16 maio, 2011

Pim PAN Pum… cada bola mata um…

PAN Programa Apícola Nacional

Há uns anos atrás, era eu professor, ou pelo menos dava aulas numa instituição para isso vocacionada, quando comprei a minha primeira colmeia.

A paixão foi tal que muito cedo senti a necessidade de frequentar uma formação sobre o assunto. Eu e um amigo dispusemo-nos a percorrer diariamente 340 km, ida e volta a Lisboa, para frequentar o dito curso na SAP. Felizmente conseguimos organizar uma formação a 4 km de casa, 150 horas de Iniciação à Apicultura que passaram demasiado depressa.

No penúltimo dia fui abordado por um dos formadores sobre a possibilidade de me tornar Técnico de Apicultura numa associação da região. O que veio a acontecer na semana seguinte. Uma manhã levantei-me e… era técnico de apicultura, apicultor há três meses e “diplomado” nesse ofício há três dias.

Na primeira visita ao apiário de um associado, eu sentia-me tão seguro como um caracol na auto-estrada… mas lá fui. Lembro-me desse dia como se fosse hoje. As instruções: o técnico não abre as colmeias, pede ao apicultor que o faça.

O apicultor aproveitou para aplicar as tiras acaricidas durante a visita, preparava-se para retirar o segundo corpo de cima do ninho e colocar o Apistan por baixo.

Foi quando eu intervim e lhe pedi para primeiro abrirmos e inspeccionarmos o segundo corpo (a alça): - agora tire-me o segundo quadro por favor. E apontei com o dedo para o quadro pretendido. O apicultor retirou-o da alça, e eu, aproveitando o dedo ainda apontado, disse-lhe: a rainha está ali! E estava mesmo, rechonchuda e acastanhada deslocava-se com lentidão.

- Já viu? Se o senhor tivesse colocado o medicamento em baixo, com toda a criação na parte de cima? Disse-lhe eu à laia de reprimenda.

Aproveitei a onda de sorte e pedi-lhe para ver mais um quadro. Apanhei um pauzinho do chão e preparava-me para desalojar uma larva de traça, daquelas que fazem um “risco” característico nos opérculos, quando ele me interrompe: “mas… vai-me estragar o crianço…?"

Esgaravatei uns centímetros e lá surgiu uma larva gorda a contorcer-se, tinha visto um formador a fazer isso, o apicultor ficou arrasado, “nem me passava p’la cabeça que houvesse aí traça…”. Gostava de saber o fim alternativo da história se por acaso a larva estivesse ausente…

Ainda recordo o olhar de admiração do apicultor face a estes brilharetes e sobretudo à forma “seca” e “fria” com que fiz o meu primeiro diagnóstico.
Recordo também, no regresso a casa, como já sabia o queria ser quando fosse grande: TÉCNICO DE APICULTURA! A melhor profissão do mundo, dúvidas? Nenhuma: as rainhas encontram-se no segundo quadro da alça e o resto vem por acréscimo…

Poucos meses depois recebi 1200 contos pelo serviço do primeiro contrato. Contos (ou mil escudos) era a moeda corrente em Portugal antes do euro, já vai havendo quem não se lembre.

Durante esse período visitei centenas de apiários, sublinho centenas, recolhi outras tantas amostras de abelhas e criação para análises anatomopatológicas, amostras de mel, horas de reuniões, palestras e sessões com os apicultores… trabalhou-se muito. O sector animou bastante, todos os dias chegava gente nova ao sector, os mais velhos aumentavam os efectivos, a “coisa” prometia.

Dois ou três anos depois, as entidades gestoras do Programa de Acções de Melhoria da Produção e Comercialização do Mel, resolveram aumentar alguns graus de dificuldade à actuação dos técnicos. E foi bem visto, já competíamos com os fotógrafos da National Geographic pela melhor profissão do mundo…

Desta feita, com os atrasos, recordo que passei a receber o meu vencimento de seis em seis meses e depois anualmente. Era no dia 15 de Outubro, já no dia 16 e detentor de tal “maquia”, fazia uma extravagânciazinha e só depois recolhia ao mutismo económico de qualquer desempregado. Tinha de gerir acrobaticamente aquela soma para os 364 dias que se seguiam.

Entretanto a burocracia exigida ao nosso mister já atingia níveis alarmantes, entre relatórios, atestados, certidões, fotocópias e comprovativos de tudo e mais alguma coisa. Claro que o rendimento em termos de “assistência técnica” acabou por sair lesado.

Recordo ainda, acerca dos pagamentos, que apesar do dinheiro só chegar ao fim de muitos meses, tínhamos de passar um recibo verde trimestralmente (acho). Não era muito legal, mas também não era impossível.
E como quem passa recibos verdes paga impostos, eu pagava IVA. Ou seja, eu tinha de devolver ao “Estado” parte de algo que o “Estado” ainda não me tinha dado. Surpresa? Então esperem pelo melhor:

Como não tinha fundo de maneio para pagar o IVA, passava um cheque careca ao “Estado”, curiosamente emitido por um banco… estatal… que depois me cobrava juros pela gracinha…
Nesse tempo os bancos estavam por tudo, os técnicos de apicultura nem por isso.

Mas, como diz o outro, tudo se criou e as coisas evoluíram para o actual Programa Apícola Nacional. Mais ponderado, tudo previsto à partida, orçamentos, calendarizações, estimativas e mais uns atestados a somar à pilha de papel dos anos anteriores.

O que mais me intriga:
Desde o primeiro ano até à actualidade que em todas as campanhas se alteram as regras, os formulários, a documentação necessária, os prazos, etc. etc. etc…
É natural e sobretudo desejável que as coisas sejam aperfeiçoadas, que evoluam, se simplifiquem. Neste período, já houve alterações e tempo suficiente para o Programa Apícola Nacional se tornar uma estratégia quase perfeita, e não é… longe disso até.
É suposto as associações apresentarem as candidaturas do PAN às DRA’s que as reencaminham para o IFAP/GPP durante o mês de Junho. Refiro-me à candidatura do ano que se segue. Se a associação se atrasa um dia na entrega dos documentos é automaticamente excluída.

Na campanha actual PAN-2011, as candidaturas foram entregues em Dezembro, porque o Despacho Normativo que regula o PAN só foi aprovado em Novembro (em vez de Maio). Entretanto, as associações para servirem os apicultores, arriscaram e contrataram os técnicos no dia 1 de Setembro.
Porque também não é justo deixar o técnico “pendurado” na prateleira à espera que faça falta.

