13 março, 2015

XX Congresso de Apicultura - Belém do Pará - Brasil - Novembro 2014

Desde a primeira vez que estive na Amazónia não passa um dia sem que eu tenha de arranjar um bom argumento para não voltar para lá de vez… Em Novembro passado ou me faltaram os argumentos ou aliando a isso o facto de o XX Congresso Brasileiro de Apicultura se realizar em Belém do Pará fiz as malas e lá fomos.

O Norte do Brasil não é das regiões do país onde a apicultura está mais desenvolvida, pois o tipo de vegetação não é muito propícia às abelhas Apis, mas sim aos Meliponideos, no entanto há aí imensos apicultores com grandes explorações e a desenvolver trabalhos interessantíssimos.

Mais importante ainda foi a excelente oportunidade de rever amigos que já conhecíamos, tal como conhecer novos técnicos e apicultores e como eles abundavam: de facto o Brasil é um país imenso, o evento conseguiu reunir uns largos milhares de participantes.

1. Sobre as palestras

Não assisti a muitas, só por lá andei um dia e meio, mas retive as pérolas do que ouvi sobre a Sanidade Apícola, nomeadamente acerca dos OGM e dos Agrotóxicos, e cujas conclusões passo a partilhar:

- OGM sem efeitos comprovados sobre as abelhas.
- São benéficos porque se usam menos pesticidas. (para rir…)
- Agricultura com OGM resulta em pastos pobres para as abelhas (por causa das monoculturas e da restante vegetação ser dizimada por herbicidas, visto a cultura ser resistente).
- Rejeição do mel pelos mercados.
- Europa permite o comércio de mel com baixa percentagem de pólen OGM.

… e se isto não foi encomendado, não encontro outra razão para se ventilarem tais barbaridades.

Acerca dos Agrotóxicos (Neonicotinóides) o panorama não foi muito diferente:

Muito resumidamente o IBAMA, seguindo o processo habitual de registo e avaliação de agrotóxicos, concluiu que os Neonicotinóides eram prejudiciais para as abelhas e sensatamente proibiu o seu uso. Os agricultores contestaram tal decisão, pressionaram o IBAMA que resolveu desencantar um meio-termo. Resultado: para algumas culturas manteve-se a proibição e para outras apenas se permitiu o seu uso fora do período de floração e visitas das abelhas. Seguiram-se outras pérolas onde se tentou demonstrar que os Neonicotinóides não estão relacionados com o CCD e que o pudor me impede de aqui reproduzir.

Ora estas medidas parecem algo concertadas com as votadas aqui na velha Europa, com a agravante de em Portugal a ministra da agricultura tentou a todo o custo impedir votando contra a proibição de tais pesticidas, felizmente que estava isolada (ou quase), sina que há muito contempla este triste e Ocidental rectângulo, desta vez para nossa felicidade.

Ficou por fazer a pergunta sobre se a “vontade” dos agricultores têm influência na toxicidade dos pesticidas e por assim dizer na saúde dos humanos e demais seres vivos, mas estava num lugar demasiado bonito para ficar por ali a ouvir disparates destes e abandonei o colóquio.

2. Sobre a Exposição de Equipamentos e Utensílios Apícolas

Confesso que esperava mais do espirito inventivo e criativo dos brasileiros que tantas e tantas vezes nos surpreendem com fantásticas e úteis novidades, seja na apicultura ou noutros sectores. O que não invalidou que não nos tivéssemos deparado com utensílios e conceitos muito pertinentes.

Foi deveras interessante percorrer o espaço dos stands onde a imensa simpatia dos participantes nos proporcionou momentos de muita alegria, e porque não dizer que encontramos equipamentos e ideias práticas cuja aplicabilidade devia ser tida em conta pelos nossos apicultores.

Repara-se no pormenor do enorme fumigador, muito apropriado para a agressividade das abelhas africanizadas. Já os tampos das colmeias, também protegidos com metal, parecem ser algo simplificados, faltando-lhes as bandas laterais o que me parece torna-los menos seguros em caso de ventania, nada que não se resolva com uma pedra em cima, assim faço eu.

Colmeias equipadas com dispositivos para o Própolis

No campo das colmeias, o modelo utilizado é maioritariamente a Langstrooth, quase sempre adaptadas com os dispositivos laterais para a colecta do própolis ou pelo menos naquelas cuja exploração se presta a esse fim.

Outras havia, equipadas com alças capta-pólen, ou então com essa função no estrado, o que faz todo o sentido numa região famosa pela sua humidade. Parece por isso ser mais viável proteger as gavetas de pólen no interior da colmeia, sempre evitam alguma chuva repentina:


Gostei bastante dos equipamentos de inspecção de colmeias, vulgo fatos de apicultor. Encontrei desde os muito semelhantes aos nossos, com tecidos leves e frescos, arejados, e que permitem um trabalho mais confortável.

