08 agosto, 2009

A Grande Colheita

Em resposta ao pedido que fiz em 18/07/2009, o nosso amigo e já bem conhecido Kalhil Pereira França, resolveu contribuir com mais um fantástico relato sobre a sua “apicultura” de abelhas sem ferrão, nomeadamente numa descrição muito humana sobre o dia da cresta.
O sentimento patente nesta reportagem consegue angariar mais novos apicultores/meliponicultores do que um tratado cientifico sobre o assunto, vão por mim e desfrutem esta “estadia virtual” num dos locais mais bonitos do mundo...


A Grande Colheita
Eram 05:00h quando já estávamos todos de pé, arrumada as malas no carro nos dirigirmos, ainda no alvorecer da manhã, em direção a Taboleiro Grande - RN. Hoje era o dia tão esperado da grande colheita, há dias vinha adiando por causa das chuvas a colheita do mel do Meliponário rural.
Mas passada o tempo das grandes enchentes, foi só o tempo melhorar para ver a florada ressurgir no Sertão, há flores por todos os lados, mesmo as colônias do Meliponário urbano, onde em tese a florada é menor, estão com excelentes reservas de pólen e mel.
Pisamos fundo e encaramos a BR que liga Mossoró a Taboleiro Grande, devido ao tempo ruim dos últimos meses, a estrada não ajuda e temos que dirigir com cuidado devido à presença de muitos buracos, depois de duas longas horas de viagem chegamos ao lugar de nossas raízes.

Primeira parada foi casa da tia Júlia para tomarmos aquele café reforçado à base de muito cuscuz, café com leite, ovos, coalhada e o famoso queijo do sertão, tudo fresquinho, como só a Dona Júlia sabe fazer.

Todo mundo de barriga cheia partimos a pé, pois a estrada ainda não passa carro, até a zona rural da pequena cidade, Taboleiro Grande só tem de grande o nome, é terra de gente humilde, trabalhadora e acima de tudo guerreira, viver aqui é ver o tempo passar devagar, sem presa, sem destempero e agonia.

A tranqüilidade é tamanha que os populares não usam trancar suas portas, carros e motos dormem na rua, pois todos sabem que não haverá ladrões a roubarem. No mais, segundo me contam os únicos dois policiais da cidade, uma galinha vez por outro desaparece misteriosamente do galinheiro de alguém ou mesmo é preciso levar algum bêbado mais afobado para casa.

Percorremos a estradinha e atestamos a beleza da florada, tudo flora, desde o Mandacaru até a Jurema, o mata pasto está coberto de flor, do mesmo modo que a cabeça de galo, até as plantinhas mais miúdas explodem de vida e beleza, no sertão é assim, quando chove tudo floresce, ressurge, renasce... A vegetação parece saber que ela só tem aquele momento para se multiplicar, florar, alimentar aqueles que têm fome.


O colibri canta, passeia de galho em galho sobre grandes pés de Juazeiro, as borboletas perambulam entre os estames das flores, o João de barro se apressa a montar a sua casa, ele como nós sabe que é tempo de fartura, tempo de namorar, casar e perpetuar a espécie. Como é belo o Sertão, sempre faceiro aos nossos olhos, pena não percebermos quase sempre.

No caminho o cheiro gostoso da mata verde penetra nosso peito, a cada passo o cheiro muda de acordo com planta que flora, o mais intenso é o pé de mufumbo. Quanto mais andamos mais sinto perto a presença Deus junto a nós, na correria diária da cidade grande muita vezes esquecemos que ele está presente em cada flor dessas, em cada paisagem que vemos, em cada animal que passei pelos campos e principalmente, dentro de nós mesmos.

Atravessarmos mais uma vez o Rio Apodi que corta a propriedade e vamos ao longe vendo aquela casinha no alto do morro, mesmo longe conseguimos ver o casal de velhinhos em pé a nos esperar, acenamos com os braços e eles repetem o gesto, acalentam o coração, mesmo ainda distantes, pareço sentir o cheirinho dos cabelos brancos daqueles velhinhos.

