07 junho, 2009

Abelhas sem Ferrão - Meliponário do Sertão

Esta semana, chegou-me um comentário do Brasil acerca de uma identificação errada que fiz sobre os meliponineos.
Por causa disso percebi que o autor do comentário (Kalhil França) era também o autor de um excelente blogue sobre as abelhas sem ferrão http://www.meliponariodosertao.blogpost.com. Desta feita, convidei o Kalhil a escrever um artigo para o montedomel, onde nos contasse a sua experiência sobre esses fantásticos polinizadores e produtores de mel, que ainda por cima não picam...

A pedido do Amigo Joaquim me foi solicitado que escrevesse alguma coisa sobre as abelhas, contudo, devo confessar que não sou um grande conhecedor do mundo da Apis Melífera, principalmente das espécies que são criadas na Europa, em especial em Portugal.
Fora isso, ainda persiste em mim, mesmo tendo um contato muito próximo com a apicultura, um receio muito grande no manejo. ­­Devo confessar que não tenho muita simpatia com as abelhas de Ferrão, haja vista o meu conhecimento de muitos acidentes e mortes na minha região com as abelhas Africanizadas do Brasil, abelhas essas extremamente defensivas (se não agressivas), bem diferentes da mansidão das Apis européias.

Mas logicamente, sei da importância que ela desempenham na natureza, sem as abelhas com ou sem ferrão, não há como se manter a cadeia de sobrevivência de muitas árvores, sem falar da nossa própria sobrevivência que dependem diretamente delas.
Na verdade, minha paixão (paixão não, amor incondicional) é pelas abelhas sem ferrão (meliponicultura), posso dizer que o meu contato inicial com o mundo das abelhas sem ferrão foi muito recente, mas intenso, foi amor a primeira vista e desde aquele dia a minha vida se transformou de uma maneira completamente inesperada.
Antes de continuar esse pequeno relato, gostaria de me apresentar, meu nome é Kalhil Pereira França, tenho 28 anos, nasci e me criei em Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, Brasil.
Sou servidor público do Ministério Público Estadual, advogado por formação acadêmica e meliponicultor por vocação.
Certa vez, durante uma roda de bate papo com alguns amigos, um deles que é dentista, me relatou que criava alguns enxames de abelhas em casa. Eu tomei um susto imenso, como pode alguém criar abelhas em casa? Área urbana, próximo a colégios, hospitais, aquilo era um perigo!
Fiquei eu extremamente surpreso quando ele me disse que as abelhas que ele criava não tinham ferrão, como pode abelha não ter ferrão? Ora, claro que existem abelhas sem ferrão, só no Brasil, se estima que existam mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão (ASF), elas são as verdadeiras abelhas nativas de nossas matas e florestas.
Veja o quanto da minha falta de conhecimento sobre o assunto, principalmente porque eu só conheci durante toda a minha vida a Apis Melifera, abelha essa de ferrão que vocês conhecem tão bem.
Lembro-me demais desse dia, pois ao chegar em casa fui correndo ao computador pesquisar na internet sobre as tais abelhas sem ferrão, Uruçu, Moça branca, Jataí, Tiúba, Jandaíra etc.
Desse dia em diante surgiu em mim uma paixão que só quem é do ramo pode entender, não explicar, fui aos poucos conhecendo o mundo maravilhoso das abelhas sem ferrão e aos poucos fui me tornando um grande curioso/estudioso sobre seus comportamentos e manejos adequados, principalmente porque os estudos sobre essa área ainda são muito recentes e caminham a passos curtos.
Atualmente crio 9 tipos de Abelhas sem Ferrão, damos ênfase na Abelha Jandaíra (melípona subnitida) haja vista ser a mais indicada para a minha região, tenho dois grandes meliponários, cada um com mais de 200 colônias que possui focos na produção de mel e formação de novas colônias para comercialização na região e em todo o Brasil.
Venho também, já algum tempo, realizando muitos estudos comportamentais para compreender afundo o complexo ritual de postura das Jandaíras e outras melíponas, tenho contado inclusive, com a orientação de um grande Mestre português, o Dr. Pedro Cappas e Souza, uma das maiores autoridades em estudos comportamentais sobre melíponas, pessoa demais atencioso e profundo conhecedor do mundo comportamental dos insetos sociais.
