12 abril, 2010

Apicultura Tradicional nos Alpes Franceses ( I )

Após uma viagem de perto de 2000km (só para lá) subi finalmente a montanha… ou melhor, comecei a subir, pois como achei que ia enganado no caminho resolvi encostar para me reorientar.
Não podia ter parado em melhor lugar pois a menos de três metros do carro deparei com a “comissão de boas vindas” sob a forma de um apiário tradicional com as respectivas colmeias. Tratava-se de uma construção de madeira, com chapas onduladas no telhado e um estrado onde assentavam as caixas do modelo Dadant.

A coisa prometia, pensei eu, desta vez não vou ter de procurar muito…
A segunda surpresa veio logo a seguir, quando eu pensava que já tinha subido demais para um ser vivo sem asas... ainda me faltavam cinco quilómetros encosta acima para chegar a Les Bottiéres, onde iria ficar.
Não foi o fim do mundo, mas quando as bermas da estrada se encontram desniveladas a pique uns 300 ou 400 metros, por vezes sem rails ou barreiras de protecção, fora a vista panorâmica do vale alguns quilómetros mais abaixo, já dá que pensar a um rapaz do Alentejo onde os desníveis raramente vão além dos dois ou três metros…
Mais cuidado quando escolher o próximo destino de férias…

Chegado então à aldeola de montanha, a confirmação que me encontrava numa região fortemente apícola, as colmeias faziam mesmo parte da paisagem: o Bar – Restaurante “Le Grenier”, não só tinha uma colmeia ornamental na fachada, como ainda usava os artigos apícolas como componentes principais da decoração interior:

Já na sala de jantar:

Chegamos finalmente a casa, descarregar as malas, duche quente e uma soneca numa “cama de verdade” para recuperar das vinte e tal horas de condução. Entretanto caiu um dos maiores nevões que já assisti, mesmo depois de me garantirem que nessa semana a queda de neve ser pouco provável…
Na manhã seguinte, além da neve que já cobria os picos e encostas mais altas, toda a paisagem estava branca, ainda assim resolvemos ir dar um passeio pelo campo nevado. Estávamos a 1350 m de altitude, e devemos ter subido acima dos 1500, não imaginava que nestas condições a atmosfera provocasse tal cansaço.
Depressa nos recompusemos quando num atalho encontramos um gigantesco apiário, com mais de 20 colmeias e núcleos, uma placa com o respectivo número de apicultor e uma enorme construção de madeira a proteger as colmeias.

Achei curioso o facto de quase todas as colmeias terem uma protecção de madeira sobre a entrada/saída das abelhas, algum costume daquela região:

Numa prateleira, sobre outras colmeias, encontravam-se três colmeias tradicionais em palha entrançada:

Pareceu-me um apiário “muito português”, pois sob o mesmo telheiro e na parte de trás das colmeias encontrava-se uma verdadeira oficina/armazém onde o apicultor devia proceder aos consertos e guardava vários materiais e equipamentos, pois encontravam-se aí vários armários e um frigorífico…
Outro dos aspectos que me chamou a atenção foi o facto de não só neste apiário como noutros que vi depois, a construção se encontrar imediatamente atrás de um grupo de árvores e respectivos rebentos, dando a sensação que tal barreira vegetal na frente das colmeias seria um estorvo ao voo das abelhas. Na volta, e dadas as condições climatéricas da região, talvez isto funcionasse como uma protecção ao temporal e aos ventos frios.
De facto, apesar do Sol brilhar nessa altura, não vi uma única abelha a entrar ou a sair.
Uma parte do grande apiário parecia destinada apenas à reprodução de colónias, uma vez que se encontravam nesse sítio alguns núcleos de pequenas dimensões, tal como algumas colmeias muito “avantajadas” com duas saídas independentes e talvez destinadas à criação de rainhas.

Infelizmente não cheguei a conhecer o respectivo “rucher”, uma vez que ele habitava longe dali.
Já no regresso a casa, e bem no meio da aldeia, encontramos um novo apiário muito semelhante ao anterior, mas que infelizmente estava desactivado. Tinha apenas duas ou três colmeias tombadas, mas as mesmas características de construção, tal como as respectivas árvores e rebentos a crescer na frente.

Para o primeiro dia não estava nada mal, só lamentei a dificuldade (impossibilidade?) de encontrar os apicultores, mas era mesmo difícil encontrar pessoas naqueles locais, apesar do aparente bom tempo.
Os apiários tradicionais desta zona da Sabóia francesa, têm quase todos um padrão arquitectónico semelhante e que se poderá resumir a um telhado quase sempre em chapa ondulada, uma parede de madeira na parte de trás, por vezes também com paredes de madeira laterais e as colmeias assentes sobre um estrado.
A grande disponibilidade de madeira, tal como o número de serrações e carpintarias familiares, associados ao clima rigoroso permitem e obrigam a este género de protecção das colmeias:

agora eu, e a abelha que a Luísa me ofereceu...

