25 agosto, 2008

Diagnóstico da Varroose

Contagem de Varroas

Desde meados da década de 80 que a Varroose constitui um dos principais problemas da apicultura e dos apicultores portugueses. Seja pelas baixas na produção, custo dos medicamentos, trabalho/tempo suplementar despendido e os riscos de contaminação do mel. Regra geral, os apicultores fazem pelo menos duas aplicações de medicamento acaricida por ano, podendo até chegar às três ou quatro em casos de reinfestação.
Muitas vezes estes tratamentos são feitos em função de datas: como o período antes da Primavera, o pós cresta ou o fim do Verão, à semelhança da Luta Química Cega praticada noutros sectores. Raramente o grau de infestação é tido em conta, quando muito a observação dos sintomas mais comuns poderá acelerar ou antecipar a decisão de tratamento.
Não é meu objectivo discutir ou criticar a aplicação de acaricidas em períodos como antes da Primavera, porque é uma fase em que há todo o interesse em baixar o número de Varroas para um limite inferior e que garanta que não venham a haver infestações graves durante a fase de produção principal.
É regra nos seres vivos as populações aumentarem exponencialmente o número de indivíduos durante uma determinada fase, em que a capacidade de suporte do meio o permite, até atingirem um limite superior (de equilíbrio) em que o crescimento fique estável, não aumente nem diminua - (GRÁFICO 1).
No caso da Varroose, como em qualquer ser vivo, a curva de crescimento teria um desenho semelhante, só não acontece por a coabitação entre Apis mellifera e Varroa destructor ser recente e ainda não haver uma fase de equilíbrio, levando à morte da colónia de abelhas e consequentemente ao fim das próprias Varroas numa colmeia. Não é de facto um verdadeiro fim para as Varroas porque entretanto já infestaram nova(s) colónia(s) - (GRÁFICO 2).
Os apicultores ao aplicarem os medicamentos têm como resultado diminuir (raramente anular) a população de Varroas até um nível mínimo que não causa danos à colónia de abelhas e respectivas produções - (GRÁFICO 3).


A actividade que hoje proponho, levada a bom termo, permite ao apicultor a monitorização do crescimento da população de Varroas e tomar a decisão mais acertada sobre o momento em que deve intervir para combater a moléstia. Evitam-se assim os custos e trabalhos acrescidos, tal como os riscos de contaminação do mel e até de tratar tarde demais.

RECOLHA DE ABELHAS ADULTAS PARA CONTAGEM DE VARROAS:

Material:
Frascos de vidro de boca larga (pelo menos um por apiário e com
capacidade de 1 kg de mel).
Água e detergente líquido.
Escova ou um ramo de arbusto.
Etiquetas para marcar os frascos.
Pinça.

Procedimento: Em casa devemos preparar para cada apiário pelo menos um frasco meio de água, onde deitamos uma colher de sopa de detergente, para receber as Abelhas. O detergente quebra a tensão superficial da água e alem de proporcionar uma morte mais rápida às Abelhas, obriga as Varroas a afundarem facilitando as contagens.



No apiário serão amostradas 30% das colmeias, escolhidas aleatoriamente, incluindo sempre as das extremidades que pelo facto de receberem abelhas de todas as outras são consideradas muito representativas, logo devem ser sempre testadas.



Nas colmeias sorteadas devemos colher cerca de 50 Abelhas em cada uma (aproximadamente). As Abelhas a recolher devem ser o mais novas possível, quando ainda apresentam muitos pelos e uma cor acinzentada. São mais frequentes nos quadros de criação, pelo que se devem evitar os quadros das alças e os das extremidades do ninho.
Claro que também irão abelhas mais velhas, o que não constitui qualquer problema, muito grave é se varrermos a rainha para dentro do frasco...



Uma vez seleccionado o quadro de onde retirar as Abelhas, com a ajuda da escova ou um ramo varrem-se cerca de 50 Abelhas para dentro do frasco com água e detergente. Devemos encontrar primeiro a rainha, colocar esse quadro num local seguro dentro da colmeia, e seleccionar outro quadro com o tipo de Abelhas desejado para o efeito. O ideal são duas pessoas para este trabalho, enquanto uma varre as Abelhas a outra segura o frasco que deve tapar imediatamente.
Todas as Abelhas de um apiário vão para dentro do mesmo frasco (50 Abelhas x 30% das colmeias).