Há muitas diferenças entre a Apis melífera e as nossas abelhas nativas, a apis constrói no mesmo espaço as crias e ou mel, Já as ASF fazem em lugares distintos, existe uma região para as crias, as ASF fazem potes de alimentos, já a apis faz favos, fora que as técnicas de manejo são completamente diferentes, não se usa macacão nem roupas especiais, não se usa fumaça, as caixas são bem diferentes.
As técnicas de reprodução também, as melíponas (uma tribo dos meliponídeos), por exemplo, não fazem realeira, a célula real é do mesmo formato da obreira comum, não há como se saber qual célula tem uma rainha, é um grande mistério, principalmente porque ainda não se sabe quando a rainha põe ovos reais. Mas isso não é problema pois 20% das crias que nascem são princesas prontas para serem fecundadas.
As principais diferenças são a população das colônias e o valor do mel.
Enquanto que na Apis podemos encontrar enxames com 60, 70, 80 mil ou mais indivíduos, nos meliponídeos as espécies mais populosas não ultrapassam a casa dos 4.000 indivíduos.
As minhas Jandaíras, por exemplo, uma colônia forte apresenta em média cerca de 800 abelhas, não chegam a mil, produzem, em floradas muito boas, de 1 a 2 kilos de mel/ano, é isso mesmo, ano.
Contudo, elas possuem um ponto a favor, o valor do seu mel. No mercado Brasileiro, enquanto que um Kilo de mel de apis se vende por R$ 3,00 (1 Euro), o mel da abelha Jandaíra pode alcançar nos mercados mais luxuosos o preço surpreendente de R$ 100,00 (cerca de 34 Euros) o Kilo.
A nobreza desse mel se explica, o alto valor se deve principalmente pela raridade do mel, devido ao desmatamento de nossas matas, a cada dia fica mais difícil encontrar uma Jandaíra na natureza, fora isso, seu mel é muito suave, com uma cor dourada muito bonita, tem sabor super agradável, não é enjoativo pois possui um teor mais baixo de açúcar e tem uma concentração maior de água, chega em épocas do ano a ter entre 26% a 29%.
Estudos recentes de Universidades do Brasil comprovam que o mel de várias ASF possuem teor bactericida até 15 vezes mais intenso que o mel comum (apis). São verdadeiros antibióticos naturais, ainda muito pouco conhecidos até mesmo pelos próprios meliponicultores no meu País.
Na minha região o mel da Jandaíra é tido pelos mais velhos como medicinal, se usa o mel como remédio para tratamento de muitas doenças, inflações de garganta, dores de ouvido, conjuntivites, feridas abertas, queimaduras etc.
Mesmo com essas grandes qualidades, boa parte dessas abelhas é desconhecida pela população, não só isso, o próprio poder público não procura investir na preservação dessa riqueza nacional, que é a imensa variabilidade de espécie de abelhas sem ferrão.
O nosso órgão fiscalizador ambiental, o IBAMA (Instituto Brasileiro de Proteção ao Meio Ambiente), simplesmente desconhece a existência dessas abelhas em nosso território.
No próprio site do órgão, na relação de abelhas nativas do Brasil, só consta a existência de 4 espécies, se não fosse trágico seria até cômico, pois esse desconhecimento transforma muito criadores conservacionistas, amantes da natureza, em criadores clandestinos, ilegais.
Bem, sem querendo me alongar mais, conclamo a todos os amigos do monte do mel a darem uma passadinha no blog do meu Meliponário, “Meliponário do Sertão” (www.meliponariodosertao.blogpost.com) para conhecerem mais a respeito do maravilhoso mundo das abelhas sem ferrão do Brasil.
Gostaria de Agradecer ao amigo Joaquim pelo espaço cedido, confesso que fiquei muito feliz em saber que existe este espaço tão bem cuidado, com tanta informação sobre o Mundo da Apis Melifera, espaço esse que passarei a adotar nas minhas leituras diárias.
Atenciosamente,

Kalhil Pereira França
Mossoró-RN-Brasil
(84) 91502506
kalhil_p@yahoo.com.br

18 comentários:

Hugo Martins disse...

Boas tardes!

Com este blog sobre abelhas sem ferrão a minha curiosidade sobre elas desenvolveu-se exponencialmente à medida que ia devorando os posts um atrás do outro. Parabéns ao seu autor!

Pena que não tenhamos nada parecido em Portugal. E como não quero ser responsável pela introdução de novas espécies no nosso ecossistema, cujo impacto é imprevisível o melhor mesmo é ir seguindo este blogue!

Abraços
Hugo

Mário disse...