Após superar a última ladeira e o último chechero de pedras, vejo meus avôs com o sorriso que mais parece não caber na boca. Aquele abraço forte, demorado, sinto o tempo parar nesse instante de alegria e alvoroço, meu coração mal cabe no peito de tanta alegria, quem vê assim pode pensar que faz uns 10 anos que não os via, mas só fazia duas semanas, rsrs. Temos o dever de conviver com os nossos velhos, temos que aproveitar ao máximo todos esses momentos, pois eles não voltam nunca mais, de resto, nos ficarão as lembranças dos bons momentos juntos, momentos esses inesquecíveis.

Passado o calor inicial da recepção, vamos aos apertos: - Você cabra, esqueceu de amarrar os cortiços que abriu semana retrasada viu, quase que caíram!!!! – Eu sei vovô, eu sei...Me desculpa....rsrsrsrsrs.

Depois de levar os puxões de orelha merecidos, fui tomar caldo de cana com limão moído na hora, depois de tanto caminhar esse caldo caiu do céu, pois a sede era imensa.

Botamos o papo em dia: A vaca pariu; os pintinhos de sua avó nasceram; duas Jandaíras enxamearam; os limoeiros estão carregados; o jumento fugiu e pra terminar, a raposa comeu dois patinhos novos de seu tio Wilson, tem papo melhor que esse!!! Não tem mesmo!!!

Às 9:30h inicio a arrumação da sala de colheita, separo o material, sugador, facas, garfos, garrafinhas, máscaras e luvas cirúrgicas, tudo limpinho e esterilizado para garantir a qualidade do mel, a higiene é importantíssimo para garantir a vida útil (e comercial) do mel, se colhido de outra maneira, facilmente se contamina e não pode ser estocado.

Começo a abrir as colônias selecionadas e aos poucos vou colhendo com ajuda de muitos olhares curiosos (e gulosos), todos estão a esperar pela minha autorização para roubarem alguma garrafinha de mel Jandaíra para saborearem. No início não deixo ninguém mexer, principalmente pela agonia de tentar terminar o mais rápido possível, pois no decorrer do trabalho as abelhas vão ficando irritadas e cada vez mais estressadas, mas depois vou autorizando alguns furtos.
É festa no Sertão, cada caixa que abro vem àquela pergunta de sempre: Essa ta gorda??? Está gente, essa também ta cheia de mel.

O mais difícil não é colher, é tentar enganar as abelhas campeiras colocando uma caixa vazia no lugar de sua casa para poder colher o mel. A cada troca levamos aquela surra, e que surra, quem pensa que toda essa operação não dá trabalho se engana, as Jandaíras não tem ferrão, mas em compensação tem uma força na mandíbula que cada mordida mais parece um alicate de unha beliscando. O ajudante se lascou, rsrsrsrs...

Terminado o trabalho o mel é separado na geladeira para decantar, devido à coleta ser com um sugador, o mel fica cheio de espuma e é preciso que ele descanse para que só depois a gente engarrafe.
Após o almoço e uma bela soneca na rede arrumamos tudo de novo e pegamos a estradinha de volta, do mesmo modo da chegada, recebo aqueles abraços carinhosos e me despeço prometendo não demorar.

Ao descer a ladeira da Casa Grande olho para trás e os vejo em pé, acenando juntamente com o resto da grande família, tios, primos, noras, genros, agregados etc. O coração aperta, mas tenho que partir, mais vez a cidade grande me espera, pois amanhã é segunda-feira e começa tudo de novo. Trabalho, trabalho e mais trabalho...

Já na saída, paro para apreciar a vista da entrada de Taboleiro Grande, no fundo a Serra da cidade de Porta Alegre que a noite podemos ver as luzes em cima, parece proteger a pequena cidade de Taboleiro Grande. Mesmo cansado, ainda deu tempo para registrar esse belo fim de tarde no meu Sertão do Rio Grande do Norte

Mossoró-RN-Brasil, 26 de julho de 2009.

Kalhil Pereira França
Meliponário do Sertão
www.meliponariodosertao.blogspot.com

05 agosto, 2009

Montedomel CAFÉ

Estreia em breve e você está convidado !!!
...o que é que ele inventou desta vez ???

02 agosto, 2009

Mel de Melada de Azinheira

Já andava com esta “fisgada” há muitos meses, anos até...
Levantar-me muito cedo, máquina fotográfica a tiracolo, e “espiar” as abelhas na colecta da melada de Azinheira.
Como é sabido, a melada que se acumula sobre as folhas e ramos da Azinheira tem uma grande concentração de açúcares, em detrimento da humidade, até porque ocorre durante os meses mais quentes: Julho e Agosto. Para o efeito esperei por uma manhã húmida e com algum nevoeiro, que liquefizesse os ditos açúcares sobre a folhagem de modo a atrair as abelhas.

