10 outubro, 2009

Síndroma do Despovoamento de Colmeias vs Alimento Artificial e Acaricidas

Depois da “Conversa com António Pajuelo sobre o SDC”, eu tinha de voltar ao dito assunto, ou não estivéssemos a entrar na época crítica em que ainda é possível remediar ou atenuar os estragos.
Se se lembram da entrevista publicada a 12/09/2009:

http://montedomel.blogspot.com/2009/09/conversa-com-antonio-g-pajuelo-sobre-o.html

A. Pajuelo, aponta como factores determinantes para tais mortandades as alterações na flora do Verão/Outono, devido à seca dos últimos anos. Flora essa que como sabemos é o último “reduto nutricional” para as reservas de Inverno e para a “engorda” das últimas abelhas nascidas neste período para passarem a estação fria.

Se essa flora escassear/falhar, obviamente que a quantidade e até a qualidade das jovens abelhas nascidas no fim do Verão princípio do Outono, das quais se espera uma longevidade de meses para que a colónia atravesse o Inverno, será diminuta e a probabilidade de a colónia sobreviver a tal período será ainda menor.
Recordo que o mesmo técnico nos pede para à entrada do Outono, avaliarmos /observarmos:

I. O número de quadros do ninho ocupados por abelhas.
II. O número de quadros com criação.
III. A taxa de sobrevivência dessa população.
IV. A quantidade/qualidade de pólen armazenado/disponível na colónia.
V. A qualidade da cera (análise de resíduos).
VI. Avaliar e controlar a Varroose.


Já fiz alguns comentários a estes cinco itens no texto da referida entrevista. Por outro lado, gosto pouco do papel de alarmista e antecipar os problemas antes deles serem de facto... problemas.
No entanto, gostava que cada um reflectisse sobre esta situação, até porque há dados e números bem reais e assustadores, sobre os efeitos do SDC um pouco por todo o lado.

Voltando aos cinco pontos anteriores (e resumindo, porque isto já foi mais ou menos dito),:

I. O número de quadros do ninho ocupados por abelhas não reflectem de modo algum um retrocesso na população. É necessário ter em conta se essa colónia alguma vez chegou a ter os dez quadros ocupados e depois reduziu para seis, cinco, quatro ou menos quadros... Seja por um enxame tardio, numa zona com poucas fontes de néctar, doenças anteriores... enfim, imensas razões que podem ter levado ao atraso de uma colónia, o que também não indicia nada de bom.

II. O número de quadros de criação também pode ser bastante variável, por razões semelhantes ao ponto anterior. Inclusivamente há regiões com fortes florações Outonais (e de Inverno) que permitem óptimas recuperações nestes casos. E até são consideradas normais nessas mesmas regiões.

III. A taxa de sobrevivência dessa criação também pode ser influenciada por motivos sanitários e não apenas pela disponibilidade de reservas nutritivas. Mas este é já um factor de alarme muito forte.

IV. A disponibilidade de pólen também pode ser um factor dúbio. Tenho observado imensas vezes colmeias na zona de Ponte de Sor, que passam um Verão péssimo (devido à ausência de flora), com pouca população adulta e quase sem criação, e é curiosamente graças a uma riquíssima flora de Outono que se preparam para passar o Inverno.

V. Este ponto é pouco importante para o exemplo que hoje quero ilustrar.

VI. A presença da Varroa é sempre um sinal de alarme, seja no Síndroma do Despovoamento de Colmeias, seja na sanidade apícola em geral.

Isto tudo para dizer que os cinco factores a ter em conta para “diagnosticar” o SDC, são de uma importância extrema, tal como o disse A. Pajuelo, mas... devemos ter todo o cuidado com os diagnósticos, principalmente quando a prática é pouca.
Estes pontos diferem muito de região para região, de ano para ano, consoante o próprio maneio apícola praticado e mais um sem número de factores.
Não gostaria de modo algum que cada apicultor começasse para aí a “identificar” ou “prever” o SDC por “dá cá aquela palha”, ou pior ainda, que descurassem de sinais determinantes que permitam antecipar e evitar os problemas.
Se de facto tais ensinamentos nos permitirem combater o SDC será óptimo, pois não me posso esquecer que há bem poucos anos se perderam 500.000 colónias em Espanha. Um amigo meu viu reduzido a 230 um efectivo de 450... e aqui bem perto.