Post bem interessante Mestre Pífano, creio que já troquei email`s com o Sr. Pereira França sobre as abelhas Jatai.
Amigo França, um abraço.
Realmente são mesmo fascinantes, são como um mundo paralelo, mas longínquo, bem que queria ter uma colónia de indígenas, estuda-las e saber um pouco mais sobre esse tão inóspito e belo insecto.
Não sei o porque mas sorri ao ler esta frase ("se não fosse trágico seria até cômico, pois esse desconhecimento transforma muito criadores conservacionistas, amantes da natureza, em criadores clandestinos, ilegais.")

Abraços
Ferradelas

Kalhil Pereira França disse...

Senhores, de muito orgulho me enche o peito ao perceber que consigo transmitir aos amigos do Monte do Mel a felicidade que tenho em demonstrar um pouco a minha história com as abelhas sem ferrão.

Realmente é uma pena que vcs não tenham abelhas sem ferrão, nativas de seu belo Portugal, tenho certeza que se as tivessem ficariam encantados com beleza dessas abelhas. São muito dóceis, algumas são mais agressivas mas a grande maioria beira a inocência de tão bobas e indefesas. É um mundo a parte. Em portugal o Mestre Cappas Possui algumas colónias de Melipona quadrifaciata quadrifaciata (abelha Mandaçaia), são lindas e super dóceis, seu mel é uma preciosidade, na minha região tem sabor de amêndoas.

Acredito que o impacto dessas abelhas poderia ser estudado, inclusive acho que o próprio Cappas faz isso, soube no passado de envio de muitas Jandaíras Para Europa via Companhia aérea, pelo Monsenhor Humberto Brumeng, um pioneiro na minha região na criação de Jandaíra na década de 80 e 90, não sei no que isso deu, mas posso investigar se isso é legalmente possível e se há viabilidade.

att,

Kalhil Pereira França
Mossoró-RN-Brasil

Mário disse...

Sim amigo França, aguardo atentamente o desenvolvimento e resultados do que possa vir do resultado da investigação sobre seus contactos ;) mas as Jatai era mesmo o "THE BEST" tenho uma parcela de terreno (emprestado) com um microclima fabuloso, era óptimo para uma experiência.

Aguardo
Abraço
Ferradela

Mestre Pífano, este Post era mesmo o elo que faltava :) parabéns redobrados.

Abraço
Ferradela

Kalhil Pereira França disse...

Depois vejam esse vídeo que fiz:

Eles "contam" todos os detalhes na postura da Jandaíra:

www.youtube.com/watch?v=JBfGzbD4Mio
www.youtube.com/watch?v=n7su5C6ng8c

Perdi algumas noites de sono para conseguir realizá-lo.
att,

Kalhil Pereira França
Mossoró-RN-Brasil

Meliponário Abelhas do Sul disse...

Parabéns pelo Blog. Muito Interessante. Sou Meliponicultor desde 1989, especializado em abelhas Mandaçaia.
Visite meu blog
http://meliponarioabelhasdosul.blogspot.com/

Alien disse...

Olá "Abelhas do Sul",

Fico muito satisfeito por apreciar o meu blog.
Vou inclusivamente fazer um link do Monte de Mel, ao Meliponário Abelhas do Sul, que espero vir a visitar muitas vezes e a trocarmos informações.
Um abraço
Joaquim Pifano

Meliponario Abelhas do Sul disse...

OLA joaquim, quero comentar sobre as Abelhas Mandaçaia aqui do sul do Brasil, e uma abelha rustica suporta temperaturas -12 e -14 e umidade do entre 75 a 90%, pois aqui as geadas são de congelar agua em balde.
Este ano em 2 meses e inverno brabo deu só 4 dias com sol, e 1 mandaçaia que havia multiplicado no começo do inverno para esperiéncia, só que não espera 1 frio congelante. Eu tinha certeza que esta multiplicação ia morrer de frio, pois não estavam com a cx bem calafetada. Abri para ver como estavam com frio mesmo, as abelhas estavam imovel tipo ibernando.
Para minha surpreza quando deu sol começaram a trabalhar e ja alimentei e estão bem.
Abraço. Meliponario Abelhas do Sul
http://cms.meliponarioabelhasdosul.webnode.com

Portal das Abelhas Mandaçaia. disse...

