
Acabou-se o girassol.
Que saudades do tempo em que a
PAC e a
OMC pouco ou nada influenciavam a nossa agricultura. Um tempo em que cada agricultor semeava o que queria ou pelo menos o que lhe desse melhores possibilidades de produção, respeitando obviamente a rotatividade e a aptidão dos terrenos.
Com esta filosofia sempre havia quem produzisse girassol. Mais nuns anos, menos noutros, mas sempre havia qualquer coisa que garantisse o sustento das abelhas (e apicultores) durante o Verão.
Há cinco ou seis anos atrás, com o fim do “giracídio”, a ausência de incentivos comunitários levou ao fim desta cultura que tanto embelezava os campos. Recordo-me do primeiro Verão sem girassol, em que um agricultor teve a feliz (ou infeliz) ideia de usar algum resto de semente que tinha em armazém e semeou meio hectare. Passei por lá para fotografar as abelhas e cheguei a encontrar mais de uma dezena na mesma flor, “trinta cães a um osso” como se diz na minha terra…
Pouco depois, com a subida do preço dos combustíveis e a alternativa do bio-diesel, nova corrida ao girassol, já sobravam flores para as abelhas. Os combustíveis voltam a baixar (ou não…), o ano passado ainda houve algum girasso mas este ano: nem para fazer uma mezinha…


Em finais de Junho com as elevadas temperaturas:
- Aumenta o perigo de incêndio nas zonas de mato (apiários de Primavera)
- Secam os regatos onde as abelhas bebem
- Riscos da cera derreter e destruir as colónias
- Ausência de qualquer floração para sustento das abelhas…
Acabamos por decidir-nos pela transumância para locais mais próprios para o Verão, sem flora de confiança no destino, mas as alternativas não são muitas. Na realidade até há o cardo e a melada de azinho, mas o girassol dar-nos-ia muito mais garantias.

Uma confissão: o “clique” que este ano me fez “colocar as colmeias às costas” e partir para outro lugar, teve sobretudo a ver com o mau estar que eu próprio sentia com as altas temperaturas. Apesar de ter acesso a variadíssimas formas de me refrescar, a consciência picava-me mais que as abelhas: não suportava imaginá-las sob o Sol escaldante numa apertada e superpovoada caixa de madeira com tecto de chapa…
Graças a um pastor e a um proprietário agrícola amigos, ambos apicultores, consegui um espaço à sombra (quase 24 horas por dia) e junto a um pequeno charco com água de nascente.

Fotografia anterior: tirada ao meio dia, com todas as colmeias à sombra.

Trata-se de um local muito curioso, essencialmente calcário e em cujo subsolo decerto deve passar um caudaloso rio subterrâneo, dada a facilidade e a quantidade com que a água surge à superfície.O tom azul-esverdeado da água é um garante da sua pureza e frescura.
O Sr. Francisco, o pastor, garantiu-me que nas horas de mais calor via uma nuvem de abelhas a pairar sobre o charco. Mais acima era outra nuvem, esta de abelharucos, que aproveitavam para "tirar um petisco..."


E as abelhas parecem corresponder à oportunidade que lhes é oferecida para fazer face ao rigoroso Verão de 2010:





As abelhas quase nunca bebem directamente na água, fazem-no sim sugando a "humidade" na areia ou na lama, mas o calcário ensopado também serve perfeitamente esse propósito. Com mais uma vantagem: o contraste do solo branco é óptimo para fotografar as abelhas que matam a sede...
Cuidado…!!!

Decididamente a transumância e o próprio maneio apícola ficam mais fáceis à noite, principalmente no Verão: as abelhas mais calmas e as temperaturas mais baixas permitem-nos fazer qualquer tarefa.
Este ano a diversão foi tal que o jantar ocorreu às 2:30 horas da madrugada, grãos com bacalhau e um vinho tinto da região. Estímulo que nos levou a colocar as alças em todas as colmeias quando já passava bem das 3:00 horas…


Não é comum abrirmos colmeias com a Lua no firmamento, mas lá que é divertido isso é! As abelhas voam menos, caminham mais, sobem-nos pelos pés, pernas e… dói que se farta!

Estou a pensar seriamente em partilhar toda esta diversão com os visitantes do
montedomel, pelo que os interessados ficam desde já convidados para o regresso das colmeias aos apiários de Inverno/Primavera, o que deverá ocorrer lá para finais de Setembro ou princípios de Outubro.
Ainda assim, continuo a sentir muito a falta do girassol na região. Decerto que este ano as produções vão ficar muito aquém do habitual. Devo no entanto dizer acerca desta cultura que este ano “são poucos mas bons” ou não fosse ter encontrado o seguinte exemplar num jardim em Avis que até já foi notícia num jornal da região:
Fenómeno
Girassol gigante cresceu em Avis
Não é a primeira vez que damos notícia de alguns fenómenos que fariam corar os habitantes do Entroncamento, a terra dos fenómenos. Primeiro uma couve. Seguiu-se uma abóbora e agora é a vez de um girassol que nasceu e cresceu num quintal, em pleno aglomerado urbano na freguesia de Avis, a merecer honras de destaque. O senhor Silva é o obreiro de ter feito crescer um girassol, que chegou aos 5,30m de altura. Um grão que foi tirado ao jantar das caturras torna-se assunto de jornal, depois de ter sido motivo de conversa entre a família e os vizinhos. Num intervalo de três dias o girassol - que segundo a wikipédia foi domesticado pelo homem por volta de 1000 anos a.C e pode atingir os 3 metros – «cresceu cerca de 40 cm». Ainda segundo este sítio na internet, «na Hungria, acredita-se que a semente do girassol cura infertilidade, e sementes colocadas na beira da janela, em uma casa onde exista uma mulher grávida, o filho será homem». O filho do senhor Silva, Hélio Silva, surpreendido com altura do Helianthus annuus pesquisou na internet e encontrou «uma situação semelhante, numa notícia de um girassol com 5,20 metros». Temos fenómeno.
Cortesia: Jornal A Ponte, Agosto de 2010, João L. Ruivo