Não é por nenhuma razão especial, apenas o tema me causa algum prurido e detesto divagar acerca de coisas onde não vamos chegar a conclusão nenhuma… ou não. Para todos os efeitos nunca deixaria de o partilhar convosco.
Tudo se passou há cerca de dois meses atrás, aquando da visita a um amigo, descendente e herdeiro de um velho apicultor. Gosto de lá passar, temos por hábito folhear velhos livros e revistas, mexer na sucata antiga: fumigadores, crestadeiras, máscaras… tralha dos tempos pioneiros, coisas do arco da velha, sobre as quais nos dá imenso prazer dissertar.
O espólio é imenso, sempre descobrimos coisas novas, além de um apicultor inveterado o velho era um coleccionador nato. Participava em muitos congressos e encontros de apicultura no estrangeiro de onde regressava carregado de bugigangas. Há quem diga que sublimou avultada herança em tal vício.
Numa dessas tardes de “regressão” apícola, tentava eu tirar um pequeno cortiço do monte de ferro velho quando senti alguma resistência ao desencravá-lo dali. Parecia estar preso a qualquer coisa, o que não faz muito sentido, atendendo à forma cilíndrica da ancestral colmeia.
Com algum cuidado e removendo outros materiais que tinha à volta, consegui libertar o objecto que reproduzo com a máxima fidelidade possível na imagem acima.
É um cortiço, isso eu garanto. Um cortiço com persianas, sim, porque não? Acaso as janelas não as têm também?
Perdoem-me lá, mas este assunto enerva-me, já me desculpei lá atrás. O cortiço não tem persianas, mas aquelas lamelas paralelas unidas por um fio metálico não fazem lembrar outra coisa. Além disso ainda tinha uns quantos apêndices em metal ou madeira, coisas aparentemente disfuncionais, aliás como todo o conjunto.
Uma vez sustidas as gargalhadas entretivemo-nos a disparar palpites acerca da utilidade apícola de tal artefacto. Foram momentos hilariantes e as conclusões eram óbvias: a excentricidade do velho apicultor já nos surpreendera outras vezes, mas isto ultrapassara tudo o que já viramos.
Estávamos nisto quando lá de dentro caiu uma etiqueta, um papel já corroído pelo tempo, ou pelos ratos, onde dificilmente se conseguia ler: “Luxor, Setembro, 1878” entre outros rabiscos indecifráveis. Custou-nos a crer que o dito cortiço fora adquirido no Egipto há mais de um século, mas os diários do velho referiam qualquer coisa nesse sentido, uma feira de antiguidades ou algo do género.
Por mais voltas que déssemos à cabeça não saiu nada que ajudasse a clarificar tal descoberta. Mesmo os impagáveis préstimos de um arqueólogo amigo pouco ou nada ajudaram.
Porque não tirei fotografias? Desapareceu misteriosamente, subtraíram-no do armazém do meu amigo dias antes de eu lá ir com a máquina fotográfica, ainda hoje o lamento.
Porque razão alguém se deu ao incómodo de roubar um cortiço velho? Ainda por cima com o aspecto daquele a que me refiro? Continuem a ler o relato e vão perceber tudo.
Foi então que numa das minhas raras noites de ócio, enquanto me entretinha a explorar o software do computador, ok, ok, enquanto o ligava e desligava pela vigésima oitava vez para o tentar desbloquear, que me ocorreu experimentar uma determinada aplicação do Corel Draw.
Um aplicativo que muito me ajuda nas imagens e esquemas do montedomel: o “Interactive Blend Tool” que nos apresenta uma sequência evolutiva entre duas figuras, objectos, etc, que sujeitemos a essa função:
Ex:
As modernas colmeias sofreram um processo evolutivo igual ao de qualquer ser vivo, a selecção natural substituiu a cortiça e os pregos de esteva por madeira e arames, e o meu amigo herdara um Neanderthal das colmeias!!!
Deliciem-se com as subtilezas de tal filogenia: quem nos havia de dizer que o tampo de zinco da caixa de quadros móveis teve a sua origem não no tampo do cortiço, mas precisamente nos três orifícios da entrada rudimentar?
Comprovem vocês mesmo na sequência evolutiva, eu não estou aqui para enganar ninguém:
Gosto de imaginar as épocas remotas em que bandos de “cortiços de persiana” pulavam felizes atrás dos enxames de abelhas. Teriam os veda luz algum efeito dissuasor sobre os inimigos das abelhas?
E o Programa Apícola Nacional da Pré-história?
Seria assim tão diferente do actual?
E este?
Agora a sério, é sim senhor, é mesmo do Homo sapiens destructor que se trata, ora veja lá:
A evolução das espécies é uma teoria muito versátil, sobretudo quando aplicada à apicultura.
Ora vejam lá se adivinham a próxima:
3 comentários:
Boas
Estava eu a ler esta estrondosa descoberta e ao mesmo tempo estava- me a lembrar do que tinha visto há uns meses num museu aqui em Mértola. Esse objecto foi encontrado na Igreja de Mértola, que foi das poucas obras arquitectónicas árabes construída durante a sua ocupação e que não foi destruída, mas sim "adaptada".
Nunca ninguém conseguiu perceber do que se tratava, nem para o que servia. Está exposto com a informação de um grande ? e penso que tu conseguiste descobrir. De facto é idêntico à 2ª imagem a mais parecida com o cortiço.
Amanhã vou tirar uma foto do tal objecto e envio para o teu mail para que a possas divulgar.
abraço
Obrigado Osvaldo,
é que isto de publicar descobertas importantes ao dia de hoje é sempre uma tarefa ingrata.
Ainda bem que conheces e partilhas conhecimentos complementares ao que aqui se divulga.
Aguardo as fotos
abraços
Pifano
Amigo Pifano
já me tinha esquecido de como és um rei na imaginação.
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