19 maio, 2011

"Bater" um Cortiço...

Bater um cortiço está para a apicultura como o juramento de bandeira para a vida militar.
Ninguém devia ser apicultor sem ter batido pelo menos um cortiço. Julgo no entanto que o acesso à carteira profissional é muito mais permissivo.
Há quem bata no cão, quem bata recordes, claras em castelo, nós apicultores impedidos de bater nas abelhas, batemos cortiços.

A primeira vez que ouvi falar em tal, só me ocorreu aquele ritual iniciático do género de ir aos gambozinos. Mas não foi nada disso que se tratou, o objectivo era muito mais sóbrio e palpável…

Nessa altura as pessoas reuniam-se para a tarefa imbuídas do mesmo espírito com que antes ainda se juntavam para a matança do porco. E se ele há actividade com elevação espiritual só mesmo a matança do porco. A diferença é que o cortiço não guincha, não escoiceia, nem asperge os participantes com líquidos orgânicos, mas também é divertido.
Escorre mel, em vez de sangue, atrai outra sorte de vampiros...

O equipamento necessário, além da tralha habitual para defesa e ataque às abelhas, compreende um pano branco, um negro (também pano, evidentemente) e um “chaporro” ou “fueiro”, designações vernáculas que na minha aldeia significam: um pau, tão somente.

Antes escolhia-se uma manhã fresca entre meados de Março a meados de Abril, e mãos à obra. Nós ficamo-nos desta vez por uma tarde quente de Maio, mas correu bem.

O “bater do cortiço” pode ter vários objectivos e diversos métodos:

- Retirar a totalidade das abelhas do cortiço, extraindo posteriormente o mel e a cera.

- Retirar apenas “um enxame” do cortiço, fazer um desdobramento. Espera-se nesta modalidade que as abelhas que andam no campo regressem e façam uma nova rainha com a criação disponível. Óptimo para quem não dispõe de tempo livre para esperar a saída dos enxames. Neste caso, o cortiço fica no local original e a colmeia (ou cortiço) para onde se transferem as abelhas é deslocada para longe.

- As obreiras podem ser transferidas directamente para uma colmeia móvel, para outro cortiço, ou para uma colmeia móvel passando primeiro por um cortiço.

Parece confuso mas não o é na prática. A passagem por outro cortiço antes de irem definitivamente para a caixa, era uma estratégia para confirmar a passagem da rainha.
Era aqui que “entrava” o pano negro, colocado por baixo do novo cortiço, aguardavam-se uns instantes e: se houvesse ovos a rainha tinha passado ou vice-versa. Os antigos apicultores de Mértola tinham uma expressão e um termo próprio para estes ovos sobre o pano negro: “ver se as rainhas já tinham posto o carejo”.

A cor dos panos vale pelo contraste: o pano negro (em desuso) para ver os ovos, o pano branco para ver passar a rainha. É deste que nos vamos ocupar a seguir:

Começamos por escolher um cortiço pesado e bem povoado, de preferência com muitas abelhas no exterior, junto à entrada. Gosto do termo espanhol para esta imagem: hacer la barba, pois parece mesmo uma enorme barba que o cortiço tem na parte de baixo. É também um indício seguro que está para breve a saída do enxame:

Se olharmos com atenção, vimos junto à base uma boa porção de abelhas a fazer a ventilação, batem as asas com a parte terminal do abdómen elevada, sinal que a temperatura interior (e a população) são grandes.

Reparem que as glândulas de Nasanoff não são visíveis, não se trata por isso de um chamamento, apenas ventilação.

Procedimentos

Retirar o cortiço com a colónia a transferir, colocando no seu lugar a caixa que irá receber as abelhas. Convém que esta caixa fique num plano ligeiramente elevado, relativamente ao cortiço. Retirar a régua reguladora de entrada para desimpedir ao máximo o acesso das abelhas.

Colocar o pano branco (1m x 1m) frente à colmeia, com uma das extremidades sobre a tábua de voo. Podemos e devemos prender o pano sobre a dita tábua com molas ou pionés. O pano deve estar o mais plano possível, retirando paus, pedras e ervas de baixo, para que não haja dobras no tecido que dificultem a marcha das abelhas.

Colocar a boca do cortiço (parte de baixo) sobre a outra extremidade do pano, virada para a entrada da colmeia móvel e distante cerca de um metro.