Aguardamos pacientemente até ao mês de Março para que as candidaturas fossem avaliadas e pudéssemos encaminhar os pedidos de pagamento para as entidades “competentes”. Entretanto os técnicos já laboravam há sete meses sem vencimento. Até porque a maioria (quase totalidade) das associações não tem fontes de rendimento e tem de aguardar pelos reembolsos financeiros do PAN para poder pagar o ordenado ao técnico.

Hoje, já passaram oito meses e meio sobre o início dos contratos, os técnicos continuam com os vencimentos em atraso, tal como o pagamento às Finanças e à Segurança Social. Tão ou mais grave que isso, ninguém dos serviços oficiais IFAP/GPP se digna a justificar às associações o motivo de tal atraso.

Assumindo que as candidaturas sejam aprovadas hoje, e não haja mais alterações, seguindo-se a tramitação normal (seja lá o que for que isto signifique neste contexto), só no mês de Outubro é que as associações serão reembolsadas pelo primeiro trimestre.

Entretanto, várias dezenas de técnicos de apicultura, todos os anos vêem o emprego, o salário e o futuro em risco. Profissionais com bastante experiência, que se formaram ou aperfeiçoaram à custa do Programa Apícola e que certamente irão abandonar o sector. Todos perdemos com isso.

Só no Alentejo, desde o primeiro ano, já passaram pelas seis ou sete associações que ainda existem e ou já existiram, cerca de 20 técnicos, boa parte dos quais cessaram funções por causa da precariedade, da insegurança e da falta de reconhecimento votada a esta profissão.

Anualmente a ADERAVIS paga (perde) mais de 1.000,00€ só em juros de mora, coimas e outras penalizações motivadas única e exclusivamente pelos atrasos provocados pelas entidades gestoras do PAN. Custos que obviamente não são reembolsados pelo mesmo programa.

A isto somam-se (ou subtraem-se) a fracção de todas as despesas não contempladas pelo PAN, o que só traz facilidades para uma associação onde a quota mensal/associado é de 0,50€. Porque queremos atrair sócios e porque achamos que um associativismo forte irá beneficiar TODOS.

Na campanha anterior do PAN, várias associações em todo o país não foram reembolsadas num trimestre, um prejuízo superior a 5.000,00€ por entidade. Motivo: atrasos na entrega da documentação/pedidos de pagamento, justificados por uma interpretação subjectiva de regras dúbias e pouco claras…
Mas os técnicos estiveram a trabalhar e cumpriram com o proposto nas candidaturas.
Para quê tanto comprovativo?

Só para se provar que o técnico foi pago é necessário enviar uma cópia do recibo de salários, uma cópia do respectivo cheque e o extracto bancário com essa transacção!!! Caso contrário a associação não é reembolsada dessa despesa.
Ainda assim, o reembolso não acontece enquanto esta documentação (as cópias que ficam na associação) não é de novo controlada por outra equipa que vem ao local de propósito para o efeito. São de novo fotocopiadas e levadas para nova e aturada apreciação. Podendo também haver outros controlos subsequentes à mesma documentação.
Adivinhem quem paga as fotocópias…

Dá vontade de dizer que se fossem tão cuidadosos com tudo, como são com as fortunas estonteantes que esbanjam nas associações de apicultores, decerto o país não tinha chegado onde chegou.

Ironicamente, no dia das eleições, uma simples cruz no boletim de voto escolhe um chefe de estado, que por sua vez escolhe ministros, secretários de estado, assessores, directores gerais, regionais, etc… sem que nós exijamos seja que prova for das respectivas habilitações ou competências para os cargos distribuídos… é só confiança!

Já enjoa ouvir falar na situação económica do país, a agricultura é a miséria que conhecemos, a apicultura (enquanto parente pobre da anterior) nem se fala. Dizem-nos que a crise é geral, é global… É MENTIRA, estive recentemente em vários locais de Espanha, França, Itália e Suíça e não vi qualquer crise na agricultura. O problema é só nosso, mas por este andar nunca o vamos resolver…

Texto obtido da troca de mails e consulta a vários técnicos de apicultura.

11 maio, 2011

06 maio, 2011

E amanhã? patenteiam as abelhas...???

MANIFESTO EM PROL DA SEMENTE E DA SOBERANIA ALIMENTAR

Não se sabe bem ao certo, mas terá sido há dez ou onze mil anos que a humanidade lançou à terra as primeiras sementes com o intuito de colher algo para seu sustento. Dessa colheita terão resultado, por certo, não apenas alimentos imediatos, mas também novas sementes, que tornariam a ser semeadas no ano seguinte. Ficou assim traçada a orientação que viria a assegurar, até há algumas dezenas de anos atrás, a capacidade de todos nós, homens e mulheres, conseguirmos ultrapassar as contingências da natureza, deixando de estar sujeitos à sua aleatória generosidade no tocante à oferta de alimentos colectáveis, passando a cultivá-los para assegurar a soberania alimentar.

Passados alguns milhares de anos de evolução desta orientação de vida, foram sendo domesticadas pelo homem milhares de variedades de plantas e animais, ampliando muito as espécies disponíveis. Esta diversidade de espécimes de cultivares e de animais, fomentada pelo homem, muitas vezes como resultado do seu engenho, permitiu-lhe transpor as mais diversas barreiras, físicas e temporais, para conquistar os mais recônditos lugares do planeta. Hoje sabemos, pelos muitos factos históricos conhecidos, que em cada novo contacto do homem com diferentes plantas e animais ocorre não apenas um enriquecimento do indivíduo enquanto ser cultural, mas também uma melhoria no seu ser físico, graças ao acesso a acrescidas fontes de alimentos.

Estas longas conquistas da humanidade estão agora prestes a ser eliminadas ou, pelo menos, restringidas, pois outros interesses se levantam. A pretexto de questões como a necessidade de rastrear o percurso dos alimentos e a segurança alimentar, a Comunidade Europeia prepara-se para estabelecer uma directiva legal no sentido de impedir que as pessoas que sempre semearam e recolheram, assegurando a sua soberania alimentar, possam continuar a agir dessa maneira. Esta lei põe em causa um direito ancestral conquistado para todos nós, o de utilizarmos e guardarmos as sementes resultantes do trabalho e engenho dos nossos antepassados, direito esse que devemos continuar a legar às gerações futuras. Esta lei pretende atribuir estatuto museológico às variedades tradicionais que nos foram legadas por incontáveis gerações, enraizando-as no seu suposto lugar de origem e impondo que a sua comercialização e cultura, bem como o aproveitamento das suas sementes, se faça apenas nesse local e somente por alguns. Esta lei europeia, a ser aprovada, limita as áreas de cultivo e o número de pessoas que podem aceder às variedades tradicionais, as quais só terão direito a existir depois de submetidas a certificação. Não se entende como uma Europa que defende os valores da democracia, do livre acesso a bens e da sua livre circulação, pretende assim limitar o acesso de todos nós a este legado das sementes ancestrais.

