12 maio, 2010

Moldagem Manual de Cera... faça você mesmo

Faça você mesmo… ora aí está uma expressão cada vez mais em desuso.
No entanto devem recordar-se que nas décadas de 1970 e 1980 era muito comum, com a moda do “bricolage” dizia-se e escrevia-se por “dá cá aquela palha”…

De há uns anos a esta parte se caímos na idiotice de perguntar a alguém um inocente “Então ?! o que é que fazes ??” Levamos logo com um suspeito “Não faço nada, compro tudo feito…”
Relíquias da Revolução Industrial…
Desta vez o amigo António Sérgio ofereceu-nos uma excelente foto - reportagem sobre a manufactura da cera moldada. Pouco habitual no nosso dia a dia, mas que poderá ser uma forma económica de conseguir cera moldada e com isso passarmos a substituir mais amiúde os quadros velhos.

Primeira Parte:
Vamos recordar todas as “fontes” de cera que devemos aproveitar para reciclar e com ela obter novas lâminas de cera moldada.
Os quadros com cera velha, favos retirados de colmeias, cera de opérculos, etc… Recorda-me um tempo em que eu próprio, andando mais dedicado à economia apícola, chegava a guardar num saco os alvéolos reais que obtinha nas sessões de controlo de enxameação. Essa cera ia também para o cerificador…

Não esqueçamos que a cera é mesmo muito cara e um pouco mais de trabalho no seu aproveitamento reflectir-se-á decerto no custo final.
Mais uma dica: é aconselhável separar as ceras dos opérculos da restante cera dos quadros do ninho ou ceras velhas. A cera de opérculos, mais limpa e de cor esbranquiçada poderá destinar-se exclusivamente ao fabrico de lâminas de cera moldada para as alças.

Claro que isto só faz sentido para grandes produtores (com muita cera de opérculos) ou ao nível associativo se todos os apicultores juntarem a dita cera.

Segunda Parte:
Esta é mesmo para acabar com a paciência... raspar quadros, esticar ou colocar arames e repor lâminas de cera moldada. Mas não é isto que nos trás cá hoje.

Terceira Parte:
Fundir a cera. São inúmeros os métodos e alternativas que temos para resolver esta etapa. A utilização de um depósito de metal aquecido ao lume com água e cera no interior é um método barato, se houver disponibilidade de lenha.

Quase sempre, quem procede desta forma tem o inconveniente de a cera em fusão se encontrar misturada com a água, o que não se verifica neste caso onde ambas as substâncias estão separadas, tornando o processo contínuo.

O Cerificador Solar é de longe o meu método preferido, muito barato (o mais barato) e permite também a obtenção da cera sem misturas. Além do argumento “preço” ainda vale pelo facto de evitar qualquer forma de combustão com todos os riscos que a mesma acarreta.

Outro ainda: o facto de não necessitar da presença do operador a controlar o processo.
O Cerificador a Gás, o mais rápido mas também o mais caro e perigoso?

Quarta Parte
Filtragem da cera fundida. Pormenor muito importante que aplicado correctamente (com uma malha fina) resulta na obtenção de ceras muito mais limpas e claras.

Finalmente: a obtenção de blocos (bolos) de cera:
Estes normalmente são trocados por lâminas de cera moldada, nos centros de recolha e ou moldagem. Neste caso vamos “nós” transformá-los nas ditas lâminas…

Quinta Parte
Começam aqui as novidades, pois habitualmente “despedimo-nos” da cera no ponto anterior.
Refundir a cera, em menores quantidades, e colocá-la em moldes especiais para a obtenção de lâminas de cera lisa. Tais moldes podem ser confeccionados em madeira ou utilizar tampas inutilizadas (em esmalte) dos fogões.

As lâminas são cortadas para se manusearem melhor após uns segundos na água quente e logo de seguida quando vão para os rolos, pois se elas se usassem no tamanho que saem ao sair das tampas de fogão era quase impossível trabalha-las sem problemas.