Esta substância só pode ser recolhida nestas condições, pelo que a partir das 08:00 horas da manhã é já demasiado tarde.
Não foi preciso andar muito para encontrar uma Azinheira a “transbordar” de melada: mesmo atrás da minha garagem. Não eram muitas as abelhas que por lá andavam, menos de meia dúzia de cada vez, a árvore é ainda muito pequena: cerca de três metros de altura por outros tantos no diâmetro da copa.
Ainda assim eram bem visíveis as gotas da dita substância sobre folhas, raminhos e bolotas. O primeiro impulso foi procurar as colónias de ácaros responsáveis pela melada.

Vi, revi, olhei, virei ramos e folhas, mas nada de Afídeos, nem um só que posasse frente à objectiva. De qualquer forma já sabia que nem toda a melada da Azinheira era produzida por tais insectos. Sempre ouvi dizer aos mais idosos que tais secreções muitas vezes se devem ao excesso de “viço” da planta, eventualmente por qualquer fenómeno fisiológico. Nestas circunstâncias vêem-se quase sempre bolotas verdes rebentadas ou destacadas da cápsula, por onde escorrem os ditos açúcares.
Para ter a certeza que se tratava de melada ainda passei a língua por uma folha, onde se tinha acumulado boa quantidade desse líquido: era mesmo doce e até gelatinoso.
Não consegui foi perceber por que razão as abelhas evitavam os locais onde a melada se acumulava em maior quantidade, entretendo-se antes a libar as folhas ligeiramente manchadas.

Por outro lado, não deixou de ser curioso ver a quantidade de outras espécies de insectos que se encontravam neste “Ecossistema” para aproveitarem o “maná” doce e abundante oferecido pela Natureza:

Repare-se nesta imagem o aspecto “esbranquiçado” dos açúcares, o que indiciará decerto o baixo grau de humidade que os caracteriza.

Os predadores também foram convidados: esta vespa terá “almoçado” a sua dose de açúcares na melada e tratou de levar um lanche para as larvas...

Este “post” valeu sobretudo pelas imagens, algumas até novidade para mim que vivo nesta região, mas de facto esperava desvendar muitas mais coisas acerca desta importante fonte de mel que são os Montados de Azinho.
A melada não ocorre todos os anos, é necessária a conjugação de diversos factores para que a sua produção se dê. Lembro-me de um ano em que foi tão abundante, e eu tinha um apiário sob a copa de uma destas árvores, que o tampo de algumas colmeias escorria açúcares. Cheguei até a ponderar destapá-las de forma a que a melada caísse directamente lá dentro...
Acerca desse fenómeno, também me surpreendeu a razão porque não havia qualquer abelha sobre os tampos a recolher tamanha abundância de néctares que acabaram por secar.

Já depois do "fecho da edição", percebi que a "hora da melada" não é só na alvorada, pois às sete da tarde as abelhas e outros insectos continuam a banquetear-se com estes açúcares gratuitos.
Por outro lado, as minha preocupações acerca da "indiferença" das abelhas para com os locais onde se libertava mais melada (bolotas e respectivas cápsulas) também se dissipou, pois noutra manhã encontrei-as cheias de abelhas a beber:

01 agosto, 2009

Até que a Varroa os separe...

Os chineses Li Wenhua e Yan Hongxia, criadores de abelhas há mais de 25 anos no norte do país, resolveram casar-se cobertos por uma densa camada desses insectos.
A ideia de convidar as "velhas amigas" surgiu quando o chinês pediu a mão de Yan em casamento.

No dia da cerimónia, o casal atraiu o grupo de insectos usando abelhas
rainhas como iscas. E, apesar de muitos dos convidados terem preferido
manter distância, Li e Yan parecem ter-se sentido confortáveis com a
"vestimenta". "Foi emocionante ter um enxame movendo-se sobre nós. Eu sempre
amei abelhas, mas foi uma experiência totalmente nova", diz a noiva, feliz.
É, de fato, há gosto para tudo

Enviado do Brasil pelo amigo Carlos Correa