02 Novembro, 2010

Alimentador de Abelhas “anti-afogamento”

A alimentação artificial das abelhas é um dos assuntos mais controversos com que me tenho deparado. Toda a gente tem uma teoria, seja pela composição (um dos aspectos mais importantes), seja pela consistência (fluidez ou viscosidade), seja pela data e hora de aplicação ou ainda pelos próprios alimentadores.
Claro está que para cada estação ou propósito é sabido que a composição e a viscosidade do alimento apresentarão diferenças. Consequentemente o tipo de alimentador também terá de ser adaptado ao alimento a ministrar.
Certo é que nestes anos todos ainda não conheci um alimentador que satisfizesse todos os requisitos, nomeadamente:

- Fácil acesso às abelhas
- Que permita o aproveitamento total do alimento.
- Não entorne
- Seja seguro para as abelhas
- Económico
- etc…


De qualquer forma, e perdoem-me se os desiludo, apesar do titulo pomposo, certamente ainda não é desta que o assunto ficará encerrado…

Com a chegada do mês de Outubro, o espectro do Sindroma do Despovoamento de Colmeias começa a causar estragos. Mais no nosso espírito que propriamente nos apiários.
Há dois anos consegui recuperar mais de 60 colmeias onde a nota dominante era um enfraquecimento geral e uma diminuição acentuada da população. Bastou a administração de um xarope viscoso à base de açúcar branco, mel e pólen tal como foi veiculado neste blog.
No ano passado, 90 colmeias com os mesmos sintomas, o mesmo tratamento alimentar e apenas 45 sobreviveram. Talvez a alimentação não seja o factor determinante, apesar da grande importância.
Este ano nem esperei que elas enfraquecessem, apressei-me a confeccionar um alimento (caro) com 60% de mel e 40% de pólen. O objectivo foi mesmo a obtenção de uma “bomba” energética e proteica, para que as eventuais carências nutricionais não fossem uma desculpa.
Ainda é cedo para falar em resultados, o mês de Outubro já passou, mas Novembro também costuma ter a sua quota-parte de culpa…

O assunto de hoje é precisamente a concepção do alimentador ideal, se é que existe nalgum lado, e que há muito me tira o sono.
Comecei há uns anos atrás com os sacos de plástico, muito baratos e eficazes mas com pouco rendimento em termos de aproveitamento do xarope, sobretudo quando é muito viscoso. A grande superfície de contacto do saco leva a que boa parte do pólen “melado” adira às paredes em zonas enroladas e inacessíveis acabando por se estragar.
Quando o alimento é demasiado líquido o saco de plástico torna-se mesmo inútil, face às perdas que se verificam…
Tentei solucionar esse problema com bons resultados: abrindo o saco sobre um prato de plástico e colocando folhas secas e palha para evitar afogamentos. O saco passou a funcionar apenas como recipiente para o transporte e como doseador.
No entanto, a palha e outras matérias vegetais costumam carregar microorganismos que aceleram a decomposição do alimento e decerto alguns patogénicos, pelo que cedo abandonei esse método.

Estava entretido a imaginar qualquer sistema que flutuasse, permitindo o acesso ao alimento e que impedisse o afogamento das abelhas quando as eternas discussões para o orçamento de estado me inspiraram para uma plataforma cheia de buracos, que descesse à medida que o xarope fosse consumido.
Vão-se lá saber as razões de tal associação, mas a mente humana…

Comecei então por recortar o fundo redondo de um prato de plástico, fazer-lhe vários orifícios e colocá-lo sobre o alimento artificial noutro prato. As abelhas poderiam aceder ao xarope ao longo de toda a borda do prato e se a população fosse muita também poderiam pousar na plataforma e alimentar-se pelos orifícios.

Resolvi testar a ideia da plataforma perfurada com outros materiais, nomeadamente rede plástica com cerca de quatro ou cinco milímetros de malha e até rede mosquiteira para ver o comportamento de cada uma.



Resultados:

Plataforma de plástico perfurado (fundo de um prato):

Resulta bastante bem para qualquer consistência de alimento e não se registaram muitos afogamentos. Apresenta no entanto dois contras: a perda de tempo que é perfurar toda a superfície e o facto das paredes do prato contentor serem inclinadas e não permitirem a descida correcta da plataforma. Isto é, se for demasiado pequena acompanha o liquido até ao fundo mas pode haver afogamentos ao princípio, se for demasiado grande encalha antes do alimento acabar e não permite o acesso das abelhas:

Talvez este seja o melhor método, devemos no entanto substituir o prato contentor por outro recipiente com as paredes mais verticais no fundo…
Custos: 0,05 €/prato o que totaliza 0,10€/colmeia.