Agora uma forma diferente de obter as ditas lâminas lisas: utilizando para o efeito uma placa de vidro, com as dimensões desejadas, que se mergulha num banho de cera em fusão o número de vezes necessárias a conseguir a espessura desejada:

Finalmente as lâminas de cera lisas, prontas a serem moldadas.

Sexta Parte
Moldar a cera. Não faço ideia do preço dos rolos, mas acredito que seja um número com muitos zeros… mesmo com rolos manuais…

Começa-se por pincelar a superfície dos rolos com uma substância lubrificante, onde a água com sabão satisfaz perfeitamente:

Finalmente passar as lâminas de cera lisa entre os dois rolos, que estão a ser accionados manualmente. Esta tarefa é tanto mais eficaz quanto mais colaboradores estiverem presentes.

Sétima Parte
Acertar as dimensões da cera, já com o formato final e embalá-la. Está mais que pronta para voltar às colmeias.

Não liguem à cor da cera, quem vê caras não vê corações. O escurecimento deve-se a ceras velhas e que de certeza não passou por nenhum processo (químico?) de branqueamento… é mesmo apenas CERA! …
Por vezes, quando as caldeiras onde a cera foi derretida não são de inox, podem passar a cor do ferro oxidado à dita cera…

07 maio, 2010

Curso de CRIAÇÃO DE RAINHAS - MAC MEL - Macedo de Cavaleiros



Sete vídeos sobre o Curso de Criação de Rainhas organizado pela MAC MEL - Macedo de Cavaleiros no dia 24 de Abril de 2010.

06 maio, 2010

Marchamalo - Espanha (Centro Agrário)

Imagens enviadas pelo amigo Pedro Fernandes aquando da sua visita ao Centro Agrário de Marchamalo – Espanha.
Uma lata de “Miel Pura de La Alcarria” que segundo o Dr. Carmelo Salvachua terá cento e poucos anos. Muito curiosa tanto a embalagem como a própria ilustração.

Agora uma ideia oportuna para resolver um problema comum: a falta de água nas proximidades do apiário, principalmente nos meses mais quentes.
Utilizaram-se tabuleiros com gravilha, elevados do solo e ligados à rede de abastecimento ou com depósitos individuais de grande volume. Ambos os modelos permitem muita disponibilidade de água potável às abelhas e sem necessidade de visitas frequentes para abastecimento.

Repare-se no pormenor da grelha de protecção para os tabuleiros/bebedouros ao nível do solo e que impedem que outros animais (predadores de abelhas ou não) se aproximem.

Mais uma vez a eterna preocupação dos apicultores com o suavizar da carga de colmeias na transumância. Desta vez, o modelo proposto disponibiliza também um excelente estrado para as colmeias… fica a ideia…



04 maio, 2010

O Blog Apícola mais recente...

O mais recente blog apícola português, já "saíu" há umas semanas mas atrasei-me a dar-lhe as boas vindas...
Um pedido de desculpas para o amigo Ricardo Pinto, e os parabéns, claro !!!
Ao contrário do que o nome parece sugerir, "essa abelha" não é nada preguiçosa, atendendo à qualidade e à frequência de postagens...

01 maio, 2010

Captura de um Enxame Selvagem



Vídeo enviado pelo amigo António Sérgio, cuja dedicação à causa apícola já não é novidade para nenhum de nós. A captura de um enxame selvagem contada pelopróprio:

Domingo 25 de Abril, 14 horas: Enxame primário poisado nuns barrotes de uma casa em ruinas já toda invadida por vigorosas silvas. Como não conseguia mover ou sacudir o barrote, tive que "varrer as abelhas" com as minhas mãos para dentro do núcleo, com todo aquele alvoroço e tanta abelha a voar comecei a pensar que se calhar não seria logo à primeira que o enxame ficava na caixa. A rainha poderia ter caído noutro sitio qualquer menos lá dentro, depois de varrer o que era possivel do grande cacho de abelhas e de conseguir que o núcleo ficasse apoiado sobre as braçadas das silvas junto ao local onde inicialmente o enxame se tinha aglomerado fui fazer a vistoria às outras colmeias do apiário. Quando terminei e para meu regalo já o cacho de abelhas estava todo dentro do núcleo.

