Esta transição entre locais e floras distintos justifica-se não só pelos benefícios apícolas directos em termos de disponibilidade de néctar e pólen, como também numa tentativa de redução dos riscos de incêndio.
Regra geral, as pastagens de Primavera ricas em Estevas (Cystus sp) e Rosmaninho (Lavandula sp.) pecam por uma extrema secura e pela abundância de resinas durante o período estival, daí o forte risco de incêndios, dos quais importa afastar as colmeias.
Nesta estação, antes de regressar às zonas de mato, tenho por hábito fazer a limpeza e manutenção dos apiários, nomeadamente a remoção de pastos e outros combustíveis que além de potenciarem os fogos, servem ainda de esconderijo a predadores, dificultam a nossa mobilidade e ainda podem impedir a normal orientação e circulação das abelhas.
Há dois anos, no dia 29 de Outubro, um incêndio provocou importantes baixas num apiário da região, pelo que não se deve facilitar em matéria de prevenção.
Para tal costumo remover todas as estruturas de suporte das colmeias como vigas de cimento ou madeira e blocos de betão, para que a roçadora ou a enxada e ancinho tenham melhor acesso a todos os recantos. Por outro lado também importa não esquecer as regras de segurança para operar com estes equipamentos de corte.
É curioso como até há poucos anos me ria à socapa de alguns apicultores que quase soterravam os apiários sob uma pilha de pedras, para não falar no incómodo em removê-las sempre que queríamos aceder ao interior das colmeias. Veio então o dia, e o vendaval, em que andei umas boas dezenas de metros a resgatar tampos (e até pranchetas) espalhadas pela encosta…
Qualquer dia “sai” um post sobre as observações que tenho feito das diversas modalidades de ocultar as colmeias da intempérie, dos amigos do alheio e doutros imprevistos…
Se por um lado é estranha a visão de um apiário muito limpo e arranjado, mas ainda sem colmeias, por outro transmite-nos uma sensação de ordem e paz aquela meia dúzia de metros quadrados “humanizados” no meio do mato. Lembram as brincadeiras que fazíamos na infância, a construção dos nossos castelos, quartéis-generais ou a fundação de uma qualquer cidade antiga, e no fundo não é mesmo disso que se trata?
Gosto de me deter por ali após esse trabalho (até porque é extenuante), as cores vivas do Outono e os cambiantes de luz provocadas pelas nuvens de formas bizarras, que sempre surgem nesta estação, criam uma atmosfera muito especial.
Mas as coisas não ficam por aqui, falta a transumância, a apicultura nómada, à noite há que resgatar as colmeias das várzeas e trazê-las para as encostas, onde passarão o Inverno. Desta vez e conforme o convite feito há meses atrás, o António Sérgio veio passar o fim-de-semana connosco e deu-nos uma preciosa ajuda.
E de facto a ajuda era mesmo necessária, uma lavoura temporã no terreno onde tinha as colmeias cortou-me o acesso normal, pelo que tivemos de as passar por cima de uma vedação. Não houve nenhum drama, a camioneta encostou junto ao apiário e o carregamento não diferiu muito do habitual…