09 abril, 2010

United Colors of ... Apicultura!!!

Até que enfim, alguém se atreveu a construir um dos engenhosos modelos de nucléolo, aconselhados pelo Vicente Furtado, o autor foi o amigo Octávio Rodrigues que também enviou as fotos.

A construção, os pormenores, as cores, parecem estar perfeitos. Vamos agora aguardar pelos resultados onde eu aposto decerto numa eficácia EXCELENTE!!!
Os alimentadores reciclados para o efeito e cujas dimensões se adaptam aos nucléolos:

Os quadros articulados que permitem uma boa transição entre os referidos nucléolos e uma colmeia normal, onde os podemos colocar para as abelhas puxarem a cera e até povoar com criação...

Resta desejarmos ao Octávio muitos parabéns pelo excelente trabalho, e... quase que garanto que vão haver encomendas de nucléolos destes...

04 abril, 2010

MONTEDOMEL ... de Férias (?)

Depois de dez dias e 5300 km a calcorrear estradas, caminhos e encostas geladas, e alguns sustos à mistura, pela França, Itália e Suiça, em busca das abelhas e dos apicultores alpinos, o montedomel está de volta.
Não serão assuntos escaldantes, pois com aquelas temperaturas...,
mas em breve sairão uma série de notícias curiosas sobre uma forma diferente de estar na apicultura, pelo menos eu gostei bastante!!!
Mas por hoje, e amanhã... preciso de dormir... muitoooo...

20 março, 2010

Seminário Biodiversidade: Moita: 11 de Março 2010

Números referentes à apicultura nacional que de alguma forma demonstram o potencial produtivo e económico deste sector.

Outros produtos da colmeia cujo valor acrescentam mais-valias à economia apícola.

A importância “social” da apicultura, na medida em que rivaliza de uma forma saudável com a manutenção de idosos e reformados em Centros de Dia ou simplesmente inactivos.
Este aspecto é particularmente sentido nas zonas rurais, sobretudo quando se associa a prática da apicultura com as pequenas hortas familiares e criação de gado.
6
Frase enigmática proferida por A. Einstein que procura demonstrar a importância da apicultura, nomeadamente da polinização levada a cabo pelas abelhas, no equilíbrio dos sistemas naturais.
Apesar de tudo apontar para isso, nada sabemos acerca da sua veracidade, e oxalá que nunca o venhamos a saber…

Classificações das plantas relativamente à forma como são polinizadas. Tal classificação reflecte uma co-evolução entre plantas e mamíferos, aves ou insectos.
Na Natureza a maioria das plantas são polinizadas por insectos, o que mais uma vez demonstra a necessidade das abelhas na manutenção do coberto vegetal.

A polinização das plantas: os componentes de flor (estruturas sexuais masculinas e femininas).

Polinização da flor de laranjeira: Abelha a sugar o néctar disponibilizado nos nectários e estrutura sexual feminina (carpelo: ovário) já fecundada e evoluindo para o fruto.
Tanto o pólen como o néctar das plantas zoófilas normalmente são muito nutritivos, servindo para atrair os insectos (neste caso) e funcionando também como moeda de troca para o serviço da polinização.
Podemos comparar a natureza a uma aula de economia, na medida em que a planta investe em nutrientes nos nectários e nos grãos de pólen para garantir a sua reprodução.

Processo da fecundação dos óvulos:
A – Auto polinização, pouco desejável, normalmente os vegetais têm forma de a evitar inibindo a germinação do tubo polínico.
B – Polinização com grãos de pólen de outra espécie, não são reconhecidos e acabam por não germinar. Caso o fizessem originariam híbridos, situação pouco comum na Natureza.
C – Polinização cruzada, a ideal, grãos de pólen da mesma espécie para fecundarem os óvulos de outro indivíduo.

Reconhecimento do grão de pólen, emissão do tubo polínico e a dupla fecundação do óvulo: originando o embrião e o endosperma.