27 abril, 2010

Apicultura Profissional nos Alpes Franceses

Tal como combinado, nessa tarde deslocamo-nos a Saint Georges d’ Hurtières onde encontrariamos o apicultor Frédéric Petitjean, produtor de mel biológico.

Depois de uma subida estonteante a uma velocidade ainda mais estonteante de 40 ou 50 km/hora chegamos finalmente ao povoado, onde encontramos imensas placas referentes a produtos da agricultura biológica. Entre as quais uma referente à melaria onde íamos.

A meia encosta, com vista sobre o vale e as montanhas nevadas, a melaria e a casa do apicultor. Ambas construídas em madeira com traços acentuadamente Alpinos, um lugar bem bonito para viver e laborar no “doce ofício”.

Enquanto aguardávamos a nossa vez, pois o período entre as 17:00 e as 19:00 horas eram dedicados ao atendimento de clientes, depressa percebemos que se tratava de uma exploração maior que as que visitáramos até então. Cá fora, sob um telheiro, pilhas de alças, núcleos e colmeias aguardavam a “chamada” para a Primavera que se aproximava.

Junto à “Miellerie du Massif des Hurtières” algumas colmeias povoadas davam o toque final a uma decoração exterior essencialmente apícola…

Outra decoração menos apícola, mas nem por isso menos agradável, lembrava-nos que a ruralidade é um fenómeno global e uma herança inalienável. A manutenção de jovens activos no interior torna-se cada vez mais um imperativo e um exemplo a seguir para que haja desenvolvimento.

Chamou-me a atenção o grupo de clientes que entretanto abandonava a loja de mel com as compras feitas e um ar satisfeito: tratava-se de uma família (como outra que veio mais tarde) e que terão decerto encarado a “compra de mel, pólen, etc…” não como uma compra normal, mas como uma oportunidade de conhecer melhor o que levavam para a mesa. Ou não teriam demorado tanto tempo e conhecido o produtor com quem aproveitaram para trocar impressões.
Atraiu-me bastante esta modalidade de comprar directamente na exploração, uma forma mais pessoal de adquirir alimentos e “olhar o produtor nos olhos”, algo a que infelizmente nos estamos a desabituar…
Fomos finalmente recebidos na loja da melaria onde a conversa mais uma vez foi fluindo, dentro das possibilidades do “meu francês”, e que andava à volta de qualquer coisa como sobreviver com 350 colmeias: o efectivo do meu interlocutor.
De facto é possível viver com um número tão reduzido de colónias, mas tal só se torna verdade porque o apicultor produz e comercializa quantidades significativas de Geleia Real. Para a qual possui apiários próprios e um pequeno laboratório que infelizmente já não tivemos oportunidade de visitar.
Ainda lhe disse que em Portugal seria impensável “sobreviver” com 350 colmeias, nem com o dobro, já não lhe disse (mas pensei) que se conseguíssemos vender o mel aos preços praticados naquela região, decerto conseguiríamos tal habilidade…

Mel e respectivos preços que encontrei noutra loja a 10 ou 12Km (St. Jean de Maurienne).

Face ao grande número de tipos de Mel que Frédéric Petitjean apresentava nas prateleiras da loja resolvi encaminhar a conversa para o maneio apícola, nomeadamente para a gestão de florações disponíveis e ou transumância.

Transumância e Florações na região da Sabóia / Alpes

(A) Segundo Petitjean, e devido às carências polínicas durante o Inverno, os apicultores da região chegam a semear grandes áreas de mostarda nas áreas mais planas para suprirem tal carência nutricional nas abelhas.

Durante essa estação, costuma deixar as colmeias no centro do vale (e não na base da montanha) para que as colónias tenham o maior número possível de horas de luz diárias. Um problema para o qual não temos muita sensibilidade, uma vez que não temos as condições extremas a que a apicultura alpina está sujeita.

