03 julho, 2009

As abelhas, noutra perspectiva


Há uns largos milhões de anos atrás, ainda antes do tempo dos Dinossauros, no período Carbónico, época em que grandes florestas luxuriantes cobriam a maior parte do planeta, surgiu um grupo de seres vivos extremamente bem adaptados – os insectos.
Estes rapidamente invadiram todos os habitats possíveis e imagináveis, actualmente encontramo-los desde as calotes Polares até aos tórridos desertos Africanos, desde as camadas mais altas da atmosfera até às profundidades oceânicas, e inclusivamente em minas e grutas naturais de grande profundidade onde a vida parece impossível. Posso ainda apresentar alguns exemplos mais extremos, como as larvas de uma determinada mosca que vivem em lagos com salinidade superior a 87%, ou das larvas de outra mosca ainda, que se desenvolvem naturalmente nos charcos de petróleo bruto, e que alguém conseguiu manter com vida em petróleo puro refinado.
O seu sucesso biológico deve-se entre muitas outras razões às suas capacidades reprodutivas com proles muito numerosas, que permitem que apenas alguns casais de insectos reponham toda uma população. O que se verifica nos nossos campos de cultivo após os tratamentos com pesticidas que resultam na maioria das vezes ineficazes.
O seu exoesqueleto de quitina permite-lhes sobreviver ás condições ambientais mais adversas, inclusivamente ás radiações nucleares como aliás já foi diversas vezes provado.
Á semelhança das aves possuem asas, ou melhor ainda, e como me disse um dia um entomólogo “... os insectos são os únicos seres vivos que ganharam um par de asas sem detrimento de outro par de membros, à excepção dos anjos.”.
E não é difícil de estimar o potencial adaptativo que as asas conferem a qualquer ser vivo, seja pela capacidade de alcançar e explorar lugares inatingíveis por animais apteros, seja pela capacidade de escapar aos predadores ou apanhar as presas.
Por outro lado, os insectos possuem ainda uma grande capacidade de se dissimularem, ou seja, de passarem despercebidos, existindo então alguns a imitarem flores, os fasmídeos, muito usados em estudos de genética assemelham-se de tal forma ás hastes de gramínias que as populações rurais os designam por “ Bichos – palha “. Outros insectos semelhantes às cochonilhas, possuindo uma carapaça em forma de espinho confundem-se assim com os espinhos verdadeiros de alguns arbustos. Algumas borboletas de cores vistosas quando voam, passam a autênticas folhas secas com nervuras e tudo, quando pousam.
A força e o trabalho desenvolvido pelos insectos, outro factor a não desprezar. Desde sempre se fizeram comparações à força do Homem e dos insectos, em especial das formigas, calculando-se hoje que as coisas não serão tão proporcionais assim, fiquemo-nos ainda com as primeiras ideias, tal como as transcreveu E. Sousa D’Almeida na obra “O Homem e os insectos”, onde se diz que um determinado escaravelho tem em relação ao seu peso tanta força como dez juntas de bois, ou se compararmos o esforço que faria um homem para igualar uma formiga a carregar um grão de trigo por cima de um muro de dois metros “... repetido na escala humana, (...) um homem, carregando com um fardo de mais de 500 quilos, subir a pique uma altura de quase duas vezes a do Himalaia e repetir este feito várias vezes ao dia”.
E muitos outros exemplos poderia dar para ilustrar esse mundo tão estranho dos insectos, e a forma como se têm relacionado com o Homem, mas para quem quiser saber mais sempre poderá consultar as referências do presente artigo.

Apis mellifera conservada em ambar (fóssil).