Se a “fórmula” é então garantir as reservas nutricionais às colónias de abelhas e livrá-las da Varroose, tratemos então dessas tarefas. Seja com a ministração de alimentos sólidos (de Inverno) ricos em pólen, seja com um combate eficaz ao ácaro Varroa destructor.

Vou tentar esquematizar (melhor ou pior) o que escrevi aí para trás, para que todos possamos perceber como evolui o problema, e agradecia desde já que algum pormenor que me tenha escapado (ou algum inventado) me corrijam nos comentários.

Para começar, vamos ver o que se passa numa colónia equilibrada, ou seja, onde exista uma rainha, zangãos e obreiras. Estas últimas em proporções largamente superiores às outras duas “castas”. Nas obreiras, obviamente existem em simultâneo centenas ou milhares desde a entidade “ovo” até às abelhas adultas com um, dois, três, quatro, e (n) dias de vida, até morrerem.
Dos livros “tira-se” que uma obreira na época produtiva vive entre 30, 45 e às vezes mais dias de vida:

As proporções entre o número de ovos, larvas, larvas operculadas, crisálidas, amas, forrageadoras, etc, dependem de um sem número de factores como a época do ano, a qualidade/idade da rainha, a disponibilidade de néctares no exterior, o maneio apícola, o estado sanitário da colónia, etc...
Nem sei se alguém tem essas “contas” feitas, mas há gente com paciência para tudo. Por agora e para nós, interessa-nos saber que uma determinada colónia (equilibrada) possui indivíduos com todas essas idades.
Após emergirem do alvéolo, as abelhas passam a ser tratadas por “abelhas adultas” e consoante a idade vão desempenhando as mais diversas funções na colónia.
Num aparte: é por isso que não há verdadeiras castas nas abelhas, uma vez que nenhuma nasce soldado, ou colectora de pólen ou outra coisa qualquer e desempenha essa função até ao fim da vida. Muda de função ao longo da idade e de determinadas alterações fisiológicas.
Eu gosto do termo “castas temporais”, não sei se já alguém o usou ou o quer adoptar...

Na imagem anterior podemos observar as diversas funções ou tarefas desempenhadas pelas abelhas adultas ao longo da vida. Neste caso numa vida hipotética de 45 dias.
Gostava que tivessem especial atenção ao facto de que uma parte dessas funções (talvez menos desgastante para o insecto) é praticada dentro da colmeia, até ao 21º dia de vida.
A partir desse dia, sai da colmeia e torna-se colectora de matérias primas como a água, o pólen, o néctar e as resinas, entrando assim numa fase de maior desgaste físico. Desgaste esse que talvez seja o responsável pela sua curta longevidade nos períodos de produção (30 a 45 ou mais dias).
Já me contaram, ou já li algures, que a tarefa mais desgastante reservada às abelhas mais idosas, é a recolha de resinas onde chegam a perder membros ou morrer coladas a tal substância.

Das abelhas que nascem neste período do ano, fim do Verão e início do Outono, livres de todo esse serviço pesado e “condenadas” a passar o Inverno no abrigo da colmeia, diz-se que chegam a viver seis meses. E é de importância extrema que os vivam, caso contrário a colónia não chegaria à Primavera seguinte.

