31 julho, 2010

Produções de 2010 “derretidas”…

Há muito que tinha pensado em abordar o assunto, mas para não parecer alarmista…

O Inverno/Primavera de 2010 foi muito chuvoso, a flora despontou com bastante vigor e tal bonança reflectiu-se nas produções apícolas. Digo até, a título de comparação, que as Primaveras de 2008 e 2009 tiveram respectivamente 10 e 9 dias de trabalho útil para as abelhas e cerca de 15 dias em 2010.
Entenda-se por “dias de trabalho útil” os dias de Primavera sem chuva, sem ventos fortes que sequem os nectários e com temperaturas amenas para a saída das abelhas. Os cinco ou seis dias suplementares da última Primavera foram suficientes para duplicar as produções dos anos anteriores, ou seja, a passagem de uma média de duas alças/colmeia para as quatro alças.
Não posso deixar de pensar no que sucederia numa Primavera com 60 dias úteis para a produção do Rosmaninho, sendo esse o período aproximado em que tal vegetação se encontra florida.

A acompanhar o aumento nas produções e de uma forma aparentemente contraditória, também se verificou uma forte enxameação. De assinalar no entanto que este fenómeno em vez de diminuir as produções, o seu efeito pouco se fez sentir uma vez que os enxames foram muito pequenos.

Tenho por hábito fazer a cresta na última semana de Maio, ou na primeira de Junho. Mas este ano e por questões de agenda só o consegui fazer em finais de Junho, felizmente e antes de se sentirem os fortes calores que já estão a caracterizar este Verão. Digo felizmente porque consegui retirar todo o mel antes das altas temperaturas fazerem estragos, ao contrário de muitos apicultores que só crestam em Julho e Agosto.

Foi precisamente no início de Julho que recebi o primeiro alerta por parte de um apicultor de Brotas que viu “escorrer” boa parte da produção pela porta das colmeias. O elevado número de alças sobre os ninhos, sob o Sol escaldante, dificultou o arrefecimento das colmeias pelas abelhas, os favos derreteram e a cera e o mel vieram por aí abaixo arrastando e matando os insectos.

Nas semanas subsequentes outros apicultores relataram fenómenos semelhantes, alguns com perdas de centenas de quilogramas e morte de muitas colónias. Em tempos ouvia os apicultores mais idosos falarem em “colmeias alagadas” referindo-se ao derreter dos favos das alças e ao escorrimento do mel até ao ninho e daí para o exterior. Seguiam-se as consequentes sessões de pilhagem e acentuada confusão em todo o apiário, com danos e prejuízos elevados.

A explicação é simples: a grande quantidade de alças, virtude de uma boa Primavera, associada aos fortes calores estivais e perante a dificuldade das abelhas em manterem as temperaturas levou ao sucedido.
Resta saber o motivo da impossibilidade das abelhas em evitarem tal desastre, poder-se-ia pensar que a forte enxameação levasse a grandes reduções nas populações, mas tal não se verificou. Ainda se podia alegar problemas na substituição das rainhas que saíram com o enxame (não são raros os casos de orfandade no pós enxameação de Primavera) mas nem disso se tratou este ano.

Ao que parece, a culpa terá sido mesmo das elevadas temperaturas, justificando-se cada vez mais as crestas precoces ou a opção por tapar as colmeias com materiais isolantes que evitem o excesso de calor no interior da colmeia.
Fica o aviso para o próximo ano, ou ainda para este…

Uma confissão: Apesar de ter conseguido “safar” a minha produção a tempo, logo que começaram os grandes calores começaram-me os “problemas de consciência”, não me sentia bem com as abelhas sob o Sol abrasador. Este ano não houve girassol por estas bandas, os incentivo$ à sua produção não justificaram o lançar das sementes à terra, pelo que a transumância para os apiários de Verão além de uma perda de tempo resultariam também em investimentos sem retorno.
Não interessa, não é pela falta de girassol que vou prescindir de uma das actividades que mais prazer me dá: circular pelos caminhos de terra batida com a carrinha carregada de colmeias. Levar com o vento fresco das noites de Verão e os aromas que caracterizam o campo nesta estação. Desencantei um lugar que poderá produzir algum cardo e melada, muita sombra e junto a uma lagoa de águas transparentes.
Aproveito também para vos dizer que o fiz depois de uma semana stressante e de muito trabalho extenuante, tudo me tirava a paciência. Dei comigo a circular com as colmeias “às costas” e com um sorriso de orelha a orelha, parecia um idiota.