No caso em apreço, podemos estar mais uma vez perante uma mentira. Quais são os verdadeiros interesses que estão por trás destas leis restritivas da Comunidade Europeia? Na verdade, por trás de palavras como «certificação», cujo sinónimo deveria ser autenticidade ou segurança, esconde-se muitas vezes a restrição no acesso a um direito, que fica, a partir daí, apenas ao alcance de quem pode pagar ou tem mais meios. A certificação significa, para uma Europa ávida de dinheiro e com uma economia em ruínas, a entrada de mais dividendos nos seus cofres.

Com efeito, se a semente não fosse «a origem», não seria tão aliciante querer controlar os seus destinos. A pressão que nos últimos anos vem sendo exercida por algumas multinacionais do sector da agro-indústria, as quais, não satisfeitas com o domínio que já exercem através das patentes das suas «criações», procuram também apropriar-se das plantas que são património comum da humanidade estabelecendo patentes sobre as variedades ancestrais, revela a urgência imperativa de controlarem a distribuição dos alimentos desde a origem até à nossa mesa.

Na verdade, não se percebe como é possível permitir que alguém, pessoa ou empresa, registe em seu nome algo que não criou e se torne seu «legítimo» proprietário. Não se percebem estas leis europeias com dois pesos e duas medidas, a não ser, repetimos, porque o registo de patentes constitui mais uma fonte de receitas para os cofres das instituições que as pretendem impor. Mas é evidente que corremos sérios riscos quando as sementes das variedades tradicionais, que são património da humanidade e como tal devem estar livremente acessíveis a todos, passam a ser objecto de controlo estatal para ficarem nas mãos de entidades exclusivas.

Poderemos estar prestes a assistir à consumação do maior atentado cometido na história das civilizações humanas, em que alguns homens, com as suas leis, põem em causa a sobrevivência da maioria. Porque é disso que se trata quando se pretende reduzir drasticamente o número de variedades e obrigá-las a permanecer imóveis nos seus supostos locais de origem, parando assim a sua e a nossa evolução.

Perante a possibilidade de ser aprovada a nova Lei das Sementes na Europa, declaramos ser nossa intenção continuar a fazer o que sempre fizemos: lançar as sementes à terra, recolhê-las no fim da estação, guardar algumas para o ano seguinte e partilhar outras com amigos, vizinhos e interessados. Achamos que esta será a melhor forma de resistir, pois foi a postura que os nossos antepassados mantiveram ao longo de milénios e que, apesar das muitas hecatombes a que a humanidade se viu sujeita ao longo da sua existência, não impediu que chegasse até nós um sem número de espécies e variedades. É certo que muitas se perderam ao longo desse percurso, mas isso aconteceu mais por desinteresse ou por abandono da actividade agrícola do que por qualquer lei impeditiva. Esta será sempre a nossa principal linha de acção. Se não assumirmos esta postura, será difícil reclamarmos o direito a usar e guardar as sementes, pois só isso permite que elas continuem a existir.

Instigamos todas as pessoas favoráveis à permanência das variedades tradicionais que nos sigam no exemplo e resistam, mesmo que a referida lei venha a ser aprovada. Por ser também da máxima importância usá-las no nosso dia-a-dia, instigamos todos os interessados a conhecer melhor este espólio, solicitando-o nos pontos de venda, estimulando a sua oferta e consumo.

A "Colher para Semear" levou a cabo uma iniciativa de âmbito nacional, no dia 17 de Abril, em Lisboa, no Parque Eduardo VII, pedindo a todos os interessados que se desloquem à capital para trocar as suas sementes e manifestar o seu apreço pelo direito à existência das variedades tradicionais como um legado da humanidade.
(por: Associação COLHER PARA SEMEAR)

SEMENTES EM PERIGO
As leis que temos

Em traços gerais, existem em vigor no nosso país três Decretos-Lei que regulam a produção e comercialização de sementes e que se interligam entre si: O Dec.-Lei 154/2004, o Dec.-Lei 144/2005 e o Dec.-Lei 257/2009. O primeiro estabelece as regras para inscrição no Catálogo Nacional de Variedades, o segundo as normas para produção e comercialização de sementes e o terceiro algumas excepções aplicáveis às variedades tradicionais ou regionais, designadas de “Variedades de Conservação”, sendo que para comercializar qualquer semente, é sempre preciso primeiro inscrevê-la no Catálogo Nacional de Variedades.

A INSCRIÇÃO DA SEMENTE

A 30 Junho de 2004 foi publicado o Decreto-Lei 154/2004, que estabelece o regime geral do Catálogo Nacional de Variedades de Espécies Agrícolas e de Espécies Hortícolas, (adiante designado por CNV), bem como os princípios e as condições que estas variedades, incluindo as Geneticamente Modificadas, devem observar, para que a certificação das suas sementes possa ter lugar, bem como a respectiva comercialização.

Cabe à Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) a publicação anual do Catálogo Nacional de Variedades (CNV), que constitui uma relação das variedades vegetais de espécies agrícolas e hortícolas admitidas à certificação e comercialização que, após terem sido submetidas a ensaios oficiais, comprovaram a sua distinção, homogeneidade e estabilidade, sendo que no caso das espécies agrícolas o seu valor agronómico e a qualidade tecnológica são também avaliados.

As variedades são inscritas se forem cumpridos os seguintes requisitos:

a) detenham um responsável pela sua manutenção;
b) tenham uma denominação aprovada;
c) sejam distintas, suficientemente homogéneas e estáveis;
d) possuam um valor agronómico e um valor de utilização satisfatório e de acordo com os critérios estipulados nos respectivos regulamentos técnicos

Para a generalidade das sementes, após a aceitação do pedido de inscrição da variedade, a DGPC inicia o estudo da mesma através da realização de ensaios de Distinção Homogeneidade e Estabilidade (DHE) e de valor agronómico de utilização (VAU). Os caracteres mínimos a observar nestes ensaios são os constantes dos princípios orientadores do Instituto Comunitário das Variedades Vegetais (ICVV) e pela União Internacional para a Protecção das Variedades Vegetais (UPOV), publicados nos anexos I e II do Dec.-Lei 154/2004.

