26 outubro, 2009

Os Cortiços com "Corpela" do Gerês

Numa viagem recente ao Parque Nacional da Peneda – Gerês, ocorreu-me procurar aqueles cortiços muito iconográficos com um “chapeuzinho” de palha que os protege da chuva e do calor. Já começa a ser conhecida a minha paixão pelos cortiços tradicionais e como tal não queria deixar escapar a oportunidade de fotografar tais colmeias.
Depois de voltas e voltas pelos campos e serras, pouco mais vi que dois ou três apiários de colmeias móveis, mas dos ditos cortiços… nada. Ainda perguntei a uma série de pessoas pelas aldeias, mas a maioria era peremptória no facto de tais cortiços já serem muito raros, chegando a duvidar que eu os encontrasse.
Ainda cheguei a ter esperanças, quando um guarda-florestal me garantiu que o sogro ainda possuía duas ou três dessas raridades, mas o acidentado do terreno aliado à minha desorientação permanente impediu-me de os encontrar, apesar das instruções que me deram.
Não é muito o meu feitio, mas desisti da ideia, acabaram-se os cortiços, se os quiser admirar que consulte os folhetos turísticos e faça assim a festa…
Regressei ao Parque de Campismo da Cerdeira, onde tinha pernoitado e fui ao mini mercado comprar mantimentos para a próxima jornada. Curiosamente, à entrada do estabelecimento encontrava-se exposto um pequeno cortiço sobre um bloco de granito. Não possuía a dita cobertura de palha, mas voltou a avivar-me a curiosidade.
Acabei por desabafar com o proprietário do estabelecimento, o Sr. Pires, que também era apicultor, o meu infortúnio na busca das ditas colmeias. Ele confirmou-me o que eu já sabia, ou não os havia ou seriam muito raros. Conversa puxa conversa, entre apicultores é mesmo assim, e quando me dirigia para a saída o Sr. Pires perguntou-me se ainda estaria no Campo de Gerês no dia seguinte. Disse-lhe que partia depois de almoço, ainda queria aproveitar a manhã para percorrer o “Trilho dos Ursos” onde esperava encontrar antigas silhas que protegiam as colmeias do ataque de tais feras.
Então deixe, que vai ter uma surpresa”, foi com estas palavras que se despediu, marcando novo encontro para depois de almoço no dia seguinte.
Depois do passeio, lá me apresentei junto ao mini mercado há hora combinada, onde encarei logo com uma boa “braçada” de palha de centeio na calçada. Estava humedecida, explicou-me depois o Sr. Pires que a molhara para se poder dobrar com mais facilidade, “é palha com mais de um ano, mas há-de de servir para o efeito”.

Percebi logo que a minha surpresa seria assistir ao vivo à construção de uma “CORPELA” (assim a designou o Sr. Pires), para proteger um cortiço.
Começou por me mostrar os utensílios que iria usar na construção da “Corpela”, como uma curiosa roda de madeira com cerca de 25 a 30 cm de diâmetro e que já era herança do avô, também apicultor, pelo que tal objecto já teria uns 100 anos ou perto disso. A roda tinha um buraco ao centro para ser enfiada num pau e tal estrutura serviria de apoio à construção.

Confidenciou-me que antigamente, a roda era montada num dos “fueiros” dos carros de bois, (os fueiros são os paus colocados verticalmente e que servem como taipais para segurar a carga, normalmente de palha).
Tal actividade era feita durante o Inverno, quando a agricultura lhes deixava mais tempo livre, aproveitando para construir as protecções dos cortiços.

Construção da Corpela
Para a construção da “Corpela” começou-se por retirar uma pequena quantidade de palha do montão original, que devia ser bem torcida de forma a construir uma espécie de corda. O facto de a palha estar molhada facilitou esta tarefa, tornando-a mais maleável e evitando que se quebrasse.

Essa “corda” serviria para atar a braçada de palha original sensivelmente a meio:

A palha assim preparada era aberta por baixo e “enfiada” no pau até o nó encalhar na roda:

Começava agora o trabalho de maior precisão: O Sr. Pires apanhava pequenas quantidades de palha da parte superior do molhe e com todo o cuidado dobrava-os para baixo. Mais uma vez, este trabalho era facilitado pelo facto da palha estar humedecida e por isso menos quebradiça.

Ia-se deslocando em redor da estrutura, apanhando gradualmente pequenas quantidades de palha e dobrando-os pelo meio, virava-as para baixo. A dobragem era feita ao nível do local onde a braçada de palha estava atada.

Valeu ainda a colaboração da Sofia (funcionária do parque), que segurava toda a estrutura enquanto o apicultor manipulava a palha de centeio.