Além de todas as vantagens que já atribuí à prática da transumância, adicionem mais uma: é bastante terapêutica, para as abelhas e para nós !!!

19 comentários:

Abelha Preguiçosa disse...

Olá!
Nunca tinha ouvido falar deste problema e não fazia ideia que o calor pudesse causar tanto estrago!
Provavelmente será mais notado aí para o sul, não?

Já agora, caro Joaquim Pífano, qual é a cor que o cardo dá ao mel?

Um abraço
Ricardo

JELeal disse...

Infelizmente isto já me aconteceu este ano. Por muita pena minha vi todo o conteúdo dos quadros a escorrer para fora da colmeia levando abelhas moribundas e ceras.

Basta que a colmeia não tenha ventilação suficiente ou abelhas, para que as temperaturas que se fazem sentir nos façam estas surpresas.

Um Abraço,

Alien disse...

Olá Ricardo,

Provavelmente o fenómeno deve ser mais comum no Sul, por causa das temperaturas, mas aconteceu também nas colmeias do João Leal e ele não vive assim tão ao Sul...
Isto só me aconteceu em 2001, outro ano de grandes produções (com muitas alças)e em duas colmeias, este ano não aconteceu porque crestei a tempo.
Mas foram vários os casos e em diversos locais onde me dizem que aconteceu.

A cor do mel de cardo, pois... eu falo muito na transumância de Verão para o Girassol + Cardo + Melada de Azinho, normalmente colho uma mistura de dois desses e mesmo três, agora só com cardo é mais difícil.
Posso dizer-te que em 2007, após a colheita do Rosmaninho, levei as colmeias para o Girassol. Fiz a cresta desta floração no dia dois de Agosto. Voltei a colocar as alças sobre os ninhos, o ano estava com bastante humidade, e o Cardo resultou muito bem nesse Verão.
Já não havia Girassol, assumindo que também já era tarde para a melada de Azinho, a cresta que fiz em finais de Setembro, princípio de Outubro deu um mel de cor estranha, lembrava a cor de champanhe (isto existe?) mais escuro mas sem ser âmbar, tons acastanhados e com uma luminosidade diferente dos outros méis... (devo estar a dar uma grande ajuda...)
Certo é que me garantiram que o mel de Cardo não cristalizava e aquele ao fim de dois ou três meses estava "duro" que nem pedra...
Se mais alguém puder trazer luz sobre o assunto o Ricardo agradece, e eu também!
Abraços
JPifano

Mário disse...

Mais uma desgraça a juntar a tantas outras, e esta com perdas altas e mesmo diante dos olhos, uma boa sombra no verão sabe sempre bem para as colmeias, já no inverno é o contrario, amigo Pífano, ainda bem que tinhas o sentido da premonição apurado, e conseguiste safar a colheita, Ao Sr. João Leal, agora não pode baixar os braços e começar a preparar-se para os anos vindouros.

Abraço
Ferradela

Abelha Preguiçosa disse...

Deu uma grande ajuda sim senhor, obrigado!
Há pouco tempo também andavam por aqui abelhas nos Cardos (não sei se da mesma variedade que os daí?) e na altura fiquei com a impressão que o mel seria acastanhado, mas sabe-se lá por onde as abelhas andarão!
Pelo menos as minhas não têm chip, nem nenhum dispositivo de localização! :)
Um Abraço

Apisarte disse...

Penso que o uso dos tectos quadrangulares em chapa, que são os que mais se utilizam de momento, dá origem a muitas situações destas. Por vezes são construídos com uma pequena chapa de platex a servir de isolamento, que de nada serve com este calor! Várias vezes queimo-me a retirar os tectos em chapa. Os tectos construídos só com madeira acabam por ser mais isolantes, na minha opinião. Os antigos em forma triangular com 2 aberturas para ventilação ainda melhor. Mas dificultam o transporte. Debaixo das árvores temos sempre o problema da manta morta por causa dos incêndios! A incidência do sol este ano tem sido muito forte!
Cumprimentos
cp

Alien disse...

Amigo Carlos Pimenta,

Não posso deixar de concordar, mas já tive alguns tampos só em madeira e durante a época das chuvas eram difíceis de tirar ou meter. O ideal seria mesmo aplicar uma substância isolante nos metálicos...
Em tempos ria-me quando via um apiário com as colmeias carregadas de pedras, até ao dia em que uma tempestade destapou as minhas quase todas. Entretanto rio-me quando vejo as colmeias tapadas com longas pranchas de cortiça, esferovite ou madeira... até quando?