VARIEDADES DE CONSERVAÇÃO EM PERIGO

As variedades regionais ou tradicionais têm um regime legal ligeiramente diferente. O Dec.-Lei 257/2009, de 24 de Setembro, aprova um conjunto de excepções, aplicáveis apenas às “variedades autóctones e variedades agrícolas naturalmente adaptadas às condições regionais e locais e ameaçadas pela erosão genética”, aqui apelidadas de «Variedades de Conservação». Aquelas que mais gostamos de colher para semear.
Mantém-se a obrigatoriedade de registar cada variedade no CNV, para que esta possa ser comercializada, mas os critérios de admissão são aligeirados. O pedido de admissão é efectuado junto da DGADR, acompanhado da descrição da variedade e sua denominação, de resultados de ensaios não oficiais e da informação relativa aos conhecimentos adquiridos durante o cultivo, multiplicação e utilização. Não são exigidos ensaios oficiais se essas informações forem consideradas suficientes para admissão no CNV, mas mantêm-se os requisitos da produção e certificação previstos no Dec.-Lei 144/2005, salvo os que se referem à pureza varietal mínima e às inspecções de campo oficiais.

Mas o Decreto-Lei 257/2009 impõe outras restrições: “as sementes de variedades de conservação só podem ser comercializadas se tiverem sido produzidas na sua região de origem e só podem ser comercializados na sua região de origem”. Ficam portanto fechadas na sua região de origem. E, mais estranho ainda, são obrigatórias restrições quantitativas: “Para cada Variedade de Conservação, a quantidade de sementes e batata-semente comercializada não deve exceder 0,5% das sementes da mesma espécie utilizadas no País durante uma época de cultivo ou a quantidade necessária para cultivar 100 ha, se esta quantidade for mais elevada.” E ainda: “a quantidade total de sementes e batata-semente de Variedades de Conservação comercializada no País não deve exceder 10% das sementes dessa espécie utilizadas anualmente no País, sendo que sempre que essa condição implique uma quantidade inferior à necessária para semear 100 hectares, aplica-se a quantidade total de sementes necessária para semear 100 hectares”.

Vender sementes de Variedades de Conservação fora da região de origem, ou que não tenham sido produzidas na sua região de origem, ou que não estejam inscritas no CNV, ou não estejam devidamente acondicionadas em embalagens com dispositivo de selagem e com a etiqueta que identifica o produtor ou acondicionador da semente, constituem contra-ordenação punível com coima cujo montante mínimo é de 100 euros e máximo de 3.740 euros para pessoas singulares, ou entre 250 euros e 44.000 euros, para pessoas colectivas.

A Portaria 984/2008, de 2 de Setembro, que aprova o Regulamento das Taxas devidas por serviços prestados pela DGADR, até prevê um regime aparentemente mais favorável para as “Variedades de Conservação”. Ainda assim, são cobrados 30 euros por cada variedade inscrita no CNV, contra 155 euros para as outras variedades, mas obter uma licença de produtor de semente custa na mesma 450 euros e renová-la, anualmente, 45 euros.

Na prática, o acto de inscrição de uma determinada variedade no CNV, dá aos proponentes direitos sobre a comercialização dessa variedade, não podendo outros produzir mais essas sementes para comercialização, contrariando assim o princípio da liberdade das sementes que deveriam ser património da humanidade e não de uma qualquer entidade que decidiu registá-la num catálogo.
Todas as variedades que não forem admitidas no CNV ficam desta forma “fora da lei” e não podem por isso ser comercializadas.

CEDER TAMBÉM É COMERCIALIZAR

No ano 2005, foi publicado o Decreto-Lei n.º 144/2005, de 26 de Agosto, que regula a produção, controlo, certificação e comercialização de sementes de espécies agrícolas e hortícolas, com excepção das utilizadas para fins ornamentais.

Para efeitos deste diploma considerou-se «Comercialização»: “a venda, a detenção com vista à venda, a oferta para venda e qualquer cessão, fornecimento ou transferência de sementes a terceiros, a título oneroso ou não, para fins de exploração comercial.” O que, na prática, impede que os agricultores troquem sementes livremente entre si, se depois a sua intenção for a de vender os seus produtos hortícolas no mercado.

O artigo 6º diz: “só podem intervir neste processo as pessoas que sejam titulares de uma licença de produtor de semente base”, sendo que, para obter essa licença, é obrigatório satisfazer uma série de requisitos que incluem: dispor, no mínimo de um técnico especializado na produção de semente, de terrenos apropriados, maquinaria e pessoal adequado, instalações e equipamento para limpeza, calibragem, secagem, acondicionamento e armazenamento das sementes produzidas. Dispor ainda de laboratório reconhecido pela DGPC para determinação dos parâmetros estabelecidos nos Relatórios Técnicos para a qualidade dos lotes de semente: pureza, pureza específica, faculdade germinativa e humidade, ou em alternativa recorrer a um laboratório reconhecido pela DGPC. Na prática, só uma grande empresa dedicada a esta actividade consegue satisfazer todas estas exigências. Nenhum agricultor que guardou as suas sementes de abóbora pode vendê-las ou sequer cedê-las a um agricultor vizinho, sem infringir a lei.

AINDA MAIS RESTRIÇÕES

A Directiva 2009/145/CE da Comissão, de 26 de Novembro de 2009, ainda não transposta para a legislação nacional, apesar de considerar que existe um interesse especial em preservar estas Variedades de Conservação pelo facto de “estarem especialmente bem adaptadas a determinadas condições locais” e para “protecção dos recursos fitogenéticos”, impõe ainda mais restrições à comercialização de sementes e produtos hortícolas destas variedades.

O artigo 15º impõe: “Cada Estado-Membro deve garantir que, para cada variedade de conservação, a quantidade de semente comercializada anualmente não ultrapassa a quantidade necessária para produzir produtos hortícolas nos hectares definidos no anexo I para as espécies respectivas”.

Olhemos agora para o Anexo I e vejamos que quantidades podemos produzir, de uma Variedade de Conservação:

Milho Cebolinho, Cerefólio, Espargo, Endívia, Salsa, Rabanete, Escorcinheira e Alface de Cordeiro : Máximo de 10 hectares
Chalotas, Alho Francês, Alho Seco, Beterraba, Melancia, Pepino, Courgete, Funcho, Bringela e Espinafre: Máximo de 20 hectares
Cebola, Couve, Nabo, Pimento, Chicória, Melão, Abóbora, Alcachofra, Cenoura, Alface, Tomate, Feijão, Ervilha e Fava: Máximo de 40 hectares.