Já durante a Primavera, onde o armazenamento de néctares é quase nula, a colmeia apenas se dimensiona para a estação produtiva, as principais fontes de néctar e pólen são sobretudo as Nogueiras (muito abundantes na região), os Salgueiros e uma herbácea, o Dente de Leão.

(Vida difícil a de abelha alpina…)

(B) A partir do mês de Maio já há flora produtiva, sobretudo a Acácia, com as colmeias ainda no vale ou nas encostas baixas (até aos 400m de altitude). Este mel caracteriza-se por ser extremamente doce

(C) Em Junho já é necessária a transumância para a flora dita de Montanha, para os 1000 metros de altitude. O mel daqui resultante é um multifloral muito procurado pelos consumidores. Tanto o Mel de Montanha como o de Alta Montanha caracterizam-se por méis frutados e doces.

(D) Depois de Julho as colmeias voltam a ser deslocadas montanha acima, para os 1500 metros, para a zona designada por Alta Montanha. Produz-se um mel multifloral diferente do anterior, mais forte e com um sabor mais frutado. Compreende uma floração conhecida – o Rododendro:

(E) Em Julho/Agosto há uma floração alternativa, neste caso “concorrente” ao Mel de Alta Montanha – o Castanheiro, onde o apicultor deve decidir quais as colmeias que destina a cada floração.
O Castanheiro, outra das espécies características da região, abunda sobretudo na parte mais baixa das encostas.
Segundo Petitjean, a decisão para cada floração (e altitude) é muit fácil: as colmeias mais fortes são levadas para Alta Montanha e as mais fracas para a zona dos Castanheiros:

Acabei por lhe comprar uma embalagem de Miel de Sapin, uma melada, produzida a partir das características coníferas e por sinal um dos méis mais caros:

Na mesma prateleira a Geleia Real do produtor:

Artesanato local que conjuga perfeitamente com o “doce da casa”…

Numa parede, um quadro com abelhas e larvas coladas, que pretendia mostrar aos clientes o ciclo de vida das abelhas:

No continuar da conversa ainda me confessou sofrer de forte alergia à picada das abelhas, pelo que procurava substituir a abelha negra europeia (muito agressiva) por raças mais dóceis. Mostrava-se muito interessado na inseminação artificial de rainhas para mais facilmente conseguir esse intento.

Também pertence à Associação de Apicultores dos Allobroges, onde há uma nítida distinção entre apicultores amadores e profissionais, em que os últimos adquirem embalagens e rótulos próprios para o mel, de uma forma autónoma, enquanto que os primeiros o fazem através da associação, conseguindo desta forma também preços mais competitivos.
Contou-me que o mel preferido pelos consumidores na região é o Mel de Alta Montanha, que quase sempre acaba por cristalizar, confirmando a informação do apicultor de Jarrier que visitei uns dias antes.

Voltamos ao tema do Mel Biológico, onde o confrontei com a proximidade de uma zona fortemente industrializada, tal como a passagem de uma estrada nacional, uma auto-estrada e o caminho de ferro, ou não fosse aquela região um importante corredor de passagem entre a França, Suíça e a Itália.
Disse-me que a lei obrigava a uma distância de 300m destas possíveis fontes de poluição e que vinham frequentemente técnicos da entidade certificadora aferir o cumprimento de tais regras. Controlando inclusivamente os acaricidas que aplicam duas vezes ao ano: Timol, durante o Verão, líquido e simples a embeber tiras de cartão canelado e Ácido Oxálico, aplicado directamente na colmeia durante a estação fria, ambos medicamentos autorizados para a produção de mel biológico e que segundo ele com muito boa eficácia.

(imagem anterior): Cartaz publicitário que apresentavam na entrada da loja.

Muito mais havia para falar… mas resolvi também respeitar a hora “sagrada” que o apicultor dedicava ao atendimento dos clientes, cujo ar satisfeito demonstrava claramente que não iam à melaria apenas comprar mel mas também saborear um pouco mais dessa actividade única que é a apicultura…