Abraços
Joaquim Pifano

JELeal disse...

Com o sol e calor abrasador que temos presenciado nos últimos tempos, a única solução parece mesmo ser a sombra.
Umas das minhas que derreteu era toda em madeira. As abelhas chegam a vir quase todas para fora e fazem uma barba como se fossem enxamear, apenas para se refrescarem.

Um Abraço,

octávio disse...

Olá!

Lamento o sucedido.

No meu caso, com poucas colmeias, e a Norte do País, todas as colmeias têm, por cima do telhado, uma placa de esferovite de 7 cm e por cima telhas. Até o cortiço tem isso.

Dá um trabalhão retirar todo aquele arsenal, mas pelo que verifico compensa.

Amigos, todos os que temos contacto com o campo, facilmente teremos nós ou os nossos familiares aquela rima de telha usada que só está a ocupar espaço. Experimentem levar umas quantas cada vez que vão ao apiário e verificarão que, quer no inverno quer no verão as nossas colmeias, também poderão usufruir da "eficácia de um bom telhado".

Um Abraço,

Abelha Preguiçosa disse...

Utilizei este ano pela primeira vez estrados sanitários dos que há disponíveis no mercado e tenho reparado que os tabuleiros, que são apenas uma folha de chapa, funcionam também como acumuladores de calor. Quer o calor do interior da colmeia, que o calor do sol se bater na pega do tabuleiro, ficam na chapa e parece-me que as abelhas acabam por levar com calor extra que se liberta debaixo para cima.
Há sempre a hipótese de retirar os tabuleiros durante este tempo de mais calor, mas ainda tenho as minhas dúvidas que isso ajude as abelhas...

Mas é só uma impressão minha, posso estar a concluir erradamente!
Não seria a primeira vez...

octávio disse...

Olá Abelha preguiçosa!

Não será necessário substituir o tabuleiro sanitário, na sua totalidade; bastará, tão só,nesses períodos de forte calor, retirar a parte da chapa zincada e, assim, haverá uma maior ventilação. Porém há que ter em atenção a probabilidade séria, das abelhas propolizarem uma maior área da rede do estrado sanitário.

Mas vale a pena experimentar.

Quanto a "produções de 2010", tenho um familiar que tirou nalguns casos, 45 Kgs de mel por colmeia e em muitos 0. Isto numa zona bem próxima da minha e do Ricardo, o que para mim bem poderá significar que anda por aí muita "abelha preguiçosa", eheheheh

Um Abraço,

Apisarte disse...

Caros Amigos,
Em 2009 retirei os tabuleiros aos estrados sanitários num dos apiários. Após o calor do verão, verifiquei que elas propolizaram por baixo e por cima da rede, impedindo que eu voltasse a colocar os tabuleiros. Assim ficou até hoje! Embora querendo facilitar-lhes a vida, elas assim não entenderam!
Cumprimentos
cp

Anónimo disse...

Meus amigos! com todo o devido respeito pelas vossas opiniões, eu também quero deixar a minha:
Há que fazer mudanças e tentar inventar. Como diz o velho ditado, " a dificuldade aguça o engenho" e assim sendo cá vamos.
- Porque não, umas tampas metálicas mais altas, com um forro interior de chapa de esferovite com 5 ou 7 cms de altura e esta por sua vez forrada pelo lado virado para a prancheta, forrado dizia eu, com uma fina placa de platex ou outro material do género? assim as abelhas já não destruíam a esferovite e a colmeia ficaria mais isolada.
Também as paredes dos ninhos e igualmente as paredes das alças, poderiam ser feitas em dois corpos concêntricos e no espaço vazio seria injectada espuma de "esferovite" (do tipo que os carpinteiros usam para fixar caixilhos de portas nas obras). Assim já haveria a possibilidade de abaixamento de temperaturas.
Há já no mercado, uma empresa a comercializar 1/2 alças deste tipo; já as vi e trabalhei com elas embora na fase de experiência; são em parede dupla de chapa e entre as chapas está injectada a dita espuma.
Estão feitas de modo a que as abelhas não têm acesso à espuma e assim não a podem roer.
Já vi destas alças no Alentejo e funcionaram lindamente.
Não vejo razãopara que não se tente mudar.
Igualmente já vi na Net, um site búlgaro, em que as colmeias eram feitas em material parecido a fibra de vidro e no seu interior, a tal dita esferovite.
Bem! e os quadros no seu interior? eram do mesmo material e completamente circulares.Foi uma visão estranha e mais estranha ficou, quando reparei que ewstas colmeias tinham controle electrónico de temperatura e eram ligadas à corrente.
Irei tentar encontrar de novo este site e se o voltar a encontrar, aqui virá descrito

Um abraço

Chumbinho

Alien disse...