Variedades de Conservação Inscritas no Catálogo Nacional

No CNV de 2011 constam apenas quatro variedades de conservação de espécies agrícolas, sendo duas de milho (Da Terra e Santana) ambos propostos ao CNV pelo Germobanco da Madeira, para a Região Autónoma da Madeira; uma de trigo mole, o Pirana, e uma de trigo duro, o Preto Amarelo, ambos propostos pelo INRB/L-INIA, para as regiões do Alentejo e Ribatejo.

Nas hortícolas o panorama é idêntico: No CNV de 2011 estão registadas 7 variedades de couve portuguesa, 7 de melão, 5 de abóbora, 4 de nabo, 3 de feijão de trepar e 3 de feijão rasteiro e 1 de ervilha torta, 1 de couve nabiça, 1 de fava e 1 de melão.
Na edição de 2011 do CNV constam 256 variedades de espécies agrícolas e 253 de espécies hortícolas, abrangendo um total de 45 proponentes e de 62 obtentores, sendo que, destes últimos, apenas 11 são portugueses.

Das cento e oito variedades de Milho registadas no CNV, 28 são de Variedades Geneticamente Modificadas e apenas 2 de variedades tradicionais. Das 19 variedades de melancia inscritas apenas 1 é variedade tradicional; das cento e doze variedades de tomate, não há nenhuma variedade tradicional inscrita, o mesmo acontece com as vinte variedades de pimento inscritas.

Torna-se assim quase impossível fazer chegar à mesa dos portuguesas as suas variedades tradicionais, porque não estão à venda, devido às restrições e exigências das leis portuguesas e europeias, e porque não podem ser cedidas, ainda que gratuitamente, a terceiros, pois a lei considera que venda e cessão são a mesma coisa. Apenas aos que cultivam as suas variedades antigas e recolhem a sua própria semente é dado o prazer de degustar o verdadeiro sabor dos alimentos do tempo dos nossos avós.
(por: Associação COLHER PARA SEMEAR)

03 maio, 2011

MACMEL - Primeira Colheita de Pólen

Por António Marques - FRUTER/FRUTERCOOP (Terceira - Açores)

Os mais de 1600 km que nos separam durante a maior pare do ano não são suficientes para impedir que de vez em quando possamos trocar algumas experiências e conhecimentos ligados a uma paixão comum – a Apicultura.

Os cerca de 80 km – Vila Real, Macedo Cavaleiros - que nos separam em algumas alturas do anos facilitam alguns encontros, por vezes de fugida. No último Domingo, dia 17 de Abril, resolvi dar um saltinho a Valpaços à Feira do Folar. Como estava pelas redondezas resolvi ligar ao Francisco Rogão, a perguntar-lhe se estava por casa. Respondeu-me que sim. Resolvi então pôr-me a caminho de Bornes.

Quando lá cheguei, e depois de uma troca de palavras - obviamente as abelhas foram logo tema de conversa – o Francisco falou-me numa experiência que andavam a fazer e pediu ao Rúben para ir buscar o “saco” de pólen capturado pelas abelhas em cerca de 78 capta-pólen.

Fiquei desde logo entusiasmado e com alguma vontade de participar na experiência, ou pelo menos contribuir com algo que pudesse de certa forma perpetuar o acontecimento. Logo de seguida o Francisco pergunta-me “queres cá vir amanhã para irmos ao pólen?”. A resposta foi óbvia.

No dia seguinte, parti de Vila Real por volta das 16h30 e cerca de uma hora depois já estava na maior loja de apicultura de Portugal. O Francisco estava à minha espera e partimos para Bornes onde se encontrava o Rúben a preparar o todo o equipamento necessário para mais uma colheita de pólen.

Foi só vestir os fatos, entrar para o Pick-up 4x4 e rumar aos apiários.
Os capta-pólen de madeira utilizados, apesar de mais caros, foram os escolhidos em detrimento dos de plástico, uma vez que estes últimos incrementam um maior teor de humidade no pólen devido às características da sua superfície – completamente lisa e nada absorvente.

A qualidade do pólen colhido depende das condições meteorológicas, não sendo aconselhável a colocação dos capta-pólen em dias demasiadamente sombrios, porque nestes casos não se rentabiliza a colheita e compromete-se a recolha de néctar por parte das abelhas.

Na foto, pela homogeneidade da cor dos grãos de pólen podemos afirmar com algum grau de certeza, a monofloridade do pólen, neste caso de Esteva (Cistus ladanifer, devido à tonalidade amarelo-alaranjada dos grãos de pólen.

Nesta foto, ao contrário da anterior, verifica-se alguma heterogeneidade na cor, havendo uma mistura de Esteva com algumas fruteiras (Pomoideas (1) , prunoideas (2), etc.). Alguns cápta-pólen foram colocados propositadamente em colónias localizadas em zonas de cultivo (Fruticultura e também horticultura).

Após a recolha do pólen nos quatro apiários regressámos a Bornes. Nas instalações da MACMEL procedemos às operações necessárias de modo a que o pólen ficasse em condições de ser comercializado.

O Pólen, quando fresco, tem muita humidade – com um aparelho apropriado

verificámos que o teor de humidade era cerca de 14%. Por outro lado, tal como o mel, o pólen é muito higroscópico (3) pelo que a sua secagem deve ser efectuada o mais rápido possível e em locais fechados, longe de qualquer fonte de humidade para evitar que amoleça e fermente desenvolvendo bolores e outros microrganismos indesejáveis. Convém, que o mesmo, após a secagem tenha um teor de humidade inferior a 8%.

Antes do pólen ser introduzido na estufa (fotos anteriores), para que seja seco, deverá ser limpo manualmente removendo as impurezas de maior dimensão, nomeadamente abelhas e partes destas. Outras impurezas de menor dimensão (pedaços de patas, restos de casulos, partículas de cera, pó, etc.) serão extraídas após a secagem num aparelho específico cuja função é precisamente fazer a triagem do pólen:

A separação do pólen das restantes impurezas é feita mecanicamente utilizando ventilação forçada e peneiras. O pólen, depois de passar pelas peneiras e já completamente limpo, cai por gravidade e é recolhido num recipiente na zona inferior da “limpadora” de pólen:

Após a secagem e triagem do pólen o mesmo foi guardado dentro de um saco plástico hermeticamente fechado em local seco e fresco para posteriormente ser embalado (em frasco de vidro) e comercializado:

Como alimento, o pólen exerce sobre o nosso organismo uma acção tripla, porque para além de actuar sobre o crescimento, regula as funções intestinais, o sistema nervoso e de uma forma geral fortifica o organismo.

