equipamentos, pois encontravam-se aí vários armários e um frigorífico…
Outro dos aspectos que me chamou a atenção foi o facto de não só neste apiário como noutros que vi depois, a construção se encontrar imediatamente atrás de um grupo de árvores e respectivos rebentos, dando a sensação que tal barreira vegetal na frente das colmeias seria um estorvo ao voo das abelhas. Na volta, e dadas as condições climatéricas da região, talvez isto funcionasse como uma protecção ao temporal e aos ventos frios.
De facto, apesar do Sol brilhar nessa altura, não vi uma única abelha a entrar ou a sair.
Uma parte do grande apiário parecia destinada apenas à reprodução de colónias, uma vez que se encontravam nesse sítio alguns núcleos de pequenas dimensões, tal como algumas colmeias muito “avantajadas” com duas saídas independentes e talvez destinadas à criação de rainhas.

Infelizmente não cheguei a conhecer o respectivo “rucher”, uma vez que ele habitava longe dali.
Já no regresso a casa, e bem no meio da aldeia, encontramos um novo apiário muito semelhante ao anterior, mas que infelizmente estava desactivado. Tinha apenas duas ou três colmeias tombadas, mas as mesmas características de construção, tal como as respectivas árvores e rebentos a crescer na frente.

Para o primeiro dia não estava nada mal, só lamentei a dificuldade (impossibilidade?) de encontrar os apicultores, mas era mesmo difícil encontrar pessoas naqueles locais, apesar do aparente bom tempo.
Os apiários tradicionais desta zona da Sabóia francesa, têm quase todos um padrão arquitectónico semelhante e que se poderá resumir a um telhado quase sempre em chapa ondulada, uma parede de madeira na parte de trás, por vezes também com paredes de madeira laterais e as colmeias assentes sobre um estrado.
A grande disponibilidade de madeira, tal como o número de serrações e carpintarias familiares, associados ao clima rigoroso permitem e obrigam a este género de protecção das colmeias:

agora eu, e a abelha que a Luísa me ofereceu...