Como resultado, a quantidade de palha da parte de baixo ia aumentando há medida que diminuía na parte de cima.

A uma determinada altura, quando a quantidade de palha dobrada para baixo já era muita, voltava a fazer-se uma nova “corda” com palha torcida e atava-se de novo o molhe ao meio. Tal acção daria mais resistência à construção e decerto a tornaria mais impermeável à chuva.
Esta etapa podia ser repetida mais que uma vez.

Uma vez atada a palha (pela 2ª vez), continuam de novo e gradualmente a dobrar-se pequenas quantidades de palha da parte de cima para a parte de baixo.

Este processo vai-se repetindo até sobrar na parte de cima da Corpela uma pequena quantidade de palha, como se fosse um “penacho”:

As últimas palhas que ficam erectas (parecem um penacho), são cuidadosamente torcidas até formar como que uma corda. Essa corda, bem apertada, é enrolada no topo da Corpela como que para “rematar” a etapa de dobragem da palha.
Pareceu-me ser um dos pormenores mais difíceis, pois convém que a “corda” fique bem enrolada e atada em torno do vértice para que não se solte. Neste caso as mãos hábeis e experimentadas do Sr. Pires fizeram tal acabamento em perfeição:


Após as dobragens da palha, o formato final da Corpela fica praticamente definido. Resta agora fixar o “cone” para que possa ser manuseado com facilidade sem que se desmanche e resista às intempéries.
Segundo o Sr. Pires, dependendo da qualidade da palha e da forma como foi construída, uma Corpela pode durar cerca de cinco anos mantendo íntegras as suas capacidades de protecção dos cortiços contra a chuva e o calor.
Para isso entram em jogo novos utensílios concebidos para o efeito: dois aros de arame com diferentes diâmetros e uma série de paus pontiagudos cujos comprimentos variam entre os 30 e os 50 cm aproximadamente.
Quando vi os paus pontiagudos ocorreu-me que o Sr. Pires fosse colocar as “trancas” no cortiço, mas de facto destinavam-se a outro efeito como veremos a seguir. Aproveitou no entanto para me dizer que naquela região as “trancas”, paus que se cruzam no interior dos cortiços, onde as abelhas fixam os favos, recebem o nome de “juízas”.

Esta fase pareceu-me bastante mais fácil, consistiu em enfiar os aros de arame no cone de palha, um mais abaixo e outro mais acima. Depois foi a mestria do Sr. Pires em enfiar os paus pontiagudos no local e nas posições mais correctas (ao nível dos aros) de modo a fixar a palha e dar maior estabilidade e resistência à estrutura.


A Corpela está praticamente terminada, resta agora retirá-la do molde e colocá-la sobre o cortiço.
Como podem ver pelas imagens, a forma correcta de manusear e transportar esta estrutura, aparentemente frágil é pegando-lhe pelos paus pontiagudos que tem espetados na parte superior.

Temos agora o nosso velho cortiço “descapotável” que vai receber um chapéu de palha, que muito o ajudará a proteger as abelhas da chuva e do calor excessivo.

Resta finalmente adaptar a Corpela às dimensões do cortiço:
Normalmente o cone de palha é demasiado grande e para tal corta-se o excesso de palha com uma tesoura de poda. Este corte não tem só objectivos estéticos, o grau de cobertura do cortiço depende também da estação do ano, dos hábitos locais e da vontade do artesão.

E está terminada a obra, abelhas e cortiço com protecção extra para a Invernada…

Segundo o Sr. Pires, havia apicultores que usavam duas rodas de tamanho diferente para a construção da Corpela, faziam-no apenas por razões de estética, obtendo-se os ditos “telhados” de palha com outros formatos, mas com igual funcionalidade.

Mas ainda haviam mais surpresas: finda a obra, o Sr. Pires ofereceu-me a Corpela para que a pudesse trazer para o Alentejo como recordação. Mas… ainda tinha cerca de 2000 km pela frente. Apesar de leve, a Corpela ocupava muito espaço e duvido que chegasse inteira ao destino, fica para a próxima.
Mas já sabem, quem passar pelo Gerês, mais precisamente pelo Parque de Campismo da Cerdeira em Campo do Gerês, e vá ao minimercado do Sr. Pires, saiba que é a “minha” Corpela que está a cobrir o pequeno cortiço que se encontra à entrada…

Um OBRIGADO muito ESPECIAL ao Sr. Pires, pela habilidade demonstrada e pela paciência e boa vontade que teve comigo, para que todos pudéssemos saber um pouco mais da apicultura praticada antigamente naquela bonita região.
Este post é dedicado a ele…

15 outubro, 2009

Colmeias Diferentes - 12

A forma que o Hélder Lucas e um amigo desencantaram para aumentar a produção normal de um cortiço (2Kg) para 22kg?...