Segundo a opinião de vários entendidos a composição química do pólen não é ainda consensual, mas sabe-se que é um alimento com capacidade para fornecer praticamente todos os nutrientes indispensáveis ao bom funcionamento do organismo humano. Tem um teor proteico elevado (cerca de 35%) cujas proteínas são ricas em aminoácidos. É importante aqui referir que o pólen contém os chamados aminoácidos indispensáveis ou essenciais, ou seja, os 8 aminoácidos que o nosso organismo não consegue sintetizar. Para além destes ainda possui mais 14. Como alimento completo que é, ainda possui hidratos de carbono, vitaminas (A, C, D, E e complexo B) e muitos minerais.

Importa também referir, que em toda a bibliografia consultada o pólen é apontado como tendo uma forte acção contra a hipertrofia benigna da próstata e não é referida qualquer contra indicação deste super alimento.

(1) Macieira, pereira, marmeleiro, etc.
(2) Pessegueiro, damasqueiro, cerejeira, ameixeira, etc.
(3) Que tem tendência para absorver humidade da atmosfera.

02 maio, 2011

Sindroma dos "Despovoadores" de Colmeias

Por esta não estava eu à espera…

António Pina, apicultor de Benavila, concelho de Avis, parece ter descoberto acidentalmente uma das causas do SDC. Das suas 65 colmeias apenas doze sobreviveram para contar a história, e que história! Pode-se dizer…

Durante o mês de Fevereiro de 2011, durante os tratamentos contra a Varroose, o apicultor apercebeu-se do desaparecimento da maior parte das suas colónias. Alertado que estava para a referida anomalia que tantas baixas tem causado a nível mundial, julgou-se mais uma vítima do Sindroma do Despovoamento de Colmeias.

Se quisermos recordar os sintomas, podemos dizer que colónias inicialmente fortes vêem-se completamente despovoadas ou reduzidas a um punhado de abelhas adultas e alguma criação moribunda. Ausência de abelhas mortas dentro ou nas proximidades da colmeia, tal como qualquer outro sintoma que aponte para as causas do seu colapso.
Assim aconteceu com as abelhas do António Pina, que acabou por perder uma parte significativa dos seus efectivos.

Já conformado com os acontecimentos, todos os dias que se seguiram levava umas quantas colmeias despovoadas para o armazém, onde lhe fazia a necessária higienização e as preparava para receber novos enxames, durante a época que se aproximava.
Tal não é o seu espanto quando numa dessas sessões de manutenção e reciclagem, encontra dentro duma das colmeias uma faca de inox. Uma faca de faqueiro, objecto doméstico e pouco ou nada relacionado com a apicultura, menos ainda com os utensílios que o próprio usa no apiário…

Entre este e outros indícios, não foi preciso muito para somar dois mais dois, o dito objecto terá sido usado como “levanta quadros”. Quadros carregados de abelhas que terão sido prontamente batidos para dentro de outras caixas e… levados para longe, despovoando-se-lhe assim as colmeias, e os “sintomas” que ficam são muito semelhantes ao SDC.

É caso para perguntar se não se trata de um crime perfeito?

Para ajudar à festa:
Este ano, após a elevada mortalidade de colónias registadas no último Inverno, a procura desenfreada de enxames motivada pelo número crescente de projectos apícolas, aliada à fraca enxameação que se verificou nos meses de Março e de Abril, tornaram as colónias de abelhas num artigo extremamente caro e procurado.
Prova disso são os preços anormalmente elevados que se têm verificado nos últimos meses.

Já sabíamos do roubo puro e simples de colmeias, também já se me depararam casos de crestas em colmeias alheias, agora o “rapto” das abelhas adultas e rainha, com abandono da criação é mesmo novidade. Mas… estamos sempre a aprender, ou não…

29 abril, 2011

Meliponicultura BRASIL: A Abelha Limão

Fotos enviadas pelo amigo José Carlos Wegrzinoski - Meliponário "Abelhas do Sul" sobre a Abelha Limão ou Abelha Iratim, assunto sobre o qual o autor se encontra a desenvolver um trabalho.

Uma das curiosidades principais deste meliponídeo é o facto de tal abelha "ser detestada pelos meliponicultores", pois vive da pilhagem e do roubo de outras abelhas como as Trigonas e as Meliponas.
Em tempo de se multiplicar invade outra colónia onde se instala e faz a nova morada. Durante o ataque às adversárias esta abelha solta um cheiro semelhante ao da folha do limoeiro, daí o nome apropriado...

26 abril, 2011

Colmeia de Observação

Fotos da Colmeia de Observação construida pelo amigo José Baptista, de Freixofeira - Turcifal, região de Torres Vedras.

Segundo José Baptista, trata-se de um núcleo de seis quadros do tipo Langstrooth, que funciona de forma completamente independente.
Está instalada dentro de casa e comunica com o exterior através de um tubo que atravessa a parede.
O corpo que se vê na imagem trata-se do ninho Langstroth onde, três dias antes, foi instalado um enxame já predestinado a esta função.

Estas imagens foram feitas alguns minutos depois da transferência dos seis quadros para a nova colmeia (de observação) e de se ter colocado o vidro e uma placa de protecção.
As abelhas que vemos na caixa são as que ainda não tinham entrado para a nova colmeia.
Depois de todas recolhidas “a porta” foi fechada e a colmeia foi deslocada para o interior da arrecadação “Casa do Mel”.
Fez-se a ligação ao exterior, abriu-se “a porta” e, na manhã seguinte as nossas amigas voltaram às suas flores e destas à sua nova casa.

São de louvar as iniciatvas deste género, por quem gosta das abelhas, muito para lá da sua importância económica:
"Confesso que a construí a pensar nas abelhas, em mim e nos meus netos.
Irei utilizá-la em exposições sempre que for possível e de manifesto interesse
".

Construção da Colmeia de Observação baseada na consulta de: http://www.bonterrabees.com/

19 abril, 2011

Beekeeping, over the rainbow...