É então nesta fase que parece começar o problema do SDC (Síndroma do Despovoamento de Colmeias):
A inexistência de criação faz com que as abelhas que vão hibernar, já adultas e algumas “com uns bons quilómetros” de serviço, não atinjam uma longevidade suficiente para “atravessar” o Inverno ou seja, para viverem os ditos seis meses ou perto disso. Pior ainda quando falamos de Invernos longos e rigorosos.
Dessa forma, e sem causas visíveis, essas abelhas vão morrendo (porque estão esgotadas) e a colónia desaparece na totalidade, ou fica reduzida à rainha e a um punhado de obreiras. Mas de qualquer forma (raras são as excepções) a colónia está condenada.
Não devemos no entanto esquecer que a rainha também põe ovos e nascem abelhas durante o Inverno. Mas estamos a falar em números mínimos, quase desprezáveis, o suficiente para manter uma população (mas em condições normais), nunca para compensar mortalidades desta ordem...

Na imagem anterior, podemos observar que num Outono atípico, sem floração/pólen, a criação aberta deixa de ser alimentada, morre, e todo esse segmento desaparece do ciclo, vindo-se a sentir a sua falta mais à frente.
Neste esquema, as larvas já operculadas mantêm-se porque já possuem no alvéolo as reservas necessárias para chegarem a adultas, mas em situações extremas acabam também por morrer devido ao frio por falta de população adulta.

Durante o Inverno, as obreiras mais velhas (principalmente as de actividades mais duras), que andaram no campo, vão morrendo gradual e naturalmente e não têm substitutas. A estas seguem-se pela ordem natural da longevidade as outras abelhas adultas, cujas actividades eventualmente foram menos desgastantes:

Finalmente (em pleno Inverno), já com a população adulta muito reduzida, a colmeia encontra-se desequilibrada. O número de abelhas existente não chega para aquecer (quanto mais para alimentar) o que ainda resta da criação e a colónia entra em colapso:

Nestas circunstâncias é comum encontrar-se a colmeia sem qualquer abelha, com bastantes reservas de mel e com algumas manchas de criação operculada mas morta. Percebe-se pelos opérculos deprimidos e perfurados, larvas e crisálidas mortas e putrefactas, o que por vezes nos leva a falsos diagnósticos de Loque Americana.

No caso dos ataques severos de Varroose, os efeitos acabam por ser semelhantes aos relatados pela falta de pólen. Agindo este parasita de uma forma sinérgica para acentuar o SDC.
Aliás, acaba por fazê-lo de duas formas distintas: directamente pela mortalidade que provoca em boa parte da criação (reduzindo-a muito), seja também por questões nutricionais, pois ao alimentar-se da hemolinfa das abelhas, priva-a de boa parte dos nutrientes como gorduras e proteínas essenciais para esta fase do ano...

Fica então à consideração de cada um a observação, interpretação e intervenção nestes “sinais” das respectivas colmeias e apiários, de modo a que consigamos controlar ou mesmo debelar mais esta “moléstia” que tantos efectivos tem reduzido...

Na semana passada desloquei as minhas colmeias para os apiários de Inverno. Findas as florações e crestas de Verão, importava agora acondicionar o melhor possível as colónias para a estação fria que se aproxima.
Foi com tristeza que percebi que boa parte das colmeias pesavam metade do que é habitual nestas andanças, ironicamente foi uma das transumâncias mais fáceis que alguma vez fiz... as minhas costas que o digam!
Boa parte das colónias estão reduzidas a metade e algumas a menos que isso. De um efectivo de oitenta e tal colónias já morreram cerca de dez. Não tenho qualquer pudor em afirmar que ainda esta noite vou dar-lhes a primeira dose de alimento artificial de manutenção, mel, açúcar e pólen numa proporção de 1:2:1, calculados para 200g de pólen/colmeia.
O ano passado “salvei” um apiário de doze colmeias com este procedimento, o pior é que este ano os sintomas começaram bem mais cedo e na totalidade dos apiários. Vamos esperar pelos resultados...

2 comentários:

Pedro Henrique disse...

Estou fazendo meu tcc, e preciso de imagens para ilustrar o que é a apicultura, quero falar o geral sobre Hierarquia/história e tudo mais na parte de referêncial teórico, será que posso usar suas imagens?

Alien disse...

Caro Pedro Henrique

Sinta-se à vontade para usar todas as imagens
que necessitar para o seu TCC
é um prazer poder ajudar!

abraço
Joaquim Pifano