21 maio, 2009

Quem Quer Ser Milionário ???

Já perdi a conta ao número de jovens e menos jovens que se abeiram de mim com o desejo de se tornarem apicultores.
Invariavelmente, a segunda ou a terceira questão que me colocam, quando não é a primeira, é se “...então e isso dá dinheiro?”.
Claro que dá dinheiro, fortunas, aliás, um dos principais problemas dos apicultores é precisamente onde guardar e o que fazer a tanto dinheiro... Recuperada a calma e o ar sério, lá lhes justifico que até a simples actividade de pregar botões pode dar dinheiro. É necessário muito empenho, dedicação, sorte e algum engenho.
Claro que o “...então e isso dá dinheiro?”, perde toda a inocência quando associado ao “...elas (as abelhas) não precisam de pastor...”. É uma frase curiosa que a rapaziada aqui da região costuma dizer, insinuando que a apicultura não dá qualquer trabalho ao apicultor.
Se entendermos por “pastor” todo aquele que guarda, cuida e sobretudo acompanha o gado até à pastagem, o apicultor não é de facto um pastor, e as abelhas também não precisam dele. Mas que a apicultura dá muito trabalho, lá isso dá.

Passada a primeira abordagem vêm os orçamentos e as respectivas contas de cabeça ali mesmo à minha frente:
“Quanto custa uma colmeia?”, “e com abelhas?”, “que quantidade de mel produz uma colmeia num ano?”, “...5,00€/kg, e isso vende-se bem? Sai todo?”
“...ora 100 colmeias vezes 30 kg vezes 5,00€ é dinheiro à bruta!!...”


Querem ver que o gajo vai tirar o país da crise e eu aqui com as mãos nos bolsos? Onde é que o Sócrates tinha a cabeça quando convidou o Manuel Pinho para ministro da Economia?
Ó amigo, isso dos 5,00€/Kg é uma treta, é só para vender à vizinha, aponte aí para os dois euros e pouco e faça a festa mais barata... E os custos? Equipamentos? E as baixas? Doenças? Más produções? Dores de costas? Picadas? ...
Poucos resistem a esta observação, mas ainda assim há os determinados que mesmo com o orçamento rectificativo em baixa lá partem para a actividade apícola.

A ajudar à festa, há outros que me contactam no sentido de lhes dar formação, retirar dúvidas ou marcar uma visita para me acompanharem aos apiários e se familiarizarem com as abelhas. No fim da conversa normalmente perguntam quanto é que isto lhes vai custar.
Confesso que por uns nanosegundos ainda penso que aí está uma boa forma de juntar uns trocos. De imediato faço os cálculos de quanto paguei aos Mestres que me ensinaram tal ofício, para assim poder aferir a “conta” do interessado. Nada! zero!, zeríssimo, foi um prazer para uma infinidade de nomes terem partilhado o seu saber comigo e sem qualquer ganho. Ainda hoje partilham, todos os dias me ensinam qualquer coisa de novo. Porque é que eu não devo fazer o mesmo? Será que não ganhamos todos com isso?
Perdoem-me a brutalidade da próxima expressão, mas enquanto continuarmos a basear esta merda no dinheiro nunca iremos a lado nenhum. Obviamente que não me refiro só à apicultura.
Qualquer dia, em vez de sairmos da maternidade com a antiga e gasta Cédula de Nascimento presa às fraldas, saímos com o cartão de contribuinte e um livro de facturas...
Veja-se o resultado de anos e anos de empresas cada vez mais competitivas e inovadoras no estado actual da economia. Porque carga d'água ninguém pensou simplesmente em empresas viáveis? Ou sustentáveis? Enfim...

