
Nem é boa nem é má, é apenas uma história, mais uma…
Uma coisa vos posso garantir: não há um dia em que não pense nela. Basta sentar-me no carro, conduzir pelas estradas rurais, olhar para os lados e já estou a “pintar” a paisagem.
Antes, quando eu não tinha carta, os campos passavam por mim mais devagar. Mas não era só por isso que os achava mais belos. A Natureza mudou, está mais amarela, mais cinzenta e por vezes chega a estar negra.
Voltemos à última Primavera, muito chuvosa, clima ameno, a vegetação despontou e cresceu luxuriante por todo o lado, o verde dominava. A apicultura beneficiou bastante com as dádivas da Natureza. Mais tarde, meses de Abril, Maio e Junho, a quantidade de erva para feno era tanta que dava pena vê-la sem aproveitamento pelos campos.
Milhares de milhões de toneladas de biomassa, alimento para o gado, energia, combustível? Assim foi. Veio o Verão e esse manancial económico não aproveitado passou de útil a extremamente prejudicial. O que antes teria permitido a produção de milhares (milhões?) de toneladas de alimentos, num país que importa a maior parte da carne que consome, passou a servir de rastilho a pavorosos incêndios que devastaram a paisagem e … a economia.
O que poderia ter dado muito lucro, redundou em grosseiro prejuízo, eu não percebo a política agrícola a que o nosso país está sujeito.
Antes, quando as zonas rurais eram habitadas, toda a gente tinha meia dúzia de ovelhas, porcos ou vacas. Animais que transformavam o pasto em factores de produção, em subsistência, em riqueza até. As ramagens, lenhas, matos, tudo era aproveitado por quem vivia no campo. Os incêndios eram fenómenos quase tão raros quanto a queda de um meteoro.
No ano passado contaram-me que um idoso fora obrigado a vender dez ou doze cabras e ovelhas numa aldeia rural do Concelho de Estremoz. Os vizinhos fizeram um abaixo-assinado incomodados com o cheiro dos animais. Salvo erro foi esta a razão. E há leis que protegem isto: os vizinhos com elevada sensibilidade nasal.
Entretanto as pessoas continuam a ser expulsas das regiões rurais para os grandes centros urbanos onde são posteriormente enlatados em blocos de apartamentos, medida fácil: encerraram-se escolas, centros de saúde, empregos e serviços nas regiões interiores e o que se segue é óbvio… a crise do açúcar, a que se seguirá a do pão? Carne? Leite? Vegetais???
Um alerta, Sr. Apicultor, sabe se os seus vizinhos andam a escrever páginas sobre a sua actividade, qual ordem de despejo, e assinaram por baixo? É verdade que as abelhas não incomodam os “narizes”, mas em contrapartida podem afectar toda a restante anatomia!…
Tenha cuidado.
Mas deixemos lá as “lamúrias” e passemos ao que interessa, uma pergunta que gostava que tivesse feed-back da vossa parte:
Não será o apicultor muito passivo, ou quando muito demasiado inactivo relativamente ao meio onde situa a exploração???
Quem é criador de gado semeia pastagens, rega, arboriza, uma garantia para o caso do clima não ajudar e os pastos naturais escassearem. Ou então, investe em palha, feno, rações…
Já sei a resposta, a apicultura, os apicultores não necessitam (nem têm) terra. Não a possuindo também não têm que a alterar, semear flora melífera e o caso está encerrado.
Quando estive nos Alpes franceses, um apicultor local confidenciou-me que já eram muitos os que semeavam colza, para que as abelhas tivessem fontes acrescidas de nutrientes no Inverno para combaterem o alegado Sindroma do Despovoamento de Colmeias. E estava a resultar.
Pergunto-me se não seria possível, ou pelo menos desejável, uma espécie de “arranjo”, ou de negócio, entre apicultores e agricultores no sentido dos primeiros poderem intervir nas zonas incultas (onde se localizam a grande maioria das explorações apícolas)?
O Programa Apícola Nacional, o MADRP, o ICNB e tantas outras instituições podiam apoiar. Afinal trata-se da gestão dos recursos naturais com a concomitante propagação de flora autóctone. Refiro-me obviamente à cultura, ao adensamento de áreas de Rosmaninho, Esteva, Urze, Alecrim, Medronheiro e tantas outras espécies da nossa flora.
A semente é barata (gratuita) e abundante, a sementeira pouco encarece e a respectiva manutenção, essa sim mais cara, poderia e deveria contar com a ajuda dos organismos oficiais. Não só o sector apícola lucraria economicamente com as medidas, como o ambiente em geral seria o grande beneficiário!
Partilho convosco um “esquema” barato e que há muito não me sai da cabeça. Aliás, desta vez até saiu, ei-lo:
Imaginem uma paisagem, igual a tantas outras que há por aí: Vales, colinas, covas, cabeços… abundam por todo o Alentejo, Beiras, Algarve, Trás-os-Montes...:

Sempre que me desloco por aí encontro este género de paisagem parca de vegetação, semi-deserta, aspecto desolado, onde antes florescia um coberto vegetal mais ou menos diversificado.
A perda do coberto vegetal, cujos impactos económicos directos já afectam boa parte do globo, para não falar das alterações ambientais e climáticas, economicamente mais “caras” que as primeiras. E começamos agora a perceber o que há muito nos alertavam, pior ainda: o que está para vir…
Já ouvimos, escrevemos e lemos tanta coisa sobre o contrariar a desertificação, melhorar o ambiente e o clima, melhorar a qualidade de vida e afins, que quase dessensibilizamos para o problema. No entanto ele está longe de ser resolvido.
Reparem que por cada multa sobre os “atentados ambientais” que se paga, raramente o ambiente é o reembolsado por essa soma, que invariavelmente é usada para outros fins. Esqueçam lá os submarinos agora, eu nem falei nisso. Facto é que se se polui um curso de água, paga-se a coima mas não se despolui o rio…
Quando falo em “esquema barato” para contrariar as tendências, digo-vos que é de facto barato, economicamente falando, senão vejam as contas:
1 maço de cigarros (já é velha, sei, mas ainda funciona) = 3,50€
3,50€ x 365 dias = 1277,50 €
1 café = 0,55 € … 0,55 € x 365 = 200,75 €
Quem fuma um maço de cigarros por dia e toma apenas um café, gasta anualmente cerca de 1500,00 €. Infelizmente sabemos que na realidade essa conta fica muito “além” da que acabei de escrever.
Com 1500,00€ (ou muito menos) podemos pagar o trabalho de uma máquina escavadora por dois ou três dias. Dois ou três dias para uma máquina dessas é o suficiente para fazer uma represa de terra, uma barragem, com 20 ou 30 ou mais metros de comprido. Aproveitando uma dobra de terreno, um pequeno vale ou terreno inclinado sem qualquer utilização.

Nesta altura, ou próximo dela, o Ministério do Ambiente já terá cobrado cento e tal euros pela licença (antes eram 125,00 €), mais uns pareceres, impostos, enfim… mas não é nenhum entrave.
Certo é que nas próximas chuvadas conseguirão com tal habilidade uma tremenda poça de água!!! No montedomel eu consegui uma com 1200 metros cúbicos, distribuídos por 50m x 70m x 3,5m de profundidade, até tem uma ilha…
Ficou um pouco mais cara, sobre a rocha do fundo tinha originalmente menos de 10 cm de terra, e a máquina precisou de mais tempo para a construir. Mas tenho um grande volume de água disponível durante todo o ano, água proveniente da chuva, da que escorre pela pequena encosta.
Uma barragem das dimensões apresentadas mais atrás poderá não manter a água durante todo o ano. Poderá secar no Verão, ou antes, nos anos mais secos. No entanto terão água no local durante muito mais tempo, aumentarão muito a humidade do solo e a atmosférica.

Terão decerto condições para plantarem árvores e arbustos nas proximidades. Aconselhava até a exagerarem na área de sementeira/plantação para melhor conhecerem a capacidade de suporte do meio. Claro que boa parte da nova floresta ou mato não irá sobreviver, mas sabem até onde podem ir.
Há tantas espécies de árvores e arbustos que além de todas as vantagens ambientais podem dar uma boa ajuda à apicultura:
Sobreiros, Azinheiras, Carvalhos, Castanheiros, Choupos, Fruteiras, os Eucaliptos Rostrata e o Calmadulensis (com floração antes do Verão), Tílias, Salgueiros e tantas outras que contribuem com grande quantidade de pólen e néctar.
O mesmo se aplica ao Alecrim, Rosmaninho, Urzes, Estevas, Medronheiros, Silvas e tantos outros arbustos da nossa flora autóctone.
Vegetação que se tiver este “encosto” de humidade decerto será muito mais viável e melhor sobreviverá.

Más notícias: normalmente, no início e face à utilização de terrenos pobres para o efeito, tal como nos anos imprevistos de seca, é natural que boa parte da nossa “floresta” vá abaixo, segue-se o desânimo e a vontade de desistir.

Mas alguns dos especímenes hão-de resistir, e isso dá-nos alento para continuar. Repor novas plantas, nova sementeira, é tudo uma questão probabilística ao princípio. Importa é que vencidas as etapas iniciais as coisas começam a correr a nosso favor: As árvores e arbustos já estabelecidos começam a disponibilizar matéria orgânica para o solo e humidade para a atmosfera, que irão ajudar na implementação dos outras mais novas e frágeis.

As próprias árvores de maior porte servirão como barreiras para o vento, protegendo a restante vegetação, diminuindo a secura e a erosão do solo. Em poucos anos, sem grandes trabalhos ou custos, “criamos” um pequeno bosque equilibrado e sustentável.

À escala global, ou pelo menos numa escala mais alargada, não só o sistema de pequenas barragens como o incremento na arborização levará a uma diminuição da temperatura atmosférica e aumento da humidade, aumentando também a precipitação… e todos beneficiaríamos com isso.

Como viram pelas “contas” é muito barato, é fácil e parece resultar.
Isto é apenas um “sonho”, uma ideia que quis partilhar.
Quando um problema tem uma solução difícil ou muito complicada, é de facto um problema. Quando a solução é simples e não se resolve, raia mais a idiotice...
Bom ano!!!