Duas ou três baforadas de fumo para que as abelhas “se encham” de mel, o que dará jeito para a nova morada. Por outro lado também ficam menos agressivas. Cabe aqui dizer que se a nova colmeia contar com um ou dois quadros de mel e pólen, mais um de criação aberta, as hipóteses de sucesso serão muito maiores.
Não sendo possível, só com cera “puxada” ou moldada, também se resolve.

Tirar a tampa do cortiço. Antes os cortiços tinham a tampa pregada com “sovinos”, ou pregos de madeira (de Esteva, na minha região). Actualmente faz-se mais uso dos pregos de metal ou arames, mas a dificuldade é a mesma.
Com a ajuda do formão destaca-se cuidadosamente a tampa que além dos pregos está fortemente soldada com cera e própolis. Alguns apicultores ainda usaram barro, “barrearam” as frestas antes da captura do enxame no ano anterior.
Nesta fase passamos a ver os favos carregados de mel. É também assim que se faz a cresta do cortiço, se o objectivo fosse esse.

Há quem comece por bater vigorosamente com o “chaporro” no cortiço, lateralmente e por cima, de forma a incomodar as abelhas e obrigá-las a abandonar a morada. Também podemos começar por usar o fumigador bem ataviado de materiais combustíveis, soprando o fumo denso pela parte do cortiço oposta à colmeia (de onde retiramos a tampa).
O fumigador aqui deve trabalhar sem descanso, abundantes baforadas de fumo de modo a empurrar a massa de insectos para a extremidade mais próxima da colmeia. Quando as coisas são feitas com paciência e sem restrições de tempo, tal acção bastaria para desalojar as abelhas e encaminhá-las para a nova morada.

Pessoalmente prefiro passar para a etapa seguinte, mais violenta, mas mais rápida:

Colocamos o cortiço na vertical, sobre o pano e o mais próximo possível da colmeia. Muito cuidado com esta operação: muitas abelhas encontram-se no bordo do cortiço (na parte de baixo) e podemos esmagá-las. Devem ser afastadas com um pincel ou um ramo de vegetação.

Com o cortiço nesta posição, elevamo-lo a uns 10 ou 15 cm de altura e damos uma pancada seca sobre o lençol, de modo a que a massa de abelhas caia. Podemos e devemos dar uma segunda pancada com o cortiço no chão, mas desencontrada da primeira, para evitar esmagar centenas de abelhas.
Acredito que a maior parte das abelhas acabem por cair com as duas primeiras pancadas. Mas conto muitas vezes em que a rainha só saiu muito depois…

Voltamos a deitar o cortiço tal como estava no início da operação, seguindo-se três cuidados a que devemos atender:

a) – Encaminhar a massa de abelhas para a nova colmeia, o que se consegue fumigando-as por trás, ou seja a favor do sentido que pretendemos que elas tomem e batendo ritmadamente com o “chaporro” ou “fueiro” na caixa de madeira.
Esta última acção faz-me de novo lembrar a captura de gambozinos, mas há quem jure a pés juntos que tal batuque atrai o enxame na sua direcção…

b) – Evitar que a massa de abelhas retorne ao cortiço. A “boca” do cortiço, tal como o cheiro familiar da colónia estão demasiado próximos e as abelhas tendem a regressar. Evita-se com o mesmo processo da alínea anterior: fumigando-as para evitar que entrem no cortiço.

c) – Desalojar o resto ou boa parte do enxame, continuando a soprar fumo denso pela boca do cortiço, repetindo-se todos os passos já dados anteriormente.



10º Antes de voltar a bater o cortiço sobre o pano, o que só acontece quando muitas abelhas se concentram de novo na extremidade, convém abrir espaço, afastando a massa de abelhas do primeiro batimento. Para isso, pegamos na extremidade distal do pano, elevamo-la e sacudimos as abelhas para a outra extremidade, mais próxima da colmeia:

Desta vez, muito menos abelhas vão cair do cortiço e assim sucessivamente.

A operação termina quando vimos passar a rainha sobre o pano branco e entra em segurança na colmeia ou quando a totalidade ou a quantidade pretendida de abelhas seja transferida.

RESUMO COM ESQUEMAS:

O próximo esquema reporta-se a uma situação mais polémica e obscura (até porque o resto é claro como a água...) em que alguns apicultores sustentam que as abelhas depois de sair do cortiço não se habituam à entrada da colmeia.
Para resolver o problema colocam na colmeia vazia uma prancheta modificada, com um grande orifício central, colocam-lhe o cortiço por cima e tapam todas as fissuras com barro. Obrigando as abelhas do cortiço a sair e entrar pela colmeia.
Semanas depois transferem então as abelhas para essa caixa.

