21 julho, 2010

Apicultura na Ilha Terceira - AÇORES

Sexta-feira, 4 de Junho de 2010, acompanhados pelo Engº António Marques, técnico de apicultura da FRUTER/FRUTERCOOP, fomos finalmente realizar a “expedição apícola” que há muito almejávamos: um passeio pelos apiários e paisagens “apícolas” da Ilha Terceira – AÇORES.
Não precisamos de muitos quilómetros para perceber a forma equilibrada como os apiários, colmeias e abelhas “encaixavam” na paisagem Açoriana. As colmeias em madeira de Criptoméria sem qualquer pintura, harmonizavam-se perfeitamente com as sebes de Incenso, os muros de pedra ou com os prados de trevo sempre verdes.

A madeira de Criptoméria apresenta uma série de vantagens sobre o Pinheiro para a construção de colmeias, pelo menos no ambiente húmido do Arquipélago dos Açores. Segundo os apicultores da região, enquanto uma caixa de madeira de Pinheiro pouco mais dura que 4 ou 5 anos, a de Criptoméria pode chegar aos 20 anos ou mais.
Por outro lado é muito mais leve o que só facilita o maneio.
A sua conservação é feita com um banho de parafina em fusão para impermeabilizar. Regista-se um único senão: madeira demasiado “mole” para resistir ao formão do apicultor sempre que queremos separar as alças ou a prancheta, podendo até abrir buracos. Para o evitar devemos executar tal tarefa com cuidado.

No entanto compensa largamente e é o material mais utilizado.
Trata-se de uma árvore (Conífera) muito abundante na ilha, sobretudo em altitude, o que a poderá tornar numa importante fonte de matéria prima para o fabrico de colmeias, até porque já é muito utilizada na construção de mobiliário.

Havendo obviamente quem também pinte as colmeias, e se julgam que de alguma forma “chocam” com a paisagem vejam as próximas imagens:

Continuando a deambular pelos campos e jardins, encontramos muita e variada flora com interesse apícola, ou não se encontrassem as flores constantemente visitadas por abelhas:

O trevo é uma planta cuja abundância pelos prados o tornam numa importante fonte de néctar para o mel da região. Curiosamente víamos mais abelhas no trevo em jardins e rotundas, talvez houvesse outras alternativas no campo…

Muito curiosa esta, lembra o Rosmaninho, tratando-se no entanto de outra planta da mesma família (Labiadas):

Agora uma vegetação rasteira, muito abundante, cobrindo muros, canteiros e terrenos incultos, muito fácil de propagar e com as pequenas flores brancas sempre cobertas de abelhas:

O já nosso conhecido Metrosideros excelsa,

E a excelente fonte de néctar para o mel de Incenso:

Esta vegetação, muito característica nas Ilhas dos Açores, chega a cobrir vastas áreas, onde o coberto vegetal ganha um relevo muito curioso e característico: visto à distância lembra a pele de um elefante. Infelizmente só visitamos a região muito depois do período de floração.

Esta não!!! Uma planta da família das Solanáceas, normalmente tóxica e evitada pelas abelhas, apesar da sua abundância:

Noutro local, descemos por uma azinhaga em direcção ao mar e com imensa vegetação de ambos os lados. Saltamos uma cancela e frente a um característico apiário encontramos um enxame de grandes dimensões:

Chamou-me a atenção o movimento de abelhas frente a um núcleo de onde terá saído o referido enxame. Na volta tinha acabado de sair e ainda havia algumas “indecisas” entre o “tu vais e eu fico…”
Uma boa mão cheia delas pousadas numa folha denunciavam qualquer coisa de interessante, ou não estivessem mais de uma dúzia de abelhas em rosário de volta de um ponto central:

Foi quando a “destacada” figura central se moveu pela folha e percebi o motivo de tanto interesse da plebe:

Uma bonita rainha, de grandes dimensões, passeava-se pela folha de uma Solanaceae, como habitualmente o deve fazer sobre os quadros de criação. Estávamos a mais de 1500 km do Entroncamento, pelo que ainda fiquei mais absorto pela presença da dita “mestra” no exterior da colmeia e ainda por cima sobre uma folha.
Só depois de aturada observação das fotos é que percebi porque razão a rainha não enxameara com o resto das abelhas: tinha uma asa cortada! O que parece ser um bom método para evitar a desagradável perda de abelhas da enxameação, muito utilizado na Ilha Terceira.
Fica apenas a dúvida para o caso de ter aparecido algum predador, mas esta “safou-se” como o soubemos mais tarde por parte do apicultor.
Noutro apiário, o Eng.º Gardete deu-nos uma lição de apiterapia, com um método controlado de aplicar a apitoxina, de modo a aumentar a circulação sanguínea e diminuir a dor no local. É caso para perguntar: e a dor da picada? Como acabar com ela agora???