Eu estou para aqui a vender, aliás a dar, “banha da cobra” e também tive a tentação em tempos, de fazer as ditas contas, “se uma colmeia produz 30 kg, 500 colmeias...” E nós portugueses, à semelhança do resto da humanidade, temos logo a tendência de fazer planos de investimento para o resto da vida: a casa (é justo), a segunda casa, a casa de praia, o carro (um chega), o segundo carro, Mercedes? BMW também serve, o barco, funcionários, mais outro carro, funcionárias, a Margarida tem as pernas bonitas mas não se mexe tanto...

Creio, mas só creio mesmo, que a apicultura à semelhança de tantos outros sectores num mundo finito, com recursos finitos, sofrem de um problema já pouco falado que são os “numerus clausus”. Ou seja, isto até chega para todos, não podemos é todos querer tudo, ou simplesmente querer muito.
A estrutura económica apícola nacional tem um tecido característico, em pirâmide como todos os outros: imensos pequenos apicultores, menos um pouco de apicultores com mais colmeias, menos ainda de médios apicultores, poucos grandes apicultores e pouquíssimos gigantescos apicultores. Esta estrutura ainda está longe de ser equilibrada, ainda cabem imensos apicultores e detentores de imensas colmeias. Estamos muito longe de cada um que aumente os efectivos causar problemas aos vizinhos.
Mas aparte tudo isto, não será possível ser feliz com meia dúzia de colmeias? Apanhar mais um enxame sem com isso ter receio de baixar o preço global do mel???
Cada família uma colmeia, vá lá, uma dúzia. Uma horta para o tempo que sobra, meia dúzia de cabeças de gado, segurança alimentar mesmo sem a ASAE. Não é para vender, é mesmo para comer. Se se vender alguma coisa também não é por aí que o gato vai às filhoses.
Há tantas outras actividades complementares que os apicultores podiam praticar para melhorar a sua qualidade de vida. Nunca me canso de repetir o caso da Suécia, contado pelo Vicente Furtado, em que o próprio governo incentiva a apicultura familiar. Aumenta com isso a rede nacional de apiários, que acabam por surgir em locais de menor floração (sem interesse económico para os grandes produtores) e aumentando consequentemente as áreas polinizadas.
Tenho o maior carinho e admiração pelos grandes produtores de mel, creio que justifiquei lá atrás a sua importância (grande importância) no tecido económico nacional. Este texto pretende apenas fazer a apologia do crescimento lento, ponderado e sustentável. Não faz muitos anos que um colega do meu primeiro curso de apicultura saiu de lá estimulado para comprar 500 colmeias. Comprou 50 que ao fim de dois anos pouco mais serviram que para a lareira do vizinho dele. A madeira propolizada arde com muita facilidade, nem precisa de acendalhas.

Ultimamente têm sido aprovados projectos de apicultura, estes com fundos comunitários, dinheiros públicos, cuja estrutura e viabilidade deixam muito a desejar. Para não falar na própria competitividade, parâmetro de caracter mais ambicioso.
Atingem jovens apicultores, aliás, candidatos a apicultores, pois muitos nem conhecimentos têm. Atraídos pelos prémios de instalação e demais subvenções do dito apoio, lançam-se na vida activa com dezenas (centenas) de colmeias, equipamentos para equipar uma melaria de âmbito regional e... créditos bancários e demais compromissos e “entaladelas”, sem as quais nunca teriam acesso ao almejado prémio = presente de Grego...

E lá em cima? Apostou na resposta “B”? Não quer pensar melhor?
Não pense mais porque acertou! De facto a apicultura é uma excelente aposta, e o termo milionário não se aplica apenas a quem tem muito dinheiro...

17 comentários:

Mário disse...

Com toda a certeza aposto na opção B, sinto-me um milionário de excelência, e cada vez mais me enriqueço, multiplico os meus milhões a cada visita ao apíario, em cada vez que falo com um outro aficionado, a cada contacto com uma abelha.
Asae, essa gaja metediça, para ela e só para ela tenho mel a 7.00€, com rotulo encarece de 0.50€, pegar ou largar, não é minha cliente habitual, e se meter o bedelho resta-me recomeçar tudo do zero nem que seja uns metros ao lado, mas com umas sebes altas para evitar mirones, mas com sorte ponho la uma caixa de cigarrilhas e fica tudo perdoado.