O mesmo apicultor aconselhou-me em tempos a fazer o mesmo com um enxame que me ofereceram e que há muito se tinha radicado numa lata de 20 litros de gasóleo.
A "escultura" final lembrava um daqueles canhões usados pelos piratas e corsários. Mas foi sempre uma boa colónia de abelhas...

Por vezes a passagem total das abelhas é muito morosa, mas tal não significa insucesso, a colmeia de madeira é levada para o destino e essas abelhas regressam ao cortiço.

Uma vez aconteceu-me estar a “bater um cortiço”, iniciei o procedimento normalmente, formou-se uma grande massa de abelhas à saída e quando me preparava para o primeiro batimento a totalidade das abelhas retrocedeu para o seu interior.
Não sei que estímulo lhe terá provocado o arrependimento, sei é que por mais fumo que lhe deitássemos, nada as faria desalojar do velho cortiço.

Há quem mantenha apiários de cortiços com o único intuito de lhe aproveitar os enxames, seja pelo método natural – esperando que saiam, ou por este, como a caça aos gambozinos… ou a matança do porco…
Divirtam-se!!!

13 comentários:

octávio disse...

Mais uma excelente descrição, acompanhada de elucidativa reportagem fotográfica. Qual é o Manual da Apicultura com este capítulo tão completo?
Parabéns?

Osvaldo disse...

Boas
Sem dúvida mais uma espectacular reportagem, com fotos a ilustrar passo a passo este processo e para quem visita regularmente este Blog não esteja já habituado. Parabéns.
Mesmo assim quero fazer uma observação/questão: as lâminas do cortiço não deveriam estar na vertical? Parece-me que estão na horizontal o que poderá dificultar a saída das abelhas como também esmaga-las. Esta observação/questão é feita por alguém que não fez o Juramento de Bandeira e que ainda não devia ser chamado de apicultor, pois nunca tive cortiços e muito menos lhes bati, mas vontade não me falta para bater com esse pau no lombo de certa gente. Já agora onde é que arranjaste esse “chaporro”? Pois gostaria de arranjar alguns…
Outra questão que queria colocar era se tinhas visto varroas nesse pano branco, pois caso existissem nesse cortiço, com a fumaça que deste deveria haver algumas que ficariam atordoadas e pudessem cair. Seria um método interessante em colmeias com fundo sanitário. Cada vez que o apicultor fosse inspeccionar as suas colmeias e usasse fumo estaria a contribuir para a redução da população de varoa. Mas mais uma vez isto é dito por quem ainda não é apicultor. Se me sobrar algum “chaporro” inteiro, tens de me vender um cortiço para que eu possa ser apicultor, se não me reformar antes.
E deixa lá as abelhas sossegadas, coitadinhas.
Abraço

Alien disse...

Amigo Osvaldo,

Claro que já és um apicultor, por sinal um grande apicultor e melhor ainda técnico de apicultura. Pena que as instituições que o deviam reconhecer e compensar não estejam minimamente para aí viradas.
Curiosa ou ironicamente, tal como o sector que aos poucos essas instituições vão anulando, também elas parecem condenadas à extinção, mas só o deverão perceber demasiado tarde...
Quanto às tuas questões, de facto os favos deviam estar (e estiveram na horizontal) foi apenas uma foto do cortiço depois de batido e calhou de ficar nessa posição.
As varroas não vi nenhuma, mas... também não as procurei...

Grande abraço
Pifano

Anónimo disse...