Chamou-me no entanto a atenção outros macacões esverdeados, que me pareciam destinados a apicultores “de barba rija”! 
Aquilo impressionava pela rudeza e aspecto grosseiro do tecido. Devo mesmo acentuar o “grosseiro”, pois mais pareciam confecionados em lona de camião e forrados por dentro com uma espécie de feltro negro. Nem abelhas mutantes com ferrão de aço deviam conseguir penetrar aquela verdadeira muralha de tecido, o pior é para quem tenha de o usar naquelas latitudes quentes e húmidas. Mais uma vez a criatividade dos nossos irmãos além atlânticos resolveu o problema: um orifício protegido por uma patilha de velcro permite a introdução de uma palheta para a ingestão de água ou de um suco gelado – achei a ideia GENIAL!!!

3. Sobre os Produtos da Colmeia

Voltei a constatar algo que já sabia: a excelente qualidade do mel e dos outros produtos, aliada a uma imagem de venda excepcional e deveras criativa, tal como a tremenda variedade de subprodutos e derivados que já são bastante aceites pelos consumidores. Repare-se na apresentação de alguns dos méis em garrafa, dada a pouca viscosidade dos mesmos, característica que nalguns casos ainda constitui um problema de conservação por causa da humidade excessiva.

Muito interessante a forma como combinam o mel com outros produtos típicos da região, nomeadamente a famosa castanha do Pará e o Cupuaçu entre muitos outros.

4. O Ovo de Colombo

Na imagem seguinte a maquete de uma melaria móvel para atrelar num camião.
Um assunto que para já fica por aqui mas que brevemente irei dissecar!


Tarumã - Com a Associação de Criadores de Abelhas de Manaus.

Já longe de Belém do Pará, nomeadamente em Manaus e em Jamaraquá, esta última perto de Alter do Chão (Santarém do Pará), tivemos oportunidade de confraternizar com apicultores e meliponicultores que já conhecíamos, entre outros que fomos conhecendo. De assinalar a tarde de criação de rainhas em Tarumã, com os associados da ACAM Manaus, momentos verdadeiramente bem passados.

Comunidade de Jamaraquá (Rio Tapajós) - Alter do Chão - Santarém do Pará

O sítio do João Fernandes, que já conhecíamos de 2011, com muitas dezenas de colónias de meliponídeos em redor da casa. Munidos de uma seringa íamos de colmeia em colmeia provar o mel destes incríveis insectos, impressionavam sobretudo porque apesar de disporem da mesma floração, as características do mel também dependiam do tipo de abelha que o produzia.

5. A Aventura!!!

Há muito que queríamos colocar isto no curriculum: subir o Rio Amazonas num dos pitorescos barcos “gaiola” que transportam pessoas e mercadorias pelo Pará e pela Amazónia. Em duas palavras: épico e surrealista!

Nunca tínhamos tido tais experiências de viagem, que são claramente para repetir logo que haja oportunidade.

Aconteceu de tudo nos seis dias de navegação rio acima, 1700km entre Belém e Manaus, começando por um atraso de nove horas à saída que se agravaram para 24 à chegada. Comida do barco estragada ao segundo dia, perdemos um motor, encalhamos num banco de areia e ainda abalroamos outra embarcação, entre outras que agora não me ocorrem, mas o saldo foi francamente positivo.

Ficávamos até às quatro da manhã a ouvir as melhores histórias da Amazónia pelo amigo Nelson Cauby que andou quinze dias perdidos na selva, e como estas histórias têm outro encanto quando o cenário são as impressionantes margens arborizadas do Amazonas iluminadas por um Luar que só aí se encontra.


Índios Sateré Mauwé - Rio Ariau, Índios Dessana - Praia do Tupé. 

A minha festa de aniversário, comemorada com Sidra e Açaí na tolda do Liberty Star: eu e a Luísa, o francês Jacques, o casal de belgas Jeremy e Adéle, o português emigrado na Suiça Ricardo, os brasileiros Carlos e Amélia e os holandeses que não fixei o nome, mais pareciamos um grupo de expatriados em trânsito, com tudo o que isso tem de épico!

3 comentários:

Rosmaninho disse...

Parabéns por mais uma viagem e experiencia única! Para a próxima temos mesmo de ir juntos! Abraço

Oscar Rebelo disse...

Boa noite sr pifano.
Sei que o tema é fora de contexto da minha pergunta, mas pode me dizer qual o melhor método de conservação de ceras e o menos poluente
atenciosamente
Oscar Rebelo

Alien disse...

Olá Oscar Rebelo,

Pessoalmente tenho utilizado com muito bons resultados a combustão de uma mecha de enxofre, com as alças (e a cera) dentro de mangas de plástico ou uma câmara bem isolada. O enxofre não deixa resíduos.

abraço
Joaquim Pifano