Rede de Plástico (malha de 4 ou 5 mm)

Também teve uma eficácia bastante aceitável, acentuando-se na rapidez com que se obtém a plataforma pois é muito fácil de recortar.
Desvantagens: o facto de ser um material algo rígido tem tendência a enrolar e afundar nas pontas, perdendo-se aí o efeito de plataforma e causando algumas baixas. Mais uma vez o problema das paredes não verticais do contentor do xarope.
Custos: Rede a 2,00€/m2, 60 discos/m2 o que equivale a 0,033€/disco mais 0,05€/prato, dá cerca de 0,08€/colmeia.

Rede Mosquiteira de Plástico

Também funcionou muito bem, os afogamentos foram muito reduzidos. Tem a vantagem (ao contrário dos outros dois) de acompanhar totalmente a descida do xarope, graças à flexibilidade deste material.
Única desvantagem: a dificuldade em recortar a plataforma (discos) ou o problema foi mesmo da tesoura que utilizei…
Custos: Rede a 1,00€/m2 o que dá cerca de 0,016€ + 0,05€ = 0,07€/colmeia.

Cuidados adicionais:

O ideal será utilizar pratos de sopa (mais fundos e que caibam entre a tampa e a prancheta, permitindo o acesso às abelhas) ou outro recipiente que tenha a borda pouco inclinada e o fundo com paredes verticais:

O nivelamento das colmeias nos suportes é também muito importante quando se usam pratos como alimentadores, pois além de não se entornar o alimento, não se deslocam as plataformas tornando-as ineficazes:

Neste teste e há semelhança de outras situações, as abelhas não se mostraram tão interessadas no xarope quanto seria desejável, no entanto a composição foi apresentada lá atrás…
Alimentar só ao fim do dia para evitar a pilhagem entre as colónias.

Mais que apresentar certezas acerca do tipo de alimentador a utilizar, este post pretende sobretudo sensibilizar os visitantes para a partilha de conhecimentos e experiências neste domínio.
Obviamente que o montedomel está disponível e agradece antecipadamente toda a informação que possam enviar acerca deste e de outros assuntos!

Mais "coisas" sobre alimentação artificial de abelhas:

http://montedomel.blogspot.com/2008/12/alimento-artificial-de-inverno.html

http://montedomel.blogspot.com/2009/10/alimento-artificial-para-abelhas-formas.html

http://montedomel.blogspot.com/2009/11/alimentadores-artificiais-colectivos-e.html

12 comentários:

Abelha Preguiçosa disse...

Olá!
Eu tenho alguma relutância em alimentar deste modo, abrindo o buraco da prancheta, porque por aqui as noites já estão frias e tenho medo que a corrente de ar possa fazer constipar as abelhas! :-)
Mas quanto ao alimentador nunca me tinha lembrado de usar este tipo de boias, vou experimentar. Até agora tenho utilizado palhas como bóias, no caso de alimentadores internos, e também reconheço esse problema de poderem acelerar a decomposição do alimento...
Mas as palhas tornam-se engraçadas quando se olha para o ar e se vêm a voar, aparentemente sozinhas... :-)

No caso de alimento mais espesso uma coisa que já fiz foi embrulha-lo em papel vegetal e fazer um pequeno rasgo ou dois, conforme a consistência do alimento e a força do enxame.
Depois coloquei em cima dos quadros, porque neste caso a prancheta o permitia, mas penso que também dará para colocar em cima do buraco da prancheta.
Penso que só no fim do alimento é que as abelhas se dedicam mais a rasgar o papel!
Mas isto, claro, tem os problemas já referidos da da possibilidade do alimento escorrer (apenas me aconteceu uma vez)...

Quanto aos ingredientes, o ultimo menu incluiu farinha de alfarroba que tem um sabor doce achocolatado e para além de proteínas tem também uma das vitaminas B.
Esta fase para mim é terrível porque conforme vou subindo o monte com a tralha vou petiscando do alimento e até já ando com medo de ter diabetes!
A próxima ideia será experimentar farinha de castanha e talvez farinha de feijão frade seguindo um pouco o exemplo de uma história deste blog de um apicultor que deu feijão cozido às suas abelhas...
Só não me lembro se era feijão branco ou vermelho!
:-)))

Um Abraço
Ricardo

octávio disse...

Olá!

No mês de Outubro tentei-me numa aventura de culinária a fazer a alimentação aqui constante no Monte do Mel.

Depois de todas aquelas recomendações, acho que me saí bem na ementa.

Coloquei em sacos e não houve quaquer perigo de escorrimento porque, talvez por "carregar" mais um pouco na farinha de soja, a "broa" saíu na perfeição.

Hoje escrevo estas linhas com toda a satisfação, porque este fim-de-semana fiz uma visita as nossas abelhas e, quanto a alimentação só vi sacos vazios, tudo lambidinho!!!!!

Parabéns Mestre Pífano pela receita.