Amigo Joaquim Pifano. Sou do Meliponario Abelhas do Sul, o seu pedido esta em andamento.
Estava pensando, aqui no Brasil não tinha abelha com ferrão, e ela foi indroduzida,
Em portugal segundo o seu clima onde mora e parecido com o do sul do Brasil, porque não ser o primeiro a introduzir abelhas sem ferrão em Portugal ?
Um Abraço Carlos Mandaçaia.
Visite meu Site.
www.meliponarioabelhasdosul.webnode.com/

Alien disse...

Caro Amigo Carlos,
Antes de mais muito obrigado pela ajuda que está dando ao montedomel, na divulgação da apicultura do Brasil.
Quanto ao meu "pioneirismo" na introdução das Abelhas Sem Ferrão, acredite que é uma tebtação, nem calcula como gostaria de as ter, mas a legislação para a introdução de exóticas é muito apertada nos dias de hoje.
Curiosamente, as instalações de Cappas e Sousa, o conhecido investigador dos meliponíneos ficam a 50 ou 60 km da minha casa...
Grande abraço e obrigado pela dica.
Fique certo que visitarei seu site
JPifano

meliponariocoracaodemelicultor disse...

é com muinta sastifaçao que vejo como vem crecendo a produçao de mel no nosso pais e la fora todos nós antes de sermos um apicultor ou melicultor temos o espirito de pesquisador.rivan meliponariocoracaodemelicultor.

Anónimo disse...

Queria começar uma criação de abelhas sem ferrão moro na região do Agreste de Alagoas na cidade de Girau do Ponciano quais são as especies que mais se adaptam a essa região e onde é que eu posso conseguir enxames e informações para começar a criação paulomurilo2011@hotmail.com

JOSE CARLOS JATAI disse...

Ola Joaquim, perdi o seu contato, tenho novidades para publicar em seu site, novo modelo de colmeia para abelha jatai, e um ótimo trabalho sobre multiplicação de abelha sem ferrão, o qual esta sendo publicado na revista 39MAIS de SP, foi pubkicado a primeira parte do trabalho agora em 17.03.2013

www.josecarlosjatai@gmail.com

JOSE CARLOS JATAI disse...

Ola Joaquim, sou José Carlos do Meliponario Abelhas do Sul, perdi o seu contato, tenho novidades para vc publicar em seu site, novos modelos de caixa para abelha jatai e um trabalho que esta sendo publicado na revista 39MAIS de São Paulo Brasil, foi publicado a primeira parte em 17.03.2013.

Os Editores informam:
“Segue a capa da revista, com link para folhear, lembrando que a revista está disponível também na versão digital para leitura em tablets e smartphones”.
http://issuu.com/upwebsites/docs/39mais9_site
Na Revista 39Mais, foi publicado a primeira parte de um trabalho sobre Abelhas Nativas Brasileiras (ASF).

Para folhear a revista, clicar 2 X na imagem da capa da revista e depois abra as paginas com a seta na revista a direita, va clicando até a pagina 44 -49.
Use o mouse para aumentar as letras.
http://issuu.com/upwebsites/docs/39mais9_site
MELIPONICULTURA: Pela Preservação da Biodiversidade
Páginas: 44 – 49.
José Carlos W.
Meliponário Abelhas do Sul
Saltinho Mafra SC
CADASTRO IBAMA N/ 4883692
REGISTRO N/ 3776178
Criadouro de abelha sem ferrão desde 1989

VISITE
www.abelhasdomato.webnode.com.pt/
www.meliponarioabelhasdosul.webnode.com/





Alien disse...

Olá José Carlos

há quanto tempo!!!
Espero que esteja tudo bem com você.

O meu mail:

montedomel@gmail.com

abraços
Joaquim Pifano

jorge brasao disse...

Boas quanto custa mandar um enxame para Portugal? E todo p prosseço?

Alien disse...

Olá Jorge Brasão,

Suponho que não é possível importar Meliponídeos para Portugal,
a legislação sobre a introdução de exóticas não o permite.
De qualquer forma sempre pode contactar a DGAV sobre o assunto.

Caso queira ver essas abelhas de perto (em Portugal) pode visitar
o InsectoZoo Cappas e Sousa em Vila Ruiva - Alvito - Alentejo,
cujo proprietário as conseguiu introduzir no país com uma licença
especial de investigador reconhecido.

Encontra facilmente o contacto do InsectoZoo na net ou na barra
lateral de links do Montedomel

Um abraço
Joaquim Pifano

Unknown disse...

Bom dia jorge.
Conseguiu mais informações sobre este tema??