Alguns insectos, das ordens Hymenoptera e Ortoptera evoluíram no sentido de uma vida em sociedade, com divisão de funções e tarefas, levando essa especialização tão longe que se tornaram incapazes de sobreviver sozinhos. Dentro dos hymenopteros, um grupo tem interessado particularmente ao ser humano, o género Apis, mais precisamente a espécie Apis mellifera, dadas as suas capacidades de armazenamento de substâncias de grande interesse económico, sendo sobre esta espécie que nos iremos debruçar.
Nos últimos dois séculos bastante luz se tem feito sobre os mistérios das abelhas, mesmo o “segredo da abelha” o subterfúgio para tudo o que era inexplicável na colmeia tem sido gradualmente desvendado. No entanto, e para quem se interessa verdadeiramente pelo tema, por cada mistério resolvido, por cada verdade conquistada, ficam sempre novas dúvidas, novas questões, por vezes pouco importantes no contexto global, e que tocam já as raias da filosofia, mas que continuam de certa forma a aguilhoar as mentes mais curiosas.
E na realidade não é necessária muita perspicácia para constatarmos o carácter único da nossa pecuária, que estranhos ganadeiros serão os apicultores cujos animais diferem de todos os outros domesticados pelo Homem ? O próprio comportamento das abelhas que tantas questões e problemas têm levantado.
Umas mais agressivas, outras nem por isso, “... não conhecem o dono.” dizem uns, “... defendem o que é delas e nós tentamos roubar”, dizem outros, mas o que é um facto é que esta característica é bastante impeditiva para muitos potenciais apicultores que não chegam a sê-lo.
Outras questões também enigmáticas prendem-se com a sua vida colonial, o seu comportamento social, as hierarquias tão definidas, a divisão de tarefas como se uma colónia funcionasse como um único organismo. Há uma nítida perda de individualidade por parte dos “indivíduos” que constituem a colmeia, o formigueiro ou o vespeiro, nenhum é representativo dos restantes, nenhum sobrevive sozinho.
Suponho que não seja fácil para a teoria evolucionista de Darwin explicar como é que determinados animais originalmente solitários, tenham evoluído para uma estrutura social tão interdependente, apesar de todas as contrapartidas que daí retiraram.
Muitos autores tentaram classificar as colónias de abelhas, de formigas, de térmites e das vespas sociais como um organismo indiviso, e não como um grupo, uma colónia. Cada abelha, formiga, vespa ou térmite não seriam mais do que células especializadas em determinada função e inseparáveis fisiológicamente de todas as outras. Os exemplos, são demais conhecidos, no caso das abelhas, a rainha e os zangãos não serão mais do que os ovários ou os testículos de um super organismo, os responsáveis pela reprodução, precisam no entanto de ser alimentados e protegidos pois não o conseguem fazer por si só. As obreiras, variam as suas funções ao longo do tempo, limpando a colmeia, defendendo-a de intrusos e buscando alimentos para toda a colónia, passando assim de sistema excretor, como se dos rins ou da bexiga se tratasse, a sistema imunitário e finalmente a sistema digestivo e circulatório, fazendo passar os nutrientes por toda a colónia alimentando-a. Estas, não conseguem então reproduzir-se pois são estéreis.
Há assim uma especialização de funções que as obriga a uma união continua ao longo de toda a vida, impossibilitando integralmente uma vida solitária.
Em tempos li um livro bastante curioso sobre genética, ou melhor ainda, sobre uma abordagem bastante filosófica da genética e do comportamento, e que poderá de certa forma trazer alguma luz às questões aqui levantadas. Alerto no entanto para o facto de serem apenas reflexões, não me vou pronunciar acerca da validade cientifica da obra que tem um caracter muito particular, mas cujas ideias estão apresentadas de uma forma muito clara e inteligente, e de certa forma até irrebatíveis, dada a impossibilidade de provar o contrario.

A ideia base da obra a que me reporto, não é mais do que um ponto de vista curioso sobre o comportamento dos animais, justificado em parte pelas proximidades genéticas, onde o autor pretende demonstrar que os seres vivos, as suas características e os seus comportamentos não são mais do que estratégias arquitectadas pelos genes para estes sobreviverem e acima de tudo estarem presentes nas gerações seguintes.
Esta teoria, se assim lhe posso chamar, tenta de certa forma reduzir o comportamento dos animais, e do Homem inclusivamente, a algo muito mecanicista. O eixo da consciência, e o sistema cognitivo em geral é assim deslocado do cérebro para os genes, as estruturas responsáveis pela transmissão hereditária das características, ou seja, o que faz com que os filhos se assemelhem aos progenitores.

Vamos então a uma das questões fundamentais nas abelhas, o suicídio, atitude muito comum nas obreiras, para defesa da colónia.
A abelha ao desferir a picada vê-se desprovida do ferrão que arrasta consigo alguns órgãos vitais levando à sua morte. Uma atitude louvável e cheia de altruísmo, como todos a classificam. Mas segundo esta teoria, parece que as coisas não são bem assim, este comportamento ao contrário do que parece revela o puro egoísmo.
Como disse atrás, aos genes importa apenas estarem presentes na geração seguinte, a qualquer custo e independentemente do seu tempo de vida, de onde ressalta um exemplo que diz que uma mãe ao deixar de comer para alimentar os filhos colocando em causa a sua própria sobrevivência, pratica um acto de egoísmo, pois os seus genes já transitaram para a próxima geração, já se encontram “copiados” nos seus filhos, e são apenas os genes que contam, os organismos não passam de estratégias.

Então chegamos a uma contradição, não faz sentido o suicídio da obreira, não defende a progenitura, os seus genes não estão na geração seguinte pois ela não se reproduz, logo não poderá ser uma “ estratégia “ para a propagação de genes. Precisamos então de uma explicação mais convincente, o que se consegue atendendo às características peculiares da reprodução destes insectos.


Como é do conhecimento geral os zangãos ( o sexo masculino ) resultam de óvulos não fecundados, logo todos os seu genes provêm de um único progenitor, a rainha. As fêmeas férteis e estéreis, nomeadamente a rainha e obreiras, resultam de um processo reprodutivo normal, herdando informação genética de dois progenitores, logo os seus genes provêm 50% do pai e 50% da mãe.