As minhas saudações apícolas!
Excelente reportagem, tanto de imagem como de texto, e há imagens que valem mil palavras.
Só me deixou preocupado a introdução. Não serve em alternativa bater o bolo de mel do apicultor?
Até hoje só tive duas experiências com o batuque. E ambas falhadas.
A primeira foi há cerca de trinta anos, quando o Sr. Fernando Silva Quaresma, sócio fundador da SAP e meu mentor na área apícola, me convidou, dentro do programa de formação que para mim tinha idealizado para ir assistir/ ajudar a bater um cortiço num quintal de um prédio na Avenida Guerra Junqueiro, no centro de Lisboa (numa época em que à semelhança dos países civilizados da Europa , ainda podíamos ter abelhas "urbanas"). O batuque foi efectuado, de acordo com o figurino, e na colmeia foi colocado um quadro de criação aberta. Ninguém conseguiu ver passar a raínha, e esta não só não passou, como as abelhas não usaram os ovos e larvas do quadro que fora colocado na colmeia para criar uma nova. Um mês depois estava zanganeira.
A segunda experiência foi há uns cinco ou seis anos, depois de me fartar de perder enxames, anos a fio, de um cortiço que inesperadamente povoei num pequeno quintal de uma aldeia do concelho de Penamacor.
Um belo fim de semana decidi não perder mais enxames e bater o cortiço.
Mais uma vez o figurino foi aplicado e mais uma vez não vi passar a raínha e aqui foi pior, porque não tinha quadros com ovos ou criação aberta que podesse usar.
E mais uma vez a raínha não passou.
Coloquei um alimentador na colmeia esperando que tudo tivesse corrido pelo melhor. Esqueci-me do princípio fundamental de que "se alguma coisa puder correr mal, corre". Quinze dias depois quando lá voltei, não só as abelhas não tinham subido ao alimentador, como estavam todas mortas em monte no centro da colmeia! Nem tocaram nas ceras!
Tanto o meu baptismo do batuque como a sua "sequela" foram decepcionantes.Não tenho mesmo vocação para bater nas abelhas.
Um abraço.
Abelhasah.

Alien disse...

Caro Abelhasah,

Nunca fiz uma estatística sobre o sucesso/insucesso da transferência de uma colónia a partir de um cortiço, mas posso estimar (nos que bati ou conheça) os seguintes números:

- Taxa de sucesso (com passagem da rainha e consequente postura) 70 a 80%

- Vezes em que identificamos a rainha na passagem: 60 a 70%

- Nº mais frequente de ciclos de fumigação + batuque + batimento do cortiço, até a rainha sair (nos casos em que a vimos) 2 a 3

Esta actividade "festiva" vale sobretudo pela multidão fervilhante e arrebanhada de abelhas, aparentemente pacificadas, um quadro bonito para quem aprecia.

Abraços
Pifano

Abelha Preguiçosa disse...

Eu nunca bati em cortiços, mas já bati num tronco! Era um tronco oco com abelhas dentro...
Não vi rainha passar mas ela passou porque a operação teve sucesso!
Demorei perto de 20 minutos, se me lembro bem.!
Perdão, lembrei-me agora, já bati uma vez num cortiço mas não foi desses, foi de tábuas, também teve sucesso, mas deu mais trabalho e confusão!
É uma operação em que convém haver pelo menos um ajudante, como aparece nas fotos, mas... de preferência com luvas! :-)
Também já bati em ninhos reversíveis, mas não me dei bem com aquilo...

Alien disse...

Olá Ricardo,

Pensava que a falta de luvas do meu ajudante - proprietário do cortiço, não fosse tão óbvia.
Mas não foi picado, e eu fui...

Conta-nos, essa modalidade de dares "porrada" em troncos com abelhas, cortiços de madeira e ninhos reversíveis é uma forma de apicultura violenta? :-D

abraços
Pifano

Abelha Preguiçosa disse...

É violenta, mas ou mesmo tempo é com carinho pelas abelhas... :-))
O ninho reversível, teve de ser batido porque "alguém" se "esqueceu" de usar folhas de cera moldada...
;-)

ATITUDE disse...

Olá Pífano

Excelente artigo. Todos os passos explicados com muita paciência.
Fez-me lembrar os primeiro tempos, quando comprei 2 cortiços (de madeira) a um apicultor e tive de efectuar as operações aqui descritas. No entanto, aproveitei muita da criação existente no cortiço e amarrei-a em quadros vazios com borracha de câmara de ar. É de facto uma operação que exige muita paciência por parte do executante.
Parabéns.

António Marques

Anónimo disse...

Boa Noite

Um descrição pormenorizada, mas faz parte do passado.
Essa coisa de cortiços já passou à história e não podemos ficar presos a memórias.
Temos de pensar em produzir o mais possível de forma a tornar a apicultura numa actividade economicamente aliciante, para poder angariar novos apicultores.

André Correia (apicultor virtual)

Anónimo disse...

Bater um cortiço , além de aliciante é uma forma de obtenção de enxames a custo zero!
Abelhasah.

octávio disse...

...em 1996 apareceu à venda o célebre tamagotchi. Uma invenção japonesa.
Já existem apicultores virtuais em Portugal?

Osvaldo disse...

À subida de preço que se tem verificado para a aquisição de um enxame, qualquer dia (se não o for já)é mais rentável produzir enxames do que mel e por esta razão, quem me dera ter nesta altura uns 500 cortiços...