12 outubro, 2009

Alimento Artificial para Abelhas: Formas de Aplicação

Creio que já o disse uma vez que me irrita profundamente qualquer episódio de alimentação artificial. Seja pela sua confecção, pelos recipientes onde coloco o xarope ou a forma como o aplico.
Podia pensar em “comprar” alimentadores artificiais, mas os argumentos: preço; armazenamento e manutenção demovem-me de o fazer. De forma que prefiro improvisar cada vez que as abelhas precisam de nutrientes.

Além dos alimentadores comerciais disponíveis no mercado, com as mais variadas formas que todos conhecemos, apresento-vos outras estratégias (mais ou menos correctas) de aplicar alimentos artificiais (sólidos ou viscosos) nas colmeias.

1. Uma forma muito aconselhada consiste na aplicação de uma bola de massa quase sólida directamente sobre os quadros. Obviamente que esta técnica se adapta melhor a alimentos muito viscosos ou sólidos:

Só o fiz uma vez, e jurei para nunca mais. O alimento era de facto muito espesso e até duro, mas o calor e a humidade no interior da colmeia, rapidamente liquefez a "massa" e escorreu pelos quadros abaixo. Ao fim de um dia, o alimento que tanto trabalho me dera a confeccionar, já saía cá em baixo na tábua de voo, originando as conhecidas confusões de abelhas e respectivas pilhagens.
Para não falar no facto de que uma dose de nutrientes que supostamente duraria uma semana, pouco mais aguenta que 24 horas...
Se alguém conhecer uma formulação mais estável para esta aplicação, agradeço que a divulgue, pois a mim não me correu nada bem.

Mas há outras que se seguem com efeitos semelhantes:

2. Processo muito semelhante ao anterior, só que a “bola” de alimento, outra vez colocada sobre os quadros, tem por baixo uma folha de papel vegetal ou mesmo de plástico.
Não se adianta grande coisa, se o alimento for demasiado para a área de plástico, rapidamente se liquefaz e volta a escorrer pelos quadros abaixo:

Vamos agora experimentar a colocar o alimento artificial entre o tampo e a prancheta. Espera-se com isto, (entre outras coisas) livrar o dito alimento “sólido” aos calores e humidades excessivas do interior da colmeia e que rapidamente o liquefariam, fazendo-o durar menos tempo.

3. Tal como no ponto (1.), só que colocando a bola de alimento directamente sobre a superfície da prancheta, tendo o cuidado de deixar aberto o respectivo orifício de acesso às abelhas.
A única vez que o fiz, foi porque o alimento ficou tão duro que quebrei uma faca para o partir em pedaços...
Não valeu a pena, o resultado foi em tudo equivalente ao ponto (1.), só que desta vez o alimento liquefeito não escorreu só pelos quadros, (via buraco da prancheta): como a colmeia não estava nivelada escorria também pelas paredes exteriores, o que aumentou ainda mais a confusão.
Foi a primeira vez que vi entre a confusão de abelhas a minha cadela em pleno acto de pilhagem, ladrando alto, não sei se de dor ou de prazer...

4. Semelhante ao ponto anterior, só que com a dita folha de papel vegetal ou plástico entre o alimento e a superfície da prancheta.
Voltou a liquefazer e consumir-se depressa demais. Nova “avalanche” interna e externa de xarope com a respectiva confusão de abelhas. Desta vez a cadela evitou a sobremesa, o Pavlov sabia bem o que dizia...

5. Alimento sólido ou muito viscoso, dentro de um saco de plástico, que se coloca entre o tampo e a prancheta.
Uma vezes corre bem, outras nem por isso. Por vezes também liquefaz depressa demais com os conhecidos resultados, outras vezes fica muito sólido e entalado entre os meandros e circunvoluções do saco e torna-se de difícil acesso às abelhas.
É necessária muita prática para conseguir “tabelar” as dimensões da fenda a abrir no saco e a viscosidade do alimento que este contem. Para não falar na dimensão da colónia que se alimenta, parâmetro comum a todos os métodos que falo.
Não é um mau processo, mas pode e deve ser muito melhorado:

6. Saco de alimento, ligeiramente menos viscoso (ou mais liquefeito), onde se abrem vários orifícios e se coloca directamente sobre o buraco da prancheta.
A ideia não é má de todo, mas mais uma vez há o preciosismo de aferir o número e diâmetro dos orifícios a fazer no saco conforme a viscosidade do alimento.
Ou escorre depressa demais: demasiados buracos, demasiado largos, poucas abelhas, etc, ou então as abelhas rapidamente sugam a parte liquefeita, restando as partes sólidas dentro do saco. Não esquecendo que as ditas “partes sólidas” quase sempre são as mais importantes, como é o caso do pólen... :

