12 agosto, 2010

A Colmeia de “Noé”…

Por Joaquim Pifano e Ricardo Pinto

Se perguntarmos a 100 pessoas quais os bichos que vivem numa colmeia, decerto que 101 responderão objectivamente: Abelhas!!!
Se nos inquiridos houver apicultores, estes completarão com: “abelhas e varroas…”, e traças, enfim… por vezes ratos, formigas… Afinal? A colmeia alberga uma colónia ou uma comunidade? Diria até um autêntico ecossistema…
Não há apicultor que não tenha já aberto uma colmeia e encontrado entre a tampa e a prancheta um ninho de vespas, aranhas, escaravelhos e todo um rol de bicharada que só tem paralelo nas Fábulas de La Fontaine. Também não há apicultor que não cumprimente estes “visitantes” com um forte abraço entre o formão e a prancheta, deixando os bichos “derretidos” com o caloroso cumprimento.

O que fazem estes bichos na colmeia ou nas proximidades?
Alimentam-se, protegem-se, abrigam-se, nidificam, etc…
Para nosso benefício ou das abelhas: nada, ou muito pouco.
Mas na maioria das vezes são puramente comensais, nem aquecem nem arrefecem, não fazem bem nem fazem mal, há semelhança dos saudosos comprimidos “melhoral”. Mas o apicultor não está para contemplações: primeiro dispara e só depois pergunta, mata. Não tem quatro asas, seis patas, corpo listado, ferrão e produz mel, a conclusão é simples: está a mais, fora com ele!

Senhor Apicultor,
(vem aí crítica fundamentada…)

Desde há muito que a apicultura, as abelhas e os apicultores gozam de uma merecida fama (ainda sem proveito) acerca da nossa responsabilidade e importância ambiental. É demais reconhecido o papel das abelhas no equilíbrio natural, nomeadamente na polinização, reprodução e manutenção do coberto vegetal. Que culmina obviamente na produção de Oxigénio, consumo de Dióxido de Carbono, produção de alimentos e em última (e mais importante) análise: na nossa sobrevivência.
Ainda há a famosa frase de Albert Einstein acerca das abelhas e dos humanos, que o mais comum dos mortais ultimamente sabe de cor e salteado.

E aquela outra frase famosa acerca da esposa do Imperador Romano?
À mulher de César não lhe basta sê-lo, tem de parecê-lo
Se substituirmos o “Á mulher de César” por “Os apicultores como protectores do ambiente” resulta numa advertência também ela interessante…

Mas que falta fazem as formigas? As larvas de mosca?
Dois bons exemplos! Parecem escolhidos de propósito, ou não fosse eu a decidi-lo. Se não fossem esses animais, a vida na terra estaria impossibilitada pelo acumular de cadáveres e detritos, pois estes são alguns dos grandes responsáveis pela reciclagem da matéria orgânica.
Todos os outros animais que nidificam ou apenas se protegem na fortaleza que são os nossos apiários e colmeias, fazem parte desse sistema maior e muito complexo que é o “Equilíbrio Natural”. Onde cada componente é tão importante como todos os outros, ainda que essa importância não seja evidente ou esteja comprovada.
Se eles existem é porque fazem falta…

Já estou a ver os visitantes mais “vivaços” a pensarem: “gostava de saber como tu reages quando abres as colmeias e entre o zoológico todo que estás para aí a vender encontras as abelhas carregadas de varroa…”

Tenho duas respostas, mas acreditem que também reajo mal:
Se há quase duas décadas para cá que as abelhas são afectadas pelo Varroa destructor, havendo abelhas e varroas há milhares de anos, é porque decerto algum desequilíbrio provocou tal situação. Resta identificá-lo e combatê-lo.
Nesta resposta era suposto eu provar por “A” mais “B” que as varroas também são importantes para alguma coisa, e que decerto hão-de trazer algum benefício… mas vocês sabem a resposta. Ou não ???

Adiante, o tema hoje é mais soft…

Desde os primórdios do montedomel que penso em publicar qualquer coisa sobre os visitantes menos desejados das nossas colmeias, ainda assim indesejados… e que encontramos logo ao abrir do tampo.
A preguiça de levar a máquina fotográfica para o apiário, motivada pela dificuldade em retirar o própolis dos botões, fez com que o projecto fosse sendo sucessivamente adiado. Até ao dia em que numa visita ao blog Abelhas e Mel, acerca das vespas sobre as quais versava um dos post’s, me ocorreu de novo o tema.
Resolvi deixar um comentário onde sugeri que se podia desenvolver um trabalho curioso sobre os bichos que “convivem” com as abelhas. Comprometendo-me assim publicamente não havia como voltar atrás…
Não tardou uma semana sem que o Ricardo Pinto (Blog Abelha Preguiçosa) me presenteasse com uma série de fotos que coleccionara sobre o tema em causa. Algum tempo depois mais umas dúzias de imagens de bichos invasores de colmeias.
Resolvemos então fazer a publicação em conjunto nos dois blog’s, esperando com isso sensibilizar os apicultores para a importância ambiental (agora acrescida) das nossas colmeias servindo de refúgio a uma infinidade de seres vivos… e até às abelhas!!!