Para aclarar as ideias, podemos afirmar que uma obreira filha de um zangão com características agressivas ( portador de genes para a agressividade ), e de uma rainha com características dóceis, poderá ser dócil ou agressiva, 50% de probabilidades para cada hipótese. No entanto, um zangão filho de uma rainha dócil, será decerto dócil e transmitirá essa característica à descendência, se for filho de uma rainha com características agressivas, herdará apenas genes para a agressividade que transmitirá posteriormente à descendência.
É então possível atribuir afinidades, e graus de parentesco entre as diferentes “castas” nas abelhas e assim tentar explicar o suicídio das obreiras. Nos insectos sociais podemos dividir a colónia em dois grupos distintos, os produtores ( rainha e zangãos ) e os criadores ( as obreiras ) que cuidam da descendência dos primeiros.
O que ganham as obreiras com isto ?, ou ainda, o que ganham os seus genes ? Poderíamos pensar que as obreiras são manipuladas de uma forma egoísta pela rainha, para cuidarem dos seus filhos, e por assim dizer dos seus genes.
Mas há outra abordagem possível !, porque não pensar que é antes a rainha a entidade subjugada pelas obreiras para produzir réplicas suas e dos seus genes ?
É certo que não são os próprios descendentes que as obreiras cuidam, no entanto são-no muito próximos geneticamente, mais próximos do que poderíamos pensar, e talvez seja aqui que está a chave do mistério.
As obreiras recebem genes da mãe (rainha), e do pai (zangão). Os genes que recebem da rainha podem ser de dois tipos diferentes, pois a rainha teve um pai e uma mãe herdando genes de duas fontes distintas, e por isso poderá transmitir a cada filha um tipo ou outro, nunca os dois em simultâneo. Os genes vindos no espermatozóide do zangão serão apenas de um tipo, pois o zangão não tem pai, logo só transmite o mesmo tipo genético à descendência, o tipo que herdou da mãe.
Podemos daqui concluir que todas as abelhas fêmeas (rainhas e obreiras), serão forçosamente gémeas por parte dos genes paternos, o que lhe dá uma grande proximidade genética entre elas, superior ainda à proximidade com a mãe.
Para podermos fazer comparações e aclarar o termo proximidade genética, pode-se dizer que os gémeos verdadeiros, no homem por exemplo, têm uma proximidade genética de 100%, pois partilham todos os genes.
Esta proximidade, levará segundo este ponto de vista, a uma maior predisposição das obreiras a regular a sua própria mãe como uma máquina eficiente de produzir irmãs, tal como à facilidade com que se suicidam para salvar genes tão próximos dos seus, mais ainda do que se de filhos se tratasse.
Outros pontos de vista curiosos ressaltam ainda desta obra, como por exemplo, o que terá levado animais solitários a viver em grupo?
Imagine-se o comportamento de um grupo disperso de herbívoros numa pradaria quando se aproxima um predador. Esse grupo disperso tende a aglomerar-se cada vez mais, uma vez que cada um tenta estar mais próximo do centro, e por assim dizer mais afastado da periferia onde se encontra o predador.
Hipoteticamente, com os insectos sociais poderá ter acontecido algo semelhante, levando a uma especialização dos que ficam na periferia do grupo para a defesa da colónia abdicando da fertilidade, pois se tivessem filhos estes estariam mais expostos. Enquanto que os do centro, portanto na zona segura, evoluíram no sentido do atrofio dos órgãos de defesa, especializando-se na reprodução. Esta situação vê-se nos dias de hoje quando um enxame desprotegido da colmeia ou de um abrigo natural, pousa temporariamente no ramo de uma arvore por exemplo.
Muitas outras hipóteses poderiam ainda ser levantadas sobre este tema tão vasto do comportamento das abelhas, no entanto, volto a frisar que o que foi dito são apenas teorias, mais ou menos fundamentadas.
Duma coisa podemos nós ter a certeza, as abelhas picam, e altruística ou egoísticamente elas continuarão a picar quem delas se aproxime, mas também a apicultura perderia toda a graça sem este pormenor.
Referências:
Almeida, Eduardo Sousa.( 1946 ) – O Homem e os Insectos – Livraria Sá da Costa
Dawkins, Richard.( 1976 ) – O Gene Egoísta – Ed. Gradiva

2 comentários:

JELeal disse...

Simplesmente fantástico!

Com um artigo desta categoria quem é que não gosta...

Um Abraço,

Maria Helena disse...

Espectacular! Vejo que te esmeraste na aula de história de hoje! Sim senhor! Aqui aprendem-se coisas bastante interessantes, mesmo para aquelas pessoas que como eu, só gostam de saborear o doce do mel, sem ter de levar umas ferradelas de vez em quando...
Muito bom, mesmo.