Os frascos etiquetados, uma vez em casa, são destapados e com a ajuda de uma pinça retiram-se e contam-se todas as Abelhas, tomando nota desse número. No frasco apenas ficam as Varroas, cuja contagem é muito fácil elevando o frasco e contando-as pelo fundo.
Sabendo o número de Abelhas e de Varroas basta calcular a percentagem de infecção: VER RESULTADOS.




RECOLHA DE LARVAS DE ABELHA PARA CONTAGEM DE VARROAS:

A contagem de Varroas pode e deve ser efectuada também nas larvas de Abelha, cujo resultado irá complementar o encontrado nas Abelhas adultas.
Nos testes efectuados nas colmeias dos associados da ADERAVIS apenas temos calculado o grau (percentagem) de infecção nas Abelhas adultas, o que tem sido suficiente para os nossos objectivos.

Material:
Faca ou canivete.
Sacos etiquetados ou numerados (um por apiário).
Faca de desopercular.
Tubo fino ligado à torneira.
Funil e papel de filtro.

Procedimento:Nas mesmas colmeias onde recolhemos as Abelhas na etapa anterior, seleccionamos um quadro com criação operculada em ambas as faces e cortamos um pedaço de favo com cerca de 8 x 8 cm. Todos os pedaços de criação oriundos do mesmo apiário devem ser guardados no mesmo saco.



Uma vez em casa, os pedaços de favo são desoperculados, e retiradas as larvas de Abelha com a ajuda de um pequeno jacto de água, que se consegue ligando um tubinho de diâmetro reduzido a uma torneira.
As larvas de Abelha, os eventuais ácaros de Varroa e a água devem cair para dentro de um funil ou outro utensílio equipado com um papel de filtro.




Logo que todo o favo esteja limpo de ambos os lados, retira-se o papel de filtro e contam-se as larvas de Abelha e as Varroas. Somam-se os resultados de todas as amostras do mesmo apiário e com os resultados totais calcula-se a percentagem de infecção da criação de Abelhas, resultado que complementa o encontrado nas Abelhas adultas.





CONCLUSÕES
Segundo algumas fontes, quando a percentagem de infecção è igual ou inferior a 5%, temos cerca de um mês para efectuar os tratamentos contra a Varroose. Quando esse número ronda os 15% ou próximo deste valor, convém não demorar mais de uma semana a aplicar o acaricida. Quando o resultado encontrado é igual ou superior a 20/25% devemos tratar imediatamente e vigiar as abelhas com frequência.
Há cerca de dois anos conseguimos recuperar cerca de 20 colónias com 56,4% de infecção, ou seja, em cada duas abelhas havia uma que carregava com uma Varroa.

FACTORES QUE PODEM MASCARAR OS RESULTADOS FINAIS:

A recolha de amostras para fins estatísticos deve obedecer a um grande rigor e imparcialidade, caso contrário poderemos obter resultados e respectivas extrapolações muito diferentes da realidade, levando a um mau procedimento à posteriori.

- Tal como já foi dito, não devem ser recolhidas Abelhas das alças ou dos quadros sem criação, pois têm quase que exclusivamente Abelhas adultas onde o número de ácaros é muito inferior.
- Por vezes os apicultores mostram pouca vontade na recolha de Abelhas para análises, temendo o enfraquecimento da colónia, e menos de 50 Abelhas/colmeia podem comprometer os resultados.
50 Abelhas numa colmeia normal representam cerca de 0,08% da população, ou seja, menos de 1%.
- A contagem de Varroas em larvas de zangão apresenta valores muito superiores à realidade da colónia, pelo que amostras de favos com estas características levam-nos a valores erróneos. Devemos notar que a população de zangãos numa colónia é de cerca de 3% das obreiras, como tal è pouco representativa.
- Quando retiramos as Abelhas adultas do frasco com água e detergente devemos lavá-las bem, não tragam algum ácaro junto, o que poderá levar a estimativas por baixo.

Há portanto um conjunto de pormenores a observar neste teste diagnóstico para retirarmos todo o potencial e ajuda que ele nos pode valer, e que dada a facilidade de execução, em pouco tempo qualquer apicultor estará apto a realizar.

Clique nas Imagens e Fotos para ampliar

5 comentários:

Diogo Machado disse...

Boas!