Agora os bichos…

Os sardões ou lagartos e as lagartixas ou sardaniscas…

Estas já são um clássico à sombra das colmeias, onde se demoram à espera de uma abelha mais incauta e … já está! Menos uma!!! Mas é apenas menos uma em largos milhares e a nossa herpetofauna está sempre em perigo.
Os insectos…
Estes ainda pertencem à família, em particular as vespas e as formigas. São os mais comuns e abundantes, mas de qualquer forma: todos perseguidos pelo apicultor:

A vespa dos ninhos de papel, como não passam o Inverno em colónia, apenas sobrevivem as fêmeas férteis, procuram locais quentes como as colmeias para se abrigarem, apenas pedem um pouco de calor.

Esta vespa solitária já não quer só o calor, também solicitou companhia…

Uma abelha solitária. Creio que é ela que constrói os favos coloridos à base de ervas mastigadas, que enche posteriormente com pólen.

Estes favos já não estão muito coloridos, pois a massa vegetal já se decompôs, mas quando estão verdes fazem um bonito contraste com o laranja do pólen.

As formigas, as primas sem asas, quando em grande quantidade também provocam estragos. Houve quem ganhasse fortunas a vender suportes de colmeias com reservatório para óleo queimado e assim afugentar as formigas.

Os lepidópteros ou borboletas, quase sempre inofensivos, aparte a Acherontia atropos (borboleta caveira), tal como a conhecidíssima traça:



O Fasmídeo ou bicho-pau, muito utilizado em estudos de genética, nunca me pareceu que este simpático bichinho também visitasse as colmeias…
De qualquer forma, o Ricardo crê que este caiu para dentro da colmeia quando inclinou a prancheta.

O orifício de um abelhão.

A “rapa” ou bicha-cadela, o aspecto assustador pouco corresponde à sua actividade…

Um coleóptero. O aspecto metálico e as cores iridescentes fazem deste animal um dos mais bonitos da nossa fauna.

Um curioso casulo, talvez se trate de uma ninfa de borboleta.
A larva não deve produzir seda e desenrasca-se com uma cobertura de pauzinhos… segundo o Ricardo, na região dele há uns parecidos muito bons para a pesca.
A mim lembram-me uma história engraçada:
Há uns anos atrás, quando visitava apiários dos associados na Serra de S. Mamede, passava perto de um daqueles bares isolados, muito coloridos e com uma luz vermelha sobre a porta de entrada, chamava-se "o casulo".
Desde então e sempre que vejo uma destas estruturas, "uma borboleta rodeada de pauzinhos" lembro-me logo do dito bar...

O meu preferido: ovos de insecto.
À primeira vista parece que o Ricardo consertou a colmeia aparafusando-a no emalhetado, mas não se trata disso. O engenhoso insecto fez uma postura em forma de hexágono, o que nos deixa a pensar sobre a preferência da Natureza por esta forma geométrica.

Os aracnídeos.

O aspecto simpático de qualquer um deles deixa logo adivinhar as respectivas intenções…

Os ácaros, também são aracnídeos: basta contar-lhe as patas e se encontrar quatro pares é disso mesmo que se trata, primos da Varroa, não sei se os da foto são amistosos ou é mais uma que aí vem…

Uma toca de coelho. Já li qualquer coisa sobre a preferência destes e doutros pela proximidade do apiário, não sei se terá algo a ver com protecção…

Esta “estória” poderá ter continuação, basta que nos enviem fotos e relatos de outros animais que vivam nas colmeias ou na proximidade dos apiários.

À laia de epílogo:
Nunca tive coragem, durante a catequese na infância, de perguntar ao Padre como é que Noé fez no caso das abelhas. Nem sei sequer se já alguém se preocupou com o assunto, mas é do conhecimento geral que não se pôde limitar a levar só um zangão e uma rainha como nos outros animais.
Uma certeza tenho eu no entanto: independentemente do número vieram “carregadas” de Varroa.