Fotografia obtida no apiário do amigo Rui Nobre, entre Beja e Mértola.
O montedomel deseja uma Páscoa Feliz a todos os visitantes...!!!

http://www.youtube.com/watch?v=V1bFr2SWP1I

15 abril, 2011

VARROOSE, Bodas de Prata…

Se o ácaro varroa servisse para aromatizar aguardentes, decerto já teríamos uma cave assinalável…

Desde a segunda metade da década de 1980 que os apicultores vêm nesta moléstia o principal motivo de preocupação. Senão ainda os custos e trabalhos acrescidos com o seu tratamento, tal como os eventuais resíduos no mel… A sua chegada representou o fim de muitas colónias de abelhas, apicultores que abandonaram a actividade e até de associações que desapareceram.

Sem grande erro, podemos dividir esses 25 anos em quatro períodos distintos:

1º - Estupefacção e medo

Desde meados de 1980 até aos primeiros anos de 1990.
Ninguém esperava nem estava preparado para o embate de tão terrível praga. Os conhecimentos eram poucos e os medicamentos disponíveis menos ainda, e pouco eficazes.
Produtos pioneiros como o Perizin e o Apitol deram a primeira ajuda. No entanto, só algum tempo depois o Apistan conseguiu travar o ímpeto do então Varroa jacobsoni. Foi um período muito confuso, os técnicos do MADRP e laboratórios desdobravam-se no terreno na assistência às associações, apicultores e explorações apícolas.

2º - Ponderação, respeito, e esperança

Década de 1990 até ao princípio do novo milénio. Além do Apistan surgiu outro produto homologado, o Apivar, este à base de amitraz. A eficácia destes dois medicamentos, tal como a dos dois alternativos (clandestinos: Klartan e Acadrex) pareceram ter resolvido o problema da Varroose.

A aplicação de dois tratamentos anuais por colónia reduzia de tal forma as populações de ácaros que esta parasitose quase foi esquecida… De qualquer forma e face aos conhecimentos do que se passara na década anterior, as associações e apicultores eram muito criteriosos nas datas, nas substâncias activas e nos modos de aplicação dos acaricidas.

É também neste período que surge o Programa Apícola Nacional (inicialmente Programa de Acções de Melhoria da Produção e Comercialização do Mel). Onde a distribuição gratuita de medicamentos e a possibilidade de as associações poderem contratar técnicos, muito animou o sector.

3º - Controlo aparente e excesso de confiança

Inícios do novo milénio até 2005/2006.
Surgem novas formulações no mercado como o Bayvarol, à base de flumetrina. Os medicamentos ditos homeopáticos, que já existiam, ganham neste período forte popularidade, como os que utilizam Timol, Ácido Oxálico e Ácido Fórmico, entre outros.
Dois deles, que utilizam o Timol são homologados: o Apiguard que surgiu primeiro e o Thymovar que surgiu mais recentemente.

É também neste período que muitos outros medicamentos clandestinos fazem a sua aparição. A oferta, preço e disponibilidade de formulações no mercado (entre homologados e clandestinos) é de tal ordem que a escolha de uma delas pelos apicultores é quase uma roleta russa.

Assistiu-se a uma fase em que na mesma região e na mesma data de tratamento os apicultores tratavam com formulações diferentes, seleccionadas por vezes de forma aleatória. Instala-se de novo a confusão, fala-se muito em resistências por parte do ácaro agora chamado Varroa destructor.

Abelha jovem com as asas atrofiadas, sintoma indirecto da varroose.

4º - Novo descontrole e … esperança reduzida

De 2005/2006 até à actualidade.
Acentuaram-se os receios do período anterior. Cada vez os acaricidas parecem menos eficazes e a necessidade de tratamentos suplementares uma realidade. Há apicultores a tratarem 4 e 5 vezes num ano e por vezes sem sucesso. As baixas sucedem-se.

É também neste período que se começa a falar em SDC (Sindroma do Despovoamento de Colmeias) onde o descontrolo da Varroose não é isento de culpa.
Os serviços oficiais do MADRP reagem com a apatia que já vem sendo habitual na última década, contrastando muito com o empenho demonstrado nos primeiros anos da entrada do ácaro.
Continuam a faltar os almejados estudos regionais (locais?) de eficácia dos medicamentos. Entretanto, os sucessivos Programas Apícolas já gastaram milhares de euros nessa rubrica.

Se os primeiros dois períodos pertenceram aos químicos de síntese e o terceiro aos produtos homeopáticos, este último parece ser o despontar de uma nova estratégia sanitária: os suplementos nutritivos com propriedades medicamentosas como o Vitafeed Gold  com acção sobre o Nosema apis.

Não são clandestinos nem tão pouco homologados, nem precisam, não sendo medicamentos estão isentos desse processo, certo é que parecem ter boa aceitação junto dos apicultores.

Face ao exposto, cumpre-nos perguntar: de quem é a culpa?

Eficácia duvidosa dos medicamentos?

Aplicação incorrecta dos acaricidas associada a erros de maneio?

Diversidade climática (altitude, temperaturas…) ao longo do país?

Efeito sinérgico negativo de outros factores?

Colmeias a mais para a capacidade de suporte do meio?

Evolução dos ácaros para formas mais agressivas e resistentes?

Populações actuais do ácaro Varroa destructor com muitas estirpes (genéticas) a conviver?

Respostas tão diversas aos diferentes acaricidas parecem indiciar grande heterogeneidade ao nível do genoma…

Como se processa a aquisição de “RESISTÊNCIAS” por parte do ácaro ???

Antes de mais, e este conceito será muito importante mais à frente, NENHUM ácaro (individualmente) adquire resistência aos acaricidas. Esta característica poderá sim ser adquirida pela POPULAÇÃO de ácaros.

Vamos supor que as “varroas” da imagem seguinte representam a totalidade desses ácaros numa região, num país ou num continente. Visualmente parecem-nos todas iguais: forma elíptica, avermelhadas e muito pequenas.

Se aplicarmos um determinado medicamento (X) com acção acaricida a todas essas varroas, o resultado será óbvio: a grande maioria ou a quase totalidade irá sucumbir.

No gráfico anterior observa-se a quebra abrupta no número de varroas a seguir a um tratamento bem sucedido. No entanto, uma percentagem muito reduzida acaba por resistir, sobreviver, reiniciando a reprodução e repondo os efectivos perdidos.

Este exemplo tem sido repetido vezes incontáveis desde que há vida na terra. Caso contrário dava-se a extinção… que também acontece.

Porque razão alguns indivíduos sobreviveram à alteração por nós provocada (aplicação de medicamentos) tornando-lhes o meio tão adverso?

1- Variando consoante o medicamento, a forma de aplicação e razões aleatórias, a dose letal poderá não ter atingido os ácaros sobreviventes.