7. Uma ideia mais “engraçada” e funcional, colocando uma bola de alimento sólido, viscoso ou até liquefeito, num prato de plástico que se coloca sobre a prancheta. Por mais que o alimento se liquefaça, nunca vai entornar e escorrer para fora, mas convém ter as colmeias niveladas.
Tem no entanto um grave inconveniente: a grande quantidade de abelhas que morrem afogadas no xarope líquido ou no alimento viscoso. Este problema resolve-se com relativa facilidade, deitando um punhado de palha, ou ervas secas sobre o alimento mal o coloquemos no prato: não se perde uma abelha:

8. Método muito semelhante aos dois anteriores, aliás, trata-se mesmo de um híbrido dos dois. Colocar o saco com alimento viscoso, onde se abrem várias fendas grandes, dentro do dito prato de plástico. Não esquecer de cobrir com o tal punhado de ervas secas anti-afogamento...

Quando optar por um ou outro dos dois métodos anteriores?

Método 7: Quando o alimento é líquido ou muito pouco viscoso e o posso transportar num garrafão ou vasilha. Chego ao apiário, retiro o tampo, coloco o prato e despejo a dose que me parece correcta para aquela colónia. De seguida deito as ervas secas por cima.

Método 8: Quando o alimento é demasiado viscoso ou mesmo sólido e fica mais fácil fazer a dosagem (para dentro dos sacos) em casa antes de sair para o campo.
Em casa já é difícil ensacar tal substância tão pegajosa, quanto mais, em pleno apiário e coberto de abelhas, estar com uma colher de pau a retirar o dito “melaço” da panela para os pratos... Mesmo o próprio acto de abrir, rasgar e fazer fendas nestes sacos junto à colmeia já garantem um “arraial” digno de ser visto... mas funciona muito bem, acreditem!

Daqui a uns dias espero poder apresentar uma reportagem sobre a ministração de alimentos sólidos (mesmo secos: farinha de soja, trigo, milho e mandioca) e xaropes mais líquidos, em alimentadores colectivos.
Esta prática muito curiosa, é usual em determinadas regiões do Brasil, e tanto as fotos como as respectivas explicações foram-me enviadas pelo meu amigo Carlos Correa de S. Paulo – Brasil.

10 outubro, 2009

Síndroma do Despovoamento de Colmeias vs Alimento Artificial e Acaricidas

Depois da “Conversa com António Pajuelo sobre o SDC”, eu tinha de voltar ao dito assunto, ou não estivéssemos a entrar na época crítica em que ainda é possível remediar ou atenuar os estragos.
Se se lembram da entrevista publicada a 12/09/2009:

http://montedomel.blogspot.com/2009/09/conversa-com-antonio-g-pajuelo-sobre-o.html

A. Pajuelo, aponta como factores determinantes para tais mortandades as alterações na flora do Verão/Outono, devido à seca dos últimos anos. Flora essa que como sabemos é o último “reduto nutricional” para as reservas de Inverno e para a “engorda” das últimas abelhas nascidas neste período para passarem a estação fria.

Se essa flora escassear/falhar, obviamente que a quantidade e até a qualidade das jovens abelhas nascidas no fim do Verão princípio do Outono, das quais se espera uma longevidade de meses para que a colónia atravesse o Inverno, será diminuta e a probabilidade de a colónia sobreviver a tal período será ainda menor.
Recordo que o mesmo técnico nos pede para à entrada do Outono, avaliarmos /observarmos:

I. O número de quadros do ninho ocupados por abelhas.
II. O número de quadros com criação.
III. A taxa de sobrevivência dessa população.
IV. A quantidade/qualidade de pólen armazenado/disponível na colónia.
V. A qualidade da cera (análise de resíduos).
VI. Avaliar e controlar a Varroose.


Já fiz alguns comentários a estes cinco itens no texto da referida entrevista. Por outro lado, gosto pouco do papel de alarmista e antecipar os problemas antes deles serem de facto... problemas.
No entanto, gostava que cada um reflectisse sobre esta situação, até porque há dados e números bem reais e assustadores, sobre os efeitos do SDC um pouco por todo o lado.

