Vespa crabro conservada em álcool.
Outono de 2004, alguns dias depois do Congresso dos Açores e do susto com a “alegada” Aethinose no Alentejo, quando a almejada bonança que vem depois das tempestades era esperada, entra-me um apicultor pela porta dentro a queixar-se de um ataque de vespas às colmeias.
Situação bastante normal, no fim do verão estes ataques são frequentes, lá lhe dei a ensaboadela do costume: se a colmeia estivesse saudável, forte e bem povoada, as vespas não constituiriam problema, etc. etc. etc.
É então que ele me interrompe e coloca um frasco em cima de secretária com as ditas vespas conservadas em álcool. Bem, de vespas aquelas só tinham as cores e a forma, pois quanto ao tamanho não vos conto nada, eram mesmo “gigantes”.

Segundo o relato do apicultor, estes vespões esperavam as abelhas na tábua de voo da colmeia, agarravam-nas sem qualquer luta, dada a desproporção e carregavam-nas em voo para longe. Estes raptos decorriam com grande frequência, dado o vaivém de vespas junto às colmeias.
Mais tarde, outro apicultor da mesma localidade, Torre das Vargens – Ponte de Sor, telefona-me com um relato semelhante, viu abelhas a beberem água na margem de um regato, ouviu um voo ruidoso, surge a vespa gigante e desaparece com uma abelha. Logo surge outro vespão e captura uma vespa de tamanho normal que bebia junto às abelhas (nem estas se escapam...).
Este segundo apicultor encontrou o vespeiro das gigantes, alojado no tronco oco de um Choupo e via-as entrar e sair em grande quantidade, num fluxo tal que era equivalente “
a uma colmeia bem povoada em plena Primavera” segundo as palavras dele.

Contaram-me também que um indivíduo dessa localidade foi picado por uma vespa na cabeça, o ferrão perfurou através do chapéu e andou dois dias com dores.
Tendo ficado bastante intrigado com esta série de acontecimentos liguei para um amigo meu, apicultor no Algarve, que me confirmou a existência destes estranhos insectos também naquela região. Segundo ele, as Vespas Gigantes chegavam a capturar as abelhas em pleno voo, pousavam num arbusto decepavam-nas e posteriormente comiam-nas.
Segundo consegui saber mais tarde assim é, de facto, as vespas adultas alimentam-se do néctar transportado no estômago do mel das abelhas, e a parte muscular rica em proteínas é dada como alimento às larvas das vespas, estas sim carnívoras.
No entanto, durante muitos anos com a presença destas vespas, nunca tinha visto tantas e tantos ataques como no ano de 2004, segundo os relatos de diversos apicultores algarvios.
Já no início deste ano recebo uma chamada de um apicultor de Benavila – Avis a queixar-se de um alegado ataque de Vespas anormalmente grandes, que desalojaram as abelhas de um cortiço e aí instalaram o seu ninho.


A “coisa” prometia, pensei eu, deve vir aí uma bronca das grandes.
Resolvi ir visitar o apiário de Benavila para ver o dito vespeiro alojado no cortiço. Mas como era de esperar, em pleno Inverno as vespas coloniais não estão activas, nem sequer formam uma colónia. Durante o Outono morrem, sobrevivendo apenas as fêmeas fecundadas que se escondem em locais abrigados para no fim da Primavera iniciarem nova colónia cada uma.

No cortiço apenas restava o vespeiro, igual a todos os vespeiros das vespas “normais” só que cada alvéolo tinha aproximadamente um centímetro de diâmetro, cabia um dedo lá dentro.

Esta estrutura do tamanho de uma bola de futebol, era feita de “papel”, restos vegetais amassados (madeira podre) e encontrava-se em andares ou camadas interligadas por pilares feitos com a mesma substância. Estes “favos” tal como os das restantes vespas coloniais tinham alvéolos apenas numa das faces e com as aberturas viradas para baixo.

Já não havia qualquer vespa viva ou morta no cortiço.
Já tinha visto outro vespeiro igual a este encontrado por um apicultor da Cunheira – Alter do Chão há três ou quatro anos atrás.
Um amigo meu, a viver na Serra de Portalegre teve também um ninho com estas “simpatias” alojado no interior da casa, mais precisamente dentro da chaminé, quando o vespeiro foi destruído despertou-lhe a atenção o tamanho descomunal da rainha da colónia. Felizmente ninguém da casa foi picado, aparte um susto por outro.
Muitos apicultores, confrontados com a amostra de vespas em álcool alegaram desconhecer estes insectos, apesar de um por outro já as terem visto no passado, afirmando que eram bastante raras.

Ao que parece, o ano de 2004 pode ter reunido diversas condições que potenciaram um bom desenvolvimento e expansão desta espécie, o que não é de modo algum indicativo de que daqui para a frente estas se tornem mais uma praga para a apicultura e provoquem estragos notáveis.
No entanto, e em caso de ataques graves poderemos consultar qualquer “cartilha da apicultura” e montar o ataque:
A saber ...
Carne envenenada próxima das colmeias, mas dentro de uma gaiola onde possam passar as vespas e inacessível aos outros animais. As abelhas também cabem mas são “vegetarianas”. Tenham mesmo muito cuidado com este método, os EUA já têm invadido países por coisas menores...
Se não quiserem usar veneno sempre podem cortar uma garrafa plástica de refrigerante, a dois terços de altura, e encaixarem a parte afunilada com a boca para baixo sobre o “copo” ou seja sobre a base da garrafa. Coloca-se também um atractivo lá dentro, as vespas entram e já não saem.
Há semelhança de tantos outros animais menos queridos pelos apicultores, como os Abelharucos, Ratos, Lagartos, Texugos, Formigas e outros, a
Vespa crabro, terá decerto uma importância determinante no equilíbrio ambiental, esse assunto ainda tão obscuro para nós e cujas reacções às acções Humanas por vezes se fazem sentir da forma mais brutal e inesperada.
Importa pois estarmos atentos a tudo o que se passa no apiário e só então agir se tal se tornar necessário, ao invés de avançarmos já com as nossas costumeiras profilaxias exageradas com pesticidas e outros venenos do género, não vá o tiro sair-nos pela culatra.
Não devemos esquecer que as abelhas e os apicultores gozam de muito boa reputação como guardiões da Natureza e do ambiente, convém não perder de vista este sentimento, pelo que respeitar seres vivos que de alguma forma colidam com os nossos interesses ou das nossas explorações só reforçará essa fama que tanto nos tem evidenciado.

A título de curiosidade, esta vespa é alvo de grande admiração e protecção na Alemanha, chegando até a haver quem coloque ninhos artificiais (caixas de madeira) para lhe providenciar alojamentos.