22 outubro, 2014

... ainda a Vespa crabro

Este assunto nunca está encerrado.

Agora foi porque recebi uma série de fotos enviadas pelo meu amigo Jorge Tiago, fotos essas que registam alguns aspectos comportamentais menos conhecidos destas estranhas vespas.

Começa logo pelo facto do ninho ter sido construído no exterior, no tronco de um Sobreiro, quando sabemos que é habitual fazerem-no em tocos ou buracos mais protegidos da intempérie.

Pouco conheço da biologia/ecologia da espécie, mas os únicos ninhos completos que vi, retirados um de um toco de árvore e outro do interior de um cortiço, não tinham a protecção exterior em fibra vegetal como a da imagem acima. Apenas constroem os discos de alvéolos sobrepostos e ligados por pilares.

Talvez quando optem por construir no exterior, ou não tenham alternativa (?), envolvam os alvéolos com essa protecção extra. Não deixa de ser fascinante como elas avaliam as condições disponíveis e alteram a sua rotina para um comportamento mais elaborado. Basicamente são conhecimentos, habilitações, que possuem mas não utilizam, reservando-os apenas para quando necessários.
Ou então, o que é bem provável, essa capa de celulose exterior terá sido removida acidentalmente nos ninhos retirados de buracos que observei.

Na imagem anterior é bem notória a diferença entre os indivíduos da colónia, nomeadamente nas dimensões e na pigmentação dos anéis. Já tinha percebido essa diferença quando fotografei as Vespas crabro para o último post.

Os insectos de menor dimensão não têm os anéis negros até à extremidade do abdómen, como os maiores, mas mantêm no entanto as manchas em forma de gota. Se observarem a primeira imagem do post anterior (O Ataque da Vespa crabro) nota-se que essa vespa também tem poucos anéis negros mas apresenta manchas acinzentadas e sem forma padronizada na faixa amarela dos anéis.

Não sei se tais diferenças se devem a diversas castas ou funções dentro da colónia, as castas com diferente morfologia são mais comuns nas formigas, talvez até dimorfismo sexual, possivelmente as menores serão obreiras e as maiores as fêmeas férteis que irão sobreviver ao Inverno para fundarem novas colónias no próximo ano…

As referências apontam para várias raças geográficas ou subespécies de Vespa crabro, talvez isso justifique as diferenças na pigmentação de colónia para colónia.

Larvas de Vespa crabro nos alvéolos

Na imagem anterior uma enorme larva que poderá ter caído acidentalmente do ninho, o que parece pouco provável, ou talvez expulsa pelas adultas por qualquer razão sanitária. Tal também se poderá dever à proximidade do período frio e as vespas eliminem todos os indivíduos poupando apenas as fêmeas e machos férteis. As abelhas fazem o mesmo com os zangãos nesta estação, por motivos de economia de reservas face à inutilidade daqueles no período que se avizinha.

O Jorge Tiago chamou-me a atenção para o facto de o solo debaixo do ninho apresentar uma mancha escurecida, possivelmente devido à enorme quantidade de dejectos líquidos que as vespas expulsavam com alguma frequência:

Mérito e paciência do Jorge que conseguiu fotografar as vespas no preciso momento em que uma delas expulsou um abundante esguicho.

Já fotografei abelhas rainhas com um ovo na extremidade do abdómen, outra vez consegui uma que regressava do voo nupcial onde se via perfeitamente os ganchos do pênis do zangão na parte terminal do abdómen. Fotografar uma vespa em plena evacuação de líquidos fisiológicos foi mesmo uma grande façanha do Jorge Tiago!

Há uma árvore pimenteira no jardim frente à sede da ADERAVIS, sob a qual eu estaciono o meu carro. Todos os dias nesta estação eu vejo imensos polinizadores a visitarem as flores e bagas dessa árvore, abelhas do mel, abelhas solitárias e várias espécies de vespas entre as quais a Vespa crabro. Percorrem toda a copa num voo ruidoso, por vezes arremetem contra um cacho de flores, não sei se para caçar outro insecto, mas já vi uma delas partir com outra vespa menor nas patas. Suponho que também colectam néctar para a sua própria alimentação.


Que pena não conhecermos suficientemente a espécie, decerto que poderiam ter muita utilidade no combate a insectos nocivos nas lutas biológicas. Volto a frisar que se trata de uma animal formidável!

2 comentários:

Jorge Tiago disse...

Boa noite
Como dizes, também suponho que colectem néctar ou outra secreção de algumas plantas, pois na procura pelo ninho deparei-me com muitas destas vespas junto a plantas e a pousar aqui a ali sem que outros insectos lá estivessem, também as vi a comerem figos dias a fio incessantemente, por isso, suponho que o açúcar fará parte da sua alimentação.

Um forte abraço
Jorge Tiago

Anónimo disse...

Olá Joaquim
Concordo contigo. São um insecto magnífico, extremante adaptado ao seu meio ambiente. Infelizmente a crabro corre o risco de ver os seus habitats seriamente afectados pela velutina. É o que está a acontecer na Coreia, onde a velutina, que também lá é uma espécie exótica/invasora, está aumentar as suas populações, aparentemente à custa da crabro e da mandarina.

Julgo que a diferença de tamanhos e cores entre as crabro se devem ao facto de umas serem fêmeas e outras machos.
Um bom 2015 para ti e para todos os leitores do teu blogue.

Também me parece que o néctar/mel fazem parte da sua dieta dado que as vi várias vezes em cima de opérculos resultantes da cresta. Foi pena não ter possibilidade de fotografar a cena. Esses opérculos estavam a ser limpos por abelhas, vespas, abelhões e várias crabro, lado a lado, sem sinais de temor, na mais completa tranquilidade.
Eduardo Gomes