Sou um aluno de M. Veterinária da Universidade de évora e estou em processo de realizar um trabalho para a disciplina de Epidemiologia, que usa como base o Rastreio Apícola Nacional de 2006
(dados do Laboratório Nacional de Investigação Veterinária (LNIV): Prof. Dra Yolanda Vaz, Faculdade de Medicina Veterinária UTL)

Não posso dar suficiente enfase aà utilidade da sua explicação do diagnóstico e indicação de erros de aleatórios e sistemáticos.

Tenho no entanto uma dúvida que não consigo esclarecer: No estudo referido, dentro de cada apiário foram feitas colheitas de um certo número de colónias, de acordo com o tamanho da colónia. As amostras retiradas das colónias corresponderam a amostras de criação, um favo quadrado de 15-20 cms de lado de cada uma das colónias, e também a 80 amostras únicas, constituídas por abelhas adultas. Os ados recolhidos estão no seguinte link de imagem: http://tinypic.com/view.php?pic=116newp&s=5

Não percebo a soma das duas percentagens obtidas com cada método de amostragem, para obter assim a percentagem total de prevalência da varroa CONSIDERADA PELO ESTUDO COMO 27% (18,31 + 19,38)(notar que os 356 apiários foram todos testados das duas formas). Esta soma n faz sentido para mim, parecendo-me que cada apiário foi testado duas vezes para a mesma coisa!

Suspeito que seja uma dúvida pateta de alguém que não está no mundo da apicultura (risos).

Obrigado desde já pelo tempo prestado!

Diogo

Alien disse...

Olá Diogo Machado,

Receio não ter a melhor resposta para lhe dar, mas vamos por partes:

O objectivo do post, tal como o digo no início, é dotar o apicultor de alguns fundamentos que o ajudem a monitorizar a população/grau de infecção de Varroas para uma decisão mais acertada sobre a melhor altura para fazer o tratamento com o acaricida.

A maioria ainda opta pela chamada Luta Química Cega, aplicando os medicamentos em função de datas, estados de desenvolvimento da colónia e ou outro parâmetro qualquer, com todos os riscos e custos inerentes.
Não conheço as bases teóricas do método proposto, foi-me transmitido por um técnico apícola há uns anos atrás e, confesso-lhe que o achei tão prático e exequível que o tenho usado/aconselhado inúmeras vezes pelos resultados fiáveis que aparenta dar.
Creio que a sua dúvida reside na conjugação dos dados medidos nas abelhas adultas e nos da criação (larvas)...
Eu, tenho usado as duas informações para cada uma me “confirmar” a outra, não vá encontrar resultados díspares, e de facto nunca encontrei.
Nos últimos anos, e por motivos meramente práticos, opto por fazer o teste apenas na população adulta, e aplico a referida regra: para infecções em torno dos 5% espero um mês para fazer o tratamento, se for caso disso. Mas pelo menos fico a saber que não poderei adiar muito mais. Para infecções superiores a 20/25%, trato de imediato.
O que perco em rigor cientifico ganho-o em tempo, e acredite que com resultados muito satisfatórios.
Nos números que me apresentou, suponho que resultados de contagens em abelhas adultas e em larvas (18,31 + 19,38), cujo resultado dá 27% de infecção, é óbvio que um dos resultados está sujeito a um coeficiente de 0,5 ou perto disso, agora qual é qual, eu desconheço.

A sua dúvida, sobre “os apiários serem testados duas vezes para a mesma coisa” faz-me sentido e chego a partilhá-la, mas terá decerto a ver com o assumir, nos fundamentos do método, que a Varroa terá comportamentos diferentes na população larvar e adulta das abelhas, o que torna bastante difícil a recolha de dados e a aplicação deste teste de contagem, senão veja:

É sabido que o número de Varroas que se encontram em abelhas adultas é inferior ao encontrado em abelhas jovens.
Não é difícil distinguir as abelhas jovens das adultas, mas elas encontram-se “misturadas” nos quadros em proporções muito diferentes, dependendo do local da colmeia (circunstâncias controláveis), e factores completamente aleatórios (circunstâncias não controláveis).

Daqui já podemos(?) Fazer algumas críticas ao método, quando nos aconselham a amostrar apenas os quadros da zona de criação, para a recolha de abelhas, onde abundam as abelhas jovens, não estaremos a sobrestimar o grau de infecção? É que as abelhas mais velhas também fazem parte do grupo “abelhas adultas”, e qual a proporção entre elas na colónia???