Voltando aos cinco pontos anteriores (e resumindo, porque isto já foi mais ou menos dito),:

I. O número de quadros do ninho ocupados por abelhas não reflectem de modo algum um retrocesso na população. É necessário ter em conta se essa colónia alguma vez chegou a ter os dez quadros ocupados e depois reduziu para seis, cinco, quatro ou menos quadros... Seja por um enxame tardio, numa zona com poucas fontes de néctar, doenças anteriores... enfim, imensas razões que podem ter levado ao atraso de uma colónia, o que também não indicia nada de bom.

II. O número de quadros de criação também pode ser bastante variável, por razões semelhantes ao ponto anterior. Inclusivamente há regiões com fortes florações Outonais (e de Inverno) que permitem óptimas recuperações nestes casos. E até são consideradas normais nessas mesmas regiões.

III. A taxa de sobrevivência dessa criação também pode ser influenciada por motivos sanitários e não apenas pela disponibilidade de reservas nutritivas. Mas este é já um factor de alarme muito forte.

IV. A disponibilidade de pólen também pode ser um factor dúbio. Tenho observado imensas vezes colmeias na zona de Ponte de Sor, que passam um Verão péssimo (devido à ausência de flora), com pouca população adulta e quase sem criação, e é curiosamente graças a uma riquíssima flora de Outono que se preparam para passar o Inverno.

V. Este ponto é pouco importante para o exemplo que hoje quero ilustrar.

VI. A presença da Varroa é sempre um sinal de alarme, seja no Síndroma do Despovoamento de Colmeias, seja na sanidade apícola em geral.

Isto tudo para dizer que os cinco factores a ter em conta para “diagnosticar” o SDC, são de uma importância extrema, tal como o disse A. Pajuelo, mas... devemos ter todo o cuidado com os diagnósticos, principalmente quando a prática é pouca.
Estes pontos diferem muito de região para região, de ano para ano, consoante o próprio maneio apícola praticado e mais um sem número de factores.
Não gostaria de modo algum que cada apicultor começasse para aí a “identificar” ou “prever” o SDC por “dá cá aquela palha”, ou pior ainda, que descurassem de sinais determinantes que permitam antecipar e evitar os problemas.
Se de facto tais ensinamentos nos permitirem combater o SDC será óptimo, pois não me posso esquecer que há bem poucos anos se perderam 500.000 colónias em Espanha. Um amigo meu viu reduzido a 230 um efectivo de 450... e aqui bem perto.

Se a “fórmula” é então garantir as reservas nutricionais às colónias de abelhas e livrá-las da Varroose, tratemos então dessas tarefas. Seja com a ministração de alimentos sólidos (de Inverno) ricos em pólen, seja com um combate eficaz ao ácaro Varroa destructor.

Vou tentar esquematizar (melhor ou pior) o que escrevi aí para trás, para que todos possamos perceber como evolui o problema, e agradecia desde já que algum pormenor que me tenha escapado (ou algum inventado) me corrijam nos comentários.

Para começar, vamos ver o que se passa numa colónia equilibrada, ou seja, onde exista uma rainha, zangãos e obreiras. Estas últimas em proporções largamente superiores às outras duas “castas”. Nas obreiras, obviamente existem em simultâneo centenas ou milhares desde a entidade “ovo” até às abelhas adultas com um, dois, três, quatro, e (n) dias de vida, até morrerem.
Dos livros “tira-se” que uma obreira na época produtiva vive entre 30, 45 e às vezes mais dias de vida:

As proporções entre o número de ovos, larvas, larvas operculadas, crisálidas, amas, forrageadoras, etc, dependem de um sem número de factores como a época do ano, a qualidade/idade da rainha, a disponibilidade de néctares no exterior, o maneio apícola, o estado sanitário da colónia, etc...
Nem sei se alguém tem essas “contas” feitas, mas há gente com paciência para tudo. Por agora e para nós, interessa-nos saber que uma determinada colónia (equilibrada) possui indivíduos com todas essas idades.
Após emergirem do alvéolo, as abelhas passam a ser tratadas por “abelhas adultas” e consoante a idade vão desempenhando as mais diversas funções na colónia.
Num aparte: é por isso que não há verdadeiras castas nas abelhas, uma vez que nenhuma nasce soldado, ou colectora de pólen ou outra coisa qualquer e desempenha essa função até ao fim da vida. Muda de função ao longo da idade e de determinadas alterações fisiológicas.
Eu gosto do termo “castas temporais”, não sei se já alguém o usou ou o quer adoptar...

