
Já perdi a conta ao número de jovens e menos jovens que se abeiram de mim com o desejo de se tornarem apicultores.
Invariavelmente, a segunda ou a terceira questão que me colocam, quando não é a primeira, é se
“...então e isso dá dinheiro?”.Claro que dá dinheiro, fortunas, aliás, um dos principais problemas dos apicultores é precisamente onde guardar e o que fazer a tanto dinheiro... Recuperada a calma e o ar sério, lá lhes justifico que até a simples actividade de pregar botões pode dar dinheiro. É necessário muito empenho, dedicação, sorte e algum engenho.
Claro que o
“...então e isso dá dinheiro?”, perde toda a inocência quando associado ao
“...elas (
as abelhas)
não precisam de pastor...”. É uma frase curiosa que a rapaziada aqui da região costuma dizer, insinuando que a apicultura não dá qualquer trabalho ao apicultor.
Se entendermos por “pastor” todo aquele que guarda, cuida e sobretudo acompanha o gado até à pastagem, o apicultor não é de facto um pastor, e as abelhas também não precisam dele. Mas que a apicultura dá muito trabalho, lá isso dá.
Passada a primeira abordagem vêm os orçamentos e as respectivas contas de cabeça ali mesmo à minha frente:
“Quanto custa uma colmeia?”, “e com abelhas?”, “que quantidade de mel produz uma colmeia num ano?”, “...5,00€/kg, e isso vende-se bem? Sai todo?”
“...ora 100 colmeias vezes 30 kg vezes 5,00€ é dinheiro à bruta!!...”Querem ver que o gajo vai tirar o país da crise e eu aqui com as mãos nos bolsos? Onde é que o Sócrates tinha a cabeça quando convidou o Manuel Pinho para ministro da Economia?
Ó amigo, isso dos 5,00€/Kg é uma treta, é só para vender à vizinha, aponte aí para os dois euros e pouco e faça a festa mais barata... E os custos? Equipamentos? E as baixas? Doenças? Más produções? Dores de costas? Picadas? ...
Poucos resistem a esta observação, mas ainda assim há os determinados que mesmo com o orçamento rectificativo em baixa lá partem para a actividade apícola.
A ajudar à festa, há outros que me contactam no sentido de lhes dar formação, retirar dúvidas ou marcar uma visita para me acompanharem aos apiários e se familiarizarem com as abelhas. No fim da conversa normalmente perguntam quanto é que isto lhes vai custar.
Confesso que por uns nanosegundos ainda penso que aí está uma boa forma de juntar uns trocos. De imediato faço os cálculos de quanto paguei aos Mestres que me ensinaram tal ofício, para assim poder aferir a “conta” do interessado. Nada! zero!, zeríssimo, foi um prazer para uma infinidade de nomes terem partilhado o seu saber comigo e sem qualquer ganho. Ainda hoje partilham, todos os dias me ensinam qualquer coisa de novo. Porque é que eu não devo fazer o mesmo? Será que não ganhamos todos com isso?
Perdoem-me a brutalidade da próxima expressão, mas enquanto continuarmos a basear esta merda no dinheiro nunca iremos a lado nenhum. Obviamente que não me refiro só à apicultura.
Qualquer dia, em vez de sairmos da maternidade com a antiga e gasta Cédula de Nascimento presa às fraldas, saímos com o cartão de contribuinte e um livro de facturas...
Veja-se o resultado de anos e anos de empresas cada vez mais competitivas e inovadoras no estado actual da economia. Porque carga d'água ninguém pensou simplesmente em empresas viáveis? Ou sustentáveis? Enfim...
Eu estou para aqui a vender, aliás a dar, “banha da cobra” e também tive a tentação em tempos, de fazer as ditas contas, “se uma colmeia produz 30 kg, 500 colmeias...” E nós portugueses, à semelhança do resto da humanidade, temos logo a tendência de fazer planos de investimento para o resto da vida: a casa (é justo), a segunda casa, a casa de praia, o carro (um chega), o segundo carro, Mercedes? BMW também serve, o barco, funcionários, mais outro carro, funcionárias, a Margarida tem as pernas bonitas mas não se mexe tanto...
Creio, mas só creio mesmo, que a apicultura à semelhança de tantos outros sectores num mundo finito, com recursos finitos, sofrem de um problema já pouco falado que são os “
numerus clausus”. Ou seja, isto até chega para todos, não podemos é todos querer tudo, ou simplesmente querer muito.
A estrutura económica apícola nacional tem um tecido característico, em pirâmide como todos os outros: imensos pequenos apicultores, menos um pouco de apicultores com mais colmeias, menos ainda de médios apicultores, poucos grandes apicultores e pouquíssimos gigantescos apicultores. Esta estrutura ainda está longe de ser equilibrada, ainda cabem imensos apicultores e detentores de imensas colmeias. Estamos muito longe de cada um que aumente os efectivos causar problemas aos vizinhos.
Mas aparte tudo isto, não será possível ser feliz com meia dúzia de colmeias? Apanhar mais um enxame sem com isso ter receio de baixar o preço global do mel???
Cada família uma colmeia, vá lá, uma dúzia. Uma horta para o tempo que sobra, meia dúzia de cabeças de gado, segurança alimentar mesmo sem a ASAE. Não é para vender, é mesmo para comer. Se se vender alguma coisa também não é por aí que o gato vai às filhoses.
Há tantas outras actividades complementares que os apicultores podiam praticar para melhorar a sua qualidade de vida. Nunca me canso de repetir o caso da Suécia, contado pelo Vicente Furtado, em que o próprio governo incentiva a apicultura familiar. Aumenta com isso a rede nacional de apiários, que acabam por surgir em locais de menor floração (sem interesse económico para os grandes produtores) e aumentando consequentemente as áreas polinizadas.
Tenho o maior carinho e admiração pelos grandes produtores de mel, creio que justifiquei lá atrás a sua importância (grande importância) no tecido económico nacional. Este texto pretende apenas fazer a apologia do crescimento lento, ponderado e sustentável. Não faz muitos anos que um colega do meu primeiro curso de apicultura saiu de lá estimulado para comprar 500 colmeias. Comprou 50 que ao fim de dois anos pouco mais serviram que para a lareira do vizinho dele. A madeira propolizada arde com muita facilidade, nem precisa de acendalhas.
Ultimamente têm sido aprovados projectos de apicultura, estes com fundos comunitários, dinheiros públicos, cuja estrutura e viabilidade deixam muito a desejar. Para não falar na própria competitividade, parâmetro de caracter mais ambicioso.
Atingem jovens apicultores, aliás, candidatos a apicultores, pois muitos nem conhecimentos têm. Atraídos pelos prémios de instalação e demais subvenções do dito apoio, lançam-se na vida activa com dezenas (centenas) de colmeias, equipamentos para equipar uma melaria de âmbito regional e... créditos bancários e demais compromissos e “entaladelas”, sem as quais nunca teriam acesso ao almejado prémio = presente de Grego...
E lá em cima? Apostou na resposta “B”? Não quer pensar melhor?
Não pense mais porque acertou! De facto a apicultura é uma excelente aposta, e o termo milionário não se aplica apenas a quem tem muito dinheiro...