2- Diferenças nos ácaros, que escapam a uma simples análise visual, devem conferir-lhes alguma vantagem selectiva sobre os restantes e… lhes permite sobreviver.

Os fenómenos aleatórios, tipos de medicamento e formas de aplicação, face ao número de vezes com que milhões de apicultores tratam anualmente milhares de milhões de colónias de abelhas em todo o mundo, há mais de duas décadas, não chegam para justificar a sobrevivência crescente que se regista no ácaro Varroa destructor. Pelo que a primeira hipótese parece estar definitivamente afastada.

Nesta fase já percebemos que a RESISTÊNCIA aos acaricidas não se cria. Ela já existe, a multiplicidade de genótipos, alberga determinados indivíduos com características especiais.
Em condições normais nada os parece distinguir dos demais, até ocorrem em baixas frequências. Logo que alteramos o meio, com a colocação de acaricidas, estamos a dar vantagem selectiva aos indivíduos portadores dessa resistência.
Os competidores morrem, a grande maioria, e a minoria sobrevivente pode assim reproduzir-se livremente, deixar muita descendência e ver o seu número (frequência) muito aumentado.

Por este motivo, quando a resistência se verifica, a cada aplicação de medicamentos, cada vez menos são os ácaros que morrem, mais depressa a sua população atinge os níveis alarmantes e mais frequentes terão de ser as aplicações de medicamentos.

No gráfico anterior, comparação da resposta das varroas ao tratamento: A- Tratamento bem sucedido, B- Resistência crescente dos ácaros.

Quando tal sucede, ou melhor, muito antes de tal suceder importa substituir a substância activa utilizada nos tratamentos anteriores por outra diferente (Y).

Espera-se assim que os ácaros resistentes à primeira formulação sejam sensíveis à nova, e o tratamento seja bem sucedido.
Não esquecer que a cada tratamento importa sempre monitorizar a respectiva taxa de sucesso, pelos métodos habituais. Caso tal não se verifique, há obviamente que mudar de estratégia…

Como era de esperar, mais uma vez o riquíssimo pool genético das populações de seres vivos já possui indivíduos resistentes ao novo medicamento e recapitulam-se de novo os acontecimentos…

Atenção: Nem sempre o pool genético de determinada população de seres vivos possui todas as soluções para os problemas que surjam, nomeadamente as alterações ambientais (naturais ou impostas por nós: aplicação de químicos).
Fala-se em extinção nesses casos, mas no nosso, com o Varroa destructor, fazem mais sentido as leis de Murphy e decerto que o varroa terá sempre uma solução…

Medidas que ajudam, mas só por si não resolvem:

a) Estudos Regionais/Locais da eficácia de cada medicamento.

b) Aplicação da mesma substância activa em cada Região/Local.

c) Sincronização das datas de tratamento (Por região, local, associação…)

d) Monitorização do grau de infecção das colónias, no pós-tratamento:

e) Alternância periódica (anual, bianual…) das substâncias activas.

f) Complementar todas estas medidas com profiláticos.

g) Dobrar os cuidados com a higienização periódica das colmeias (a mortalidade de colónias muitas vezes é ampliada por outros agentes associados à varroa), substituição periódica de ceras…

h) Selecção de colónias de abelhas (antes dos desdobramentos ou criação de rainhas) com base no comportamento higiénico em geral:

Situação curiosa e muito recente a do comportamento SMR (Suppress Mite Reproduction), Supressão da Reprodução dos Ácaros, baseada na existência de estirpes de abelhas que detectam os varroas na criação operculada, desoperculam as ninfas e retiram o ácaro ou limpam todo o alvéolo:

i) Utilização de Estrados Sanitários.
Estratégia muito curiosa, que aproveitando-se da queda natural dos ácaros, evita que estes voltem a infectar outra abelha.

Em situações normais, e pelas razões mais variadas, o ácaro Varroa destructor sendo um parasita que se move sobre o hospedeiro, pode cair. Quando isso acontece, muito rapidamente a varroa “apanha boleia” noutra abelha e reinicia o ataque.

Com os estrados sanitários, em rede e com ou sem estrado metálico, o ácaro fica sem acesso às abelhas acabando por morrer. Este processo que não controla na totalidade a população de varroas, mas faz com que aquela demore muito mais a atingir níveis alarmantes ou letais para as abelhas, na medida em que cada ácaro ao cair fica automaticamente anulado.

Como se pode observar no último gráfico, na presença de estrados sanitários e a seguir a um tratamento eficaz, a população de varroas demora muito mais tempo a estabelecer-se e a atingir níveis letais, podendo inclusivamente alargar-se o período entre tratamentos.
A - Tratamento bem sucedido, sem estrados sanitários. C - Tratamento bem sucedido na presença de estrados sanitários.

CURIOSIDADE: À luz do que já foi dito, dentro de alguns anos (?) as populações de ácaros poderão tornar-se resistentes aos estrados sanitários.
Parece estranho dito assim, mas algumas características terão uns ácaros e não outros que os torna mais susceptíveis de cair das abelhas. Esses ácaros vão ter uma taxa de reprodução/sobrevivência menor que os outros, que se “seguram” melhor. Se essa característica for transmitida hereditariamente, dentro de um tempo indefinido todos os ácaros poderão deixar de cair para os estrados.

j) Utilização de cera moldada com alvéolos de tamanho reduzido. Estratégia de utilização recente, que parece cada vez mais angariar novos adeptos. Baseia-se no facto de a redução dos alvéolos dos actuais 5,7mm para 4,9mm (como supostamente acontecia com os favos naturais das abelhas) fazer subir a temperatura interna do ninho, alterando as temperaturas óptimas de actuação do varroa (que requer temperaturas mais baixas) e assim diminuir-lhe o potencial de reprodução e ataque:

Para terminar, não queria deixar de partilhar uma citação muito curiosa (de Oscar Perone) e que de alguma forma ilustra bem o carácter peculiar desta moléstia e… que acaba por redistribuir as culpas que decerto não morrem solteiras…

“A Varroa é a primeira vítima deste “filme de terror” (…) pois que para nenhum parasita é “negócio” matar o seu hospedeiro, pela simples razão que a morte do parasitado é também a morte do parasita…”

Curva de crescimento de uma colónia de abelhas ao longo do ano.

Curva de crescimento de uma colónia de abelhas parasitada por varroas.
De notar que o colapso das abelhas "arrasta" também os ácaros parasitas.

Parece pouco natural este parasitismo "insustentavel", onde o parasita acaba por sucumbir à sua própria voracidade...

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