Repare-se na forma engenhosa como a abelha foi presa num pequeno raminho de modo a localizar a picada de uma forma quase cirúrgica… Vejam como aumenta o rubor e o inchaço à medida que o tempo passa.
Outra das particularidades da apicultura da Terceira refere-se à grande quantidade de abelhas híbridas que se encontram nos apiários em geral. Decerto pelas importações de Apis mellifera ligustica aliada ao espaço restrito da ilha tenham levado a esta alteração no pool genético.
De qualquer forma não ouvi qualquer crítica por parte dos apicultores a esta situação. O carácter agressivo destes híbridos deve estar muito controlado pelos apicultores através da selecção constante desse factor genético-comportamental. Encontravam-se no entanto muitas colmeias (e apiários) onde apenas se via a característica abelha negra.

Também permanecemos sem máscara em alguns apiários e nem por isso se verificaram ataques.
Mas nem só de abelhas nos ocupamos na “expedição”, aparecem sempre algumas surpresas dignas de registo. Tal como este Bombus que apesar da concorrência apícola não prescindiu dos deveres de polinizador:

Ou a pequena ave que não deixou de comer enquanto posou para a fotografia:

Finda a viagem apetece “esquecer” tudo… apenas para voltar atrás e repetir a volta…


ALGUNS DADOS REFERENTES À APICULTURA DA ILHA TERCEIRA:

ASSOCIAÇÃO/COOPERATIVA: Fruter/Frutercoop
IDADE: 20 Anos
IDADE DA SECÇÃO DE APICULTURA: 14 Anos
Nº DE APICULTORES ASSOCIADOS: 18
EFECTIVO TOTAL DOS ASSOCIADOS: 576 Colmeias
PRODUÇÃO TOTAL DE MEL: 4500 Kg
MEL DOP "MEL DOS AÇORES": 1000 Kg
PROJECTOS DE FUTURO: Melaria/Estabelecimento e Mel MPB

Planta Apícola (desconhecida)...

Planta com interesse apícola enviada pelo Octávio Rodrigues.
Caso alguém a conheça/consiga identificar, agradeciamos a informação.
Também já a vi muitas vezes (não sabia que era visitada por abelhas) mas não conheço o nome...

16 julho, 2010

Apicultura na Serra da Estrela

Há muito que trocava mails com o Ricardo de Jesus, acerca da apicultura e sobretudo da sua criação de rainhas. Durante esse tempo o Ricardo falava-me das características apícolas da Serra da Estrela, mas só o pude visitar aquando do segundo aniversário do Forum de Apicultura, em Seia no dia 22 de Maio de 2010.

Tem o apiário na Senhora do Desterro – S. Romão, Concelho de Seia, um local muito agradável, a meia encosta, com pinheiros e carvalhos a emoldurar as colmeias.
Abrimos umas quantas caixas, bem povoadas, onde o Ricardo, orgulhoso, me mostrou algumas rainhas marcadas e com muito bom aspecto, a prová-lo estavam os quadros cheios de criação.

Desde há alguns meses que optou por criar as suas próprias rainhas, tendo construído uma Colmeia Criadeira Horizontal para o efeito:

A colmeia “funciona” com duas câmaras laterais com rainha e uma câmara central, isolada por grades excluidoras de rainhas, onde coloca o quadro porta cúpulas. O princípio deste método baseia-se no fornecimento constante de amas que acedem à câmara central a partir das colmeias laterais. Desta forma é possível produzir rainhas continuamente.

A possibilidade de colocar alças e produzir mel nas câmaras laterais (com rainha) é outra das vantagens deste método, basta para tal que se construam tampos independentes.

Uma vez produzidas as rainhas, entra “em cena” outro equipamento construído pelo Ricardo: um nucléolo de fecundação com seis mini-quadros, sendo um deles um quadro alimentador:

Segundo o apicultor, este nucléolo apresenta uma boa funcionalidade. E de facto, nada podia ser mais verdadeiro: uma jovem rainha recem fecundada fugia apressada sobre o quadro.
Porque digo “recem fecundada” se nem sequer tinha postura?
Resposta: A rainha ainda trazia consigo os “despojos” do acasalamento, o aparelho sexual do zangão encontrava-se na parte terminal do abdómen da abelha, como prova da sua nova condição de fecundidade.

Nunca tinha presenciado tal facto, apesar de muito ter lido e ouvido sobre o assunto…