Na imagem anterior podemos observar as diversas funções ou tarefas desempenhadas pelas abelhas adultas ao longo da vida. Neste caso numa vida hipotética de 45 dias.
Gostava que tivessem especial atenção ao facto de que uma parte dessas funções (talvez menos desgastante para o insecto) é praticada dentro da colmeia, até ao 21º dia de vida.
A partir desse dia, sai da colmeia e torna-se colectora de matérias primas como a água, o pólen, o néctar e as resinas, entrando assim numa fase de maior desgaste físico. Desgaste esse que talvez seja o responsável pela sua curta longevidade nos períodos de produção (30 a 45 ou mais dias).
Já me contaram, ou já li algures, que a tarefa mais desgastante reservada às abelhas mais idosas, é a recolha de resinas onde chegam a perder membros ou morrer coladas a tal substância.

Das abelhas que nascem neste período do ano, fim do Verão e início do Outono, livres de todo esse serviço pesado e “condenadas” a passar o Inverno no abrigo da colmeia, diz-se que chegam a viver seis meses. E é de importância extrema que os vivam, caso contrário a colónia não chegaria à Primavera seguinte.

É então nesta fase que parece começar o problema do SDC (Síndroma do Despovoamento de Colmeias):
A inexistência de criação faz com que as abelhas que vão hibernar, já adultas e algumas “com uns bons quilómetros” de serviço, não atinjam uma longevidade suficiente para “atravessar” o Inverno ou seja, para viverem os ditos seis meses ou perto disso. Pior ainda quando falamos de Invernos longos e rigorosos.
Dessa forma, e sem causas visíveis, essas abelhas vão morrendo (porque estão esgotadas) e a colónia desaparece na totalidade, ou fica reduzida à rainha e a um punhado de obreiras. Mas de qualquer forma (raras são as excepções) a colónia está condenada.
Não devemos no entanto esquecer que a rainha também põe ovos e nascem abelhas durante o Inverno. Mas estamos a falar em números mínimos, quase desprezáveis, o suficiente para manter uma população (mas em condições normais), nunca para compensar mortalidades desta ordem...

Na imagem anterior, podemos observar que num Outono atípico, sem floração/pólen, a criação aberta deixa de ser alimentada, morre, e todo esse segmento desaparece do ciclo, vindo-se a sentir a sua falta mais à frente.
Neste esquema, as larvas já operculadas mantêm-se porque já possuem no alvéolo as reservas necessárias para chegarem a adultas, mas em situações extremas acabam também por morrer devido ao frio por falta de população adulta.

Durante o Inverno, as obreiras mais velhas (principalmente as de actividades mais duras), que andaram no campo, vão morrendo gradual e naturalmente e não têm substitutas. A estas seguem-se pela ordem natural da longevidade as outras abelhas adultas, cujas actividades eventualmente foram menos desgastantes:

Finalmente (em pleno Inverno), já com a população adulta muito reduzida, a colmeia encontra-se desequilibrada. O número de abelhas existente não chega para aquecer (quanto mais para alimentar) o que ainda resta da criação e a colónia entra em colapso:

Nestas circunstâncias é comum encontrar-se a colmeia sem qualquer abelha, com bastantes reservas de mel e com algumas manchas de criação operculada mas morta. Percebe-se pelos opérculos deprimidos e perfurados, larvas e crisálidas mortas e putrefactas, o que por vezes nos leva a falsos diagnósticos de Loque Americana.

No caso dos ataques severos de Varroose, os efeitos acabam por ser semelhantes aos relatados pela falta de pólen. Agindo este parasita de uma forma sinérgica para acentuar o SDC.
Aliás, acaba por fazê-lo de duas formas distintas: directamente pela mortalidade que provoca em boa parte da criação (reduzindo-a muito), seja também por questões nutricionais, pois ao alimentar-se da hemolinfa das abelhas, priva-a de boa parte dos nutrientes como gorduras e proteínas essenciais para esta fase do ano...

Fica então à consideração de cada um a observação, interpretação e intervenção nestes “sinais” das respectivas colmeias e apiários, de modo a que consigamos controlar ou mesmo debelar mais esta “moléstia” que tantos efectivos tem reduzido...

Na semana passada desloquei as minhas colmeias para os apiários de Inverno. Findas as florações e crestas de Verão, importava agora acondicionar o melhor possível as colónias para a estação fria que se aproxima.
Foi com tristeza que percebi que boa parte das colmeias pesavam metade do que é habitual nestas andanças, ironicamente foi uma das transumâncias mais fáceis que alguma vez fiz... as minhas costas que o digam!
Boa parte das colónias estão reduzidas a metade e algumas a menos que isso. De um efectivo de oitenta e tal colónias já morreram cerca de dez. Não tenho qualquer pudor em afirmar que ainda esta noite vou dar-lhes a primeira dose de alimento artificial de manutenção, mel, açúcar e pólen numa proporção de 1:2:1, calculados para 200g de pólen/colmeia.
O ano passado “salvei” um apiário de doze colmeias com este procedimento, o pior é que este ano os sintomas começaram bem mais cedo e na totalidade dos apiários. Vamos esperar pelos resultados...