Vou repetir a dose. Lamento não ser tão rigoroso. Na verdade, junto a 1/2 litro de água, 5 Kgs de açúcar, 1 colher de sopa de sal, 2 colheres de sopa de pólen que diluo bem, mel Q.B. e farinha de soja; umas 5 colheres de sopa, isto um pouco a olhómetro!!!!.

Na verdade, depois de esfriar só com a ajuda da varinha mágica é que se consegue uma pasta homogénea.

Na verdade, também, depois dos estragos que fiz na cozinha...não considero o dinheiro que se gasta em alimentação mal gasto, principalmente para quem tem abelhas em zonas "pobres" nesta altura do ano, porque o preço de um enxame é muito mais caro e pouco ou nada produz no primeiro ano.

Um Abraço,

E venham os 100.000 visitantes!!!!!

Anónimo disse...

ola o meu nome e fernando jose moro no concelho de ourike baixo alentejo estpu a escrever este documentario porke eu sou principiante no oficio e gostaria k os sr apicultores me indicassem uma maneira de espremer o mel dos cortiços mais rapido e eficaz,porke eu tenho muitos cortiços e nao tenho makina para tal cerviço,sera k eu posso arranjar uma makina para eu poder expremer os favos?respondam me por favor

Alien disse...

Olá Fernando José

Suponho que as prensas usadas para espremer os opérculos poderão servir para essa situação.
Experimente ver num fornecedor de material apícola.

JPifano

Anónimo disse...

Caros amigos apicultores. Gostaria da vossa opinião quanto ao modo de tratamento da varroa usando as tiras nos cortiços. Onde as colocam e quantas costumam colocar.
Tenho ouvido dizer que se devem tratar após a colheita Julho/Agosto e depois no inicio do inverno, os produtos a utilizar são iguais ou diferentes? e qual a altura mais correcta para fazer o tratamento da varrose.
Muito obrigado pela ajuda- Matos

João Sousa disse...

Boas, eu ainda sou um apicultor novato, só há perto de um ano é que tenho colmeias (apenas 1) e gostava de saber como se põe o alimentador, acho que vou usar a sua ideia do prato com a rede mosqueira, mas nao sei como faço, nao sei se meto o prato entre a tampa e a prancheta e abro o buraco... nao sei... se fizesse favor indique-me como faço isto e a quantidade ideal de componentes para fazer alimento para uma só colmeia :) obrigado
Cumprimentos, João Sousa

Alien disse...

Olá João Sousa,

Pessoalmente acho que o ideal será colocar o alimentador entre o tampo e a prancheta, abrindo o respectivo buraco. Se colocar o alimentador entre o topo dos quadros e a prancheta terá de abrir a colmeia cada vez que alimentar, expondo a colónia às baixas temperaturas o que não é nada aconselhável.
Como tem apenas uma colmeia poderá fazer um alimento (para esta estação) misturando 400g de mel com 100g de pólen (em pó) ou levedura de cerveja. Caso não queira dispor de tanto mel pode usar (300g de açúcar + 100g) de mel, não esquecendo que esse açúcar terá de ser fundido com um mínimo de água e só lhe poderá adicionar a levedura ou o pólen quando o açúcar estiver arrefecido.
Alguma duvida envie-me um mail para montedomel@gmail.com

abraço
Joaquim Pifano

João Sousa disse...

Já mandei uma mensagem para o vosso email... mas tive a ver uns videos e tenho mais algumas duvidas, talvez mande outro email, nao quero ser muito chato..

João Sousa disse...

Exprimentei por um alimentador na minha colmeia, e foi um sucesso! Nao morreu nenhuma e os pratos ficaram limpinhos!! sem restos nenhuns!
Muito boa invençao senhor Pifano

Fabiano disse...

Quem estiver interessado eu comercializo rede mosquiteira.

www.ricardomarques.pt.vu

Visitem!

Anónimo disse...

enho interesse na apicultura, mas não tenho qualquer conhecimento prático sobre o assunto, por isso peço desculpa pela ignorância mas gostaria de fazer uma questão: Se o problema é falta de pólen durante a estação fria não se poderia colocar pólen em pó na entrada da colmeia, de forma a que estas quando pousassem para entrar levassem o mesmo agarrado ao corpo, como acontece nas flores?

Cumprimentos

A.C

Alien disse...

Olá A.C.

Há quem coloque alimentadores internos com pólen, apenas pólen, onde as abelhas o recolhem com sucesso. Por outro lado já outros apicultores o fizeram e as abelhas não o recolheram.
Também ouvi relatos de alimentadores colectivos (no exterior e abrigados da chuva) com pólen e com bom resultado.
Pessoalmente nunca o fiz, tanto o pólen como a levedura de cerveja ministro-a juntamente com o mel ou o xarope que lhe preparo.
Na hipótese que apontou, colocar o pólen na entrada, não me parece muito seguro pois pode ser destruido pela chuva e fica acessível a outros animais.

cumprimentos
Joaquim Pifano