Outros factos:

É igualmente sabido que as larvas de zangão, nos estádios finais, apresentam um número de Varroas muito superior às larvas de obreira na mesma fase, numa diferença que chega por vezes ao dobro.
Quem faz os testes, ao cortar o favo, distingue facilmente se se trata de larvas de zangão ou de obreira.
Os apicultores reagem muito mal ao corte de pedaços de favo para este ou outro fim qualquer. Eu sabia que as dimensões aconselhadas eram superiores aos 8 ou 10cm que refiro, “mas já me fiquei por aqui” por conhecer a aversão dos apicultores a tal prática.
(...)

... Em tempos, estimava-se a população de Varroas de uma colónia com tiras de Folbex VA incandescentes colocadas dentro da colmeia. As Varroas, não mortas, caiam sobre um cartão com gordura colocado no estrado e contavam-se.

Em jeito de conclusão,
Quase que aposto que lhe deixei mais dúvidas que as que trouxe no início, pessoalmente também acho o método de contagem... muito peculiar, mas repito que lhe desconheço os fundamentos teóricos.
A forma simplificada com que o apresento aos apicultores, tem dado bons resultados, sobretudo porque tem evitado tratamentos desnecessários sem qualquer risco para as colónias.
A decisão de tratar por parte dos apicultores, depende não só dos resultados do teste como doutras observações complementares que lhes permitem inferir acerca do grau de infecção da moléstia...
Como estuda na Universidade de Évora, aconselhava-o a procurar o Prof. Dr. Murilhas ou o Eng.º Paulo Nunes, que já trabalharam/trabalham(?) com o referido método,
De qualquer forma vou tentar saber algo mais acerca das bases do dito método... pode contactar-me também no mail: montedomel@gmail.com
Cumprimentos,
JPifano

PM disse...

Caro Joaquim Pífano, refere a contagem das varroas nas larvas que estão nos alvéolos operculados. Mas e as crisálidas que também podem estar no pedaço de favo de amostragem, também são contabilizadas?

Uma placa de monitorização, onde são contados os ácaros que ficam lá colados, não serve para a estimativa, ou não é um método tão preciso?

Se os apicultores têm "pena" de matar 50 abelhas, pode sempre tentar o método (não tão exacto) do açúcar em pó:

Enche-se meio frasco (de 250ml) com abelhas (isto dá cerca de 300 abelhas, dizem).

Fecha-se o frasco com uma tampa de rede para as abelhas não saírem.

Despeja-se bastante açúcar em pó para dentro do frasco e roda-se o mesmo, para que as coitadas fiquem quase afogadas no pó branco.

Para cima de um recipiente branco "polvilha-se" (com cuidado para não massacrar ainda mais as pobres abelhas.

Contam-se os ácaros aí caídos.

Multiplica-se essa contagem por 1,3, para se aferir os ácaros presentes na criação sem ter de os matar.
Divide-se por 3 para obtermos a percentagem (em 100 abelhas).

Por fim libertam-se as abelhas que estão tontas e pintas de branco, quais fantasmas voadores.

Para mim é um método mais falível, porque custa a crer que os ácaros caiam todos no recipiente...e ainda temos de contar com os ácaros que ainda possam estar presos às abelhas...

Mas para os mais moralistas pode ser uma alternativa...


Cordiais cumprimentos,
PM

Alien disse...

Olá PM

Desconhecia esse método mas parece-me muito interessante.

Pode-me enviar um mail para ficar com o Vº contacto?

montedomel@gmail.com

Joaquim Pifano

PM disse...

Caro Joaquim Pífano,

já tem o meu contacto.

Pedro Mendonça --> PM

O que tenta ir para o Alentejo :)

Os americanos são cada vez mais adeptos do açúcar em pó, a julgar pelo crescente número de vídeos colocados no youtube.

E ainda usam também o próprio açúcar para combater a varroa...polvilham muito bem o interior da colmeia para que as abelhas fiquem "sujas" de pó e se ponham a limpar-se...isto leva a que limpem também os ácaros se os tiverem.
Se é eficaz, não faço ideia porque nas nossas condições que eu saiba ainda ninguém experimentou.

Cordiais cumprimentos
PM/Pedro Mendonça