06 outubro, 2009

Ajudem os Polinizadores a Ajudar-nos...

Como diriam os Monty Python's: “e agora algo completamente diferente”... enfim, não é assim tão diferente do habitual...

Sempre que vou ao edifício do Município de Avis, dá-me um tremendo prazer deter-me frente à entrada a observar um arbusto completamente cheio de insectos.
Aquele arbusto é um autêntico “centro comercial”: estão sempre a chegar e a partir insectos polinizadores, fora a nuvem daqueles que andam sempre por ali a voar. É um barulho ensurdecedor. Parece mesmo a Torre de Babel: tanta gente a falar línguas diferentes, mas neste caso todos se parecem entender...
Quando visito uma horta, passa-se precisamente o mesmo, bichinhos voadores (além das abelhas) a cruzarem os ares em todas as direcções.
De facto, há imensas espécies vegetais cultivadas e espontâneas que não podem ser polinizadas por abelhas. O sistema floral está adaptado a outro tipo de polinizador. E como sabemos, toda a flora é imprescindível à vida, tal como a fauna...

Uma vez vi uma curiosa publicação da FAPAS, chamada “A Casa Ninho”, em que ensinavam a construir abrigos para os animais selvagens, tal como a adaptar a nossa própria casa para a coabitação com algumas dessas espécies.
Houve uma que me chamou particularmente a atenção: a construção de abrigos para polinizadores. De facto, se montarmos tais estruturas nas proximidades de hortas e jardins, esses insectos preferirão “trabalhar/polinizar” nas proximidades de casa do que deslocarem-se para longe. Melhorando muito as nossas produções.
A capacidade de suporte de um determinado local, em termos de nichos e locais para nidificar é muito mais importante do que se pensa.
Daí a grande vantagem e importância da apicultura. O apicultor ao montar um apiário com 20 ou 30 colmeias, concentra milhares e milhares (ou milhões) de insectos que fazem sentir a sua actividade numa determinada área, o que resulta numa polinização de grande sucesso.
No fundo, o apicultor alterou a capacidade de suporte do meio ao colocar “ninhos artificiais” para abelhas, que são as colmeias e cortiços. Se não o fizesse, decerto não se conseguia juntar um número de insectos tão grande e eficaz como o permite a prática apícola.

Para quem estiver interessado posso descrever o processo de construção de um (ou mais) desses abrigos/ninhos para outros polinizadores que tanto beneficiam a nossa horta ou jardim...

1º Precisamos de um bloco de madeira com dimensões semelhantes (ou aproximadas) às da figura:

2º Com um berbequim e brocas de vários diâmetros fazer uma série de orifícios no bloco de madeira, só de um lado e sem o atravessar completamente:

Até podem separar os orifícios por grupos de diâmetros diferentes, que tanto podem ser como os da imagem seguinte ou com outros valores e densidades. Podem até fazer “blocos de madeira” só com orifícios de igual diâmetro, não vão as diversas espécies que os vão povoar entrar em conflito, o que eu duvido...

3º Podemos e devemos colocar uma protecção em madeira ou metal para proteger o ninho da chuva, como se fosse um telhado. Não esquecendo que o ideal é mesmo colocar o ninho num local abrigado, debaixo de um telheiro ou noutro abrigo qualquer.
A orientação dos orifícios também será determinante, se os virarmos para Sul ou Nascente decerto que conseguiremos muitos mais inquilinos.

4º Finalmente é aguardar a chegada de insectos de tamanhos, cores, feitios e hábitos muito diferentes. Parece um bloco de apartamentos numa grande cidade: uns vão polinizar as couves, outros os feijões, enfim... cada qual parte para o seu emprego, aparte a crise que obrigará muitos a ficar em casa...

5º Mas isto seria bem menos interessante se não pudéssemos espreitar o interior de cada ninho e monitorizar (eufemismo para espiar), o que se passa na “vida privada” de cada polinizador. Seja a “arrumação da casa”, a disposição dos ovos e larvas, os armazéns de nutrientes e sabe-se lá o que mais se pode ver...
Para isso, podemos comprar tubos de vidro (tubos de ensaio dos laboratórios), e colocá-los no interior de cada orifício, desde que os diâmetros sejam compatíveis.
Quando virmos que o insecto se ausentou, é retirar o tubo à pressa, observar e fotografar tudo e recolocá-lo no sítio, antes do regresso do inquilino.
É uma etapa arriscada, o insecto pode não achar graça a tal habilidade e na próxima reunião de condóminos...