Abraço

Ferradela

hitchi disse...

Como dizia o Faria, a apicultura é uma maneira de empobrecer alegremente.

Abelha Preguiçosa disse...

Este texto bem podia ter sido escrito agora!

Dizia o meu avô, falando acerca de algumas pessoas, que não eram ricas, apenas tinham muito dinheiro...

Unknown disse...

Congratulo-o pela sua opinião que abarcando o tema da apicultura demonstra um conhecimento bastante esclarecido da realidade familiar/local, global logo económica que encontram semelhança com os demais sectores agrícolas. Pensar local para resolver o global é o caminho pois o contrário tem destruido o tecido social de familias pegadas à terra. Comecei este ano nas artes das abelhas com 4 colmeias e e estou muito satisfeita pois eu e o meu marido e filho de 4 anos adoramos mel. Se também no futuro conseguir vender excedente melhor ainda. Obrigada por partilhar as suas ideias fruto de uma experiencia e espirito atento. Fátima Mourão. Fortes Novas/ Ferreira do Alentejo, agricultora

Unknown disse...

Congratulo-o pela sua opinião que abarcando o tema da apicultura demonstra um conhecimento bastante esclarecido da realidade familiar/local, global logo económica que encontram semelhança com os demais sectores agrícolas. Pensar local para resolver o global é o caminho pois o contrário tem destruido o tecido social de familias pegadas à terra. Comecei este ano nas artes das abelhas com 4 colmeias e e estou muito satisfeita pois eu e o meu marido e filho de 4 anos adoramos mel. Se também no futuro conseguir vender excedente melhor ainda. Obrigada por partilhar as suas ideias fruto de uma experiencia e espirito atento. Fátima Mourão. Fortes Novas/ Ferreira do Alentejo, agricultora

Humberto nascimento disse...

A riqueza está na cabeça de cada um, rico é aquele que vive bem com aquilo que tem não com aquilo que gostaria ter.
quanto ás abelhas tenho apenas 15 colmeias e tudo o que elas me dão eu agradeço tratando delas o melhor que sei.

Anónimo disse...

tenho 200 colmeias cada uma produz em torno de 60 kg por ano ,ou seja em um ano eu tenho 12.000 kg ,e vendo a 15 rs que da um total de 180,000 mil tenho um percentual para as fazendas que trabalho e mais gastos se despeças me sobra em torno de 136.000 por ano ,isso e trabalho e estudo....

Alien disse...

Em que região do Brasil tem as suas colmeias?

Meliponário da Serra disse...

Patricio, que beleza de texto, afinal nesta vida nem tudo se resume a ter dinheiro.
Abraço Grande.
Saint-Clair Salles
Meliponario da Serra - Carmo-RJ(BR)

Jorge Vasconcelos disse...

Eu tambem concordo com a opção b, e como o texto esclarece a realidade da apicultura. Tenho seis colmeias, quero ter mais, e sou um apaixonado pela apicultura, que só conheci à dois anos atrás com 47 anos. saudações apicolas

Alien disse...

Olá Jorge Vasconcelos,

47 anos é uma idade tão boa como outra qualquer para nos iniciarmos na apicultura. É preciso é muita perseverança e um acompanhamento contínuo da exploração.
Bom trabalho

Joaquim Pifano

oscar vitorino disse...

Tudo bem sr anonimo, souportugues e tou aqui por Bolivia, tou a pensar por algumas colmeias para começar e gostaria de entrar em contacto consigo para trocar ideias e alguns conselhos .
Cumprimentos.

Alien disse...

