
A meio da década de 1980 surgiu o verdadeiro carrasco das abelhas, o ácaro Varroa jacobsoni , rebaptizado mais tarde como Varroa destructor, tal não foi a razia que provocou, e provoca. Daí para cá, doenças como a Ascosferiose (forma de micose), a Nosemose, a Acariose, as Viroses, a Senotaniose, a Loque Europeia, a Loque Americana (com fôlego redobrado) entre outras, também causaram estragos dignos de registo.
Já no novo milénio somos brindados com a Aetina Thumida e o Tropilaelaps, tão “amistosas” que nem o nome lhe conseguimos pronunciar. Finalmente, last but not least, o Síndroma do Despovoamento de Colmeias, anomalia tipo crime perfeito, nem o culpado conseguimos identificar...
Digam-me lá que não sou o único a reparar nisto: mas não há aqui qualquer coisa de estranho? Não acham anormal que em décadas (séculos) poucos eram os inimigos das abelhas e em pouco mais de uma dúzia de anos parece que todos os seres vivos conspiram contra elas?
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É do conhecimento geral que há milhares de anos, antes do Homem praticar a agricultura ou a criação de gado, sobrevivia da actividade recolectora. Limitava-se a recolher tudo o que a terra lhe oferecia, consoante os locais e estações do ano: caça, pesca, frutos, vegetais e inclusivamente o próprio mel.
Nesse tempo uma refeição durava quase todo o dia, nos dias em que havia refeição, os géneros alimentícios não estavam propriamente na horta, menos ainda no mercado. A raridade ou escassez de alimentos como alguns vegetais, frutos, carne e peixe, tornavam esta actividade muito morosa.
Como se pode ver na imagem anterior as árvores de fruto eram raras, os frutos em pequena quantidade eram também muito pequenos. Os cereais como o trigo e o milho, misturados com a restante vegetação pouco mais eram que “protótipos” muito imperfeitos dos que conhecemos actualmente, as espigas eram pequenas e continham poucos grãos.
Foi com a actividade agrícola e pecuária que o Homem foi seleccionando os exemplares com melhores características para a alimentação humana, reproduzindo-os segundo o seu interesse e direccionando dessa forma a evolução.
Ainda relativo à primeira imagem, podemos perceber que qualquer praga ou doença que afectasse o trigo por exemplo, não teria grandes hipóteses de sucesso. As espigas diminutas, com grãos pobres em amido e em pequena quantidade, tal como a própria planta muito dispersa pela vegetação, tornavam a disseminação de pragas muito difícil. Havia como que um “escudo de contenção” natural que impedia doenças e moléstias de atingirem grandes proporções.

Nessa forma de agricultura, intensiva, são comuns os campos de cultivo com centenas e milhares de hectares contínuos de cereais, pomares ou hortícolas. As criações de gado alcançam igualmente números e dimensões que vão para lá da nossa imaginação.
Para o “olho humano”, um campo de trigo mesmo que de grandes dimensões não passa de um campo de trigo, mas para uma praga ou doença que o afecte pode representar uma grande oportunidade. Se conseguíssemos ver um campo de cereais pelos “olhos” de um fungo, de um insecto ou de uma bactéria que dele se alimentasse, apenas veríamos como que uma “manta” de amido (açúcares) de centenas de hectares, com dez a vinte centímetros de espessura e elevada a pouco mais de meio metro do solo:





Vejam o caso da agricultura tradicional, aquela praticada pelos nossos pais, avós, bisavós e por aí a fora, hoje pomposamente chamada de Agricultura Biológica. A principal característica era a consociação de várias cultivares, um autêntico xadrez de canteiros e talhões de batatas, cenouras, espinafres, nabiças, etc. Nada de monoculturas:





Não andaremos próximo de um problema semelhante?
Não serão os grandes aumentos de efectivos verificados nas últimas duas décadas os culpados do crescente número de pragas e doenças?
Não estaremos com isso a provocar um desequilíbrio ao aumentar e concentrar o número de presas/hospedeiros?
A capacidade de suporte de um determinado meio, factor que nos informa da quantidade/densidade de determinados seres vivos por unidade de área é igualmente um indicador do estado de equilíbrio desse mesmo meio.
A capacidade de suporte do meio está dependente de factores como:
A disponibilidade de alimento/água.
A disponibilidade de ninhos (locais de procriação).
A frequência de predadores/parasitas/doenças.
Etc...
Para os apicultores é fácil, o primeiro ponto é o mais respeitado, só instalamos um apiário se abundarem os recursos (néctar, pólen e água), caso contrário comprometeríamos a produção e até a sobrevivência das abelhas.
O segundo ponto é mais manipulável, se houver liquidez ou jeito, adquirem-se/constroem-se as colmeias que forem necessárias.
O terceiro ponto é a principal incógnita, e sobretudo muito variável. Não será a capacidade de suporte do meio muito mais sensível ao aspecto dos predadores/parasitas/doenças que aos restantes? Não será este factor muito mais condicionante da densidade de colónias a implantar?
Um local que nos parece suficientemente produtivo com 20 colmeias poderá não as suportar do ponto de vista sanitário.
Boas perguntas (modéstia à parte), o pior é o resto...
Vamos lá de novo aos bonequinhos:
Imaginem uma paisagem bucólica de há 10.000 ou 20.000 anos atrás:

Mais uma vez vamos recorrer à visão das pragas e doenças das abelhas para encontrar o mel, abelhas e respectivas larvas:

Há 20.000 anos atrás ainda não havia Programa Apícola (já cá faltava...), nem as respectivas Declarações de Existências de Apiários, na volta nem havia mês de Junho...
De uma vez por todas, o “autor” do Programa Apícola, se é que se trata de um autor, já deve viver constrangido com tanta crítica. Mas se existir acredite, a culpa não é sua. A culpa é mesmo nossa...
Voltando ao nosso assunto, o mel, abelhas e larvas disponíveis para as doenças, parasitas e predadores não oferecem um petisco assim tão apetecível. Claro que me refiro à sua abundância (frequência).
Se viajarmos até ao século passado, primeiros dois terços do século XX, a apicultura fixista, os cortiços, os muros apiários, encontramos uma densidade de abelhas mais acentuada que a da imagem anterior.


Trata-se obviamente do período em que apenas a “tinha” afectava os cortiços dos nosso avós.
Agora o período pós Varroa, o último 1/5 do século XX.
Nesta fase, motivados pela forte procura do mel, pelas ajudas do Programa Apícola (e outros apoios) e pelo crescente número de associações de produtores organizadas, os apicultores aumentaram muito os efectivos, aumentaram o número de apicultores e substituíram a maioria dos cortiços por colmeias móveis.
Em Espanha, ajudas regionais (não comunitárias) para incentivar o aumento de efectivos, fizeram com que houvessem muitos apicultores detentores de mais de 5.000 colónias. Com as consequentes invasões e consequências nas regiões fronteiriças do território português de há uns anos até esta data.


Ainda assim, as abelhas e as suas casas parecem ser sempre suficientemente discretas para as respectivas pragas, doenças e predadores. Não devemos é esquecer que apesar do pequeno tamanho, as abelhas se deslocam muito longe, com muita facilidade e existem em grandes quantidades.

Tal imensidão torna as abelhas bem mais visíveis por quem “lhes quer mal” e por isso em alvos muito mais acessíveis.
Será a diferença de populações/produções entre uma colmeia móvel e um cortiço tão significativa?
Ao que parece a resposta é afirmativa. Em termos de legislação de ordenamento apícola, uma colmeia equivale a dois cortiços. Na realidade creio que a diferença ainda é maior.
Segundo as referências, uma boa colmeia em plena época produtiva chega a ter 80.000 e até 100.000 abelhas. Há produções referenciadas (sem transumância) de mais de 100kg/colmeia/cresta. Os cortiços têm números bem mais modestos. Não ultrapassarão muito as 30.000 ou 40.000 abelhas, e as produções pouco vão além dos dois ou três quilos de mel por época. Pelo que pouco impacto terão em termos de densidade de seres vivos:



Os argumentos que aqui apresento, se é que lhes posso/devo chamar argumentos, pouco mais resultam que de uma reflexão sobre a temática da sanidade e do crescente (quantitativo e qualitativo) de doenças e moléstias das abelhas.
3 comentários:
Acredito plenamente que a quantudade de colmeias tem vindo a aumentar de uma forma vertiginosa.
Também acredito que esta expansão de efectivos propícia o aumento de doenças, Mas também acredito, que grande parte destas pragas são fruto do laboratório e que há grande interesse em vender produto, e quanto mais melhor...
Vejamos o que se passa com os virus na informática...
Sem dúvida um excelente post!
Abraços
Hugo Martins
Mestre, está ai um bom alerta, vendo ao pormenor é de arrepiar e pensar num futuro próximo, esse senhor que redigiu o Programa Apícola baseado em não sei quê, que venha levar umas ferradelas comigo, e pode que assim ganhe a minha confiança e possa eu então dar um pouco de atenção à sua escrita, até lá vou formalizando a minha apicultura à mercê da aprendizagem e da experimentação com bases naquilo que acredito ser o melhor para todos nós (incluindo as abelhas).
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