Estas imagens que se seguem foram “tiradas” no Insectozoo de Pedro Cappas e Sousa, onde ele mantém alguns destes interessantes e úteis abrigos de polinizadores.

Finalmente o meu próprio ninho de polinizadores, que espero colocar em breve na horta.
Como não podia deixar de ser, ou não fosse a minha curiosidade inata, lá recheei os orifícios com os ditos tubos de ensaio para depois monitorizar o que se vai passando...

Também se pode optar por uma modalidade mais fácil, rápida e económica. Basta para isso cortar várias canas de diferentes diâmetros em pedaços de dez a vinte centímetros e atá-las num molhe. Os cuidados com o local onde instalar este "engenho" são semelhantes ao anterior e é só esperar que os insectos ocupem os buracos.

Quando houver resultados, e... se houver resultados, cá estaremos a publicar as observações...

04 outubro, 2009

"Nova" Visão das Abelhas, um comentário...

Não era suposto eu publicar “deste lado” qualquer que fosse o comentário feito por um visitante, a qualquer um dos posts/notícias aqui publicados. Até porque todos os comentários estão disponíveis para quem os quiser ler.
De qualquer forma, e face à resposta tão tocante dada por Valdir Oliveira, de S.Paulo – BRASIL, tal como pelo facto de tal assunto já se ter passado há tantos meses, resolvi publicá-lo “deste lado”...

No referido post, eu interrogo-me porque razão tanta gente no Brasil andava a fazer buscas na web sobre a “Visão das Abelhas”, e até perguntei:
“...só queria que alguém do Brasil me dissesse porque razão todo o mundo anda interessado na VISÃO DAS ABELHAS ??? Dá-me uma curiosidade enorme...”
(Ver: A Visão das Abelhas 22/12/2008)
http://montedomel.blogspot.com/2008/12/viso-das-abelhas.html

A Resposta dada por Valdir Oliveira há poucos dias atrás:

Os Olhos da abelha – Uma visão Incrível
Elas são muito interessantes de serem estudadas.
As abelhas são conhecidas como insetos. Na ciência elas são chamadas de artrópodes. Esta palavra é a junção de duas palavras da língua dos gregos antigos: arthros, que significa “articulado” e podos que signifca “patas”. Portanto, um dos significados de artrópodo é “pés com articulações”.
Embora as abelhas sejam muito conhecidas pelo mel que elas produzem, pouco se fala sobre o que a ciência tem aprendido delas.
Por exemplo, você sabiam que o olho da abelha é muito diferente do nosso?
Os cientistas descobriram que a visão das abelhas é muito mais complexa do que se pensava.
Veja só este exemplo.
A televisão mostra aproximadamente 30 imagens diferentes por segundo. Porque o olho humano não consegue distinguir mais do que isso, a impressão que você tem ao assistir televisão é que as coisas estão se movimentando. Mas cada imagem é como uma fotografia. Cada imagem da televisão pode ser considerada como um flash de luz.
O olho da abelha é um olho composto. Isto significa que ele é formado por aproximadamente 6.300 pequenos receptores de luz hexagonais, chamado de omatídeos.
Através desses pequenos receptores, as abelhas conseguem distinguir até 300 flashes de luz por segundo! Lembre-se que nós, seres humanos distinguimos aproximadamente 30 por segundo. Isto faz com que elas, mesmo voando rapidamente, consigam distinguir cores e formas, como flores, árvores e pessoas.
Toda a informação recebida pelos olhos de uma abelha, é enviada para um pequeno cérebro com cerca de 1 milhão de neurônios, aproximadamente 0,01% do número de neurônios do nosso cérebro (0,01% é igual a um décimo de um milésimo da quantidade de neurônios do cérebro humano).

Isto tudo é algo fascinante e também muito intrigante. Coisas complexas como olhos e cérebros não são produzidos por processos aleatóreos e espontâneos como a teoria da evolução propõe. Seria como dizer que computadores e câmeras digitais aparecem sem que hajam engenheiros para projetá-los e construí-los. Isto não faria nenhum sentido!
O que dizer dos olhos e do cérebro de uma abelha?
Da próxima vez que uma abelha passar voando perto de você, lembre-se de que ela foi inteirinha projetada para fazer coisas e achar coisas que as nossas máquinas e computadores mais sofisticados não conseguem fazer, usando uma visão e um cérebro que a verdadeira Ciência sabe que não teriam aparecido pelos processos da evolução, mas sim pelo design inteligente de um Criador.

Louvado seja nosso Senhor e Criador
Abraço a todos


Pb Valdir Oliveira
IPB Mogi das Cruzes-SP
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