Olá Oscar Vitorino,

O meu nome é Joaquim Pifano.
Terei imenso gosto em trocar idéias consigo, envie-me um mail para:

montedomel@gmail.com

Fico a aguardar o seu contacto,

os meus cumprimentos,
Joaquim Pifano

FDias disse...

Mais um belo texto, como todos os outros. Parabéns! De facto persiste a ideia que a apicultura é uma "galinha dos ovos de ouro". Está na moda... Ora bem, eu sou mais um dos que está na moda ,mas sem projeto de 300 ou 500 colmeias, sem investir dinheiro que não é meu, sem me atirar às cegas para o interior de um poço. Sempre vivi em contato com o campo, considero-me "um rural", sou defensor da cultura rural com muito orgulho (já aqui sou mega milionário). Há pouco mais de 2 anos, quando preparava um projeto de estudo e valorização dos ciclos agrários tradicionais, sobre os saberes ancestrais passados de geração em geração dei por mim a pensar no ciclo do mel. A apicultura tradicional, mesmo a chamada apicultura mobilista, moderna, encerra em si um universo de saberes empíricos, de gestos repetidos com milhares de anos. Ora, isto é um capital cultural com transmissão direta apicultor a apicultor que importa valorizar como outro património qualquer. Assim comecei a pesquisar e a ler sobre apicultura e rapidamente me arvorei herdeiro dos genes apícolas do meu saudoso avô paterno, que teve durante anos um apiário de cortiços (entre 4 e 8). E pensei porque não experimentar? Mãos à obra, fui falar com 2 vizinhos apicultores que me arranjaram 4 enxames (garfas) que muita felicidade me proporcionaram e tão grande o desgosto à medida que foram morrendo no verão e inverno seguintes... O ano passado voltei à carga e consegui mais 3 garfas que com esforço consegui chegar com 2 ao mês de fevereiro. Em março apanhei um enxame grande, experimentei os desdobramentos... neste momento tenho 7 caixas com abelhas. Muito mais "rico" me sinto! Digam lá que a apicultura não traz riqueza? Bem se falarmos em euros o caso muda de figura, pois já devo ter gasto perto de uns 2000 e ainda não colhi mel da minha produção.

Alien disse...

Olá FDias,

Apesar de recente, já é o que se chama um percurso apícola digno de registo!

Conte com toda a informação técnica que eu lhe possa dar, se tiver oportunidade de passar por Avis / ADERAVIS para um café e conversa apícola será muito bem vindo.

abraço
Joaquim Pifano

Carlos Bitencurk disse...

Li e acho que entendi,lembranças me levaram a um passado recente,lembrei da AVESTRUZ MASTER onde os investidores compravam aves a distancia para depois de um certo período pré estabelecido vender e com isso obter altos lucros?
Pois bem,a avestruz faliu da noite pro dia e 55 mil investidores perderam tudo,as aves só existiam no papel, menos algumas poucas que a justiça levou. Antes disso foi o boi gordo que serviu de modelo para a avestruz, agora surge a apicultura com promessas de lucros estrondosos e rápido. ALGUÉM TA QUERENDO VENDER NÃO TA?

Alien disse...

Olá Carlos,

Não andará muito longe da verdade, a política de projectos apícolas
que se instalou nos últimos anos dá que pensar.
Pode inclusivamente adicionar outros sectores a essa lista da avestruz, o olival, a vinha, os mirtilos....
Levam-se as pessoas a investir financeira e pessoalmente num determinado sector
com vista a lucros fabulosos e quando as explorações estão prontas a arrancar
a cotação desses produtos no mercado cai. Depois fica-se entre a espada e a parede
ou melhor, entre os compradores e os bancos...

No caso particular deste post, não será tanto esse o tema, pois
aqui refiro-me antes a um mito que passa p'la cabeça das pessoas
de que o sector apícola permite lucros fáceis e em tempo record,
o que, acredite-me, não é de todo verdade...

abraço
Joaquim Pifano