03 agosto, 2010

MACMEL: Eficácia dos acaricidas contra a Varroose

No passado fim de semana de 17 de Julho lá nos fizemos à estrada para percorrer os trezentos e noventa e tal quilómetros que separam o Monte do Mel de Macedo de Cavaleiros. Um calor abrasador e centenas de quilómetros de estrada em obras, valeu o facto do governo ainda não ter chegado a um acordo sobre as portagens nas SCUT’s …
O que valeu ainda mais foi o facto de termos a simpática família Rogão à espera, entre muitos outros amigos.

Tenho visitado centenas ou mesmo milhares de apiários, mas nunca tinha estado num onde havia quase mais apicultores que abelhas. Não é que as colmeias estivessem fracas, muito pelo contrário, o facto é que os participantes eram imensos: 130 apicultores de todo o país que acorreram a mais uma formação promovida pela MACMEL.

Não era para menos, o que estava em jogo nesse dia interessava a todo o sector apícola: testes de eficácia de produtos acaricidas para combate à Varroose, além da aplicação correcta dos mesmos e o uso de estrados sanitários. Segundo as palavras da própria organização: “a sede de informação e conhecimentos acerca deste assunto é tanta que veio gente de todo o país participar (…) iniciativas que deviam ter origem nos serviços oficiais, nomeadamente na Direcção Geral de Veterinária…”

Desta feita foram preparadas antecipadamente as colmeias a testar com:
Bayvarol
Thymovar
Apistan
Apivar
Hive Clean
Timol em Placas
Acadrex
Klartan
Ácido Fórmico

Os resultados: maior mortalidade de Varroas provocada pelo Bayvarol. Já os piores resultados ocorreram nas colmeias onde se usaram os medicamentos à base de Timol, nomeadamente o Apiguard e o Thymovar. Referimo-nos às condições de Mirandela.

O método passou por contar o número de ácaros de Varroa destructor em cada estrado sanitário, mortas pelas diferentes formulações testadas, duas colmeias para cada medicamento: com e sem estrado sanitário.


Foi precisamente enquanto o Francisco Rogão fazia os testes de contagem de varroas, para sabermos a infecção inicial de cada colónia, que me apercebi da agitação entre os apicultores presentes e de determinado burburinho que sobressaía do habitual zumbido das abelhas:
Um representante da Direcção Geral de Veterinária, não inscrito nem esperado no evento, surgiu no local da formação com instruções para boicotar os testes com produtos não homologados. A sua presença foi “notoriamente” discreta, apesar do equipamento amarelo que contrastava com os restantes cento e tal brancos.
Fui inclusivamente abordado por um dirigente associativo da região Norte que fez questão que se publicasse o seguinte: “O que se está aqui a fazer hoje é deveras importante para a apicultura nacional, estamos a tentar salvar as abelhas dos produtos homologados sem eficácia e os serviços oficiais aparecem para impedir esse trabalho, quando deviam ser eles próprios a organizar tais iniciativas

É minha opinião que não deviam ser comercializados nem utilizados quaisquer produtos clandestinos, por razões que de óbvias nem vale a pena adiantar muito mais. Mas quando ouvimos um dirigente associativo, de uma entidade cuja idoneidade é do conhecimento geral afirmar que “…estamos a tentar salvar a apicultura nacional dos produtos homologados sem eficácia (acaricidas para a apicultura)”, é porque algo de grave se está a passar.

Desde há uns bons anos a esta parte que a eficácia dos acaricidas é um assunto pertinente e polémico, sem que no entanto se tenha chegado a alguma conclusão, pelo menos que indique para cada região qual o produto mais eficaz. Pese embora o facto de o Programa Apícola Nacional continuar a gastar uma boa fatia do seu orçamento em medicamentos, na ausência de resposta para esta questão…
Aparte o referido incidente, a formação encheu as medidas a todos os participantes, e divertimo-nos como só se divertem mais de cem apicultores em simultâneo num apiário.

Continuando a sessão:
Os testes de contagem de varroas, nomeadamente da aferição do grau de infecção inicial antes da aplicação do medicamento tornam-se bastante mais fáceis, rápidos e expeditos de executar quando se recorre a um sistema de filtros que permitam separar as abelhas das varroas e assim facilitar as contagens:

Ver: http://montedomel.blogspot.com/2008/08/diagnstico-da-varroose.html

Seguiu-se o almoço convívio onde os apicultores presentes tiveram oportunidade de degustar a excelente gastronomia transmontana e sobretudo dar largas à muito nossa vontade-de-falar-de-abelhas. Tanto que desta vez não ouvi ninguém queixar-se da falta de tempo para a conversa informal e a tertúlia apícola.