Olá a todos,

Há muita razão nos argumentos do amigo Chumbinho, cada vez mais se justifica a pesquisa de materiais/estratégias que fomentem a isotermia da colmeia. Previnem-se problemas como os citados no post e libertam-se abelhas responsáveis pela manutenção da temperatura para outras actividades.
Lembrem-se no entanto que os factores de decisão para um apicultor adquirir as colmeias neste ou naquele fabricante são na maioria: económicos!
Se tais materiais/construções não encarecerem demasiado as colmeias seria óptimo.
No entanto, as perdas verificadas pelas elevadas temperaturas também não devem ter sido baratas...
Também não vale a pena esperarmos por uma Primavera contínua nos anos vindouros, principalmente se não se mudarem as tendências.
Por mim, tiro o chapéu às vossas sugestões, muito úteis e engenhosas sem dúvida, mas continuo a preferir a carrinha de caixa aberta e transumar para apiários de Verão, até porque fica a esperança de novas produções...

Abraços,
Joaquim Pifano

Mel Fonte Nova disse...

olá amigo Pifano ,na minha modesta opinião e sem ter que inventar nada o mais prático é as telhas de canudo 5 telhas por colmeia e bastante eficiente ,ou então ter bancadas de 4 ou 5 colmeias e utilizar a rede verde que se utiliza para abrigos ou vedações e fazer uma espécie de telhado que fique uns 60 a 70 centìmetros a cima das colmeias, o que até nem será assim tão dispendioso ,de qualquer modo eu utilizo telhas mas há que considerar que a minha zona tem um clima mais temperado .
Um abraço

MELFONTENOVA

Mel Fonte Nova disse...

olá amigo Pifano ,na minha modesta opinão acho que as telhas de canudo resolvem relativa bem o problema do calor como podem ver em algumas imagens no meu blog ,de qualquer modo temos de considerar que a minha região tem um clima temperado nunca atinge temperaturas como mais pra sul,mas tambem é capaz de ser uma boa solução fazer bancadas de 4 ou 5 colmeias e utilizar a rede verde que se usa para fazer vedações ou emparar o vento e coloca-la a 60 ou 70 centímetros a cima das colmeias como telhado assim evitava-se a luz solar directamente sobre os telhados de zinco das colmeias.
Se alguém fizer a experiência com rede gostaria de saber se resulta ou não ?
até outro dia

MELFONTENOVA

Alien disse...

Olá Adelino,

Já foi feita a experiência com coberturas de rede, e segundo a opinião dos apicultores que lá tiveram as colmeias não correu lá muito bem.
Fazia muito calor na mesma, mas não derreteram ceras.
Não se tratava de rede verde, mas branca (creio que é pior), sombreiros montados por agricultores espanhois no girassol, para receberem colmeias para polinização, uma das cláusulas do contrato de polinização.

Podem ver as imagens em:

http://montedomel.blogspot.com/2008/09/aderavis-polinizao-do-girassol.html

publicado a 1 de Setembro de 2008, no Montedomel.

Um abraço
Joaquim Pifano

Abelha Preguiçosa disse...

Bom dia caros amigos!
Os comentários já vão longos e apetece-me deixar mais algumas achegas, mas antes de mais digo que são bonitas as fotos desse link do girassol, e também concordo que neste blog se aprende muita coisa. A minha admiração vai para o seu autor, pela sua dedicação.
Isto ainda deve dar bastante trabalho!


Em umas poucas colmeias, experimentei este ano colocar ramos de salgueiro e de outras árvores sobre os telhados das colmeias, de maneira a fazerem sombra não só no telhado mas também nas alças das colmeias mais altas. Posso dizer que se notou alguma diferença no numero de abelhas à entrada!

Acho que uma ajuda no caso desses telhados de chapa é pinta-los com tinta de areia, penso que assim não fazem tanto calor!


Um abraço
Ricardo

Antonio disse...

tenho tido pouco tempo só agora passei no montedomel, está uma boa explicação obrigado um abraço salgueiro