

Os
Metrosíderos são árvores cujo nome vulgar deriva directamente da designação científica do género,
Metrosideros estabelecido por Joseph Banks (1743-1820) naturalista inglês e grande mecenas da ciência que participou na primeira viagem de James Cook ao Sul do Pacífico a bordo do
Endeavour, considerada a primeira expedição dedicada a fins exclusivamente científicos.
A designação, aponta a uma das principais características destas árvores (e arbustos). A dureza da sua madeira, semelhante ao ferro -
sideros, em grego; com o primeiro elemento do nome - metro, do grego
metra (útero) a transmitir a ideia de meio, interior, excelsa, do latim
excelsus-a-um = alto, pelo porte que alcança.

Os
Metrosíderos pertencem à extensa família das
Mirtáceas, onde igualmente se incluem os eucaliptos, as murtas, etc. Há cerca de 20 espécies de
Metrosíderos, onze das quais são originárias da Nova Zelândia. Em Portugal os mais comuns são os
Metrosideros excelsa, sendo este último termo, referente à espécie, indicativo do porte que a árvore pode atingir em plena maturidade: acima dos 20 metros de altura, com copas de mais de 30 metros de diâmetro.
A designação sinónima de
Metrosideros tomentosa que esta espécie ainda assume em alguma literatura, refere-se à característica lanugem branca que recobre a página inferior das folhas.
Na Nova Zelândia estas árvores são conhecidas pelo seu nome indígena, neste caso "
pohutukawa", o que significa em linguagen maori, "salpicada pelo mar". Em Portugal são conhecidas simplesmente por
Metrosídero ou árvore do fogo.

A sua distribuição no arquipélago dos Açores ocorre em todas ilhas excepto no Corvo. São muito resistentes à salinidade por isso são também utilizados nos Açores como sebes vivas, nomeadamente para protecção de bananais e pomares tendo no entanto uma desvantagem: crescimento demasiado lento e muito consumidoras de água e nutrientes. Devido à lentidão do seu crescimento, os fruticultores optam por espécies menos esgotantes como é o caso das Banksias e pelo Incenso (
Pittosporum undulatum Vent) também originário da Oceânia mas das áreas húmidas da costa oriental da Austrália.

A espectacular floração produzida pelas inflorescências destas árvores ocorre, nos Açores, desde Maio até início de Julho. Como curiosidade a cor vermelha das flores, por ser semelhante ao azevinho, levou os primeiros colonizadores a utilizarem ramos desta árvores para enfeitarem as suas casas no Natal, sendo que na Nova Zelândia esta árvore é também conhecida por “árvore do Natal” e noutros países por “árvore de Natal da Nova Zelândia".


Estas árvores, apesar de ameaçadas em certas zonas do seu país de origem, são consideradas invasoras noutros países, como é o caso de Portugal – Açores, à semelhança do Incenso.
Observando um
Metrosídero em plena floração e num dia de sol radioso ficamos com a plena sensação de que existe um enxame à volta da copa da árvore. Mas não é um enxame. São quantidades incomensuráveis de abelhas à procura de néctar e pólen que existem em grande abundância nas inflorescências do
Metrosídero.

Numa breve passagem pelas ruas e avenidas ajardinadas de Angra do Heroísmo, tal como em contextos mais rurais, é notória a importância do
Metrosideros. Espécie cada vez mais apreciada pelos apicultores face aos incrementos que induz na produção de mel.


Estames de flores já fecundadas caídos na calçada:

Senão vejam-se alguns números referentes ao
Metrosideros excelsa, segundo Schmidt-Adam, 1999 ( http://hdl.handle.net/2292/1102 ):
- Cada inflorescência possui cerca de 14,3 flores hermafroditas que ficam abertas durante sete dias.



- Cada flor produz cerca de 45 microlitros de néctar por dia, néctar com 18% (peso/volume) de sacarose.

No país de origem (Nova Zelândia) são polinizados sobretudo por aves da família
Meliphagidae e por algumas espécies de abelhas selvagens.


Apesar do design floral ser muito consistente com a auto-fecundação (Schmidt-Adam, 1999) é fácil perceber o interesse da
Apis mellifera pela enorme quantidade de néctar disponibilizada nos nectários. As quantidades de néctar tal como outras características parecem no entanto demonstrar que os polinizadores naturais mais importantes são de facto as referidas aves e não os insectos:

1. Dimensão dos estames, o que torna demasiado longa a distância (para uma abelha) entre as anteras (onde se encontra o pólen) e o nectário, que atrai as abelhas. Supostamente, (e na maioria das espécies polinizadas por abelhas) o design da flor deve fazer com que o corpo da abelha roce pelos grãos de pólen quando acede aos nectários, o que aqui nem sempre se verifica.


2. Dimensão “gigantesca” dos nectários, com produções de néctar proporcionais. Obviamente que se fosse para atrair insectos não havia necessidade por parte da planta para tamanho investimento na disponibilização de néctar.







Tais quantidades são mais compatíveis com animais de maiores dimensões, como as aves.

3. Cor predominante das flores. Não são as pétalas as responsáveis pela cor da flor do
Metrosideros, mas sim os estames. De qualquer forma, o vermelho é uma cor que atrai sobretudo as aves e não os insectos. Estes são mais atraídos pela cor azul, amarela e branca, como podem confirmar com a maioria das plantas melíferas da nossa flora.



Estes argumentos não servem de modo algum para desvalorizar tal espécie como excelente produtora de néctar, antes pelo contrário, não havendo polinizadores naturais no arquipélago dos Açores, as abelhas cumprem com agrado essa tarefa. As quantidades de néctar que satisfazem uma única ave, hão-de satisfazer decerto umas largas dezenas (ou centenas?) de abelhas…

Face ao “ódio” que determinados arquitectos paisagistas têm votado a algumas espécies ornamentais, por razões como a alergia aos pólenes, folhas caídas na calçada, entre outros actos de “terrorismo vegetal”, fica a proposta para a utilização geral do
Metrosideros. Como é de crescimento lento decerto nunca será uma infestante descontrolada, as folhas são perenes tornando desnecessário contratar jardineiros suplementares. Para nós “abelheiros”, será sem dúvida mais uma importante fonte de néctar, ainda por cima num período considerado de carência em quase todo o país: meados de Maio a princípios de Julho.

Nos Açores, onde já é considerada uma importante espécie melífera, não se produz no entanto qualquer mel monofloral de
Metrosideros, sobretudo por razões de maneio apícola. Esta floração surge pouco antes da cresta do Incenso (Pittosporum undulatum Vent.) pelo que se torna difícil separar os méis.
De assinalar o caso da Ilha do Pico, onde muitos apicultores já fazem a cresta do Incenso em Abril/Maio.
Quanto mais tarde se faz a primeira cresta, maior a quantidade de néctar de Metrosideros acumulada ao de Incenso, e consequentemente mais escuro se torna o mel.
Por outro lado, a “concorrência” das imensas variedades de trevo dos prados também dificulta a obtenção de monoflorais da espécie em causa. Fica no entanto a proposta para que se marquem alças e se separem os quadros pela cor, em locais sem trevo, talvez assim se consiga valorizar ainda mais o
Metrosideros…


Curiosa a forma como estas árvores são tratadas na Ilha de S. Jorge, onde a poda de tão elaborada mais lembra uma tosquia... mais um ponto para a versatilidade do
Metrosideros, que não dispensa a ida ao cabeleireiro para uma conveniente recepção às abelhas!!!
António Marques - FRUTERCOOPJoaquim Pifano - ADERAVIS