Depois do almoço, o Colóquio onde se debateram os temas destacados ao longo da manhã. Sem qualquer surpresa o tema que reuniu mais (des)créditos foi mesmo a inesperada visita da DGV…
Mais uma vez vieram à baila perguntas inconvenientes como: porque razão os produtos veterinários para a apicultura (e não só) são muito mais baratos em Espanha que em Portugal? Porque razão produtos homologados em Espanha são considerados clandestinos em Portugal, estando ambos ao países na Comunidade Europeia?
Porque razão as ajudas ao sector apícola necessitam obrigatoriamente de um comprovativo (factura de aquisição dos medicamentos homologados) quando na maioria dos sectores ligados à agricultura tal não se verifica?

A minha conclusão:

Nobody expects the portuguese Direcção Geral de Veterinária…

Entre 1999 e 2010 já tive a meu cargo quer do ponto de vista técnico como de direcção, três associações de apicultores. Período em que não poucas vezes tive de recorrer aos serviços da Direcção Geral de Veterinária enquanto autoridade sanitária nacional para a apicultura.

Assuntos como a própria sanidade apícola directa; entrada descontrolada de colmeias estrangeiras violando todas as regras do ordenamento e que colocavam em risco explorações nacionais registadas; unidades primárias de produção… etc…, motivos mais que justificados em que era necessária a ajuda e presença dos técnicos da DGV, e por isso os convocamos. Nada, contam-se pelos dedos de uma mão (e sobram dedos) as vezes em que os pedidos foram atendidos e os técnicos compareceram.
A última vez, aquando da realização do Avis mellifera 2008, em cujo colóquio era suposto haver uma comunicação sobre o Registo de Unidades Primárias de Produção, solicitamos a presença de um técnico para o efeito e com meses de antecedência. À falta de resposta enviamos um fax e fizemos vários telefonemas para saber o que se passava. Recebi uma lacónica chamada para o telemóvel na tarde da véspera das referidas jornadas, a informar que não havia nenhum técnico disponível…

Face ao exposto e na tensão gerada pela chegada da técnica da DGV de Trás os Montes ao local da formação promovida pela MACMEL, só me ocorreu um famoso sketch humorístico protagonizado pela Monty Python's na conhecida série The Flying Circus: onde se celebrizou a expressão “nobody expects the spanish inquisition”…



Cortesia You Tube e Ricardo Pinto

Agora (infelizmente) muito a sério

Não querendo de modo algum apontar o dedo à funcionária da DGV que esteve presente no local, cuja simpatia, discrição, sentido de responsabilidade e profissionalismo foram notados pelos presentes. Quero no entanto deixar uma história, que “peca” por… ser verdadeira e muito recente:
Há poucos anos atrás, ainda havia agricultura e agricultores no Alentejo, numa determinada acção de fiscalização do Ministério da Agricultura (já não me recordo a que sector), um técnico agrícola e meu amigo, chamou a atenção aos referidos fiscais. Que tivessem cuidado, apesar de apenas obedecerem a ordens, que os agricultores em causa tinham outras fontes de rendimento, onde apesar dos magros lucros conseguiam e podiam sobreviver noutra ocupação, enquanto que eles dependiam de facto da “existência” da agricultura.
Não tardaram muitos meses para que a lei dos disponíveis na função pública fizesse as primeiras vítimas: centenas de funcionários do Ministério da Agricultura que por magia da legislação foram tornados obsoletos e como tal dispensáveis. Não era para mais, as pequenas, médias e até grandes explorações agrícolas abandonaram a actividade.
Hoje, quem circule pelo país, verá sem dúvida que a maior parte dos campos estão abandonados, pousios eternos, zonas rurais despovoadas e a triste proliferação de incêndios, mercê dos pastos e matos que cobrem os terrenos incultos.
O técnico agrícola meu amigo encontrou dois desses funcionários do MADRP sentados num banco de jardim, tinham agora o estatuto de “disponíveis da função pública”. Teve no entanto o pudor de não os recordar de uma conversa que eles decerto ainda lembravam.

A apicultura, enquanto parte do tecido económico nacional e há semelhança de todos os outros sectores, é muito necessária à economia nacional, tal como ao ambiente e à sociedade. Para que continue a desenvolver-se e a contribuir para o bem estar geral é necessária a participação de todas as entidades e sectores com ela relacionados.
Precisamos da Direcção Geral de Veterinária para levar os nossos objectivos a bom porto, à qual damos obviamente as boas vindas quando regressar!
Para finalizar, e agora como nas histórias do Asterix, tudo acabou em festa:

Mais uma vez os parabéns à família Rogão pelo excelente acolhimento e simpatia que nos proporcionaram.