Semente = embrião (estrutura cuja germinação origina a nova planta) + endosperma (substância de reserva necessária ao crescimento do embrião até a nova planta ser auto-suficiente, ou seja, ter folhas verdes, fotossintéticas).
Formação do Fruto: Só após a formação da semente, a planta “investe” na formação do fruto, cuja função é a de disseminar as sementes para longe da planta mãe.
Novos exemplos da “economia natural”: as plantas só investem nas reservas da semente (endosperma) quando se forma o embrião, e só investem no fruto após a formação da semente. Caso contrário não haveria qualquer interesse em mobilizar reservas de açúcar para formar o fruto, se não houvessem sementes para disseminar.
Facto que clarifica bastante a importância da apicultura na economia agrícola, nomeadamente com os incrementos na produção de frutos, hortícolas e sementes:

Vantagens das abelhas na Polinização:
Fidelidade à Espécie Vegetal: Quando uma abelha batedora comunica às outras abelhas a descoberta de determinada fonte de néctar/pólen, durante a dança em “oito” distribui “amostras” de néctar/pólen às restantes abelhas, que ao saírem da colmeia buscam preferencialmente a vegetação com essas características e no local “combinado”…
Grande Densidade de Insectos: Com a alteração da capacidade de suporte do meio promovida pelo apicultor com o maneio apícola:

Paisagem apícola, com vários hectares e quatro apiários.

Possíveis interacções (de voo) entre as várias comunidades de abelhas (apiários).
Representação de quatro limites teóricos:
5 km - Limite biológico (teórico) para o voo das abelhas. Distância que as abelhas podem percorrer para colectarem alimentos (se não houver disponíveis mais próximos) de forma que a colónia possa sobreviver.
Esta situação, economicamente, é pouco interessante na medida em que as colónias (apesar de sobreviverem) não conseguem fazer reservas que possam ser crestadas pelo apicultor.
É da responsabilidade do apicultor não fazer assentamentos de colmeias em zonas com tão pouca densidade de flora apícola, ou então não praticar encabeçamentos tão elevados que obriguem à exploração de zonas muito afastadas do apiário.
2 km – Limite a partir do qual (para valores inferiores) além da sobrevivência da colónia, as abelhas conseguem armazenar excedentes. Sendo considerado interessante economicamente.
1 km – Limite de voo desejável para a colecta de mel e pólen, na medida em que permite grandes armazenamentos de reservas = grandes produções.

Estimativa da densidade de insectos numa área circular de cinco quilómetros de raio (Limite biológico (teórico) para o voo das abelhas) assumindo um apiário com 20 colmeias e cerca de 80.000 insectos/colmeia.

Estimativa da densidade de insectos numa área circular de dois quilómetros de raio (Limite sustentável) assumindo um apiário com 20 colmeias e cerca de 80.000 insectos/colmeia.

Estimativa da densidade de insectos numa área circular de um quilómetro de raio (Limite desejável) assumindo um apiário com 20 colmeias e cerca de 80.000 insectos/colmeia.

Números referentes a outro “produto da colmeia”: os serviços de polinização pagos por colmeia:

Mais um “argumento ambiental” de peso para o sector apícola: a abelha como base da alimentação de uma espécie protegida: o abelharuco, cuja presença em grandes bandos por vezes causa danos nas colmeias, principalmente quando ataca as rainhas no voo nupcial.

A Varroose, como um dos mais sérios problemas do sector apícola na actualidade.
Desde meados da década de 1980, quando o ácaro Varroa jacobsoni (hoje Varroa destructor) entrou em Portugal que o controlo desta doença tem tido um tremendo impacto negativo no sector: seja pelas baixas nos efectivos, como pelos custos dos medicamentos, como ainda pelos riscos de resíduos no mel.
Com o surgimento desta moléstia as abelhas ficaram totalmente dependentes do ser humano, uma vez que a ausência de tratamentos leva ao colapso da colónia em menos de um ano.
Aplicando a lógica a esta afirmação e à de A. Einstein, podemos concluir que o ser Humano está muito dependente de si próprio, conclusão que decerto não abonará muito a nosso favor…

A importação de méis do Sudoeste Asiático, nomeadamente da China, continua na ordem do dia. Tal prática penaliza muito a apicultura nacional na medida em que os méis chegam a Portugal a preços inferiores aos nossos custos de produção. Com a agravante de exigirem aos apicultores portugueses pesados investimentos nas melarias.
Fica a dúvida: se por um lado os legisladores demonstram tantas preocupações com a qualidade que chega aos consumidores (situação muito positiva), porque razão permitem a entrada de méis oriundos de países onde tal controlo não se verifica?
O Síndroma do Despovoamento de Colmeias (SDC) ou Colony Collapse Disorder (CCD) como um dos mais actuais e principais problemas do sector apícola, sobre o qual muito se escreve e pouco se sabe…

Algumas das causas apontadas para o SDC…

Curioso cartoon, retirado da net, que pretende demonstrar a confusão em torno do SDC…

A apicultura no Modo de Produção Biológico, como uma das alternativas mais saudáveis para o sector apícola. No entanto, se não se resolverem as situações previstas nos dois acetatos seguintes (entre outras) poderemos ver abortadas todas as esperanças depositadas nesta prática…

14 março, 2010

Colmeias Diferentes - 16


Uma revolução na arte de pintar colmeias...